10 Estratégias para escalar vias longas

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Neste texto trago algumas sugestões pra escalar vias grandes (na minha concepção, vias de 300 metros ou mais), já publiquei esse texto em listas de discussão outras vezes em outros anos, mas tem muita gente nova que ainda não leu, e pra quem já leu vale a pena relembrar. Em relação aos outros fiz umas pequenas modificações.

O texto original saiu na Climbing Magazine a muitos anos atrás, traduzi e adaptei o texto de acordo com a nossa realidade e tipo de escalada.

Escalar Grandes Paredes como a via Leste do Pico Maior: D3 4° V A0 E3 700m, Maria Nebulosa: D4 3° lV+ E4 1040m, na Maria Comprida ou A Soma de Todos os Medos: D4 5° Vll A0 E3 810m, no Cantagalo, vias com proteções distantes, que normalmente usam proteções móveis, requer experiência, preparo físico, bom psicológico e um planejamento bem feito.

Muitas cordadas deixam de fazer essas e outras vias, justamente pôr não terem feito um bom planejamento. Escalar rápido numa Grande Parede é fundamental para o sucesso da escalada, e para isso o escalador deve procurar diminuir ao máximo o peso e o volume que vai carregar, sem deixar de levar os itens essenciais. Mas atenção não confundir escalar rápido, com escalar com displicência e sem segurança.

Para melhor entendimento a numeração dos itens abaixo esta relacionado com os desenhos no fim do texto.

1. Lanterna – fundamental nas Grandes Paredes, não devemos esquecê-la nas vias curtas de 3, 4 enfiadas, principalmente se resolvermos escalar à tarde. As lanternas de LED são pequenas e leves, a duração da bateria pode chegar a mais de 120 horas, o foco não possui muito alcance (em alguns modelos pode chegar a 15 metros), o que é inconveniente na hora de achar um grampo a noite, mas tem um ótimo espalhamento, o que facilita na hora de achar agarras (mas atenção são muito ruins de usar com neblina). Alguns modelos possuem Led e Alogeno que funciona melhor na neblina.
Obs: Não esqueça as pilhas, de preferencia devem ser novas.

2. Mosquetões – evite os mosquetões ligeiros** esse tipo é muito usado em escalada esportiva, normalmente são mais leves, mas de resistência menor (20kn fechado e 6 ou 7kn na transversal ou com gatilho aberto), em escalada de Grandes Paredes onde se esta sujeito a quedas maiores, é melhor contar com mosquetões que sejam mais resistentes, além disso, leve uns mosquetões avulsos (4 ou 5), hoje existem os mosquetões de gatilho de arame que são mais leves e resistentes que os de gatilho tubular.

3. Calçado de aproximação – se o terreno permitir é melhor usar tênis ou sandália, leves e compactos, existem modelos apropriados para trilhas, as botas, além do peso (um par pode pesar mais de 1kg) fazem muito volume, tanto se for pendurada no bauldrier, como se for dentro da mochila.

4. Anorak e agasalho – O clima muitas vezes engana, e nem sempre é possível consultar a previsão do tempo, que também não é 100% confiável, pôr isso não abra mão de levar anorak, prefira os modelos leves, que fazem menos volume, sem bolsos e forro interno, não deixe de levar uma blusa (tipo polar 100), ou um Underwear termoativo. Conquistando no Cantagalo eu Waldir passamos o muito frio, e estávamos bem agasalhados, a sensação térmica nesse dia devia ser de uns -10 C°, nem na Patagônia senti tanto frio.

5. Camelbag / Mochila de ataque – Existe uma grande variedade de cantis-mochila (popularmente chamados de camel bag ou dromedary bag), mas pode-se optar só pela bolsa d` água, levada dentro de uma pequena mochila de ataque tipo a Leste ou Active 5, com uma mochila entre 5 e 10 litros, pode-se carregar o anorak, comida, agasalho, manta térmica e lanterna.

Obs: isso vale para o guia e para o participante, é comum vermos o guia escalar sem levar nada e o participante sobrecarregado, levando todo o material do guia, na hora de revezar o cara tá cansado pôr que estava carregando uma mochila pesada a idéia aqui é cada um carregar o que for seu.

6. Comida e água – como o objetivo é ganhar tempo e escalar leve, opte pôr algo que de energia, seja de rápida absorção e faça pouco volume, carbogel, Powergel, são boas opções, acho que um para cada 4 enfiadas vai fornecer energia suficiente para se fazer uma grande via. Chocolate, banana passa, granola misturada com castanhas e mel, também são ótimas fontes de energia e Não ocupam muito espaço na mochila.

Água, fica difícil dizer o quanto cada um deve levar, pois cada pessoa tem sua necessidade, mas o mínimo seria de 2 litros por pessoa, mais que 3 já vai começar a pesar muito, uma garrafa de 500ml de bebida isotônica, pro meio do caminho vai bem.

7. Costuras e Fitas – opte pôr costuras longas, 30 e 60cm e pelo menos umas 2 de 120cm, isso vai diminuir o atrito nas enfiadas, deixando a corda mais leve, uma corda com muito zig-zag pode aumentar em muito a dificuldade de uma enfiada.


Se não tiver as fitas de costuras longas, monte com suas fitas fechadas com nó.
Cordeletes de 7mm x 3m são ideais para montar as paradas, ou usar em arvores, bicos de pedra, ou para abandonar em caso de rappel em chapas ou nas proteções naturais.

8. Fitas dobradas – dobre as costuras muito longas (como nos desenhos a,b,c,d), fica mais fácil de carregar e de costurar.

9. Bolsa porta material ou Mochila de ataque – O autor do texto original prefere em vez da mochila de ataque, levar um saco de magnésio (grande), com o anorak (tem que ser bem compacto), lanterna e o “power gel”, particularmente prefiro mochila de ataque de até uns 10 litros (Leste da Equinox ou Active 5 da Lafuma são alguns exemplos), que vai caber umas coisas a mais, como agasalho, pilhas extras, manta de sobrevivência e algo mais de comida, além do celular. BOM LEMBRAR, muita gente tem saído das roubadas graças ao celular

10. Croqui – pode-se levar um croqui, reduzido e plastificado, preso ao bauldrier (como no desenho) ou em um cordão em volta do pescoço pôr dentro da camisa, fica mais fácil consultar e não tem que ficar tirando do bolso ou mochila toda hora.

*Graduação de Duração
D1 – uma a três horas
D2 – três a quatro horas
D3 – quatro a seis horas
D4 – mais de seis horas
D5 – um dia inteiro ou mais, bivaque na parede praticamente inevitável.
D6 – mais de dois dias

** Existem dois tipos de mosquetões para costura, os Normais “N” e os Ligeiros “L” (algumas marcas tem a letra “N” ou “L”, impressos no mosquetão, para indicar o tipo). Os normais são mais resistentes e robustos, são ideais para big wall, vias maiores ou tipo clássicas, onde as proteções são mais distantes. Os ligeiros normalmente são usados em vias esportivas, pôr serem mais leves, em compensação sua resistência é menor.

Obs: Apesar de mencionar marcas e modelos de equipamentos, o melhor é cada um pesquisar e ver o que se adapta melhor ao seu gosto e orçamento.


As dicas desse texto também são úteis na hora de escalar no Dedo de Deus, Agulha do Diabo ou Mãe d`água, Iemanja, Passagem dos Olhos,  vias que apesar de serem mais curtas, tem caminhada de aproximação mais longa.
        

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Sobre o autor

Cris e Alex Ribeiro - Colunistas

Alex e Cris se conheceram na escalada já faz 4 anos, desde então realizaram varias escaladas e conquistas juntos pelo pais. Alex escala e faz montanhismo a 23 anos, já praticou todos os estilos, Boulder, esportiva, artificial, big wall, clássica, mas seu tipo de escalada preferido são as clássicas, de preferência as paredes longas. Já conquistou algumas coisas por ai e por ali. Cris começou a escalar a cerca de 4 anos, e foi numa festa do grupo de escalada que conheceu Alex, Cris gosta de vias clássicas e de conquistar. Junto com seu marido Alex tem conquistado varias vias pelo Brasil. Website: http://aberturadevias.blogspot.com.br/

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