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Como são formados os penitentes


Categoria: Meio Ambiente

Estes estranhos pináculos de neve aparecem misteriosamente nas montanhas e transformam as escaladas radicalmente. Podem tornar a sua vida um inferno e acabar com a sua escalada ou podem salvar a sua vida quando são a única fonte de água para derretimento. Entender os penitentes é algo muito importante pois é são um sério agravante na rota que você escolheu.

Texto: Maximo Kausch

Penitentes tem entre 10 a 400 centímetros de altura e são encontrados em regiões de acúmulo de neve ou gelo, geralmente em montanhas de altitude. A formação de penitentes no entanto é um tanto complicada e precisa condições especiais de latitude, altitude, temperatura, luz, vento, unidade e manto de neve.

Estas estruturas são inicialmente formadas pela radiação direta e por radiação refletida. Em condições ideais para a formação de penitentes (que vamos tratar abaixo), estes começam a "crescer" partir de pequenas imperfeições na superfície da neve. Pequenas depressões na neve recebem mais luz dos que os pontos mais altos destas ondulações. Isto se deve ao fato de que mais luz é refletida dentro das depressões do que no resto da estrutura. Em conseqüência, as depressões são removidas com mais intensidade, causando que as ondulações se tornem mais pronunciadas. Como a intensa luz solar é o principal protagonista na formação de penitentes, podemos dizer que a latitude é um fator chave neste processo.

Com a reflexão de luz solar e maior proteção do vento, a temperatura e umidade aumentam dentro das depressões e o penitente agora começa a crescer cada vez mais. Quando a temperatura é muito baixa para derreter a superfície do manto de neve (como na maioria das montanhas) o "desgaste" da superfície do manto de neve, que era feito pelo derretimento, agora é feito através da sublimação (a água passa do estado sólido para o gasoso sem passar pelo estado líquido). Para isto porém, o ar deve ser extremamente seco, com umidade relativa baixa. Vento tem também um importante papel no processo de formação de penitentes pois sublima mais cristais de gelo (em ar seco) quanto maior for a sua velocidade.

Devido a estes 2 últimos fatores (baixa umidade e vento), é muito mais comum observarmos penitentes em regiões montanhosas secas e ventosas, como a região da Puna dos Andes, Cordilheira Ocidental na Bolívia, etc.

A presença de poeira escura num glaciar ou manto de neve é um importante agente modificador na formação de penitentes. Ao que parece, partículas de poeira fazem com que a formação destas estruturas seja mais rápida e que a separação entre os "cumes" seja maior. Isso se deve ao fato da poeira atrair mais luz solar devido à sua coloração.

Um fato interessante dos penitentes é que estão sempre alinhados na mesma direção. Conforme o que foi explicado acima, penitentes dependem diretamente da luz solar para crescerem. Por isso a linha entre onde o sol nasce e se põe, é a linha geral para onde as fileiras de penitentes estão orientadas. Em regiões de maior latitude, eles chegam não só a se alinhar com o movimento solar, mas também crescem inclinados na direção do sol.

Outra coisa a se levar em conta é a dureza do manto. Em gelo os penitentes também crescem, porém, devido à grande densidade do gelo, o crescimento é bem lento e muitas vezes não há tempo suficiente para formação de penitentes antes da chegada das nevadas invernais.

Conseqüências práticas nas escaladas

Como foi visto, a existência de penitentes depende de vários fatores e não da inclinação. Teoricamente, em lugares onde há acúmulo de neve ou gelo (exposto às condições descritas acima), podem haver penitentes. No entanto, dependendo da orientação da encosta, a inclinação pode sim influenciar na quantidade de tempo a que o manto de neve ou gelo é exposto à luz solar. Na prática, os penitentes de encostas acentuadas, acabam crescendo menos dos que de encostas mais planas.

Esta informação pode ser muito útil ao escalador pois pode ajudá-lo a se orientar. Por outro lado, penitentes de encostas acentuadas são muito difíceis de transpor e demandam muito mais tempo.

Transpor penitentes é algo um tanto fatigante. Muitos deles chegam a crescer à altura de um homem e se locomover entre eles, pode chegar a ser impossível. Muitos procuram chutar e quebrar a cabeça do penitente (10-30cm) e apoiar o pé sobre a área que foi exposta. A minha dica é seguir a orientação deles que é leste-oeste ou algo próximo disso. As subidas devem ser feitas em zigue-zague (L para O e O para L) ou na diagonal, pois cruzá-los pelo eixo Norte-Sul pode ser extremamente cansativo e demorado.

Geralmente usando o peso das próprias botas e crampons, consigo que o meu pé quebre a cabeça de um pináculo e se afirme neste. Além disso uma linha de cabeças de penitentes fraturados pode ser avista com maior facilidade na volta, o que vai economizar muita energia.

Ao se locomover em grupos, os escaladores deveriam se revezar na frente trabalhando cada pé detalhadamente. Sempre pensando nos companheiros e na volta. Normalmente a primeira reação que temos, é desviar dos penitentes pelas laterais. Isso vai fazer com que todos do grupo desperdice a mesma energia, a trilha não vai poder ser vista na volta e a mesma energia vai ter que ser gasta na descida.

Em encostas de 50-70 graus com penitentes, os escaladores tem a tendência de procurar linhas que tenham poucos ou nenhum penitente. Muito cuidado na sua avaliação, pois estas linhas podem ter sido de avalanches glaciárias que "limparam" os pináculos enquanto caíram e mais destas podem cair no futuro.

A formação dos penitentes é algo que demora várias semanas. Se você precisa de um manto de neve uniforme e compacto na sua escalada, comece a escalar 2 ou 3 semanas após as últimas nevadas de inverno assim o manto de neve já está compactado e os penitentes ainda não cresceram.

Para os escaladores, uma das poucas vantagens dos penitentes é que estes servem de freio natural para pedras pequenas que estão caindo e ajudam a frear uma eventual queda. Isso tudo porém vai depender to tamanho e dureza dos penitentes.

Mudanças com o aquecimento global

Com as novas condições climáticas dadas pelo aquecimento global, muitas regiões montanhosas da terra recebem menos ou nenhuma nevada no inverno. Intervalos entre períodos de grande freqüência de nevadas podem se tornar mais longos, o que pode facilitar o crescimento de penitentes de gelo, que precisam mais tempo. À primeira vista o que muda nos penitentes de gelo, é a dureza destes e a altura. Em encostas montanhosas porém, penitentes muito velhos podem se "decompor" em forma de degraus, tornando escaladas muito mais complicadas e fatigantes.

Mudanças na umidade do ar, temperatura e velocidade do vento, estão tornando penitentes cada vez mais comuns em lugares de maiores latitudes. Inclusive já existem relatos de penitentes na Patagônia argentina nas montanhas rochosas nos EUA.

referências: "Controlled Irradiative Formation of Penitentes", University of Colorado, USA




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