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Hummm! Que fome!

O que comer nas montanhas?


Categoria: Equipamentos

Cozinhar em montanhas não é nada agradável. Geralmente, após uma jornada inteira de escaladas, horas e horas submetidos a temperaturas extremamente baixas, não é nada agradável sair para coletar neve para cozinhar.

Cozinhar, talvez pela responsabilidade, é uma das tarefas mais exaustivas de todas. Vamos abordar alguns pontos a serem levados em conta na horas de escolher a sua comida para levar nas montanhas.
 

Pontos a considerar

Existe um balanço entre o ganho de calorias extraídas de alimentos e o tanto de calorias gastas para digerí-lo. Este balanço varia muito tipo de comida, temperatura e... ALTITUDE!

Digamos que com baixo teor de oxigênio, o corpo vai ter que fazer o sangue circular mais rápido para nivelar o consumo calórico da complexa musculatura digestiva. Consequentemente, vai gastar mais calorias. Para digerir a mesma comida, o corpo vai gastar mais calorias, do que gastaria altitudes inferiores.

O ganho calórico a partir de alimentos vai diminuindo com o aumento da altitude, até o ponto de se tornar negativo. Isso acontece quando se passa de 5500 metros de altitude. Por isso, chamamos essa faixa (acima de 5500 mts) de zona da morte. Em outras palavras, o seu corpo só tende a se degradar acima dessa altitude. Prova disso, são os próprios pontos de habitação humana na terra. Apesar de terem visitado zonas de extremas altitudes como nós montanhistas fazemos, nenhuma civilização jamais habitou altitudes superiores a 5500 mts.

Para "driblar" esse processo de desgaste e fazer com que o corpo se acostume à baixa presença de oxigênio, nos aclimatamos por estágios, mas nunca permanecemos tempo demais lá encima.

Priorize uma boa aclimatação antes de se preocupar com o que comer. Uma aclimatação ruim vai trazer dor de cabeça, dor de cabeça vai trazer falta de apetite, que por sua vez irá trazer sub-nutrição, e isto será o fim da sua expedição. De nada vai adiantar você levar comida especial, se você não se aclimatar direito!

À respeito do consumo calórico da digestão, não há muita coisa a se fazer contra. O jeito é se adaptar. A comida que levamos às montanhas, deve atender uma lista de exigências bastante rigorosa. Vamos abordar cada característica de acordo com a sua importância:

A comida deve ser saborosa: eu diria que este é o principal aspecto que devemos levar em conta na hora de escolher a comida para escalar em altitudes. Mesmo aqueles que se acham que podem comer qualquer coisa, podem responder diferentemente nas altitudes. Durante o processo de aclimatação, é normal sentir náuseas e falta de apetite. Nessas condições nos tornamos muito seletivos com certos tipos de comida, em outras palavras, cheios de frescuras! Escolha tipos de comida que lhe apeteçam. Se por algum motivo você tem alguma repugnância por qualquer componente da sua dieta em montanha, não vai ser lá encima que você vai se convencer a comer, mesmo a dias de jejum.

A comida deve tolerar o cozimento a temperaturas baixas: não podemos esquecer que a água diminui seu ponto de ebulição em aproximadamente 3ºC a cada 1000 metros que subimos. Arroz e certos tipos de macarrão, por exemplo, irão simplesmente ficar duros e será impossível comê-los ou digerí-los. Com o frio e altitude, a água raramente passará dos 80ºC.

A comida deve ser leve: comida pesada somente fará com que o escalador gaste mais calorias montanha acima. Não baseie a sua dieta em enlatados e/ou alimentos que contenham grandes quantidades de água. Montanhas tem neve em abundância, aproveite!

A comida deve ser calórica: não vamos á montanha assistir televisão, vamos escalar! Não podemos viver de folhinhas, frutas e cereais quando vamos escalar em altitudes. Mesmo com o organismo não funcionando a 100% nas altitudes, temos que considerar que estamos praticando esportes com gasto calórico extremamente alto.

A comida deve ser rapidamente cozida: comidas que exigem tempos maiores para serem cozidas, significam mais combustível, que por sua vez significa mais calorias para ser carregado montanha acima. Não é uma boa opção você levar feijão, por exemplo, para cozinhar na montanha, e gastar 2 horas no seu pequeno fogareiro.

Todos as qualidades acima são de vital importância para o sucesso da sua escalada em altitudes. Com todas essas exigências, a lista de comidas disponíveis parece ter ficado restrita. Porém, você não imaginaria a quantidade de tipos de comidas que você pode possivelmente cozinhar nas grandes altitudes.

Apesar de todo esse bla-bla-bla, nunca deixo de levar um salame, ou uma lata de sardinhas escondida dentro da bagagem. Cozinhei pequenos pacotes de macarrão instantâneo por um bom tempo até ganhar completa repugnância ao gosto destes. Nos últimos anos venho usando um tipo comida que atende perfeitamente as minhas necessidades na montanha, os liofilizados.
 

Mas afinal, o que é comida liofilizada?

Liofilização é um processo usado para conservação na indústria farmacêutica e alimentícia. Nós montanhistas, desfrutamos deste processo por ele reduzir consideravelmente o peso e volume da comida, além é claro, da longa conservação. Alguns chamam essa comida de "comida de astronauta". De fato, os astronautas comem exatamente isso, mas na montanha não temos um daqueles injetores de água quente, e temos que derreter neve.

Não confunda alimentos liofilizados com desidratados, são duas coisas completamente diferentes. Liofilizados são mais leves, conservam todas as propriedades dos alimentos, incluindo vitaminas e proteínas. Com a ausência de água nos alimentos, a comida ter seu prazo de validade quase infinito de não exposta ao meio externo. A única desvantagem é o preço, que é mais caro em decorrência à escassez e custo do processo de liofilização.

Muitos tipos de comida liofilizada podem ser encontrados em supermercados. Pacotes de sopa por exemplo, contém vegetais ou carne liofilizados. Repare como os pequenos flocos de comida, que ocupam tão pouco espaço no pacote de sopa, após cozidos, se expandem e tem um gosto de comida de verdade. Café em pó instantâneo é outro exemplo clássico de liofilizados.

A teoria é bem simples, mas o processo todo é um tanto quanto complicado e caro. Dentro de uma câmara especial a comida, que já foi pré-cozida, é resfriada a dezenas de graus do seu ponto de congelamento e ao mesmo tempo é submetida a vácuo. Um condensador comunicado com a câmara principal, retêm a umidade extraída da comida. Esse processo é conhecido como sublimação, onde a água em estado sólido, passa ao estado gasoso, sem passar por estado líquido antes.

Ainda dentro da câmara, a comida com porcentagem baixíssima de água, é colocada dentro de pacotes esterelizados e é fechada a vácuo. O processo todo normalmente demora 48 horas e consome grandes quantidades de energia.

Após empacotada, a comida liofilizada ocupa até 1/3 do volume original e até 80% do peso original é reduzido. A rehidratação consome pouco tempo devido à grande porosidade e capilaridade da comida. Normalmente, água a 80ºC já é suficiente para rehidratar a comida em 5 minutos.
 

 

No Brasil

Infelizmente, comida liofilizada para atividades ao ar livre é escassa no Brasil. A Liofoods parece ser a única companhia que consegue suprir a nossa necessidade. Fora do Brasil, existem os liofilizados de empresas estrangeiras especializadas:

- Expedition Foods - Inglaterra (revendedora de Drytech &, Trekking-mahlzeiten)

- Cabac / Voyager - França

- Drytech - Noruega

- Knorr - Alemanha

- Maxim - Dinamarca

- Mountain House - EUA

- Toro - Noruega

- Travellunch - Alemanha

- Trekking-mahlzeiten - Alemanha
 

Fazendo em casa

Provavelmente, após você ter "descoberto" os liofilizados, seja por ter visto alguém cozinhando, seja por um website, etc, você deve ter imaginado: "E por quê não posso fazer eles em casa". Como qualquer outro montanhista pobre, também corri atrás da informação e concluí que é impossível para um simples mortal montar um liofilizador no fundo do quintal. Liofilizadores são extremamente complexos e requerem materiais que dificilmente você vai encontrar na loja de ferragens da esquina. Outra chance, seria a de você comprar um liofilizador. Para um que seja suficiente para produção caseira, você vai gastar pelo menos 15.000 reais.
 

Liofilizados e outros tipos de comida feitos especificamente para atividades ao ar livre

Liofilizados preparados dentro do próprio pacote - esse é o mais prático e eficiente de todos! O pacote é de um plástico duro, que após aberto permite ser desdobrado em forma de um pote. A água é adicionada dentro do próprio pacote, e após 5 minutos a comida está pronta. A comida é fechada a vácuo e isso permite você levar o pacote a altitudes extremas sem que este se infle com a baixa pressão externa. Geralmente, estes aparecem em porções de 100 gr, que após hidratados, pesam 400 gr. O pacote é uma mão na roda se você não tiver tempo ou não quiser congelar a sua mão limpando a panela. Lembre que 2 ou 3 pacotes por dia são suficientes para você sobreviver. Estamos falando de 300 gr por dia!

Liofilizados que tem que ser cozidos - apesar de serem liofilizados, estes tem que ser colocados dentro de uma panela e tem que ser cozidos por alguns minutos até atingirem o seu ponto al dente. Esta versão oferece muito mais tipos de pratos e os preços são menos dolorosos do que daqueles pacotes que se transformam em potes. O peso dos pacotes também é bastante reduzido, mas geralmente não são selados à vácuo.

Comida pré-cozida, mas hidratada - geralmente são vendidos em pacotes aluminizados e totalmente selados. A comida contém toda a água que precisa e o cozimento é feito submetendo o pacote à água quente. Obviamente, o peso não é levado em conta neste tipo de comida, no entanto, o sabor sim. Geralmente, somente aqueles tipos de comidas e molhos do tipo "manjar dos deuses" são empacotados desta forma. A praticidade é uma grande qualidade deste tipo de comida, que tampouco suja a panela.

Comida com auto-aquecimento - alguns tipos de comida hidratada contém um recipiente externo com componentes químicos que ao reagirem, produzem calor e aquecem o alimento. Geralmente, este tipo de pacotes é exclusivamente usado em rações de emergência, já que o pacote inteiro é extremamente pesado.

Comida deshidratada - este é o tipo de comida mais comum encontrado entre escaladores. Varia desde arroz semi-pronto, certos tipos de sopa, muitos tipos de pacotes de macarrão, etc. A sua produção é muito mais simples e barata que os liofilizados.


 

Concluindo

Tecnologias como alimentos liofilizados, vão ser muito úteis se a sua idéia é permanecer muito tempo na montanha e precisa se preocupar com o peso da bagagem. Caso a sua expedição tenha uma boa logística e tiver ajuda de terceiros, leve o que bem entender, desde que você goste do que está levando.

A dica é: leve a comida que te faça sentir bem. Desde que esta seja leve e não prejudique a sua estadia lá encima, leve o que bem entender. Já observei pessoas levando coisas absurdas para comer. Já vi russos fritando cebolas a 7200 metros de altitude e bebendo vodka. Já vi gente comendo pão e presunto nas mesmas altitudes. Vi gente fazendo pão artesanal a -20C, para esperar tempestades passar.

Texto: Maximo Kausch






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