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O que isso tem a ver com o montanhismo?

Vulcanismo no Brasil


Categoria: Meio Ambiente

Quem foi que disse que no Brasil não houve vulcanismo? A escaladora e geocientista Eliza Tratz irá mostrar como foram os eventos vulcânicos em nosso país e o que isso influencia em nossa escalada.

Por Eliza Tratz

Pois bem, convido vocês a fazer uma viagem no tempo, voltaremos no Mesozóico, há mais ou menos 130 milhões de anos atrás, isso mesmo o que você está pensando, no final da época em que os Dinossauros habitavam o planeta Terra (Jurássio-Cretáceo).

Nessa época, o antigo continente Gondwana estava se fragmentando. Havia uma grande atividade de placas geológicas e a América do Sul e a África tomavam sua forma aos poucos. Esta movimentação de continentes fez antigas falhas serem reativadas, assim como outros pontos de fraqueza iam se tornavam novos locais de ruptura, por onde o material magmático vindo do interior da terra extravasava na superfície, provocando um vulcanismo de separação de placas aos moldes como ocorre hoje no centro do oceâno atlântico em lugares como a Islândia, um vulcanismo distinto do tipo andino, que é provocado pelo choque entre duas placas (uma continental e outra oceânica).

Esta intensa atividade geológica deu origem às rochas vulcânicas que compõe a Formação Serra Geral da Bacia do Paraná, as quais recobrem hoje parte do Centro Sul do Brasil até o Norte do Uruguai, Nordeste da Argentina e Leste do Paraguai. Quem escalou nos basaltos de Torres no Rio Grande do Sul, nos riolitos de Laguna de Los Cuervos no Uruguai, ou visitou os cânions da região dos campos de cima da Serra entre Santa Catarina e Rio Grande do Sul, ou ainda escalou na Pedreira do Jd. Garcia em Campinas (SP) sabe de quais rochas estou falando.


As atividades desta época ocorreram concomitantemente ao processo de desertificação Botucatu. O deserto Botucatu tinha proporções maiores que o Saara. No salto São Francisco, na divisa entre os municípios de Guarapuava, Prutentópolis e Turvo (PR), é possível visualizar a intercalação entre as lavas basálticas (mais escuras) e os sedimentos provenientes do deserto (mais claros).

Curioso também é que os mecanismos de ascensão e extravasamento destas lavas é motivo de questionamento e controvérsias, há pesquisadores como Viktor Leinz que afirma que o extravasamento destas lavas se deu através de fendas, (sill) já, outros autores como Roeisenberg &, Viero nos dizem que estas lavas são oriundas da fusão parcial da crosta continental. , E nos textos mais recentes como os de Waichel, há indicações de erupções menores geradas a partir de fluxos inflados responsáveis por derrames compostos e diferenciados dos derrames em sill.

Como indício deste vulcanismo, existem as lavas pahoehoe, termo havaiano que significa "corda" e remete a processos de vulcanismo semelhante aos que ocorrem ainda hoje no Hawai. , Lavas pahoehoe ou em corda foram registradas por Waichel no Sudoeste do Estado do Paraná. Eu também dei minha contribuição e registrei estas lavas em Guarapuava, no centro deste Estado. , Tais evidências mostram que os processos vulcânicos que aconteceram durante o final do Mesozóico foram mais complexos do que diz a literatura clássico. Isso significa dizer que durante a época dos Dinossauros, houveram edifícios vulcânicos como os que existem hoje nas ilhas havaianas e não apenas as fendas por onde extravasavam as lavas que deram origem aos basaltos e diabásios.


Fotomicrografia de um peperito. Uma mistura de lavas e sedimentos qual se deu em meio sub-aquoso.

Estaria na estrutura destas lavas à chave para a reconstrução do edifício vulcânico Serra Geral? , Neste quebra cabeças, ainda há de considerar as diferenciações químicas entre os derrames, há derrames mais ricos em SiO2 , portanto, mais ácidos o que indica possivelmente câmeras magmáticas distintas como sugere Roeisenberg &, Viero, o que responde pelo aparecimento das lavas ácidas, como as encontradas em Laguna de Los Cuervos no Uruguai e em Guarapuava –PR. Dentro da Formação Serra Geral estas rochas são denominadas de ácidas do Tipo Palmas e Tipo Chapecó. Durante a atividade vulcânica o teor de Sio2 determina também o tipo de erupção, quanto mais Sio2 mais explosivo são os derrames o que pode acarretar no lançamento a distância de fragmentos de rochas e material piroclástico.


Estrutura circular – oriunda da colisão de meteoros, ou um indicio de uma antiga caldeira vulcânica preservada? Imagem – Google Earth.

Esta diferenciação litológica como eu também mostrei em meu trabalho, configura também importantes distinções na paisagem uma vez que as rochas ácidas normalmente aparecem em cotas mais elevadas na atualidade, caracterizando planaltos os chamados "platôs", enquanto que as rochas mais básicas, os basaltos, configuram relevo suave ondulado (colinas) a fortemente ondulado (montanhoso).

Ou seja, dos antigos vulcões que existiram há mais de 130 milhões de anos, sobreu apenas suas rochas, pois o tempo foi capaz de erodir toda a sua antiga morfologia. Entretanto, por conta da diferença de resistência entre as rochas vulcânicas, que são oriundas de distintos processos, houve uma erosão diferencial e a paisagem atual, com um relevo escalonado no Sul do Brasil (todos locais de escalada atualmente), é resultado disso. O relevo ondulado ainda está associados à outros elementos da geologia, os falhamentos, que remetem a intensa atividade tectônica em tempos remotos, ou seja, , Terremotos!

Isso quer dizer que há milhões de anos atrás o processo de separação dos continentes deu origem também a fortes tremores de terra. Abalos sísmicos provocados pelo atrito das placas tectônicas que deram origem a erupções vulcânicas, pois as atividades vulcânicas estão relacionadas ao movimento das placas.  ,

A porção territorial que compreende atualmente o Brasil, conformava durante o Mesozóico paisagens muito distintas das atuais! Neste vai e vem entre as placas tectônicas tivemos mais tarde a colisão entre o continente Sulamericano e a placa marítma de Nazca, vindo a da originar os Andes. Nossa porção territorial ficou em uma área de maior estabilidade geológica, pois estamos no centro da Placa Sulamericana.

Mas não se engane que nosso relevo nunca mais sofreu com o tectonismo!

O próprio peso das rochas magmáticas que formaram o conjunto de rochas da chamada Formação Serra Geral foi culpada por um outro tipo de tectonismo que existe até hoje, o tectonismo isostático, que faz as bordas da bacia se erguerem, favorecendo a ascensão da Serra do Mar, da Mantiqueira e também das Cuestas concentricas, como as de São Pedro, Botucatu e Analândia (onde fico o morro do Cuscuzeiro) em São Paulo e também a escarpa da "Serrinha" de São Luis do Purunã e a Serra da Esperança, em Guarapuava, onde afloram as rochas vulcânicas que eu estudei em meu mestrado, além da Serra Geral no Rio Grande do Sul e Santa Catarina.

Felizmente, deste intenso vulcanismo hoje nos sobraram dádivas, rochas que configuram paisagens incríveis, como os cânions entre Santa Catarina e Rio Grande do Sul, a Serra Gaúcha, o Cerro Arequita, A Laguna de Los Cuervos do Uruguai enfim, a Serra Geral da Bacia do Paraná. , Daqui a 130 milhões de anos como vai ser? Onde o Brasil irá parar nesse vai e vem das placas?

Este artigo mostra a complexidade do relevo do Brasil, onde diversos eventos ocorreram um sobre outro há um longe prazo. Sobre os fatores endógenos, ou seja, as forças que fazem o relevo se elevar e formar montanhas, tivemos diversos eventos de destruição do relevo, provocando a erosão de montanhas, fazendo antigas formas de relevo se exumarem junto com outras rochas mais antigas, fazendo que a gente tenha que entender processos de diferentes idades geológicas combinadas. A grande sorte para quem estuda a evolução da paisagem é que pelo menos, entre um estudo e outro, podemos curtir o que o resultado desta longa história, ou seja, nossos belíssimos afloramentos de rocha e montanhas que formam as diversificadas paisagens de nosso verde país.

Veja mais:

Origens e evolução da Serra do Mar
Água dura: Uma revisão sobre geleiras em montanhas
Origens e evolução do relevo do morro do Cuscuzeiro
Escalada em bloco no Brasil
Paleogeografia e escalada em rocha no Brasil

Para entender mais:


  • AMARAL, S. E, LEINZ, V. Geologia geral. São Paulo: Companhia Editora Nacional, 14. ed, 2001.
  • ARIOLI, E, LICHT, O.A. B, VASCONCELLOS, E.M. G, BONNET, K, L, SANTOS. M. do. Faciologia Vulcânica da Formação Serra Geral da Bacia do Paraná. In: IV SIMPÓSIO DE VULCANISMO E AMBIENTES ASSOCIADOS. Foz do Iguaçu. Anais... Foz do Iguaçu, 8 a 11 de Abril de 2008.
  • CAMPOS, A. C., CORDANI, U.G., KAWASHITA,K., SONOKI H.M, , SONOKI, I.K. Age the Paraná Basin flood Volcanism. In: MELFI, A.J. The Mesozoic flood volcanism of the Paraná Basin. São Paulo: Universidade de São Paulo, 1988, p.27-34.
  • CRÓSTA, A.P. Impact craters in Brazil how for we’ve gotten meteoritics. PLANETARY SCIENCE. V. 39. Abstract, 2004.
  • FLORENZANO, T.G. Introdução a Geomorfologia. In: FLORENZANO, T.G. Geomorfologia: Conceitos e tecnologias atuais. São Paulo: Copyright. Oficina de Textos, 2008.
  • LEINZ, V. Contribuição à geologia dos derrames basálticos do sul do Brasil. São Paulo: Bol. Fac. Fil. Cie e Letras, 1949. 103p.
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  • MELFI, A.J. The Mesozoic flood volcanism of the Paraná Basin. São Paulo: Universidade de São Paulo,1988.
  • NARDY, Antonio José Ranalli Geologia e petrologia do vulcanismo mesozóico da região central da Bacia do Paraná. Tese de Doutorado IGCE-UNESP. Rio Claro, 1995.
  • ROISENBERG, A, VIERO, A. P. O Vulcanismo Mesozóico da Bacia do Paraná no Rio Grande do Sul. In: HOLZ, M, De ROSS, L.F. Geologia do Rio Grande do Sul. Porto Alegre: CIGO/UFRGS, 2000. p. 355-374.
  • TRATZ, E, B. do. As Rochas Vulcânicas da Província Magmática do Paraná, suas características de Relevo e utilização como recuso mineral no município de Guarapuava –PR. Dissertação de Mestrado. UFSC, Florianópolis, 2009.
  • WAICHAL, B.L. Lavas do tipo pahoehoe na região Oeste do Paraná: Descrição e implicações na formação do magmatismo Serra Geral. REVISTA VARIA SCIENTIA. v.05. n.10, dezembro de 2005. p. 59-64
  • ______ Estruturação de Derrames e interação lava-sedimento na Porção Central da Província Basáltica Continental do Paraná. Tese de doutorado. Programa de Pós Graduação em Geociências da Universidade do Rio Grande do Sul. Porto Alegre, 2006.



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