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Heróis esquecidos no ocidente


Categoria: História

Poucos são os que sequer ouviram falar sobre certos nomes que fizeram muito mais do que os famosos. Boa parte deles são simplesmente desconhecidos aqui no ocidente, alguns porque já estão mortos, alguns porque simplesmente são bons demais no que fazem e outros porque tiveram seus triunfos encobertos por outros que a mídia considerou mais importantes. Muitos deles estão no mesmo nível ou talvez mais acima do famoso tirolês, Reinhold Messner.

Quem no Brasil já tinha ouvido falar de Anatoli Boukreev antes de ler o livro “No Ar Rarefeito“ de Jon Krakauer? Infelizmente, por motivos de manipulação (ou mesmo admiração?), a informação não chega ao ocidente e só ouvimos falar das conquistas norte americanas e oeste-européias. Vão aqui alguns nomes que deveriam receber muito mais crédito que os famosos:

Jerzy Kukuczka

Estilo elegante e respeito pelas regras do jogo. Jerzy “Jurek“ Kukuczka entrou na história do montanhismo como o segundo a conquistar todos cumes de 8000 metros, depois de Reinhold Messner e por isso, acaba sendo classificado como o segundo melhor, mas isso está bem fora da realidade. Apesar de Messner ter completado a façanha vivo, muitos consideram Kukuczka como o melhor montanhista de todos os tempos.

14 montanhas de 8000 em 8 anos

Jurek não somente escalou todos os 8 mil, ele o fez em 8 anos! Levou 16 anos para Messner completar a lista. De fato, somente o coreano Young-Seok Park repetiu o desafio mais rápido que Kukuczka. Escalando por rotas normais, e usando oxigênio na maioria deles, Young quebrou este recorde por alguns meses. Outro fato muito chamativo, é que Kukuczka escalou a maioria dos 14 por novas rotas e/ou no inverno. Para ser mais preciso, ao terminar a lista de 8 mil metros, Kukuczka acabou abrindo 9 novas rotas, uma delas em solitário, quatro delas em estilo alpino e cinco no inverno. Cada nova escalada, Jurek queria adicionar algum desafio a mais. Ele queria testar seus limites assim como provar a ele mesmo que esta ou aquela rota poderia ser escalada mais rápido ou no inverno talvez. O exemplo de Jerzy serve para muitos que hoje em dia proclamam os 8 mil metros como já “feitos“. Cho Oyu, Everest, Shishapangma, todos eles oferecem desafios extraordinários, desde que sejam tentados no “estilo Kukuczka“. Exatamente por causa de seu estilo, Kukuczka é sempre lembrado como referência quando falamos de ética e respeito às regras do montanhismo.

Um mineiro vê luzes

As expedições de Kukuczka nunca tiveram um desafio maior: o político/econômico. Nascido em Katowice, Polônia, em 1948, Kukuczka não foi destinado às grandes altitudes e futuro brilhante, Jerzy Kukuczka era um mineiro. Pode se dizer que suas primeiras aventuras foram relativas à trabalho. Seus primeiros contatos com cordas e mosquetões não foram por prazer, mas na verdade, foram cavando. Isso mesmo, o sonho de Jerzy começou debaixo da terra! Obviamente, na Polônia socialista, gastar grandes quantidades de dinheiro em algo tão improdutivo como montanhismo, era simplesmente absurdo! As tentativas de conseguir patrocínio provaram ser algo muito difícil, talvez, mais difícil do que as escaladas em si. Para um mineiro, não foi fácil conseguir as visas para deixar a cortina de ferro.

Jurek foi escalar com o que tinha. Durante toda sua vida, ele usou equipamento velho e inadequado. Poucas vezes, ele esteve em contato com equipamentos de ponta. Antes de suas expedições, Kukuczka salgava carne e outros frios na sua casa mesmo, assim tinha o que comer nas altitudes. Em várias oportunidades, acabou se virando com salsichas e carne seca enquanto escalava no Himalaya. Partes de seus equipamentos eram reformados e reacondicionados por ele mesmo. Chegava a vender vodka e outros souvenirs poloneses para conseguir pagar seus gastos. Em várias ocasiões, Jerzy e seus compatriotas acabaram indo de caminhão até o Himalaya, o que barateava muito as expedições. Suas escaladas começaram nos montes Tatras quando já tinha 25 anos de idade. Naquelas circunstâncias, Jurek realmente precisava de muita motivação para levar o seu sonho ao Himalaya. Kukuczka acabou ficando famoso pela sua habilidade de sofrer e pela falta de responsabilidade ante o perigo. Quase nunca treinava ou se preparava antes das expedições.

Durante uma sua escalada ao K2, Messner se referiu a Kukuczka como “aquele homem forte“ se referindo à tragédia por qual Kukuczka passou. Qualquer outro escalador, se referia a ele como sendo a pessoa de mais duro caráter na terra. Seu companheiro de escalada Voytek Kurtyka, comentou uma vez: “Jurek foi o mais cabeça dura que eu conheci, incomparável na sua habilidade de sofrer e com a sua falta de responsabilidade ante o perigo.”

Jerzy demorava em se aclimatar, mas isso jamais o parou. Ele compensava isso com uma incrível capacidade de adaptação e superação de desafios. Não havia obstáculo grande o suficiente para seu ego. Maior a dificuldade, maior era o desejo de desafiá-lo. Essa força, acabou literalmente carregando Kukuczka montanha acima. Na década de 70, Kukuczka realizou extraordinárias escaladas nos Tatras, Dolomitas (escalada invernal à face sul do Marmolada) e Maciço do Mont Blanc (da abertura novas rotas no Dru até escaladas invernais dos Grandes Jorasses). Também se saiu muito bem no Denali e Hindu Kush (Kohe Tez e primeira ascensão da crista norte do Tirich Mir East). Sua carreira de montanhista já era de dar inveja no começo, mas o melhor ainda estava por começar. O Lhotse foi o primeiro 8 mil de Jerzy Kukuczka, e o começo de uma carreira mais brilhante ainda. No momento que chegou ao cume e olhou para baixo desde o topo da jamais escalada face sul, o Lhotse se transformou muito especial para Jurek, um lugar para onde iria retornar.

O pilar sul do Everest

No dia 4 de outubro de 1979, juntamente com Andrezj Czok, Andrezj Heinrich e Janusz Skorek, Kukuczka escalou o Lhotse pela rota normal, na estação convencional de pós monção. Foi uma grande conquista considerando-se que foi seu primeiro 8 mil, mas a próxima escalada de Kukuczka tinha que ter algo a mais. Para começar, tinha que ser algo mais alto, de fato, o mais alto de todos. E a rota, bem a rota não existia até que Jurek e Czok a inventaram. No dia 19 de maio de 1980, o Everest ganhou uma nova linha em seu pilar sul. Esta foi a única escalada na qual Kukuczka usou oxigênio suplementar. Logo no ano seguinte, Jerzy realizou uma conquista dupla no Makalu. Escalou uma variação entre o Makalu La e o cume principal do Makalu II como também a crista noroeste, sozinho. Próximo, veio o Broad Peak. Em 1982, Kukuczka e seu companheiro Kurtyka escalaram a rota normal, mas insatisfeitos, voltaram 2 anos depois. Acabaram abrindo uma nova rota, incluindo a travessia dos três cumes do Broad Peak. 12 meses antes, em 1983, os mesmos dois companheiros escalaram novas rotas em ambos Gashebrum I e II em estilo alpino.

1985 começou espetacular para Jurek: Ele escalou Dhaulagiri (com Czok novamente), no dia 21 de janeiro. Antes do inverno acabar, ele e Czok se juntaram a outros 3 escaladores - Berbeka, Pawlikowski e Heinrich - para escalar o temível pilar sudeste do Cho Oyu, como primeira ascensão! Chegaram ao cume no dia 15 de fevereiro, tornando aquela, a primeira ascensão a um 8 mil no inverno. No verão do mesmo ano, Jurek formou uma equipe com Heinrich, Lobodzinski e um jovem escalador mexicano chamado Carlos Carsolio (o futuro escalador mais jovem a completar os 14 cumes) para escalar outra rota por primeira vez: o pilar sudeste do Nanga Parbat. Não sei se você que está lendo está prestando atenção! Foram 2 escaladas invernais e 2 novas rotas no mesmo ano! Para seu próximo 8 mil, Jurek esperou pacientemente o inverno se aproximar. Somente então, escalou o Kangchenjunga, chegando ao topo pela rota normal em janeiro de 1986. Seu companheiro não era ninguém mais que Wielicki, outro “monstro das neves“.

K2 “a la Kukuzcka“

Para manter o mesmo nível, a próxima montanha não poderia ser nenhuma outra que o K2. O que Kukuczka e Piotrowski fizeram lá não foi apenas uma escalada, mas sim uma lição de montanhismo extremo. A rota aberta por eles na face sul, ainda aguarda por uma repetição. Raramente tentada, a rota Kukuczka combina extrema dificuldade com passagens suicidas. Chegaram ao cume no dia 7 de julho, mas com terrível preço.

Pouco antes do pôr do sol do dia 8 de julho, depois de escaladas no limite do impossível e quatro bivacs (os dois últimos sem barracas, água ou comida), Kukuczka e Piotrowski chegaram ao cume meio uma tempestade. Imediatamente, começaram a descida pela arista Abruzzi. Dois dias depois, ainda na tempestade, os dois continuavam a lutar para chegar vivos ao acampamento-base. Piotrowski, que por causa de seus dedos dormentes não apertou os crampões corretamente naquela manhã, acabou perdendo um crampom e caiu. Pela grande dificuldade de realizar tarefas naquela altitude, eles nem sequer estavam presos a uma corda. Sem poder fazer nada, Kukuczka assistiu como seu companheiro caía até desaparecer nas nuvens.

Tendo Hajzer como parceiro, Jerzy escalou o Manaslu no dia 10 de novembro do mesmo ano. Com isso, 1986 viu outra escalada invernal e duas impressionantes novas rotas, uma em condições invernais. Em menos de 8 anos os 8 mil metros estavam simplesmente acabando para Kukuczka. Mas ainda sobravam 2. Depois do Manaslu, Jurek e seu amigo Hajzer, atingiram o cume do Annapurna no dia 3 de fevereiro de 1987, pela face norte. Já em meados de setembro, Jerzy e Hajzer voltaram ao Himalaya. Desta vez, para escalar o Shisha Pangma. Como sempre, por uma nova rota, escalaram a crista leste.

Após escalar os famosos 14 cumes, Jurek estava livre para voltar à Polônia e viver de seu sucesso. Alguns meses depois, ele e Messner receberiam a medalha olímpica de ouro pelas conquistas de ambos. Obviamente, não era disso que Kukuczka estava atrás. Para ele, ainda havia muitas coisas a serem feitas nas montanhas de 8000 metros. Aquele velho desejo de escalar o Lhotse pela face sul não saía de sua mente. Que ironia! a mesma montanha que se tornara seu primeiro 8 mil, se tornou sua última. Kukuczka jamais retornou. Ninguém sabe dizer como estavam as condições a 8350 metros de altitude naquele dia ou se a corda de 7mm que arrebentou. Jerzy Kukuczka caiu no vazio deixando presente apenas memórias. Também deixou uma viúva e dois filhos.

Socialismo: uma máquina de fazer escaladores

Kukuczka influenciou toda uma geração. Depois e durante a “aparição“ de Kukuczka, dezenas de outros super escaladores vindos do leste europeu se revelaram imbatíveis. Hoje em dia, eslovenos, russos e poloneses continuam no topo da lista do escaladores mais completos que existem. As poucas paredes que ainda continuam virgens estão sendo vencidas por estes fortes eslavos. Exemplo é o Jannu, no maciço do Kangchenjunga, que somente foi vencido em 2004 por um time russo.

Um dos principais protagonistas dessa escalada foi Serguey Borissov, que foi nomeado melhor escalador da USSR em 1990 e 91. A conquista da face norte do Jannu deixou a comunidade de escaladores de boca aberta. Com 3 km de altura, a norte do Jannu é o maior desafio escalável na atualidade. Somente se começou a cogitar a possibilidade da face norte do Jannu ser humanamente possível de ser escalada, em 1992. Serguey subiu e desceu o Jannu vivo, mas morreu num acidente de carro no começo de 2005. Que ironia!

Kukuczka, Wielicki, Groselj, Jelic, Belak, etc. Uma boa explicação para estes verdadeiros “monstros das neves“ serem tão durões, está ligada à sua história. 8 anos de Lenin, Stalin, 2 guerras mundiais, guerra fria, limpeza étnica, conflitos regionais são coisas que produziram pessoas com “prazo de validade“ um pouco maior que o normal. Messner uma vez comentou: “No oeste europeu, a escalada em rocha está crescendo cada vez mais porque tem a ver com baixo risco, ganhar músculos, etc, mas pessoas procurando por conquistas nas grandes altitudes são do leste europeu, e eles alcançam seus limites porquê vão lá para sofrer mais“

Eslovenos, um capítulo a parte

A independência eslovena da Iugoslávia em 1991, trouxe repentinamente, um bando de fortes escaladores. Também repentinas são suas ascensões. Voltando à essência do estilo alpino, eslovenos tiveram a ousadia de realizar ascensões rápidas e leves onde escaladores de elite demoravam semanas. Conquistas eslovenas no Himalaia, incluem novas rotas na face oeste do Everest, sul do Makalu, escalada solo à sul do Lhotse, face oeste do Annapurna, novas rotas no Dhaulagiri, rota mais difícil do Aconcágua, descidas completas de esqui no Everest e Annapurna, etc. Em consequência, as tragédias aumentaram, mas eles parecem não se preocupar muito. Stane Belak, Tomaz Humar, Tone Skarja (quem escalou todos os cumes do Kangchenjunga), Davor Karnicar (quem desceu o Annapurna I de esqui), Pavle Kozjek (primeiro esloveno sem oxigênio no Everest), Stipe Bozik (quem abriu a nova rota no Everest), Slavko Sveticic (quem abriu a “roleta russa“ no Aconcagua em 1988), etc, etc, etc. Todos realizaram façanhas que custam para ser repetidas hoje em dia. Espere um pouco!, Humar, alguém disse Tomaz Humar? Esse não é aquele esloveno que abriu aquela rota suicida na sul do Aconcágua? Sim, isso mesmo! Essa é uma das rotas eslovenas!

Humar, com certeza é um dos mais completos atualidade. Foi ele quem escalou a sul do Dhaulagiri, sozinho. Até hoje ninguém entende direito de onde Humar tirou energia para escalar uma rota daquele tamanho e altitude. Mesmo com foto da escalada, muitos ainda não acreditam que um ser humano conseguiu realmente escalar aquela rota sozinho. Trata-se de uma parede de mais de 3 km de altura, na qual Tomaz a venceu montando 4 bivacs na subida e 1 na descida. Foi ele também o autor da rota mais difícil da parede sul do Aconcágua no começo de 2004. Outra rota similar no Aconcágua foi aberta em 1982, por Podgornik, ou mesmo em 1988, por Sveticic, que também são eslovenos!

Wanda Rutkiwicz

Ela escalava com Carlos Carsolio. Começaram juntos às 3:30 am, 12/5/92 do acampamento 4 do Kangchenjunga - 7950 mt. Depois de 12 horas escalando com neve profunda, Carlos chegou ao cume. Na descida, encontrou Wanda entre 8200-8300 mt. Ela decidiu bivaquear ali e tentar o cume no dia seguinte. Não tinha comida ou equipamento para bivac. Ninguém viu Wanda novamente... Wanda Rutkiwicz foi a escaladora mais ativa de sua época, organizou inúmeras expedições com outras mulheres, dando assim, o maior empurrão que o montanhismo feminino já recebeu.

Wanda foi a terceira mulher à chegar ao cume do Everest e a primeira a escalar o K2 com sucesso. É lembrada como a melhor escaladora de todos os tempos. Escalou 8 dos 14 cumes de 8 mil metros. Wanda nasceu em 1943, em Plungiany, quando ainda era parte da Polônia e hoje em dia pertence à Lituânia. Kangchenjunga seria seu nono cume de 8000 metros. Cumes de Wanda: Everest 10/16/78, terceira mulher, primeira européia no topo, Nanga Parbat 7/15/85, com Krystyna Palmowska e Anna Czerwinska, foram o primeiro time de mulheres a escalar o pico. K2 6/23/86, a primeira mulher a ascender a montanha. Shishapangma , (cume principal) 9/18/87 com Ryszard Warecki. Gasherbrum II 7/12/89 com Rhony Lampard da Inglaterra. Gasherbrum I (Hidden Peak) 7/16/90 com Ewa Panejko-Pankiewicz. Cho Oyu 9/26/91, solo. Annapurna 10/22/91 Face Sul, solo. Wanda Rutkiewicz morreu entre 12/5/92 e 13/5/92 no Kangchenjunga.

Hermann Buhl - Super-homem

Hermann Buhl ficou famoso após sua escalada solitária ao Nanga Parbat, em 1953. Devido à toda especulação sobre a primeira escalada ao Everest por uma equipe britânica no mesmo ano, a conquista de Buhl acabou passando em branco.

O Nanga Parbat foi de interesse nazista desde a primeira expedição financiada por eles em 1934. 31 pessoas morreram no Nanga Parbat anteriormente, incluindo a elite de alpinistas alemães do período de inter guerras. Foi cena para uma das piores tragédias na história do alpinismo, pois se acreditava que o Nanga Parbat (“montanha nua“) era o mais fácil de todas as montanhas de 8000 metros. Esse foi um erro fatal, mesmo o Everest, o mais alto de todos, acabou sendo escalado antes deste gigante colosso coberto de neve e cheio de avalanches.

O iniciador da expedição germano-austríaca de 1953, foi Dr. Karl Herrligkoffer, que era meio-irmão de Willy Merkl, falecido em 1934 no próprio Nanga Parbat. A expedição era, na verdade, em memória a Merkl. O jeito de Herrligkoffer organizar a sua expedição não ganhou a confiança dos escaladores famosos da época. Heckmair e Rebitsch disseram não! Eventualmente, ele conseguiu uma dupla veterana da primeira expedição em 34, eram Aschenbrenner e Frauenberger. De última hora ele conseguiu fechar a expedição com uma famosa dupla de escaladores dos Alpes, Hermann Buhl e Kuno Rainer.

Tudo correu bem e eles estabeleceram o acampamento-base no fim de maio. Campos 1 a 4 foram estabelecidos e cargas com equipamentos e suprimentos foram transportadas a estes. Tempestades carregadas de neve e incertezas com o tempo tornaram impossíveis os ataques a lugares de altitudes maiores. No dia 30 de junho, Herrligkoffer ordenou que todos desçam ao acampamento-base, mesmo que ninguém tivesse superado a altitude alcançada pela expedição de 1932.

No entanto, o tempo mudou repentinamente no dia 1 de julho. Buhl, Kampter, Frauenbergar e o cameraman Ertl ainda estavam nos acampamentos mais altos. Eles recusaram a ordem de retroceder depois de discuti-la via rádio. Assim como este, houveram inúmeros conflitos na expedição, principalmente entre Herrligkoffer e Aschenbrenner, quem teoricamente estaria que estar liderando a escalada. No dia 2 de julho, Buhl e Kempter estabeleceram o acampamento 5 no colo, a 6900 mt. Ertl e Fruenberger voltaram ao acampamento 4. As condições climáticas pareciam estar estáveis. O plano de Buhl, era alcançar a grande “sela“ a 7450 mt, e finalmente chegar ao grande platô no topo desta. Dali, ele poderia escalar o cume mais baixo salvando assim a honra da expedição. As escaldas solitárias de Buhl nos Alpes provaram-se fortes e ali ele tinha a oportunidade de investir tudo isso.

À 1 da manhã do dia 3 de julho, Buhl deixou o acampamento 5 em direção ao cume, Kempter teve dificuldades ao sair do seu saco de dormir e seguiu uma hora depois. As condições de neve estavam boas e a noite foi limpa com a lua iluminando a montanha. Durante o amanhecer, às 5 da manhã, Buhl chegou ao colo entre os dois cumes. O platô de 3 km de longitude diminuiu a resistência de Buhl. No fim do platô, Buhl bebeu um pouco de chá e deixou sua mochila para trás, assim prosseguindo mais rápido. Agora, Kempter já tinha chegado ao platô, mas Buhl estava muito à frente. Kermpter percebeu que jamais iria alcançar Buhl e decidiu descer. Chegou ao acampamento 5 horas mais tarde, são e salvo.

Buhl chegou ao colo abaixo do cume (7800 mt) às 2 da tarde. Ele ainda tinha a parte mais técnica de todas à sua frente, e os últimos 300 metros não pareceram muito convidativos. Depois de tomar uma dose de estimulante (pervitin), ele começou a escalar a parte rochosa. A escalada foi muito difícil e demorou muito mais tempo do previsto. Às 6 da tarde ele alcançou o ombro logo abaixo do cume e uma hora depois chegou ao cume. Mais abaixo, Kempter contou que Buhl continuou sozinho em direção ao cume, e em cada acampamento eles procuraram por algum sinal de Buhl. Sem sinal algum durante toda a tarde, Frauenberger subiu ao acampamento 5 e passou a noite com Kempter, esperando Buhl aparecer.

Enquanto Buhl ainda estava no cume, o sol se escondeu. Ele bebeu seu último chá, cravou sua piqueta com as bandeiras paquistanesa e tirolesa, e tirou algumas fotos. A noite começou a cair e ele começou a descida. Acima de 8000 metros num minúsculo degrau, Buhl foi obrigado a realizar um bivac de emergência sem saco de dormir e roupas quentes, que foram deixados na sua mochila mais abaixo, no platô. Naquele pedaço de rocha, Buhl passou a noite acordado entre 9 da noite e 4 da manhã. A noite foi calma e limpa. Mesmo sem roupas apropriadas, Buhl conseguiu passar a noite, mas perdeu o sentido nos seus pés. Buhl continuou. A descida e subida do colo foi extremamente fatigante e ele tomou outra dose de Pertvin. Persuadido por alucinações, ele se contorceu através do platô com o sol queimando. A sede se tornou incontrolável, mais um pouco de Pertvin mobilizou suas últimas reservas de energia e às 5 da tarde, ele chegou à linha dos 7000 mt.

Enquanto Kempter descia ao acampamento 4 no dia 4 de julho, Ertl chegou ao acampamento 5, e junto com Frauenberger, ergueram um memorial à Willy Merkl onde foi encontrado pela expedição de 1938. A todo momento, eles olhavam acima, à procura de Buhl, mas nada! Frauenberger voltou ao memorial para arrumá-lo melhor quando vou um pequeno ponto preto movendo-se montanha abaixo. Ela Buhl! Sua felicidade em haver se reunido aos seus amigos era indescritível. A foto acima foi tirada por Hans Ertl, pouco antes de encontrar um Herman Buhl, com aparência de 10 anos mais velho.

“...quarenta e uma horas separaram o momento que deixei o acampamento até que voltei. Ertl me achou e me tirou uma foto. Eu estava tão desidratado que mal conseguia ouvir, mas Hans não ligava, a única coisa que se preocupava era que eu estava ali de volta...“

Buhl foi muito sortudo no Nanga Parbat, escapando com somente algumas amputações nos dedos dos pés. Quatro anos depois no Broad Peak, Hermann Buhl e seus companheiros provaram que era possível escalar uma montanha de 8000 metros sem a ajuda de sherpas de altitude. Mas este foi o último cume de Buhl. Alguns dias depois, tentando Chogolisa juntamente com Kurt Diemberger, ele caiu de uma longa flauta de neve em encontro à morte.

Texto: Maximo Kausch



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