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Andinismo

Paula Kapp: Sete montanhas de seis mil metros em 1 ano


Categoria: Entrevistas

Paula Kapp é uma gaúcha de 36 anos, nascida em Porto Alegre, mas que mora há 12 no Rio de Janeiro. Ela é assistente social e professora universitária na UFF, onde trabalha há 6 anos. Pouco conhecida no meio do montanhismo, em apenas um ano, Paulinha como é conhecida escalou 7 montanhas acima dos Andes acima de 6 mil metros. Foram elas: Vicuñas (6066m), Huayna Potosi (6088), Illimani (6438m), Baboso (6080m), Cerro Bonete Chico (6759m), Veladero (6430m) e Nevado San Francisco (6008m). Com estas ascensões ela se tornou a mulher brasileira com maior número de montanhas nesta altitude na cordilheira dos Andes que se saiba. O AltaMontanha bateu um papo com ela. Confira abaixo a entrevista e conheça um pouco de sua história e trajetória no montanhismo.

AltaMontanha: quando você começou a se interessar pelo montanhismo?
 
Paula Kapp: Quando fui morar no Rio de Janeiro, fui para estudar (fazer mestrado e doutorado) e junto com os livros me lembro de colocar uma botinha de trekking na mala e comprar uma mochila. Queríamos desbravar as montanhas no Rio. Acabou que tive que trabalhar e estava sem quase nenhum dinheiro no bolso e esse projeto só se realizou quando terminei o mestrado, quando fomos, sem nenhuma noção, para o pico da Bandeira.
 
Eu e uma amiga levamos uma mochila de mais de 25k cada uma, para passar dois dias ... não tínhamos nada impermeável (e choveu muito), nem sabíamos que existia uma lanterna de cabeça, e descobrimos a existência de um tal isolante térmico, por orientação dos guarda-parques.
 
AM: Mas mesmo diante da perrengue continuou na montanha. Como foi?
 
PK: Sim, fizemos o cume e arrumamos alguns amigos, foi incrível! Uma superação. Para chegar pegamos 3 ônibus viajamos a noite inteira, e quando chegamos, lembro que levamos mais de 6 horas para chegar no segundo acampamento (a distância entre o Tronqueira – Terreirão). Dormimos e pela manhã fomos para o cume com os amigos que tínhamos feito.
Nos emocionamos muito quando chegamos, pois, mesmo tendo feito algumas trilhas, nunca tínhamos ido para fazer uma montanha maior e acampar. Quando chegamos novamente no Terreirão, com fome, pedíamos para o pessoal comer nossa comida para aliviar o peso na descida. Aí que vimos o quanto estávamos despreparadas: Cheia de peso desnecessário, molhadas, sem nenhum equipamento adequado. Começamos a brincar da nossa situação, dizendo que depois desse perrengue o céu era o limite para nós .... E, tratando-se de montanhas o Everest era o limite. Desde então, nunca mais saí das montanhas ...
 
AM: Do pico da Bandeira aos Andes? Como veio a decisão?
 
PK: Fui fazendo montanhas, cheguei a fazer algumas com guias e depois com mais autonomia voltando a me aventurar apenas com os amigos. Quando fui pela primeira vez para alta montanha (2012), já tinha bons quilômetros rodados nas montanhas brasileiras, mas nunca havia imaginado os impactos do ar rarefeito e da baixa pressão atmosférica. Meu primo me convidou para fazer o Acampamento Base do Everest pois a notícia na família de que eu andava pelas montanhas já tinha se espalhado. Ele fez inicialmente uma programação para chegarmos até o BCE, Khala Pattar e o Island Peak. Depois eu li uma reportagem sobre os lagos da região de Gokyo, aí incluímos no roteiro Gokyo Ri (5340m. Nepal) e a travessia chamada Cho La Pass (5420m) no roteiro. Mas mesmo assim, como eu sou analógica, não procurei informações na internet e não conseguia entender muito o que estávamos planejando. 
 
Comecei a ler os livros editados em português sobre o Everest, e foi só assim que tive alguma ideia remota. Para mim era uma grande piada: Rumo ao Everest sempre foi uma grande brincadeira, onde o rumo, ou seja, o caminho é o que mais importava. Fazíamos montanhas brasileiras, dizendo que estávamos nela pois rumávamos para o Everest, mas isso nunca foi um papo sério. Até porque, nessa época, como a maioria das pessoas, eu achava que essa coisa de alta montanha era para esportistas profissionais e que tinham muito dinheiro. E lá estava eu, com eu com minha bandeira de conquistas (Rumo ao Everest) indo para o Everest! Era ao mesmo tempo a maior das piadas e a realização de um sonho: conhecer aquelas montanhas gigantes.
 
AM: Como foi sua experiência no Nepal?
 
PK: Creio que todo o tempo que eu estive por lá não acreditava muito no que estava acontecendo. Nosso guia era um nepalês, que falava bem inglês, mas eu não entendia nada (meu inglês é péssimo). Nossa comunicação era mínima e ficávamos nos piores lugares dos vilarejos.....
 
Quando os efeitos da altitude começaram a aparecer eu não conseguia saber o que estava acontecendo com meu corpo, aí resgatei o que já tinha de experiência dos perrengues que tinha passado nas montanhas junto com um tanto de instinto e segui caminhando até completar nosso trekking no Himalaia.
 
Lembro bem do último dia naquela incrível cordilheira: Chorando. Fiquei com medo de nunca mais colocar meus pés outra vez naquela magia toda, naquela terra de gigantes, foi quando percebi que não havia mais volta. Havia encontrado um grande amor que ficaria comigo para toda vida – o montanhismo em altitude, e uma arrebatadora paixão – a montanha Ama Dablam (6,812 m).
 
Desde então, o caminho não foi tão fácil, mas cheio de lindos encontros, descobertas, conquistas e superações. Procurei um dos maiores montanhistas no Brasil (o Máximo Kausch), me inscrevi na minha primeira expedição em alta montanha. Como um presente, ganhei um mestre, que viria a me ensinar e motivar para seguir nas alturas.
 
O Cerro Plata (Argentina) é uma montanha de quase 6 mil metros e sua ascensão é fácil, considerando uma montanha de altitude. Por isso é uma montanha para iniciantes e também um “campo-escola” de alta montanha. Apesar da dificuldade que tive, consegui chegar no cume e descobri que precisava aprender muita coisa ainda. Numa conversa com o Máximo, confessei meus mais profundos sonhos e desejos: um dia chegar no cume da Ama Dablam, e poder percorrer um pouco a imensidão incalculável do maciço do Lhotse (8.516 m). Ele me disse que isso era possível, bastava eu treinar, aumentar minha experiência e começar a escalar rocha (prática que eu tinha muito medo).
 
Foi o caminho que eu segui: fiz um curso de escalada em rocha, um curso de escalada em gelo e alta montanha e participei ao todo de 6 expedições, nesses 4 anos de alta montanha. Inicialmente não consegui chegar no cume das montanhas (Huayna Potosi, Sajama, Ojos del Salado), pois não havia experiência e preparo físico para elas, mas ao longo do tempo, fui conhecendo mais meu corpo, as montanhas, minhas reações e controle emocional.
 
Comecei a ter mais frequência e disciplina com treino para melhorar meu desempenho e me dediquei ao estudo sobre fisiologia, navegação, climatologia, geografia, história do montanhismo (dentre outros), procurando me desenvolver na alta montanha de forma completa e autônoma. Foi assim que conquistei 7 cumes de montanhas com mais de 6mil metros em apenas um ano.
 
AM: Então do Nepal decidiu ir à Argentina escalar o Cerro Plata. Conte mais sobre esta experiência? Muitos dizem que o Plata é fácil e é boa montanha para começar. O que achou de se iniciar neste local?
 
PK: Foi muito especial para mim, pelo local e pela forma que fiz. Hoje penso que o Plata é uma montanha relativamente fácil, mas para um iniciante, como era meu caso na época, é um desafio: a aclimatação, sair na madrugada com muito frio (lembro que chegou a quase -20ºc), vencer a exaustão. Depois descobri que isso é alta montanha, que sempre enfrentaremos esses desafios, a diferença é a experiência que vamos ganhando.
 
Mas a diferença maior da primeira experiência foi a organização da expedição. Não que esteja puxando o saco dos amigos, mas é um luxo poder contar com uma expedição onde falam a tua língua, a comida é maravilhosa, a aclimatação é planejada com calma, para evitar o desconforto e aumentar as chances de fazer o cume, e ainda por cima, contar com a experiência do Máximo te explicando tudinho sobre o planejamento e com o que está acontecendo com teu corpo no processo de aclimatação.
 
AM: Bom, após o Plata você buscou ampliar sua experiência fazendo o curso de gelo na Bolívia. Acha que o curso ajudou em sua trajetória? Como foi esta experiência?
 
PK: A expedição foi ótima, um luxo. Mas não consegui fazer os cumes do Huayna, do Sajama e do Ojos del Salado, por motivos distintos. Penso que é importante o aprendizado que tive, de conseguir aceitar o nosso próprio limite, reconhecer a força que essas montanhas gigantes têm e o quanto é importante estarmos integrados. É um exercício de humildade e sabedoria ao mesmo tempo, de uma conexão profunda com nossa mente e corpo para reconhecer nossos limites e aceitá-lo. Reconhecer nossos limites e toda aridez, dureza e força que essas montanhas e vulcões têm. Somos muuuito pequenos perto delas. Mas isso, ao contrário de me desestimular, só aumentou meu fascínio e ajudou muito na minha disciplina cotidiana com o treino.
 
Acredito na magia que contém cada pequeno passo nas montanhas, pois quando estamos nelas entramos no inenarrável mundo das alturas e dos gigantes. Fascina-me os contrastes, as surpresas, a riqueza, o desafio que cada montanha guarda, como um tesouro raro que poucos conseguem ver.
 
Antes de tudo, considero-me uma montanhista apaixonada, e por isso, muito dedicada. Assim, não é a genialidade que pulsa meus passos, mas a dedicação que brota do mais profundo desejo a dispendido de toda a dificuldade e dureza.
 
As montanhas ainda me despertaram o encantamento por fotografia. Tenho estudado e me dedicado a aprimorar minhas fotos que registram um pouco dessa magia.
 
É com essa mesma dedicação e amor que pretendo continuar nas montanhas, e cada vez mais viver nas terras altas com esses lindos gigantes.
 
AM: Após o curso da Bolívia, você foi para a região do Ojos del Salado, na Puna do Atacama, como foi esta expedição?
 
PK: Depois do curso da minha primeira ida a Bolívia, a próxima expedição foi para Ojos del Salado. Essa expedição foi uma das mais especiais para mim, mais por questões pessoais do que pela própria experiência. Haviam 15 anos que eu estava dedicada integralmente ao meu trabalho e aos estudos, e no trekking do Everest havia feito uma combinação comigo mesma. Que quando eu terminasse meu doutorado, sairia IMEDIATAMENTE correndo para as montanhas. Aí a data fechou com uma expedição para o Ojos del Salado, e lá fui eu gritar minha liberdade na Puna do Atacama.
 
Só que eu terminei esse processo todo sob muita pressão e estresse, e claro adoeci. Fui mesmo assim, sabendo que estava com péssimo condicionamento físico, mas nas minhas costas não havia peso algum. Foi uma libertação mesmo. Tossi a expedição inteira, mas estava muito feliz. Foram dias maravilhosos e inesquecíveis. Como parte da aclimatação, fomos fazer o Vicuñas, e foi uma experiência que eu aprendi muito. Como estava tossindo e mais lenta que o normal, fui ficando para trás e, na medida em que as pessoas iam desistindo eu tinha que reafirmar minha disponibilidade de continuar. Acabou que consegui encontrar um ritmo do meio para o final, quando segui com o Pedro (Hauck), e conseguimos fazer o cume. Foi incrível, pois eu não tinha dúvidas que aquele dia era de cume, só precisei ter persistência.
 
Aquela imensidão aquarelada de cinza, com lagunas verdes, um capim dourado, um céu azul celeste e flamingos é realmente inesquecível. A diversidade e força da natureza, quando nos conectamos a ela com esta magnitude, com essa presença e força nos gera um sentimento profundo de gratidão e honra, por fazer parte disso tudo, mesmo com a nossa pequenez.
 
Já o Ojos, foi muito diferente. Pela primeira (e única) vez eu, quando estava nos pés dele, senti medo pela grandeza dele. Estava aos pés de um gigante, e dos grandes! Fui respirando e me libertando desse medo, dando um passinho de cada vez. Mas quando cheguei no acampamento alto, percebi que estava com minha bateria beeem fraca. Quando acordamos para fazer o ataque ao cume, percebi que não teria forças, e que se insistisse, certamente alguém teria que baixar comigo. Pensando nisso tudo, resolvi não fazer o ataque ao cume.
 
É difícil, às vezes, aceitar que não temos força e que a montanha seguirá lá, no mesmo lugar, risos. É um exercício que mexe com o ego, com as vaidades e, principalmente, com as vontades. Mas é um desafio que todo o montanhista enfrenta, essa linha tênue entre a loucura e a sanidade, o desejo e os limites.
 
Voltei para casa feliz pois, a partir daquele momento, eu iria trabalhar menos e me dedicar mais às montanhas, por uma organização e desejo profundo meu. Estava livre!
 
AM: Mas você voltou com tudo mais tarde em sua segunda expedição à Bolívia e fez tudo. A que você acha que se deu esta volta por cima?
 
PK: Depois dessa expedição passei a me apresentar para os amigos como montanhista e, nas horas vagas, eu era professora (risos). Parece uma brincadeira (e na verdade é um pouco), mas mudei muita coisa da minha dinâmica. Comecei a estudar mais, a me interessar sobre climatologia, medicina de montanha, planejamento de expedição .... E o principal, aceitei que precisava treinar assiduamente: fui para academia correr e puxar uns pesos, e escalo às vezes. E claro, continuei fazendo trilhas e travessias nos intervalos das expedições.
 
Voltei a Bolívia para fazer novamente o Huayna e o Illimani, com uma proposta de aclimatação rápida. Foi lindo o cume do Huayna, estava mais segura, era uma noite super ótima, com um parceiro de cordada massa. Já conhecia meu corpo e todo o processo de aclimatação; percebi que carregava menos coisa, me sentia mais confortável com as adversidades da montanha; não pedi porter para minhas coisas, estava com um equipamento melhor, enfim ... O Illimani está na minha memória como algo mágico. A primeira vez que vi esse gigante guardião de La Paz, eu imaginei que só os grandes montanhistas poderiam subir nele, e lá estava eu, realizando um sonho outra vez, numa linda noite de lua cheia e sem vento. Foi muito duro, lembro de subir com ânsia de vômito, pela exaustão do corpo, mas lembro também de ficar brincando bobagens com o Máximo, que me guiava. Quando chegamos naquela crista, tive que me conter para chegarmos até o cume e depois só chorava de emoção.
 
Saí da Bolívia com um cronograma das duas próximas expedições, feliz da vida.
 
AM: E quais foram estas expedições?
 
PK: Meu grande parceiro de montanhas, o Vini, deu a ideia de fazermos em janeiro o Pissis e o Bonete Chico, de forma mais autônoma. Mas precisávamos de um montanhista mais experiente que nos liderasse. O Pedro Hauck topou a proposta e nos convenceu de fazermos o Bonete Chico e os vulcões que ficam perto dele para aclimatar, Baboso e Veladero. Estava montada nossa expedição para La Rioja, que contamos com a companhia da Greissy que se juntou no final. Foi incrível essa expedição, pois aprendemos muito sobre a logística toda e principalmente sobre o planejamento dos dias de aclimatação e ataque ao cume. Conseguimos fazer os três 6mil, incluindo o Bonete, que é a 4ª maior montanha dos andes e que nenhum brasileiro ainda havia conquistado seu cume. Tudo isso graças ao planejamento baseado na previsão do tempo e na ótima aclimatação que fizemos. É muito diferente participar de uma expedição comercial, onde as coisas são feitas para você, de uma expedição autônoma, onde temos que tomar decisões coletivas e carregar todo o peso.
 
No meio disso fui para a região de Catamarca, escalar o lado Argentino da região da Puna onde fica Ojos, Pissis e Incahuasi. Como fomos no final da temporada pegamos neve e um vento de mais de 100km/h, que não nos deixou fazer muita coisa por lá. Mas consegui fazer meu 7º cume de 6 mil, o San Francisco e descobrir algumas montanhas menores dessa região da Puna que tanto me encanta.
 
AM: Você acha que está pronta para fazer uma alta montanha sozinha?
 
PK: Sim, esse é a proposta agora para a temporada na Bolívia, vou tentar fazer mais duas ou três montanhas de 6 mil com um baita amigo. Vamos sozinhos, com nosso planejamento e organização, poucos equipamentos, mas o suficiente já para nos aventurarmos nessas montanhas gigantes. Vamos ver como nos saímos, depois eu conto, risos
 
AM: Bom, em um ano foram 7 montanhas de 6 mil metros. Ao que consta em nossos registros nenhuma mulher brasileira escalou tantas montanhas desta altitude nos Andes. O que você acha de seu feito?
 
PK: Antes de tudo, considero-me uma montanhista apaixonada, e por isso, muito dedicada. Fascina-me os contrastes, as surpresas, a riqueza, o desafio que cada montanha guarda, como um tesouro raro que poucos conseguem ver. Assim, não é a genialidade que pulsa meus passos, mas a dedicação que brota do mais profundo desejo a dispendido de toda a dificuldade e dureza. Com dedicação, paixão e com a força de cada pequeno paço podemos entrar no inenarrável mundo das alturas e dos gigantes.
 
Acho que as mulheres têm que ir mais para as altas montanhas ... risos ... Apesar de no Brasil esse universo ainda ser muito ocupado por homens, nós mulheres temos condições de melhorar esse número. A minha experiência tem me ensinado que o montanhismo não é só da força, mas é, principalmente, da vontade, da determinação, da destreza, da ginga, da beleza, e isso tudo nós mulheres temos. Essa conquista é um convite para todas as mulheres a se aventurarem mais pelas alturas, Só nos Andes, temos 110 montanhas acima de 6mil metros de altitude e mais um incontável número de montanhas de 5mil que inclusive algumas ainda são virgens, temos muito o que explorar.
 



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