A História do Himalaísmo Brasileiro - Parte XIII - AltaMontanha.com - Portal de Montanhismo, Escalada e Aventuras
Especial Brasil no Himalaia

A História do Himalaísmo Brasileiro - Parte XIII


Categoria: História do himalaismo brasileiro

Décima terceira parte do especial sobre o histórico das expedições brasileiras às maiores montanhas do mundo...

::Leia o especial sobre a História do Brasil no Himalaia desde o começo.

:: Leia a décima segunda parte da história do Brasil no Himalaia.

Texto: Rodrigo Granzotto Peron

Capítulo 44 – MAKALU 2008 (8.584m)

Waldemar Niclevicz é mesmo uma pessoa persistente. Não se deixando abater pelo insucesso de 2007, retornou ao Makalu em 2008, na companhia do seu parceiro habitual Irivan Gustavo Burda. Para amortizar os custos da expedição, abriu vagas para o argentino Carlos Hernán Wilke, o equatoriano Santiago Quintero, e o famoso colombiano Fernando Gonzalez-Rubio. Como sirdar foi contratado Pemba Jangbu VIII Sherpa.

Para este ano Waldemar resolveu calibrar melhor a estratégia. Para evitar a desgastante e longa marcha de aproximação, aclimatou-se com Irivan no Huayna Potosí (fazendo cume em 6 de abril) e optou por ser levado ao acampamento-base de helicóptero. A rota escolhida na montanha foi a padrão: Aresta Noroeste a partir de Makalu La.

Os acampamentos superiores se sucederam em esforços conjuntos com outras equipes, com o Campo I montado em 25 de abril (6.780m), o Campo II em 9 de maio (7.440m) e o Campo III em 10 de maio (7.900m).

No dia 11 de maio de 2008 Waldemar e Irivan partiram na companhia do sherpa rumo ao ponto mais elevado do maciço. Apesar de não ser das montanhas mais difíceis, o Makalu apresenta vários trechos técnicos, como descritos por Waldemar em seu site pessoal: a) “o ‘corredor’ [corredor francês, na parte superior da rota normal] havia se transformado em uma encosta inclinada de grandes blocos de pedra, 3º a 4º grau de escalada em rocha (escala brasileira), uma subida que parecia interminável rumo a crista do cume, aonde, enfim, pisamos lá pelas 8:30 da manhã, b) “subir o ante-cume foi difícil, uns 15 metros de altura, cerca de 80º em gelo, lá do alto vislumbramos o cume principal, cerca de uns 60 metros a nossa frente! Depois de uma descida de uns 5m, novamente estávamos nos equilibrando em uma crista tão fina quanto o fio de uma navalha, qualquer escorregão seria fatal, e, metro a metro, controlando a emoção, chegamos no alto dos 8.463m de altitude”.

E assim Irivan Gustavo Burda chegou a seu terceiro 8000, Niclevicz ao sétimo (na América do Sul fica atrás tão-somente de Iván Vallejo). Esta foi a primeira subida brasileira ao Makalu (em quatro tentativas). Em tempo: a expedição, um primor de organização, foi um sucesso completo. Tirando Fernando, todos os demais membros fizeram cume. E os brasileiros ainda ajudaram vários alpinistas, cedendo barracas e oxigênio para alguns dos que precisavam.

Capítulo 45 – EVEREST 2008 (8.850m)

Rodrigo Raineri, após “bater na trave” em 2005, retornando de meros 50 metros verticais do cume do Everest, e de sofrer em 2006 com a tragédia de seu grande parceiro de escalada, retornou em 2008 para exorcizar seus demônios. Escalando na companhia de Eduardo Maggy Keppke e dos sherpas Ang Dawa, Ang Kami e Nga Tenji, foi tentar a rota normal do Flanco Nepalês (já que o lado tibetano ficou fechado a temporada toda por conta da passagem da tocha olímpica rumo ao cume do Everest).

O Governo do Nepal, atendendo a pedidos da China, declarou as encostas superiores do Everest terreno proibido até que a tocha tivesse sido levada até o cume. Somente após essa solenidade, parte dos Jogos Olímpicos de Pequim, é que o Everest seria totalmente liberado para a montagem dos acampamentos superiores e instalação das cordas fixas na parte final da rota.

Por conta desses entraves, da chegada ao campo-base (em 19 de abril) até a montagem do campo IV (em 26 de maio), a 7.900m, no colo sul, de onde se ataca efetivamente o cume, transcorreram mais de 30 dias. Foi um mês de incertezas e insegurança, pois não se sabia ao certo quando a tocha olímpica iria ao cume e quanto tempo as equipes teriam para preparar a rota e tentar o cume. Vários times acabaram desistindo no meio do caminho.

Quando finalmente a montanha abriu parecia, na voz de um jornalista britânico, o “estouro de uma boiada”, com hordas de alpinistas subindo as encostas em fila indiana que parecia interminável. Os brasileiros tiveram paciência o suficiente para esperar o momento mais adequado, dando um tempo até que a “boiada” fizesse cume (foram 108 cumes no dia 21, 89 no dia 22, 43 no dia 23, 74 no dia 24. Em apenas quatro dias foram incríveis 354 cumes no Everest, mais do que todos os cumes de 1953 a 1990).

Os brasileiros partiram na companhia dos sherpas em 26 de maio de 2008, às 23 horas, do acampamento IV. A idéia de Raineri era tentar sem oxigênio engarrafado, mas as condições climáticas o demoveram e tanto ele quanto Keppke usaram oxigênio na ascensão. O único perrengue da escalada foi narrado por Rodrigo no seu site pessoal: “O dromedário de água que eu tinha colocado por dentro do macacão para ficar aquecido vazou e a água escorreu pelas minhas costas, pernas e entrou pela bota. Ou seja, congelou tudo”. O maior desafio foram as ventanias inacreditáveis que sopraram enquanto os brasileiros ascendiam. Os ventos estavam tão ariscos que até lendas-vivas do himalaísmo desistiram da escalada (caso do alemão Ralf Dujmovits e do suíço Norbert Joos, ambos com 13 cumes 8000 no histórico).

Lutando bravamente contra as ventanias, os brasileiros pisaram no cume no dia 27 de maio, às 3 da tarde. Finalmente Rodrigo vencia o Everest, uma vitória sofrida, mas merecida.

Capítulo 46 – EVEREST 2008 (8.850m)

Helena Coelho foi pela 13ª vez ao Everest, e pela primeira vez escalando o flanco nepalês, sem a companhia de Paulo, que não pode ir. Ela não foi para escalar propriamente o Everest, mas sim na qualidade de “treinadora” ou “orientadora” do alpinista japonês Tatsuo Matsumoto, radicado no Brasil (mora atualmente no Rio de Janeiro), e com 68 anos de idade. A equipe contava com os préstimos de Phurba Sherpa.

Helena foi apenas até 6500 metros, por duas vezes.

Já o japonês escalou no dia 23 de maio, juntamente com o sherpa, até 8500 metros, de onde voltou devido às fortes rajadas de vento gelado. Por questões de segurança, abortou a tentativa.

Capítulo 47 – GASHERBRUM II 2008 (8.035m)

Em um ano bastante movimentado, Helena Coelho fez cume no Denali, orientou um escalador japonês no Everest e ainda arrumou tempo para, na companhia de seu marido Paulo Coelho, participar de incursão ao Gasherbrum II, como integrantes do permit da expedição Focus GII Expedition 2008, liderada pelo italiano Marco Cattaneo.

Os brasileiros foram mais para fazer trekking até o campo-base, desfrutar do contato com a montanha e verificar o grau de dificuldade da cascata-de-gelo e da rota padrão até o cume. Não foram muito alto na montanha, mas provavelmente este foi apenas um “test-drive” do Baltoro. No horizonte com certeza devem pairar planos para voltar para valer em uma próxima oportunidade.

Capítulo 48 – AMA DABLAM 2008 (6.812m)

Roman Romancini e Ana Elisa Boscarioli Teixeira foram enfrentar o Ama Dablam no outono de 2008, na companhia de Andrew (Andy) Chandler, alpinista inglês. Foram como integrantes de expedição comercial da empresa Ice 8000, sob a batuta do renomado Henry Todd, uma das lendas-vivas do montanhismo na Ásia.

A chegada ao acampamento-base deu-se em 26 de outubro. A rota tomada foi a normal, pela Aresta Sudoeste, que serpenteia pelo “ombro esquerdo” da montanha. Devido ao elevado grau de periculosidade nos trechos mais elevados da via, tendo em vista que o glacial superior Dablam tem desmoronado nos últimos anos e causado várias tragédias, os alpinistas brasileiros passaram por uma nova variante da rota que possui um atalho seguro, que evita o Dablam e segue ao cume por um desvio.

Uma infelicidade no dia 3 de novembro tirou a chance de Ana Elisa fazer cume, como ela mesma narra: “Já estávamos chegando ao C1, que fica numa aresta e é preciso construir um platô com as pedras para montar as barracas, e o último lance para chegar ali é uma boa escalada em rocha com cordas fixas. Meu pé escorregou e senti o ombro. Como a partir dali a via é extremamente exposta vertical e perigosa, decidi descer e não arriscar. Cheguei até 6.000 metros, a montanha tem quase 7.000 metros, o cume vai ficar para a próxima oportunidade”.

Andrew Chandler conseguiu fazer cume em 3 de novembro.

No dia 4 de novembro de 2008 Romancini pisa no ponto mais alto de uma das mais belas montanhas do planeta e se torna o primeiro brasileiro a fazer cume no Ama Dablam. Logrou a oitava ascensão sulamericana à Jóia do Khumbu.

:: Continua...




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