10 anos subindo montanhas

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Neste feriado do dia 7 de setembro comemorei 10 anos de atividades em montanhas.


Foi no feriado de 7 de setembro de 1998 a minha primeira vez na montanha com o intuito montanhístico. Foi com a turminha do colégio e uma ex. namorada. No meio da galera, umas dez pessoas talvéz, estava Maximo Kausch, um dos montanhistas latino-americanos mais experientes da atualidade (está neste momento no Tibet!) e Débora Hashigushi, uma escaladora que já ganhou campeonatos e agora mora no Rio. Nós três fomos os únicos que fomos pra frente, talvéz uma leva bem produtiva de subidores de montanha.

Acontece que na cidade onde eu nasci não há montanhas. Apenas morros, aliás Itatiba é a cidade dos morros. Não há mais natureza preservada. Restam alguns fragmentos de mata secundária, rios assoreados e quando não, tingidos com as cores dos tecidos que são fabricados ali. É uma cidade industrial.

Desde criança fui atraido pela natureza. Nas viagens que fazia com meus pais para o litoral de São Paulo, a Serra do Mar era meu lugar favorito e temido, pois tinha o estômago fraco e logo enjoava…

Sempre quis acampar, mas nunca tinha tido a oportunidade. Meu pai guardava alguns equipamentos de camping em casa. Fogareiro de duas bocas com botijão de dois quilos, uma barraca canadense pesadíssima… Acho que ele nunca entendeu este meu desejo, pois nunca vi aquela barraca montada, nem mesmo no quintal de casa.

Aos trezes anos, um amigo me mostrou o que era rapel. Ele montava uma acoragem na sacada da casa e descia uma altura de uns 5 metros. Foi a primeira vez que eu tive acesso à uma técnica de escalada e aos equipamentos.

Este amigo, o Edson, mais conhecido na cidade como Edsinho, havia feito o curso de escalada com o Eliseu Frechou em São Bento do Sapucaí e estava montando um grupo de escaladas e caminhadas com outra pessoa que também havia feito o curso, o Airton Rosas.

Fui uma vez com o Edsinho para a Serra dos Cocais, um morro de topo aplainado onde afloram muitos blocos de granito em minha cidade. Acordamos cedo e fomos caminhando. Aos treze anos de idade, aquilo foi pra mim uma aventura, tanto por causa da distância percorrida, quanto por que foi a primeira vez que fiz uma refeição no mato, e por que foi a primeira vez que fiz um rapel no meio natural. Também escalei em top rope, ainda que tenha sido um boulder. Isso foi no ano de 1994.

Um pouco depois desta experiência, estava decidido em me dedicar ao montanhismo. O Edsinho junto com o Airton, estavam organizando uma excursão à Monte Verde em Minas, para fazer uma travessia. Cheguei a pagar pela excursão, mas houve um casamento na minha familia, de uma pessoa que nem me lembro mais quem era, e por isso não pude ir. Foram 4 anos sem ter outra oportunidade, até aquela junto com o Maximo e a Débora, exatamente em Monte Verde.

Deixando de ir à Monte Verde em 94, deixei de conhecer o Maximo antes. Pois ele foi uma das pessoas que fez parte deste grupo de montanhistas do Edsinho e do Airton. Ele fez um curso de escalada com a dupla e nos fins de semana iam escalar em lugares como a Pedra Grande de Atibaia, Pedreira do Dib em Mairiporã e Visual das Águas em Bragança Paulista. Foram também algumas vezes para Agulhas Negras em Itatiaia, que no começo de minhas andanças era considerada por mim e pelo Maximo como “a” montanha.

Se hoje eu tenho 26 anos, então fazendo as contas dá pra ver que meus primeiros contatos foram muito precoces e por isso considero esta experiência de 10 anos atrás como a minha primeira. Durante este tempo me dediquei bastante ao montanhismo. Realizei 9 expedições aos Andes, todas elas por conta própria e contando com recursos muito limitados. Nestas viagens escalei mais de vinte montanhas em quatro países.

Posso dizer que escalada em alta montanha é meu estilo favorito e o que sei fazer melhor. Tenho facilidade enorme de aclimatação e grande resistência ao frio e ao cansaço, sem falar que aprendi a lidar com meus pensamentos negativos e a pressão psicológica da distância e isolamento.

Primeiro tive acesso ao montanhismo e depois à escalada. Vejo que um é a evolução do outro, pois foi assim na minha história. Primeiro subia a montanha caminhando pelo lado mais fácil e depois comecei a ver que pelo lado mais dificil poderia ser mais “interessante”. É desta maneira que enxergo a escalada e talvéz por isso que o estilo tradicional me atrai mais que o esportivo, não que o segundo não seja interessante. Para mim escalar o “grau” somente, não me atrai. Me atrai a via e a montanha.

Se nada der errado, terei muito tempo para me aprofundar ainda mais no montanhismo. Já realizei muitos sonhos, outros estou a caminho de realizar, como escalar em toda a cordilheira dos Andes e também escalar vias tradicionais no Brasil, mas não tenho como esconder que meu maior sonho é escalar no Himalaia e isso por enquanto está muito distante, não por conta de limitações técnicas, mas sim de limitações financeiras.

Entretanto, dentre as coisas que aprendi nestes 10 anos de montanha, é que não adianta sonhar sem correr atrás. Durante todo este tempo me sacrifiquei para fazer o que eu queria e quase tudo deu certo. Sei que no Brasil conseguir um patrocinio é dificíl e sem ele nunca conseguirei realizar este meu sonho maior. Em 2010, irei comemorar 10 anos de experiência em alta montanha. Quem sabe nesta data eu já não esteja realizando este meu sonho?!

Pessoas na foto, da esquerda para a direita: Jader, Bogus, Débora Hashigushi, Bruno Cardoso, Tenile Costa, Marcela Matteuzzo, eu, Marcelo Sólito, Maximo Kausch, Fernanda Hashigushi, Rafael “Shun”. A maioria desta pessoas foram grandes amigos, mas perdi o contato. Outra coisa que acontece com o passar do tempo é isso… Apesar de ter aprendido tantas coisas ao longo do tempo, não aprendi a ser não ser displicente e a deixar amigos de lado na busca de sonhos mais pessoais…

Pedro Hauck, colunista do Altamontanha.com é também dono e editor do site Gentedemontanha e tem apoio de Botas Nômade.

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Sobre o autor

Pedro Hauck - Equipe AM

Pedro Hauck é montanhista e escalador desde 1998. Natural de Itatiba -SP, reside atualmente em Curitiba-PR. Pedro gosta de escaladas clássicas e também de montanhismo de altitude, já tendo escalado algumas das mais altas dos Andes. É geógrafo, mestre em Geografia Física e atualmente faz doutorado em Geologia ambiental. Visite o Blog de Pedro em www.pedrohauck.net. Siga ele no Instagram @pehauck

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