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História do montanhismo

Reinhard Maack – Geocientista e aventureiro


Categoria: Personalidades

O geólogo alemão Reinhard Maack é considerado por muitos como o pai da Geografia e Geologia do Estado do Paraná. Porém, além da importância de seus estudos para o reconhecimento das paisagens no Estado, Maack foi um explorador e sua vida é um capítulo onde a história das geociências e do montanhismo brasileiro se cruzam. Conheça um pouco a vida deste ilustre alemão de coração brasileiro.

Maack nasceu na Alemanha em 1892. Aos 18 anos especializou-se em geodésia (área vinculada à engenharia cartográfica), mas era muito inquieto e queria conhecer o mundo. Como era plena época das grandes expedições exploratórias, ele se inscreveu para participar da expedição alemã à Antártida no período 1911/1912, a mesma temporada em que o Pólo Sul foi conquistado pelo norueguês Roald Amundsen. Maack não foi aceito na expedição por ser muito jovem, mas decidiu que iria conhecer o mundo.

Em maio do mesmo ano, viajou para o Sudoeste da África para tentar a sorte e conseguiu emprego no Serviço Geodésico de Windhoek, na Namíbia. Porém, a I Guerra Mundial eclodiu e ele foi convocado para servir ao Exército Alemão. Ao longo de um ano de combates, a pequena unidade militar onde servia se rendeu às tropas britânicas, mas ele e seis companheiros fugiram e tentaram cruzar o continente africano para se juntar às outras tropas que se situavam no Leste da África.

Quatro de seus companheiros foram capturados pelos ingleses, mas Maack, um sargento e um suboficial continuaram fugindo e foram forçados para o norte do deserto do Kalahari, dessa vez sozinho, onde permaneceu durante seis meses num solitário olho d´água.

Um ferimento o obrigou a procurar auxilio médico e ele foi para Swakopmund, onde encontrou A. Hofmann, um colega cartógrafo da Sociedade Colonial Alemã. Durante a permanência nesta cidade, Maack e seu companheiro tiveram a oportunidade de observar uma estranha elevação que eles calcularam estar a 250 Km de distância, sendo conhecida como montanhas Messum. No mapa, o ponto culminante constava como tendo 1100 metros de altitude, mas eles presumiram que era mais alto e que a altitude estava errada. Calculavam que a montanha tivesse aproximadamente 3000 metros de altitude, isto é, quase 3 vezes mais que o valor que constava no mapa.

Os dois resolveram explorar a área. Na primeira expedição fizeram o mapeamento, mas não conseguiram subi-la. Depois, em 1917, por conta própria, Maack organizou uma segunda expedição para chegar ao cume. Conseguiram e mediram a altitude. Descobriram que ela não tinha apenas 1100 metros, como constava no mapa, e sim 2606. Décadas mais tarde, medições utilizando métodos mais precisos revelaram a altitude de 2586 metros, sendo constatado que esta montanha era a mais alta do Sudoeste da África, sendo batizada de Brandberg. Os mapas da região produzidos por eles até hoje são utilizados devido à alta qualidade dos trabalhos.

Montes BrandBerg - Foto: paxgaea.com

Na volta desta expedição Maack descobriu uma gruta onde havia uma curiosa pintura rupestre e muitos artefatos pré históricos. Nesta pintura rupestre havia desenhado homens negros e brancos, o que instigou em Maack a hipótese de que os antigos Egípcios pudessem ter chegado até o Sul da África. Esta pintura foi estudada por diversos antropólogos e arqueólogos e é chamada de “Dama Branca”, sendo que até hoje divide cientistas e provoca polêmicas.

Em 1919 ele organizou outra expedição para a Namíbia, dessa vez para mapear o deserto. Ocorreram alguns problemas e Maack passou quatro dias delirando de sede e caminhando inconscientemente, até conseguir achar o oásis de onde ele havia partido. Apesar desse incidente, ele conseguiu realizar o trabalho.

Até 1920 viveu com nome falso, porque era fugitivo de guerra. Decorridos vários anos após o fim da I Guerra Mundial, acabou sendo reabilitado e voltou à Alemanha. De 1920 a 1929 trabalhou para uma empresa de mineração como engenheiro e foi quando o enviaram ao Brasil, em 1923, para trabalhar por quatro anos no Rio de Janeiro e em Minas Gerais.

Os trabalhos em minas de exploração despertaram nele a vontade de trabalhar em assuntos geológicos e ele resolveu voltar à Alemanha para estudar Geografia e Geologia. Em 1930, retornou ao Brasil, dessa vez trabalhando para a Universidade de Berlin para fazer levantamentos geológicos e geográficos no Paraná. Em 1930, resolveu ficar definitivamente no país, comprou terras no interior do Estado e deu prosseguimento aos trabalhos. Maack utilizou o Paraná como laboratório para seus estudos, começando por realizar pesquisas geológicas, depois topográficas e por fim estudando a fitogeografia do Estado.

O conhecimento adquirido na Namíbia e as experiências no Paraná levaram Maack a tecer considerações sobre as origens dos continentes americano e africano, numa época em que falar em deriva continental era considerado uma heresia. Maack comparou rochas de ambos os continentes, diamantes e os fosseis encontrados e um foi um dos precursores da famosa teoria. Talvez pelo ineditismo e a precocidade de suas considerações, ele foi desacreditado na comunidade cientifica.

Com sua sede por conhecimento, Maack se juntou com alguns dos melhores montanhistas de Curitiba na época e organizou expedições para medir e estudar as montanhas da Serra do Mar. Junto com Alfred Missing e Rudolf Stamm, ele descobriu a verdade altitude do Pico Paraná, que ele batizou. Assim ele desmitificou que o Monte Olimpo, no Marumbi, fosse a montanha mais alta do Sul do Brasil. O nome de diversas montanhas na Serra do Mar paranaense foi batizada por Maack, algumas, inclusive, para atenuar os conflitos com os governantes da época, como Getulio Vargas, que foi homenageado com o batismo do “Morro do Getúlio”.

Foto do Pico Paraná tirada do litoral por Maack

O batizado de cumes com nomes de políticos não amenizou os conflitos existentes entre Maack e as autoridades e com a entrada do Brasil na II Guerra Mundial, ele e outras pessoas importantes de origem alemã foram presas. Maack ficou seis meses numa penitenciária em Curitiba e depois foi transferido para o antigo presídio que existe na Ilha Grande (RJ). Foi libertado em 1944 por iniciativa de algumas pessoas influentes e colocado à disposição para trabalhar para o governo brasileiro.

Lecionou na Universidade Federal do Paraná, onde fundou o curso de Geologia, e ministrou cursos de Paleontologia, Geografia Física e Geologia, formando alguns dos geógrafos e geólogos mais importantes do Brasil. Foi naturalizado brasileiro em 1949 por possuir terras e uma filha brasileira.

Depois dessa fase e de ter desenvolvido vários trabalhos importantes, Maack tirou o título acadêmico de Doutor e realizou outros trabalhos e expedições exploratórias para estudar a origem da Serra do Mar. Participou de muitas outras expedições e congressos científicos em vários países de todos os continentes, tendo chegado, inclusive, próximo à base do Everest em 1964, quando tinha 72 anos, o que teria sido para ele uma de suas maiores emoções.

Na época, o Everest era um enorme de um mito, pouquíssimos montanhistas haviam chegado ao cume e um trekking até sua base era uma grande e difícil expedição.

Em 1968 ele foi a um Congresso de Geologia em Praga, na antiga Tchecoslováquia, mas o encontro não foi realizado porque coincidiu exatamente com a invasão do país pelos soviéticos. Ficou retido no hotel de onde assistiu da janela o massacre do povo tcheco, detonado pelos bombardeios soviéticos. Voltava à sua cabeça as memórias das guerras. No ano seguinte, com a idade de 77 anos, faleceu como cidadão brasileiro, após ter vivido 46 anos no país.

Os dados da Bibliografia de Reinhard Maack foram compilados da introdução do livro “Geografia Física do Estado do Paraná” Editora José Olympio 1981. Esta biografia foi publicada no livre de Antonio Paulo Faria “Montanhismo Brasileiro: Paixão e aventura” e modificado por Pedro Hauck para o AltaMontanha.com




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