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Dr Maximo

Aclimatação de Verdade


Categoria: Saúde

Se a aclimatação não fosse necessária, as escaladas seriam realmente mais fáceis e não teríamos que nos concentrar tanto numa atividade que não é a de chegar no cume.

Por Maximo Kausch

Muitos leigos, ao observar as idas e vindas aos acampamentos, acabam não entendendo o porquê desta "enrolação" e terminam por não enxergar a objetividade de todo este planejamento.

Aclimatação é a pior parte de uma expedição à altitude e também, a principal. É aquele processo chato, em que você tem que esperar o seu corpo se adaptar às condições atmosféricas extremas, nas quais não conseguiria suportar em altitudes normais.

Essas condições consistem em pressão menor, baixo teor de oxigênio e ambiente de altitude. O processo de aclimatação é um tanto quanto simples:

Primeiramente, devemos lembrar que todos os corpos são diferentes e se aclimatam em tempos e formas diferentes. Generalizando, os primeiros problemas PODEM começar a acontecer acima de 2900 metros de altitude. É por esta razão (e também para economizar dinheiro), a pressão de cabine de aviões nunca simula altitudes maiores que 2900 metros. Um dos primeiros sintomas que se sente ao chegar em altitudes superiores é a sonolência. Novamente, as companhias aéreas se aproveitam deste fato, já que boa parte dos passageiros vai ter sono e não consumirá tantos recursos durante o vôo.

Entretanto, em algumas pessoas, os problemas só começam a aparecer acima de 5000 metros. Não devemos ter estes sortudos em conta na hora de aclimatar. Aparentemente, esta "sorte" é uma predestinação genética e não depende de praticar esportes, beber água ou comer bem.

A aclimatação perfeita começa antes mesmo de subirmos a montanha. Uma boa preparação para se aclimatar bem é praticar esportes que exijam do seu cardiovascular. Além disso, é recomendável beber muita água começando um dia antes de passar da linha dos 3000 metros.

Ao detectar a baixa presença de oxigênio na atmosfera, o corpo começa a produzir mais glóbulos vermelhos. O aumento na presença destes, causa com que o sangue fique mais espesso, o que pode trazer problemas à tecidos pulmonares e cerebrais. Para evitar esses problemas, devemos fazer com que o sangue se mantenha liquefeito através de hidratação. Beber água, certamente é o que mais ajudará a aclimatação. É sempre bom observar a cor da urina durante a sua subida. Urina mais escura evidencia uma hidratação pobre.

Ao passar dos 3000 metros de altitude, é realmente importante que se tenha uma estratégia de aclimatação. As melhores estratégias vão depender dos corpos de cada um e você só vai saber qual é a que melhor se adapta a você através de experiência. Aparentemente, uma lenta mas eficiente estratégia, parece funcionar para todos: "carregar alto de dormir baixo", ou seja, depositar cargas em lugares altos e voltar a dormir num lugar mais baixo.

Devemos lembrar que não é só à baixa presença de oxigênio que o corpo deve se acostumar, mas também à baixa pressão externa, o que leva tempo. O fato de subirmos à altitudes superiores do que a que iremos dormir, de certa forma, engana o corpo e estimula uma extra produção de glóbulos vermelhos antecipadamente.

Acima de 3000 metros

Na teoria, deveríamos passar pelo menos uma noite a 3000 metros antes de continuarmos aos 4000. Após passar pelo menos 2 noites acima de 4000 metros, aí sim, deveríamos iniciar a estratégia de carregar alto e dormir baixo... chega a ser infalível. Tenha em mente que longas e exaustivas caminhadas não vão ajudar em nada na aclimatação, tente pegar leve no começo.

Exaustão X Aclimatação

Muitas pessoas, como eu, acabam exagerando nos dias enquanto ainda se sentem bem. Isso geralmente se dá abaixo dos 5000 metros. Chegar exausto a um acampamento, não vai ajudar em nada na sua aclimatação. Num caso de exaustão, o seu corpo vai priorizar a recuperação física no lugar da adaptação às altitudes. Assim, se degradará rapidamente e o seu processo de acimatação vai passar por uma "pausa". É de vital importância que você se resguarde e não gaste demasiada energia, mesmo que você a tenha. Como você vai ter tempo de se recuperar depois, o ataque ao cume é a única situação em que a queima quase total da energia corporal é aceitável. É importante lembrar que a subida ao cume é somente metade do caminho.

Zona da Morte - acima de 5500 metros

O nome é assustador, mas se a aclimatação for bem planejada, você pode escapar ileso desta zona. O nome vêm desta faixa de altitude, onde a relação consumo V obtenção de calorias, se desbalanceia e você acaba gastando mais do que o seu corpo consegue absorver. E sim, de fato, se você permanecer ali por alguns meses, poderá até morrer. Se a montanha em questão tiver mais que 7000 metros de altitude, mantenha uma base montada ao redor de 5500 metros, assim você poderá voltar para dormir após os seus trabalhos e não se desgastar tanto. Não ascenda mais que 1000 metros por dia. Não leve isso ao pé da letra, já não é em todas as montanhas que podemos dormir a exatamente 1000 metros acima do último acampamento.

Em terceiro, volte à sua base, após qualquer atividade nos acampamentos mais altos. Aumente a quantidade de dias de permanência nos acampamentos altos gradativamente. Nestas altitudes, é fundamental manter uma boa alimentação. Cozinhar por si só é algo muito fatigante, não só porquê temos que derreter neve, mas porquê nunca se tem vontade de comer nas altitudes. O gasto calórico é absurdamente alto, e se uma boa dose de calorias não for absorvida todo dia, seu corpo se dregadará em poucos dias, além disso, sua aclimatação será prejudicada. É fundamental pelo menos uma descida à altitudes de pelo menos 4000 metros para descansar e se recuperar da chamada Zona da Morte. Relaxe e coma bem nesta descida.

A permanência em altitudes superiores a 7500 metros, não ajudará em nada na sua aclimatação. Subidas nestas altitudes requerem longos períodos de descanso, e é somente recomendável superar os 7500 metros durante o ataque ao cume.

Se a montanha em questão tem entre 6000 e 7000 metros de altitude, é possível subir sem ter que descansar tanto. A degradação corporal numa montanha de 6000 metros chega a ser aceitável e para não permanecer tanto tempo na altitude, é até melhor ficar somente alguns dias ao redor de 5500 metros antes de atacar o cume.

Por fim, lembre-se que você pode ser um dos escolhidos, que assim como eu, vai ter que ficar mais tempo do que o normal para se aclimatar. Uma aclimatação ruim vai tornar tudo mais difícil. Qualquer atividade, o mais simples que seja, vai ser mais dolorosa e sacrificadora. Lembre-se como o seu corpo reagiu na sua última estadia na altitude e tente escolher a estratégia certa para o seu corpo.

Experiência e água, portanto, são suas principais ferramentas para se adaptar nas grandes altitudes. Pegue leve!



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