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muito peso?

Tudo sobre animais de carga usados em montanhas


Categoria: Outros

Durante os últimos 10 mil anos, de um total de 148 mamíferos de grande porte existentes na Terra, apenas 15 espécies foram domesticadas. Chamamos de grande porte os mamíferos com mais de 45 quilos. Destas 15 espécies, menos da metade se adaptou como animal de carga para montanhas: o cavalo, o camelo bactriano, a llama, a alpaca, o burro e o yak.

Texto: Maximo Kausch

Para trabalhar nas montanhas no entanto, o animal deve atender uma certa lista de exigências que mudam de local a local.

Vamos tratar de cada um deles e depois chegar à conclusões:

O Cavalo (Equus ferus caballus)


Cavalo com carga no Nepal

Acredita-se que os cavalos foram domesticados por primeira vez em 4000 AC na região da Ucrânia. Os 6000 mil anos de domesticação permitiram que 300 raças fossem criadas, por isso cavalos diferem tanto em tamanho, cores e formato.

Baseando-se nas raças mais apropriadas para "puxar cargas", cavalos chegam a carregar mais de 100kg porém requerem mais descansos que qualquer outro animal de carga usado em montanhas. Eles tem uma grande vantagem de poderem sem conduzidos em bandos por um homem só. Este comportamento é instintivo pois no seu habitat natural, um bando de cavalos sempre segue o macho mais forte, chamado "alfa". Após adestrado, este macho alfa pode ser substituído por um humano, tornando a condução do animal uma tarefa muito mais fácil.

O couro dos cavalos é um pouco mais delicado que o dos burros, mulas e yaks, portanto eles tentem a se machucar muito ao transportar cargas com partes abrasivas. Além disso, cavalos necessitam mais comida do que burros e mulas e são menos vigorosos quando submetidos a dias longos de trabalho com pesadas cargas.

Cavalos requerem em média entre 40 a 45 litros de água por dia, o que os torna relativamente ineficientes para trabalhos em regiões áridas como as montanhas. Ao mover-se em regiões rochosas com cargas, cavalos tentem a pular com as patas dianteiras simultaneamente em vez de colocar uma pata de cada vez. Isso faz com que o animal se canse muito mais rápido.

O Burro (Equus africanus asinus)


Burros no Paquistão - foto: Maximo Kausch

Este parente do selvagem equus africanus foi domesticado por primeira vez a pelo menos 3000 anos AC. Burros variam muito de tamanho, geralmente entre 0.9 e 1.4m de altura.

Em sua trajetória evolutiva o burro se adaptou à vida em áreas desérticas. Suas cordas vocais e caixa de ressonância são desenvolvidas, o que possibilita que o animal se comunique com outros de sua espécie a pelo menos 3 quilômetros de distância.

Suas longas orelhas captam muito mais sons que os cavalos e servem como radiador para esfriar o sangue do animal. Seu forte sistema digestivo permite digerir raízes, troncos e couráceas que não podem ser digeridas por outros eqüinos. Comparando com cavalos, burros precisam menos comida em relação ao seu peso.


Maximo ajudando uma chola a carregar um burro na Bolívia - foto: Pedro Hauck

Como animais de carga, burros normalmente não levam mais que 50 ou 60 kg de carga ou 30% do peso do seu corpo. Sua resistência em aproximações áridas em regiões montanhosas é muito boa. Burros tem muita facilidade em se mover em terrenos acidentados e rochosos pois eles tendem a mover uma pata dianteira por vez, tornando a subida muito mais precisa e menos cansativa.

Como desvantagem, os burros requerem muito mais atenção que um cavalo, mula ou yak devido ao seu caráter. No seu habitat natural, burros tendem a viver separados uns dos outros o que torna difícil a condução do animal em bandos. Conseqüentemente, burros são muito mais teimosos e não obedecem ordens com facilidade. Fora isso, burros tem dificuldade em se adaptar em grandes altitudes ou locais muito frios.

A llama (Lama glama)


Curiosas llamas no Illimani, Bolívia - foto: Pedro Hauck

Além da Alpaca, este camelídeo exclusivo da América do sul, foi o único grande mamífero a ser domesticado no continente. Os Incas ou Mochicas foram provavelmente os responsáveis pela domesticação há mais de 4 mil anos atrás.

Devido ao fato de viverem em grupos, llamas são extremamente sociáveis e um grupo inteiro pode ser conduzido por um humano só. Llamas variam de peso e tamanho. Geralmente medem 1.7 metros e pesam entre 130 e 200 kg.

Devido à sua densa lã, llamas se adaptam muito bem ao frio. Por serem camelídeos, conseguem ficar muito tempo sem comer ou beber. Por terem evoluído por tantos anos em regiões como o Altiplano Boliviano, llamas se adaptam extremamente bem à grandes altitudes.

Seriam os animais perfeitos para levar cargas em montanhas se conseguissem levar mais peso: llamas não conseguem levar mais que 20-25% do seu peso. Considerando que a grande maioria das llamas adultas pesa não mais que 140kg, cada animal não leva mais que 28-35kg. As cargas porém, podem ser levadas por longas distâncias, em grandes altitudes e por terrenos extremamente frios e acidentados.

Llamas criadas por humanos por perto acabam tratando os próprios como tratam os da sua espécie: elas cospem. No seu habitat natural, esta ação é usada com controle no rank do animal no seu grupo. Além de cuspir, os machos chegam a morder uns aos outros para disputar uma posição elevada no rank do bando.

A Alpaca (Vicugna pacos)


Alpaca no Peru - foto: Patrick Furlong

Assim como a llama, acredita-se que Incas ou Mochicas foram os primeiros a domesticá-las. Muito próximas geneticamente das llamas, as alpacas são mais baixas e tem pelagem mais densa e longa. Sua principal utilidade é obviamente para a extração de lã (considerada muito nobre), porém, em muitos lugares nos Andes, elas ainda são usadas para o transporte de cargas por serem os únicos animais disponíveis.
Após adestrada, uma alpaca adulta normalmente não consegue levar cargas mais pesadas que 25-30kg.

O yak (bos grunniens)


Yaks carregados a 5700m no Tibet - foto: Maximo Kausch

Este bovino de grande porte habita o platô tibetano, Mongólia e parte da Rússia. Acredita-se que o yak já era domesticado entre 8 e 7 mil anos atrás. Devido á sua grande versatilidade, o yak foi introduzido nas regiões montanhosas do Nepal e índia, há mais de 700 anos, com a chegada dos sherpas.
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Um yak macho selvagem pode chegar a ter até 1.8 metros de altura nos ombros, chega a pesar mais de uma tonelada e medir de 3.2 metros de comprimento. As fêmeas geralmente tem dimensões 30% menores que o macho. Yaks domésticos no entanto são muito menores que os selvagens e pesam entre 300kg e meia tonelada.

Yak cuidando do banheiro, Pangboche, Nepal - foto: Maximo Kausch

Estes animais são extremamente bem adaptados às grandes altitudes. Seus pulmões e coração são maiores que qualquer outro bovino e o seu sangue tem uma grande capacidade de transporte de oxigênio. Sua pelagem e grossa camada de gordura permitem que eles suportem temperaturas extremamente baixas. Além disso, eles secretam uma substância oleosa pela pele que ajuda a isolá-los do frio.

Devido a estas adaptações, yaks não tem uma boa performance em altitudes baixas ou locais muito quentes. Seus mecanismos de dissipação de calor de certa forma atrofiaram durante o processo evolutivo. No geral, yaks não conseguem se adaptar bem a altitudes menores a 2800m.


Yak pastando em Pheriche, Nepal - foto: Maximo Kausch

É importante mencionar aqui que o esterco de yak é um importante combustível em toda a zona montanhosa do Nepal, Tibet e norte da Índia. O esterco é coletado, prensado em forma de panqueca e secado no sol. É muito comum encontrar pilhas de esterco de yak armazenadas em qualquer casa tibetana ou sherpa. O esterco é usado para cozinhar e para aquecimento.

Yaks são extremamente bem adaptados ao transporte de cargas. Um adulto pode chegar a levar 120kg de carga, porém isso depende da disponibilidade de comida. No Himalaia central são o único transporte para cargas de mercadorias através de passos que chegam a medir 6000 metros de altitude. Os animais conseguem passar até 4 dias sem comer e 2 dias sem beber um só pingo d´água.


Caravana de yaks a 5800m entre Tibet e Nepal - foto: Maximo Kausch

Em jornadas que chegam a durar semanas através de altos passos no Himalaia, na falta de vegetação, os tibetanos alimentam seus yaks com bolas feitas de uma espécie de farinha chamada tsampa. O preparo é geralmente com farinha de cevada tostada misturada com chá e manteiga. Tsampa é considerada a comida nacional do Tibet.

Considerando o seu grande porte, os yaks são extremamente bem adaptados a terrenos acidentados e conseguem se mover sem problemas em pendentes de até 45 graus!

O Camelo Bactriano (Camelus bactrianus)

Este é o camelo de "duas corcovas". Este animal habita exclusivamente as regiões do deserto Gobi e Taklimakan da Mongólia e Xinjiang na China. Acredita-se que foram domesticados por primeira vez em 2500 AC no norte do Iran.

Pensando entre 600 e 1000kg, eles são muito fortes e facilmente "puxam" cargas de 70 a 100kg. Estes animais podem levar cargas por zonas extremamente áridas por vários dias sem água ou comida. Sua pelagem e grossa camada de gordura permite que eles suportem temperaturas muito baixas. Sua tolerância à altitude é muito boa e conseguem sobreviver sem problemas em zonas de até 5000 metros de altitude.

Como desvantagem, os camelos bactrianos não se movem muito bem em regiões montanhosas rochosas ou muito acidentadas. Sua adaptabilidade também não é muito boa e geralmente se confinam aos seus habitats originais mencionados acima.

Os Híbridos

Algumas das espécies mencionadas acima são muito próximas geneticamente e é possível cruzar 2 delas obtendo um indivíduo sadio, porém na maioria dos casos, estéril. Para o transporte de cargas em montanhas, os híbridos são verdadeiras maravilhas, às vezes muito mais eficientes que os seus pais de espécies puras. Vamos tratar dos mais importantes:

A mula


Mulas no Aconcágua - foto: Maximo Kausch

Considero a mula o verdadeiro 4x4 no transporte de cargas em montanhas. Mulas vêm do cruzamento de um burro macho e de um cavalo fêmea. De certa forma, a mula é uma fêmea (ou macho em uma pequena porcentagem dos casos), porém estéril. Isto se deve ao fato da diferença no número de cromossomos do cavalo (64) e do burro (62), resultando em 63 cromossomos para a mula.

Mulas parecem ter "puxado" as melhores características das duas espécies:

• , ,  ,agüentam mais carga que o cavalo
• , ,  ,precisam de menos comida e água que o cavalo
• , ,  ,não são tão teimosas quanto os burros
• , ,  ,são pacientes
• , ,  ,seu couro é mais resistente que o dos cavalos e agüenta mais sol e chuva
• , ,  ,tem porte maior que os burros e é mais forte que um cavalo do mesmo tamanho
• , ,  ,são tão rápidas quanto os cavalos (levando cargas)
• , ,  ,se movem com muito mais facilidade em terrenos pedregosos e montanhosos
• , ,  ,levam mais carga que burros ou cavalos e por mais tempo
• , ,  ,seus cascos são mais resistentes que o dos cavalos
• , ,  ,tem maior resistência à doenças e insetos
• , ,  ,se adaptam com maior facilidade à altitude, ao contrário dos cavalos e burros
• , ,  ,acredita-se que as mulas tem maior habilidade cognitiva do que os seus pais

Uma mula normal pesa entre 370 e 460kg. É dito que uma mula pode levar em média 72kg sem parar para descansar por 26km. Já testemunhei mulas levando cargas de 150kg, isso porém diminui muito a vida útil do animal.


Maximo puxando uma teimosa mula na Bolívia - foto: Pedro Hauck

Em regiões onde mulas são usadas freqüentemente como no Aconcágua, na Argentina, as mulas geralmente trabalham por 4 ou 5 anos até perderem sua utilidade.

Como desvantagem, o problema da mula é o custo. Em regiões onde mulas são usadas para puxar carga, elas custam 20% mais que um cavalo e 40% mais que um burro.


O triste fim de uma mula no Baltoro, Paquistão - foto: Maximo Kausch

O Dzo

Também conhecido como mdzo (tibetano), o dzo é um híbrido entre um yak e uma vaca. Tecnicamente o dzo é um macho (estéril), e a fêmea é chamada dzomo (fértil).

Dzos e dzomos são geralmente maiores e mais fortes que as vacas e yaks (domésticos). Além disso são considerados mais fortes e vigorosos em altitudes mais baixas.

Assim como os yaks, os dzos conseguem se adaptar extremamente bem às grandes altitudes, porém não têm problemas com o calor e oxigênio excessivos das altitudes baixas. Dzos perdem muita performance em locais muito frios devido à pelagem que não é tão densa quanto à do seu pai, o yak.

Há vários outros híbridos que podem ser gerados misturando espécies puras, a mula e dzo porém, são os que importam para os montanhistas.

Qual é o melhor animal então?

O melhor animal é aquele que se adapta melhor à região. No vale do Khumbu, caminho ao Everest por exemplo, dzos são usados para transportar cargas até 3500m (devido ao calor) e dali até 5400m, a carga vai em yaks.
No Muztagh Ata, China, por exemplo, a carga vai em camelos bactrianos. Na Argentina predominam as mulas. Em algumas regiões isoladas do Peru e Bolívia predominam as llamas. Já em vales populares no Peru, como o Santa Cruz, predominam os burros. Na maioria dos casos, o animal mais eficiente disponível é usado no transporte de cargas.

A eficiência porém não é um fator decisivo na eleição de um animal de carga em determinada região montanhosa do planeta. Há que lembrar que montanhismo é um esporte relativamente novo e que montanhismo comercial é mais novo ainda, com apenas 15 ou 20 anos. Conseqüentemente em muitas montanhas que recebem expedições comerciais, o transporte de cargas ainda não evoluiu muito.

Populações ao redor de zonas montanhosas são geralmente muito pobres e a disposição de certas espécies de animais depende do custo do próprio animal.

No Baltoro, Paquistão, em 2010 ainda é mais barato contratar 3 ou 4 carregadores do que contratar uma mula! Em contrapartida, em regiões populares como o Everest ou Aconcágua, o transporte de cargas para expedições é extremamente desenvolvido e é feito quase que exclusivamente por animais de carga.

As regras e os preços

Na maioria das regiões que recebem expedições comerciais e onde o transporte de cargas feito por animais é relativamente desenvolvido existem regras a respeito da quantidade de carga, preço médio e tratamento dos animais. Seja pela proteção do animal ou seja para aumentar o lucro dos próprios negociadores, os animais geralmente carregam muito menos do seu limite.

No Tibet por exemplo, o órgão controlador, a CTMA, estabelece que yaks só podem carregar 40 kg durante a primavera (devido à escassez de vegetação) e 60 kg durante o outono. Cada "yak-driver" não pode conduzir mais do que 5 animais e o custo de cada animal num trajeto de 21 km, é de 99 dólares (mas pode ser negociado... se é que você me entende...)

Os camelos bactrianos da China carregam 80 kg por 200 dólares para um trajeto de 2 dias. No vale Khumbu, no Nepal, um yak custa aproximadamente 20 dólares por dia e carrega 60kg.

As mulas no Aconcágua levam 2 cargas de 30kg. Cada homem conduz não mais que 3 ou 4 animais. Para uma jornada de ida e volta de 50km, as empresas cobram em média 150 dólares. Hoje em dia os preços são tabelados e uma mula pode ser contratada clicando alguns botões nos websites das empresas!

No Peru, as empresas normalmente cobram 15 dólares (5 pelo burro e 10 pelo dono) para transportar uma carga de 30kg por dia no lombo de um burro.

Na região do Sajama na Bolívia, uma mula vai custar mais ou menos 20 dólares por dia e vai levar uma carga de 30kg. Já na região do Illimani, pelo mesmo peso você vai pagar 8-10 dólares para uma mula levar a sua carga até o acampamento base. Para as llamas o preço é quase o mesmo, porém as cargas não podem exceder 25kg.

Texto: Maximo Kausch






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