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Do escritório aos Andes: A História do guia de montanha Edu Tonetti


Categoria: Entrevistas

Eduardo Tonetti é um dos poucos montanhistas brasileiros que realmente vivem da atividade. Longe dos holofotes, este paulistano de 45 anos mora atualmente em Mendoza, na Argentina, e ganha a vida com seu trabalho como guia de montanha. Após se cansar da rotina exigente que vivia em São Paulo, Eduardo reinventou a própria história de maneira corajosa, ao se mudar para a Argentina e graduar-se como guia de montanha – ele é um de pouquíssimos brasileiros a obterem a certificação. Aqui, Edu conta um pouco sobre sua inspiradora história, como foi a mudança para a Argentina e como é sua vida agitada perto das montanhas de lá.

AltaMontanha: Edu, você tinha uma vida um tanto que agitada. Como era sua vida antes do montanhismo e como você começou a escalar?
 
Edu Tonetti: Desde 1998 eu era arte finalista em agencias de publicidade e tinha uma jornada de trabalho bastante puxada. Trabalhava por volta de 16h/dia, tinha uma vida sedentária e o estresse do trabalho e do transito diário, que chegava a 4/5h por dia, me lavaram a 98 kg de peso corporal (tenho 1,85m, meu peso ideal é 82 kg) e duas crises renais as quais me levaram a parar no hospital.
 
Após algumas análises do “porquê” destas crises, cheguei à conclusão que meu ritmo de vida estava totalmente conectado a este meu estado crítico e que tinha que fazer alguma coisa para mudar isso ou continuaria sofrendo devido a esta situação.
 
Por um ano pratiquei aeromodelismo com a intenção de desconectar um pouco desse ritmo alucinante que eu vivia, mas ai me dei conta que esta atividade apenas resolvia um dos dois problemas mais urgentes que tinha no momento, que eram físico e mental.
 
Foi no final de 1999 que decidi voltar a treinar e a escalada em rocha me atraiu muito, mas meu peso praticamente me proibia seguir com esta atividade por motivos óbvios, suspender todo este peso era demasiado para meus músculos e tendões.
 
Juntamente à escalada em rocha, comecei praticar ciclismo e ter uma alimentação mais saudável.
 
Em 4 anos baixei meu peso a 80 kg e estava escalando e pedalando como nunca, nesse ponto surgiu a oportunidade de conhecer a “tal” da alta montanha.
 
AM: Quando foi sua primeira experiência nos Andes e como decidiu ir morar na Argentina?
 
ET: Em 2004 meu ritmo de treinamento estava bastante forte, estava escalando de 4 a 6 dias por semana e treinando por volta de 3h diárias. Já havia escalado, pedalado e caminhado por muitos lugares em Minas Gerais, São Paulo e Rio de Janeiro, e fui pra Argentina com toda energia e vontade de escalar que era possível no momento.
 
Foi ai que conheci Mendoza, o Cordón Del Plata e Arenales, em uma viagem de duas semanas à Argentina.
 
Escalei o Cerro Plata, com 5.943m, o Cerro Vallecitos, com 5.450m e o Cerro Rincón, com 5.250m, em 9 dias, todos no Cordón Del Plata em Mendoza.
 
Depois fui escalar com meus companheiros em Arenales, também em Mendoza, e ficamos 3 dias a mais escalando paredes e agulhas nesse lugar magnífico chamado Cajón de los Arenales.
Me apaixonei por tudo isso e voltei ao Brasil já planejando como voltar a Argentina para escalar outras montanhas, tudo isso entre 2006 e 2010.
 
Em 2007 fui por 50 dias para Mendoza e passei 28 em alta montanha. Quando voltei para São Paulo, haviam furtado praticamente tudo na minha casa e foi quando me dei conta que já não suportava mais essa rotina de 4/5h por dia de trânsito e falta de segurança que se vê diariamente nesta cidade.
 
Em uma conversa com um amigo num domingo frio e chuvoso na minha casa na Serra da Cantareira, surgiu a idéia de cursar uma escola de nível superior para formação de guias de alta montanha e trekking em Mendoza (EPGAMT – Escuela Provincial de Guías de alta montaña y trekking). Daí foram 3 anos  planejando como transformar isso em realidade.
Em meados de 2010 vendi minha casa e com isso pude financiar tal mudança. Fui com mala e cuia para Mendoza em novembro de 2010, e com todos os documentos e exames necessários para inscrever-me na escola de guias e fazer minha radicação na Argentina, necessários para poder estar no país por mais tempo que os 3 meses de visto que dão para turistas - afinal, a escola de guia na modalidade presencial tem duração de 3 anos.
 
AM: Como foi sair de São Paulo e se mudar de vez para Mendoza? Como é a experiência de viver perto dos Andes?
 
ET: Para mim essa mudança foi muito agradável e de certa forma simples. Existem várias diferenças nos costumes e na forma de vida dos argentinos e brasileiros, mas como sou flexível e estava altamente motivado por todas as oportunidades que se abriram com esta mudança, fui me adaptando com facilidade aos desafios que surgiram.
 
Outras coisas que facilitaram essa mudança foram que Mendoza é uma cidade linda, de clima bastante agradável a maioria do ano, e como a princípio fui viver num hostel, minha vida era bastante movimentada, com festas, churrascos, boas amizades e conhecendo gente que vinha de todas partes do mundo, com culturas e histórias diferentes e muito interessantes. Tinha uma vida bastante divertida e agitada nesse momento, e ela continua assim, apenas mudei o ritmo.
 
Eu me sentia de férias ou que estava passando um ano sabático, apesar de ter começado a freqüentar a escola em abril de 2011. Também posso dizer que fui recebido de braços abertos por todos que conheci em Mendoza ao longo do tempo que vivo aqui.
 
Falava em espanhol praticamente todos os dias e passei 3 meses e meio estudando uma apostila que nos deram no momento da inscrição na escola de guia, com isso também pratiquei bastante o falar e a escrita em espanhol.
 
Uma coisa bastante interessante foi ter os Andes a poucos quilômetros de casa. Sair a uma expedição era simplesmente uma questão de programar-se com comida, armar a mochila e tomar um ônibus. Em uma hora e meia estava aos pés de montanhas de 3 a 6 mil metros, ou em um lugar de escalada em rocha ou gelo, dependendo da época do ano.
 
Era um sonho tornando-se realidade, nunca me senti tão realizado, esperançoso e feliz em toda minha vida. Estava na montanha todo tempo que tinha disponível, com isso também estava aclimatado e forte todo o ano e minha vida havia mudado de horas e horas de trabalho e trânsito para uma vida de adolescente recém começando a vida. Quem tem a possibilidade de viver sua adolescência duas vezes numa mesma vida?
 
AM: Você é um dos poucos brasileiros que fez o curso da EPGAMT. Conte-nos um pouco sobre o que é este curso, quanto tempo ele tem de duração e como se faz para se certificar nele?
 
ET: EPGAMT significa “Escuela Provincial de Guías de Alta Montaña y Trekking” e desde 2007 conta com a formação de Guia de Montanha também.
 
É uma escola técnica de nível superior em atividades de montanha, reconhecido pelo ministério da educação da Argentina, com especialização em alta montanha, montanha e trekking, e se pode cursar de forma presencial ou a distancia. Tem com o objetivo formar recursos humanos altamente especializados para desenvolver atividades na natureza, como guia em uma das três especializações, e formar técnicos de nível superior que possam integrar-se a equipes encarregadas da organização e condução de diversas atividades em meio a alta montanha, com gestão privada e/ou estatal.
 
A duração para formar-se como guia de trekking é de 2 anos e meio a 3 anos, depende do ritmo de cada aluno para levar seus trabalhos práticos e o trabalho de final de curso.
 
A partir deste ano, 2015, para formar-se como guia de montanha ou alta montanha é exigido ter o título da especialização anterior, ou seja, para guia de montanha tem que haver terminado a especialização de trekking e para alta montanha a de guia de montanha. Assim, o título para guia de montanha chega a 4 anos e de alta montanha a 5 anos.
 
Para estudantes brasileiros a instituição pede uma validação da conclusão do ensino médio para a Argentina.
 
AM: Como você fez para ganhar a vida na Argentina sendo estudante, antes de se formar?
 
ET: Eu tinha como ideal ter boas notas, participação ativa e causar um bom impacto junto ao corpo docente na escola de guias, isso tudo com a intenção de facilitar minha entrada na sociedade e no mercado de trabalho aqui na Argentina.
 
Quando estávamos para terminar o primeiro ano, comentei com uma companheira da escola que já trabalhava em uma grande empresa que presta serviço no Aconcagua, que eu tinha intenção de trabalhar e se havia alguma possibilidade de conseguir, mesmo que por meio período, um trabalho nesta empresa.
 
Ela me passou o contato de RH e eu mandei meu currículo me colocando à disposição para qualquer trabalho que houvesse disponível.
 
Falei com o encarregado dos “porters” (carregadores para os campos de altura no Aconcagua) e ele me advertiu que era um trabalho pesado e de muita responsabilidade, e me perguntou se eu assumiria tal responsabilidade.
 
Aceitei porque sabia que estava a altura de tal trabalho e porque já me colocaria em uma boa posição no mercado de trabalho de montanhismo por aqui. E assim consegui meu primeiro trabalho. Exatamente um ano depois de ter chegado à Argentina, eu começava meu primeiro emprego, registrado e em uma das maiores empresas do mercado de expedições do Aconcagua. Infelizmente essa data também marca um acontecimento muito triste na minha vida, o falecimento da minha mãe, fato do qual que me inteirei 5 dias após ocorrido, quando eu já estava armando o acampamento base da empresa para quem fui trabalhar em Plaza Argentina no Aconcagua.
 
Por ser um trabalho de temporada e a mesma ser completamente fora do ano letivo, não atrapalhou em nada meus estudos, ao contrario, vários professores também trabalham como guias no Aconcagua e me viram trabalhando toda a temporada, que são 4 meses, e gostaram do que viram, isso facilitou muito meus anos seguintes.
 
AM: Atualmente, como faz para ganhar sua vida por ai?
 
ET: Quando terminei a escola de guia, já trabalhava no Parque Provincial Aconcagua fazia 3 anos, e já podia prestar serviço de assistente em expedições no parque por já haver recebido meu título de “Guía de Trekking”.
 
Conheci o Máximo Kausch na temporada de 2012/13 quando eu ainda trabalhava como porter, e me faltava um ano pra receber o título que me permitiria assistir expedições ao Aconcagua ou trabalhar como guia de trekking no parque.
 
Para a temporada de 2013/14, já com o título em mãos, conversei com o Max e ele me ofereceu um trabalho de assistente no Cerro Plata e falamos da possibilidade de também trabalhar como assistente para janeiro ou fevereiro de 2014 no Aconcagua. E a oportunidade surgiu em fevereiro, onde pude participar de uma baixada de clientes em meio a uma das tempestades “daquelas” no Aconcagua, com direito a viento blanco e temperaturas próximas a -15 graus Celsius. Felizmente conseguimos baixar com os membros da expedição e saímos todos ilesos.
 
Também através do Máximo surgiu a oportunidade de levar dois clientes ao Cruce de los Andes, que conecta a Argentina ao Chile cruzando os Andes centrais, que foi um dos trabalhos mais gratificantes que fiz por aqui.
 
Nesta temporada passada, 2014/15, estivemos juntos em quase todas as expedições e pusemos clientes no cume em todas. Foram seis expedições, sendo que em cinco delas estávamos juntos. Foram elas: uma ao Cerro Plata, duas ao Aconcagua, uma ao Mercedário e uma ao Ojos Del Salado, sendo que nesta última pusemos os clientes no cume de duas montanhas que superam os 6.000m.
 
E é assim que ganho minha vida por aqui atualmente. Meu caminho ao trabalho pode até demorar uns pares de horas e o trabalho em si pode chegar a durar semanas, mas sem dúvida tenho muito mais tranqüilidade e qualidade de vida do que tinha antes, indo e vindo todos os dias do trabalho e expondo meu corpo e minha mente muito mais do que trabalhando como guia de montanha.
 
AM: Como brasileiro, qual foi sua principal dificuldade em morar em Mendoza? Como os argentinos lidam com o fato de você ter nascido num país sem altitude?
 
ET: Minha maior dificuldade em viver aqui foi deixar minha família e amigos. Com muito esforço e sorte, consigo a cada 18 meses aproximadamente voltar ao Brasil e revê-los.
Outra dificuldade é falar e entender o que os outros falam, mesmo depois de 5 anos vivendo aqui as vezes sinto alguma dificuldade para expressar-me. Nos dois primeiros anos em que estava aqui, foi uma barreira que me custou superar.
 
Não tive problemas com a questão de “o que eles pensaram por eu ser brasileiro e não ter grandes altitudes no Brasil” porque quando comecei o curso eu já tinha mais experiência com alta montanha do que a grande maioria que estudava comigo. Por incrível que pareça, havia alunos que não sabiam nada e nem tinham experiência nenhuma em alta montanha.
 
AM: Nestes anos de andinismo, qual foi seu maior perrengue?
 
ET: Foi quando me propus a fazer “solo” a parede sul do Vulcão Tupungato, entrando pela quebrada onde nasce o Rio Tunuyan que está localizado na cordilheira central, na altura da cidade homônima.
 
Fiquei doze dias sozinho no meio da cordilheira central, isolado de tudo e de todos, e com um rio de corredeira de uns 60km/h, que mede de 4m a 6m de largura e com 1 a 1,5m de profundidade.
 
Eu havia tentado cruzar o rio por três vezes sem sucesso, e depois de oito dias isolado decidi que cruzaria de qualquer forma na manhã do dia seguinte, porque em suas primeiras horas, 5 ou 6 da manhã, é quando o rio tem menos volume e força.
 
Acordei cedo, juntei minhas coisas na mochila e deixei a barraca onde estava caso não conseguisse cruzar o rio, e caso conseguisse, planejava voltar a cavalo um outro dia para buscá-la.
 
Ao tentar cruzar o rio, quando dei o terceiro passo, meu pé de apoio não chegou a firmar-se no fundo e fui de cara no rio.
 
Nesse momento pensei que morreria, porque o fluxo do rio, mesmo sendo seis horas da manhã, era bastante forte e me arrastaria para o fundo contra as rochas. Mas não foi bem isso que aconteceu. Quando me dei conta eu já estava deitado de costas na margem fora do rio. Tinha os dedos da mão direita machucados e sangrando muito, mas fora isso estava bem.
 
Para mim foi um milagre e um sinal que não deveria continuar tentando. Então esperei por mais três dias e cheguei a ficar praticamente sem comida, até que apareceu o arriero que eu já havia contratado com as mulas para me tirar daí.
 
AM: Comparando o meio da montanha da Argentina e do Brasil, como é a organização e comprometimento dos montanhistas aí? Você acha que o montanhismo argentino é muito mais avançado que o brasileiro?
 
ET: Acho que o montanhismo aqui é mais avançado pela proximidade das montanhas e por haver, de certa forma, uma cultura de montanha. Um bom exemplo é a existência da própria escola de guias, que é certificada e reconhecida pelo ministério da educação como um curso terciário ou superior, e existe em três províncias na Argentina, Buenos Aires, Mendoza e Córdoba, e estão criando outra no sul.
 
Ademais, é difícil fazer tal comparação pela própria questão de que no Brasil não se considera a existência de montanhas e sim de montes, e há a inexistência da cultura de montanha.
Os montanhistas em si, os que realmente praticam montanhismo, me parece que são tão bem organizados e tão comprometidos aqui como no Brasil, mas não me sinto muito confortável em falar sobre isso por estar a muito tempo fora e sem saber realmente como estão se organizando por ai.
 
Aqui temos o Aconcagua, que é um ícone protegido por um parque e que todo o mundo conhece. Em Mendoza tudo em relação a montanhismo é um pouco mais desenvolvido, mas se fizermos um comparativo por exemplo com a França, é bem possível que a organização e comprometimento sejam menores aqui do que lá, ou se compararmos São Paulo com o Rio de Janeiro ou Minas Gerais. Sampa está muito mais para trabalho do que para montanhismo, e assim vai... é tudo bastante relativo.
 
AM: Quais são seus planos futuros no montanhismo?
 
ET: Esse ano estou cursando para receber o certificado de guia de montanha, coisa que em outubro já devo ter em mãos, e fiz a metade de um curso de Coaching Ontológico, que pretendo terminar entre o próximo semestre e o primeiro semestre do ano que vem. 
 
Como também trabalho com desenvolvimento humano e pessoal, tenho um projeto que usa a montanha como ferramenta para o desenvolvimento pessoal, assim uso as duas certificações: a de guia e a de coaching. Com isso, proponho a pessoas que talvez nunca tenham ido a uma montanha a ir, mas com outro objetivo, o de utilizar este espaço para aprender sobre si mesmo, sobre o outro e também sobre a natureza e sua importância em nossas vidas.
 
Esse é meu plano máster em relação ao meu futuro no montanhismo, e em paralelo a isso seguir buscando desafios interessantes e bonitos como escalar montanhas com pouco ou nenhum acesso, como o projeto do Máximo de escalar montanhas de 5.000m virgens; escalar a parede sul do Tupungato (que desde 2006 não tive mais a oportunidade de tentar e sei que não tem muitas ascensões), escalar o Meson de San Juan, uma montanha linda de 6.100m aproximadamente, que está na rota do Cruce de los Andes; escalar o Cerro Marmolejo, o seis mil mais austral do planeta, pela Argentina e que também está na rota do Cruce de los Andes, e por ai vai, não quero apenas o comum, quero o desafio, onde não vão as massas e que têm a sua beleza própria mais a beleza da solidão: é lindo ir escalar uma montanha e não encontrar com ninguém e nenhum vestígio do ser humano.



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