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Vento & Pressão

Climatologia de montanha - Parte 1


Categoria: Meio Ambiente

Climatologia é uma ciência um tanto complicada e complexa. Cada vez descobrimos mais e mais variáveis que explicam o clima de determinadas áreas na terra, e os não-meteorologistas como eu entendemos cada vez menos sobre o clima. Quando trata-se de montanhas, a coisa fica mais complicada ainda pois temos que lidar com mais variáveis do que as pessoas em terra firme. No entanto há pequenos detalhes que pude observar nos últimos 15 anos e concluir que sim existem coisas que podemos distinguir no clima e são muito úteis para prever eventos básicos no clima futuro. Neste artigo vou abordar sinais que normalmente observamos nas montanhas e poderão nos ajudar muito na tomada decisões no futuro. Nesta primeira parte trataremos principalmente do movimento de massas de ar.


Por Maximo Kausch


Clima depende de coisas que jamais temos em conta. Rotação da Terra, magnetismo, temperatura dos oceanos e até mesmo ventos solares entram no jogo. Nas montanhas, estamos muito longe de poder medir tudo isso usando um dedo contra o vento.

Como montanhista, queira você ou não, você deve ter o bom senso de estudar e entender o comportamento do clima dos locais que você freqüenta e se transformar numa espécie de climatologista amador. Quero lembrar que ao estar numa montanha você estará exposto ao clima mais extremo existente na Terra e o conhecimento do clima é uma das suas principais armas para sobreviver.

Antes de tomar qualquer atitude prática e tentar adivinhar com o que você vai encontrar na montanha, quero lembrá-los de algumas coisas a ter em conta antes de escalar uma montanha:



Previsão do tempo

Lembrando que uma previsão do tempo é apenas uma previsão, você não deveria confiar cegamente no que ela diz e sempre deve estar preparado para o pior. Sempre disponha de roupas e equipamentos para o pior tipo de clima que você pode encontrar na região onde esteja escalando. Isso pode significar levar o seu par de mitons e jaqueta de plumas de ganso para passear no dia de cume.

É impossível saber exatamente o que acontecerá com o clima futuro. O que é fato, é que quanto mais próximos estamos da data e hora que queremos prever o tempo, mais chances de "acertar" temos.

A previsão do tempo é diretamente relacionada à importância econômica do local em questão. Por exemplo, se você desejar escalar no Kangchenjunga, Nepal, terá muita dificuldade em encontrar uma previsão de tempo grátis e vai ter que desembolsar muito dinheiro para pagar um meteorologista para prever o tempo.

No entanto, em muitos locais montanhosos - como os que contém estações de esqui - existem sofisticados sistemas de previsão do tempo. Como eu disse, isso geralmente está ligado à quantidade de dinheiro envolvido nas atividades de montanha da região que você está. Se você estiver escalando o Everest, onde cada pessoa desembolsa pelo menos 35 mil dólares, muitos meteorologistas estarão sendo pagos para adquirir e analisar dados climatológicos e você não terá que se preocupar tanto em tentar prever o tempo utilizando o seu pouco conhecimento em climatologia (comparado ao de um profissional).

Em todos os refúgios de montanha nos Alpes você encontrará um papel colado na parede com a previsão de tempo de pelo menos os 3 próximos dias. Estas previsões são geralmente muito fiéis.
 

Não ignore o conhecimento popular

Lembro que uma vez, numa manhã de outono, eu estava aproximando uma montanha no País de Gales. Um lindo avermelhado amanhecer cobria o horizonte e como esta montanha não tinha nem 1000 metros de altitude eu só tinha uma jaqueta de Goretex e uma camiseta de algodão. Ao pular um pequeno riacho encontrei com um senhor pastando ovelhas. Numa rápida conversa, ele me disse:

_"red sky at night shepherd´s delight, red sky in the morning shepherd´s warning".

Esta é na verdade uma velha rima que eu jamais dei ouvidos (se traduz "céu vermelho à noite alegria ao pastor, céu vermelho de manhã atenção pastor"). Pensei comigo mesmo "esse velho está louco, se ele soubesse o que eu já escalei... isso aqui não é nada!". Ao passar do dia, aquelas nuvens do lindo amanhecer vermelho acabaram cobrindo o céu e começou a chover e nevar em poucas horas. Entendi bem o porquê daquele ditado e quase tive hipotermia descendo da montanha.

Sem saber, o velho pastor estava explicando que tanto no hemisfério norte quanto no sul, uma massa de nuvens à leste (onde nasce o sol) tende a se mover a oeste no decorrer do dia. Isto se deve à rotação terrestre que é de oeste para leste. Quando as nuvens estão à oeste (onde o sol se esconde), estas irão normalmente se dissipar para mais a oeste. Obviamente isto não é uma regra a ser seguida à risca, porém é bem provável que aconteça. Não é à toa que dezenas de gerações de pastores e marinheiros insistem em usar a rima.

Outro ditado oriundo dos Andes diz que:

"Cuando el cóndor vuela bajo, el tiempo se va al carajo". (acho que não precisa de tradução).

A idéia de um condor voando baixo se implica ao fato dele estar mudando ou procurando correntes térmicas. A presença de ar mais frio e pesado numa montanha geralmente significa que este provêm de uma massa fria que se moveu ao local em questão = tempo ruim.

Os habitantes locais geralmente sabem muito dos padrões climáticos das regiões onde cresceram. Preste atenção ao conhecimento popular e tente averiguar informações sobre o vento e precipitação do local que você está escalando.
 

Entendendo e utilizando dados sobre a pressão atmosférica

Algo muito útil que podemos fazer nas horas de ócio - que é algo muito comum em uma montanha de altitude devido à aclimatação - é medir a pressão local. Este simples dado pode nos fornecer detalhes muito ricos sobre o clima no futuro.

Aos que não lembram, a pressão atmosférica é a pressão exercida pelo peso do ar sobre uma determinada área. Dizemos que ao nível do mar a pressão é de aproximadamente 1 kg sobre cada centímetro quadrado (1,03323 kg/cm2). A 100 metros de altitude o ar pesa 1,01857 kg sobre cada centímetro quadrado. A 1000m, são 0,895682 kg/cm2 e a 8848m (cume do Everest) são 0,291909 kg/cm2.

Veja esta ferramenta para medir a pressão de acordo com a altitude:

http://www.calctool.org/CALC/phys/default/pres_at_alt

Existem inúmeras escalas para medir pressão atmosférica. No passado, muitos cientistas que não tinham o que fazer, inventaram diferentes formas de medir pressão, existe o bar, torr, PSI, bar, Atm, Pa e muitos outros. O que importa é que você observe o número, seja lá qual seja esta unidade, note variações e entenda elas. Para nós montanhistas é interessante saber daquelas que vamos encontrar normalmente. Nos nossos altímetros e aparelhos de GPS, a pressão é geralmente mostrada em milibares. Ao nível do mar por exemplo, o seu barômetro deveria marcar 1013,25 milibares ou 1,01325 bar. Se este não marcar a pressão correta, você deve calibrá-lo para aquela altitude.

Muitos escaladores possuem um daqueles relógios Suunto que vêm com um barômetro e altímetro. No caso destes relógios, a altitude é fornecida exclusivamente através da pressão local. Ao calibrar estes aparelhos você pode fazê-lo através de uma constante conhecida (pressão ou altitude). Por exemplo, se você estiver no Aconcágua e souber a altitude exata de um local (que foi medida com um GPS de precisão, ou mesmo seguindo uma maioria de opiniões), você pode calibrar o seu altímetro barométrico inserindo a altitude local. O mesmo pode ser feito no cume de uma montanha ou na beira do mar. Fazendo isso, você fará com que o seu aparelho seja mais preciso no futuro. Tenha em mente que se você se mover em grandes distâncias, o seu aparelho deveria ser re-calibrado.

Outros aparelhos como alguns tipos de GPS mostram a altitude triangulando a sua posição através de vários satélites orbitando na Terra. Outros fornecem a altitude usando um barômetro e outros usam as duas formas de medida para mostrar uma altitude mais precisa. LEIA O MANUAL DO SEU APARELHO!

Após você ter calibrado o seu aparelho, você pode se dar ao luxo de entrar na sua barraca e ver como o seu barômetro varia. É importante lembrar que se você estiver se movendo e sua altitude variar, sua pressão local também vai variar. Portanto as diferenças de pressão que você está procurando devem ser medidas num mesmo lugar. Muitos aparelhos até dispõem de gráficos de tempo x pressão local e você vai ter uma visão clara do que está acontecendo com a sua pressão local.
 

Mudanças na pressão

Levando em conta as considerações acima, monitore a pressão atmosférica local por pelo menos 3 ou 4 horas. Isso trará muitas pistas sobre o comportamento do clima:

Uma queda de 1.2 a 1.8 milibares na pressão ou um aumento de 12 a 18 metros na sua altitude pode significar que a cobertura de nuvens (se houver uma) está abaixando ou ficando mais espessa. Também pode significar que um vento de aproximadamente 32 km/h está soprando acima do seu local de escalada. Continue monitorando a pressão.

Se a queda for mais ou menos constante e continuar por mais horas, considere que haverá precipitação dentro de pouco tempo.

Ainda dentro de 3 horas, se a pressão decair entre 1.8 e 2.4 milibares ou sua altitude aumentar entre 18 e 24 metros, considere que você poderá estar exposto a ventos de 33 a 60 km/h.

Altos e baixos na pressão atmosférica local num pequeno lapso de tempo, significa que você está dentro de uma depressão no terreno e ventos em maiores altitudes estão soprando com velocidade.

Uma queda de 900 milibares ou um aumento de 829 metros na sua altitude significa que você está no olho de um ciclone tropical nível 5 e provavelmente já deve ter notado uma pequena diferença no vento do lado de fora.

Novamente, para os que não lembram, o ar se desloca de um lugar para outro por diferenças de pressão. Isto significa que se você estiver numa área onde o ar estiver mais leve (com moléculas mais distantes umas das outras = ar mais quente), você vai registrar uma queda de pressão. Se uma área vizinha contêr ar mais pesado (com moléculas mais próximas umas das outras = ar mais frio), o ar mais pesado irá se deslocar para a área que você está. Isso não é nada mais nada menos o que chamamos de VENTO.
 

Uma complexa máquina chamada vento

Como você já sabe, a temperatura tem um importantíssimo papel no movimento do ar no sentido horizontal. Entretanto, o vento pode ser também de cima para baixo ou vice-versa. Quando o ar esfria este "cai" na atmosfera, fazendo com que a pressão suba. Quando o ar esquenta este sobe, fazendo com que a pressão diminua.

O movimento vertical do ar tem um importante papel na dissipação de ou geração de nuvens. Ao se mover de uma zona de alta pressão para uma zona de baixa pressão, o ar pode trazer vapor que mais tarde pode se condensar em forma de nuvens. A capacidade de carregar vapor d´água está diretamente relacionada com a temperatura do ar. Ar mais quente tem maior capacidade de carregar vapor do que ar frio.

Numa escala planetária, o ar presente nos pólos é mais denso e escoa para zonas de latitudes mais baixas. Nas altitudes mais baixas este sofre ação da intensa radiação solar e acaba ganhando altitude. Durante a subida este esfria e ganha maior densidade, caindo nas zonas subtropicais. Parte do ar de alta pressão na região subtropical do planeta escoa de volta às regiões sub-polares de pressão mais baixa. Isso cria um imenso círculo de troca de ar no planeta e explica os ventos N>S e S>N no planeta.
 

Influência da rotação terrestre

Se o planeta não girasse o pesado e denso ar polar não iria parar de cair em direção ao equador. O calor intenso nesta região faria com que o ar aqueça e ganhe altitude, criando um anel de baixa pressão ao redor do equador. Isso faria com que o ar ficasse preso num círculo vicioso dos pólos ao equador e vice-versa como foi descrito acima. No entanto não é somente isso o que acontece. Ainda existem ventos ventos no sentido horizontal do planeta.

Olhando o planeta de um perfil com o N para cima e o S para baixo, observamos que o vento é desviado para a direita no hemisfério norte e esquerda no hemisfério sul. Podemos dizer que isso se deve à uma lei física chamada Efeito Coriolis. Este efeito está diretamente ligado à rotação terrestre e à força centrífuga que o ar sofre durante o processo.

Misturando a radiação solar e a rotação do planeta (Coriolis e inércia), obtemos um regime de ventos predominantes do planeta (quinta foto na coluna ao lado).



Ventos do mundo

Aprofundando-se um pouco mais, percebemos que o regime dos ventos não depende só da radiação solar e da rotação do planeta. Existem milhares de fenômenos localizados em cada parte do planeta e conhecê-los pode nos ajudar muito a preparar as nossas escaladas.

Estes fenômenos são muito mais caóticos do que o bonito regime descrito acima. Dependem não só dos 2 fatores que conhecemos, mas também da época do ano, altitude local, precipitação, manchas de vegetação, temperatura dos oceanos, temperatura do solo, etc, etc e etc. Longe de tentar equacionar e explicar estes fenômenos, estou simplesmente tentando demonstrar a sua presença para ajudar escaladores.

Lembro que no final de 2009 eu estava escalando nos Andes centrais e fui surpreendido por ventos de mais de 100km/h. Minha barraca ficou aos pedaços e minha parceira perdeu o capacete no vento !!! Tratava-se de algo chamado "Viento Zonda" que mais tarde eu viera saber que era comum naquela região. Se eu tivesse lido este artigo antes de 2009, poderia ter completado a minha escalada, minha parceira ainda teria o seu belo capacete laranja e a minha barraca ainda estaria em um pedaço.


Escalando na região da Puna do Atacama em 2011 eu estava com o lado direito inteiro da minha calça de Goretex rasgado. Como eu sabia com que tipo de vento eu estava lidando, pude me dar ao luxo de planejar a minha ascensão para que o vento estivesse soprando do lado esquerdo do meu corpo assim eu não congelava as minhas b... Se tratava dos Ventos do Oeste

Estudando um pouco contei pelo menos 43 ventos regulares no planeta, porém vou citar aqui os que importam para os montanhistas:
 

Ventos de Oeste

Ventos de Oeste são um dos mais chatos que conhecemos nos Andes Centrais, Puna do Atacama e Andes Ocidentais. O esquentamento do solo no continente durante as primeiras horas de luz, causa com que este vento comece a soprar geralmente a partir do meio dia e dure toda a tarde. Diferenças regionais no entanto fazer com que tempos e intensidades mudem muito. Há lugares onde Ventos de Oeste sopram por mais de 20 horas por dia!
 

Ventos Abrolhos

Só por curiosidade estou citando estes ventos que atingem o alto mar, fora da costa sudeste do Brasil. É uma violenta brisa que ocorre principalmente entre maio e agosto. Como pode ser visto no mapa acima, é causado pelos ventos alísios de sudeste. No caminho estes adquirem calor e umidade quando cruzam a corrente de água quente sobre a costa brasileira.
 

Vento Andhi

O Kali Andhi ou tempestade negra é uma violenta e repentina tempestade de poeira que antecipa a chegada das tempestades de monção no noroeste da Índia. Andhis são o sinal de "volte para casa" aos escaladores se aventurando pela região durante o pré monção. Estes geralmente antecipam as tempestades de Monção.
 

Vento Föhn (ou foehn)

Ventos Föhn se transformaram num termo genérico que descreve ventos quentes de grande velocidade que sopram de cima para baixo numa encosta montanhosa. Apesar de ocorrerem originalmente nos Alpes, Föhn se transformou num termo geral que descreve o fenômeno em várias cadeias do mundo, inclusive nos Andes. Exemplos de Föhn seriam ventos Chinhook (América do Norte), Zonda (Andes Centrais) ou Ventos Helm (Inglaterra).

No seu "habitat" original, os Alpes, os Föhn são conhecidos pelo seu aumento repentino de temperatura na medida que descem uma encosta montanhosa. Estes normalmente são responsáveis pelo derretimento de quantidades incríveis de neve em pouco tempo. Normalmente aparecem quando uma tormenta move-se sobre os Alpes.

Sua formação é um tanto interessante e vale a pena entendermos ela para saber qual o tamanho da perrengue que enfrentaremos em cadeias do mundo.

Como cobaia para meu exemplo, vou citar o bom o velho Monte Eiger assim entendemos como e porquê as tempestades são tão rápidas e fortes por ali.

Imagine que numa linda e bela manhã na região do Mar de Luguria onde estão belos lugares como Mônaco ou Gênova, uma brisa sopra sobre estas cidades em direção ao continente. Este ar com temperatura moderada (+-20ºC) mas carregado de umidade, começa ao nível do mar e por diferença de pressão este é puxado para o continente.

Ao encontrar a primeira grande barreira montanhosa, os Alpes Lepontinos, com altitudes medianas (+- 3000m), as leis físicas entram em ação. A descompressão e o ganho de altitude fazem com que este ar esfrie em aproximadamente 1 grau Celsius para cada 100m de altitude ganhos. Eventualmente a massa ficará saturada e a sua umidade irá condensar. No nosso exemplo, a altura onde isso acontece é de aproximadamente 600m, nas encostas sul de montanhas como o Monte Leone, Bortelhorn, Hillehorn e Helsenhorn.

Ao perder umidade, o ar agora conduz temperatura de forma mais demorada. A taxa de esfriamento no nosso exemplo agora cai para mais ou menos 0.6 graus de esfriamento para cada 100m de altitude ganhos. No fim, quando o ar culmina o topo dos Alpes Lepontinos, ele está no seu ponto mais frio, aproximadamente 1ºC.

Agora começa o truque da natureza. Ao "cair" do outro lado da montanha o ar agora está mais seco, porém frio. Ao descer, o ar agora assume uma forma chamada Onda Estacionária, onde ele copia a forma dada pela cadeia montanhosa anterior. Isso é mais ou menos o que acontece com a água ao passar por obstáculos sólidos (ondas de inércia aparecem no vento). Durante o processo de queda, o ar agora se comprime e ganha temperatura novamente na taxa de 1ºC para cada 100m.

Como o ar agora está seco, porém com força de vendaval, ele consegue absorver umidade local e derreter grandes quantidades de neve. Ao adentrar no vale do glaciar Aletsch, o maior da Europa, o vento ganha cada vez mais umidade e altitude. Quando ele culmina os Alpes Berneses onde está o Jungfrau, Mönch e Eiger, uma verdadeira tempestade vai invadir o vale rapidamente.

Os pobres escaladores ali além de terem uma tempestade invadindo o vale em poucos minutos, estarão pensando "Porquê não estou em Mônaco ou Gênova?"

Ventos ou tempestades geradas por ventos Föhn podem durar alguns minutos ou mesmo dias. Uma característica interessante que podemos observar nestas tempestades é que elas são geralmente antecipadas por uma distinta nuvem alongada, muitas vezes com linhas paralelas ou "andares" de nuvens. Muitas vezes no caminho de um vento Föhn, são formadas nuvens lenticulares, na qual trataremos mais tarde.



Vento Halny

Halny é um tipo de vento Föhn que sopra no sul da Polônia e Eslováquia nos Montes Cárpatos. Os piores Halny afetam a área de Podhale, no extremo sul da Polônia, vindos das encostas dos Montes Tatras.

Além de afetar os escaladores os Halny são responsáveis por vendavais que superam 120km/h arrancando tetos de casas, destruindo colheitas e causando avalanches. Normalmente entre outubro e novembro e algumas vezes em fevereiro, sendo raros em outras épocas do ano.
 

Vento Puelche

O Puelche ocorre no sul do Chile. É um vento leste que cruza os Andes da Argentina para o Chile. Este é considerado um tipo de Föhn que envolve o ar úmedo do Oceano Atlântico. Este é influenciado por uma área de alta pressão sobre o Atlântico sul. Sua maior intensidade é geralmente durante a noite.
 

Vento Zonda

O Zonda é comum nas encostas leste dos Andes Argentinos. Este é também um tipo quente de Föhn que desce os Andes à velocidades incríveis. Geralmente acontece nos meses de inverno porém ultimamente pode se estender até meados do mês de novembro.

Acredita-se que o Zonda é originado por ar polar marítimo que assim como o Föhn europeu se aquece durante a descida. Devido à sua escala ser bem maior que a versão européia (este sobe até 6000m), o Zonda alcança velocidades incríveis e arrasa cidades como as de Mendoza e San Juan na Argentina. Na estação seca é comum observarmos uma barreira de poeira no céu. Ao observar um vale afetado por Zonda desde a altitude, podemos ver uma linha marrom por volta dos 5500m de altitude, que marca a poeira lançada ao ar.

Por sorte os Andes Centrais são bem mais secos do que os Alpes europeus e o Zonda não carrega tanta umidade na descida. Zondas têm um grande papel na formação e de penitentes nas encostas andinas.

Ventos Zonda podem facilmente superar os 120km/h e chegar a 40ºC nas condições mais extremas. Em vales da província argentina de San Juan, estes ventos são comuns em: Valle Tulúm, Ullum, Jachal e Zonda (de onde o vento recebeu o nome). Além disso o Zonda sopra na província de Mendoza (principalmente no noroeste) e na província de La Rioja.

Nas áreas mais comuns afetadas por Zonda, este sopra entre o meio dia até as 6pm e fica ininterrupto por períodos de 2 a 12 horas. Observa-se que o Zonda sopra por períodos intermitentes que duram de 2 a 3 dias.

A boa notícia para os escaladores é o que o Zonda requer condições específicas para soprar e pode ser previsto com até 1 semana de antecedência. Já para os moradores locais o Zonda trás muita neve e precipitação para os cumes mais altos da Cordilheira. As colheitas desta árida região argentina são extremamente beneficiadas pela água que o Zonda "roba" do Oceano Pacífico.
 

Jetstreams ou Correntes de Jato

Apesar de se tratar de um fenômeno de escala global e não regional, vale a pena citar os Jetstreams devido à sua influência no montanhismo. Para tratar dos Jetstreams os interessados deveriam ler um artigo inteiro que dediquei a esta incrível força da natureza
 


Existem outras dezenas de ventos e fenômenos localizados no planeta, porém estes não são tão importantes para o montanhismo:

•    Vento Autano em Lauragais e Toulouse na França
•    Vento Barat no noroeste da Indonésia
•    Vento Barber no norte e nordeste da América do Norte
•    Vento Bise na Suíça e França
•    Vento Bergwind na África do Sul
•    Vento Bora no Mar Adriático e costa dos países balcânicos
•    Vento Brickfield no sudeste australiano
•    Vento Buran na Ásia central, Sibéria e Alaska
•    Vento Calima nas Ilhas Canárias
•    Vento Chinook no oeste da América do Norte
•    Vento Canterbury Northwester no sul da Nova Zelândia
•    Vento Cers no Vale Aude na França
•    Vento Chergui no Marroco e norte da África
•    Ventos Estésios na Grécia e Mar Egeu
•    Vento Sirocco no deserto do Saaara
•    Vento Habub no Sudão
•    Vento Helm na região da Cumbria, Inglaterra
•    Vento Qauajel na costa da Bulgária
•    Ventos Catabáticos na Antártida e Groelândia
•    Ventos Chamsin no norte da África e península Arábica
•    Vento Levanter em Gibraltar
•    Vento Leveche no sudeste da Espanha
•    Vento Lombarda na fronteira italiana e francesa
•    Vento Marin no sudoeste da França
•    Vento Mistral nos Pirineus
•    Vento Mazgotl na Alemanha e Polônia
•    Vento Pampeiro na Argentina e Uruguai
•    Vento Ponente no estreito de Gibraltar e noroeste do Mediterrâneo
•    Vento Santa Ana na Califórnia
•    Vento Simoom no Saaara e Arábia
•    Vento Squamish na British Columbia, Canadá
•    Vento Tehuantepecer no sul do México
•    Vento Tramontana no norte da Espanha
•    Vento de Vardar no norte da Grécia e Macedônia
•    Vento Williwaw no Estreito de Magalhães e Ilhas Aleutas
 

Fatos sobre vento

Seja lá qual é o vento que você estiver enfrentando, acho muito importante você entender como é que esse vento vai afetar o seu corpo quando você estiver exposto. A chamada sensação térmica está diretamente ligada à velocidade do vento. No entanto também está relacionada à umidade relativa do ar em questão e o tempo que você for exposto à determinada temperatura. De forma geral, consulte a tabela na coluna ao lado (última da lista) para determinar a sensação térmica à qual você será exposto.

Outro fato interessante que eu gostaria de citar é algo que poucos levam em conta ao considerar o vento ao qual estamos expostos que é a geografia do local. Por exemplo, se você está exposto à vento de oeste e está escalando num local com montanhas ao norte e ao sul (que é algo extremamente comum nos Andes), há grandes chances que o vento se canalize no colo onde você está e duplique de velocidade. A razão para isto é na verdade muito simples. Observe coluna ao lado um esquema tosco que desenvolvi para explicar estes ventos canalizados.

No esquema, uma faixa de vento soprando a 50km/h desde oeste foi canalizada entre os Cerros Colorado e Rincón.Um escalador parado no colo entre as duas será surpreendido por ventos de mais de 100km/h. Por isso, mesmo tendo uma previsão de vento de 50km/h, SEMPRE leve em consideração a geografia local.

Outro recurso que pode ajudar a planejar a sua expedição que na verdade não tem a ver com vento e sim com temperatura, é a Altitude de Congelamento ou Isoterma de Zero Graus. Isto define a que altitude a temperatura será abaixo de zero. Para calcular basta usar a seguinte constante:


Como exemplo prático podemos tentar estabelecer o ponto de congelamento do Parque Nacional do Itatiaia no Brasil. Supondo que estamos dormindo no Abrigo Rebouças (isso se você tiver sorte de conseguir uma cama por lá... enfim...) e a temperatura ali é de 2.6ºC. Lembrando que a altitude do Rebouças é de 2392m, você pode calcular:

Pelo que parece, as poças d´água no cume das Agulhas Negras estarão congeladas ao amanhecer.

CONTINUA...




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