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Crônicas do Karakoram 2008

Estatísticas da temporada de 2008 no Karakoram


Categoria: Estatística

O verão de 2008 no Karakoram estava fervilhando de expedições com objetivos extremamente ambiciosos.

Por Rodrigo Granzotto Peron

Os eslovacos Dodo Kopold e Vlado Plulik tinham como objetivo uma inédita tetralogia do Baltoro, culminando todos os 4 gigantes (K2, G1, BP e G2). Os primeiros objetivos foram atingidos velozmente: Gasherbrum II (em 9 de junho) e Gasherbrum I (em 15 de junho), mas no Broad Peak as coisas ficaram sombrias. A dupla se dividiu. Enquanto Vlado continuou pela rota normal sozinho, Dodo escalou por terreno virgem e fez uma nova variante para a rota padrão, culminando em 26 de junho. Quando ele voltou para o acampamento-base nenhum sinal de Vlado. A última vez que este foi visto foi num bivaque embaixo do Falso Cume. Depois disso, apenas silêncio...

Piotr Pustelnik, Piotr Morawski e Peter Hamor, popularmente conhecidos como “Os Três Pedros”, são uma das equipes mais impressionantes dos dias atuais. Rotas extremas, repetições de vias difíceis, travessias, subidas invernais, tudo está no menu desses três gênios do montanhismo. Nessa temporada, 24 anos após a primeira travessia entre Gasherbrum I e Gasherbrum II feita por Reinhold Messner e Hans Kammerlander, eles organizaram expedição para fazer a segunda travessia, adicionando dificuldade por atravessar também o Gasherbrum III. Como o clima estava mais instável do que de costume, eles conseguiram apenas fazer um double-header, com travessia integral do Gasherbrum I e subida do Gasherbrum II pela rota normal.

Os russos Valery Babanov e Viktor Afanassyev fizeram incrível parceria no Paquistão. Primeiro veio uma nova rota de 3.000m de extensão na difícil Face Sudoeste do Broad Peak (cume em 17 de julho). Esta é a quinta rota no Broad Peak, a segunda por esse flanco. Então também desenharam uma nova linha na Face Sudoeste do Gasherbrum I (cume em 1º de agosto). Na programação também estava uma nova rota no Gasherbrum II, mas o mau tempo os impediu de atingir esse objetivo final.

O perigoso e dificílimo Batura II (7.762m), conhecido como a montanha mais alta do mundo ainda virgem, resistiu a diversas expedições. A primeira, em 1959 por equipe germano-inglesa liderada por Keith Warburton, acabou em tragédia, com vários mortos. Então os japoneses tentaram a montanha em 1978, mas acabaram culminando o vizinho Batura IV (7.594m). Alguns anos depois o time polaco-alemão de Wladyslaw Wisz fez outra tentativa, culminando por engano o Batura IV. Em 2002 e 2003 Marcus Walker tentou, sem sucesso. Simone Moro e Joby Ogwyn fizeram tentativa em 2005, com desistência a 7.100m. Em 2008 finalmente o Batura II abaixou um pouco a guarda, o suficiente para que dois integrantes da expedição da Universidade de Seul – Kim Chang-Ho e Choi Suk-Mun – escalassem integralmente a Face Sul e entrassem para a história como os primeiros conquistadores.

O Batura II também era o objetivo de Simone Moro e Hervé Barmasse este ano, mas acabaram mudando de planos pois os coreanos haviam chegado primeiro e estavam fixando toda a rota com cordas, tática da qual os italianos discordam. Então rumaram para o Beka Brakai Chhok (6.940m), um pico recentemente tentado duas vezes pela alpinista neo-zelandesa Pat Deavoll (tentou em 2007 e 2008). Sem dificuldades, Simone e Hervé fizeram a primeira ascensão da montanha, pela Face Sul.

O forte time espanhol composto por Alberto Iñurrategi, José Carlos Tamayo, Ferrán Latorre, Juan Vallejo e Miguel Zabalaza, todos exímios montanhistas com currículos incríveis, fizeram cume na Face Norte do Gasherbrum IV (uma das faces mais exigentes do Karakoram), por meio da rota Australiano-Americana na Aresta Noroeste (a terceira subida dessa rota). Na descida, Latorre acabou sendo atingido por uma pedra que caiu e teve ferimentos graves na perna, mas conseguiu descer até o campo-base de onde foi evacuado por helicóptero.

Outra equipe espanhola, com Carles Figueras Torrent, Josep Maria Solá Caros and Josep (Pepe) Permañe Sabates, após falhar no Rakaposhi, conquistou a primeira subida absoluta do Neyzah Peak (5.788m), uma agulha na parte norte do Paquistão que se ergue acima do Glacial Kunti.
 

Um triple Header rapidíssimo

Sem muito barulho, a alpinista francesa Elisabeth Revol, em sua primeira experiência em picos 8.000, enfileirou Broad Peak (17 de julho), Gasherbrum II (30 de julho) e Gasherbrum I (1º de agosto), para assombrar a comunidade alpinística com um surpreendente triple-header rapidíssimo em meros 15 dias.

Ela empatou com o recorde prévio de Erhard Loretan e Marcel Ruedi, estabelecido em 1983, e foi consideravelmente mais rápida do que a detentora do recorde feminino (Nives Meroi, com 20 dias em 2003).

Para aumentar o crédito pela façanha, basta dizer que ela foi mais rápida também do que o top climber Dodo Kopold, que fez o mesmo triplo-header neste ano, só que em 17 dias.

 

Descida de ski no Nanga Parbat

A primeira descida parcial de ski no Nanga Parbat foi realizada em junho de 1990 por Josef Walter, Marianne Walter, Rudolf Bilgram e Josef Stiller, que desceram a Rota Kinshofer no lado direito da Face Diamir do Nanga Parbat, dos 6.400m até o Colo Diama (4.500m).

Alguns dias mais tarde Hans Kammerlander e Diego Wellig esquiaram do topo do Nanga Parbat Norte (8.070m), um pico subsidiário do maciço do Nanga Parbat, até o acampamento-base, também pela Rota Kinshofer. Uma descida integral da face, do cume principal até o BC nunca foi feita.

Nesta temporada de 2008 o alpinista e esquiador extremo alemão Luis Stitzinger fez coisas incríveis no Nanga Parbat.

Primeiro guiou clientes para a empresa DAV Summit Club, fazendo cume em 21 de junho. Depois de alguns dias de descanso ele escalou na companhia de Joe Lunger através da monstruosa Aresta Mazeno (8 quilômetros de extensão e 4 quilômetros de desnível), indo até o Pico Mazeno (7.120m), de onde tiveram que retroceder devido às instabilidades climáticas.

Uma semana depois e ele estava nas encostas do Nanga Parbat pela terceira vez. Escalando solo ele subiu até 7.800m, de onde fez a primeira descida parcial de ski pela parte central da Face Diamir.
 
Expedições Sulamericanas
 
A Colômbia lançou duas expedições distintas, ambas com destino tanto ao Gasherbrum I quanto ao Gasherbrum II.

A primeira de Fernando Gonzalez-Rubio, José Barrera, e com a participação do argentino Thomas Heinrich.

A segunda, liderada por Gonzalo Ospina, contava também com Jonathann Pardo, Simon Gonzalez, Daniel Calderón, Anibal Piñeda, Juan Sierra, Antonio Lozada e Ivan Macias.

O Gasherbrum II também era o destino de, em expedições separadas, o chileno Rodrigo Fica Pérez, o argentino Lucero Ignacio (Lucho) Javier, e do querido casal brasileiro Paulo &, Helena Coelho.

Até o momento não há muitas informações concretas sobre o resultado dessas expedições, não se sabendo até que altitude foram e nem o motivo da desistência. O que se sabe é que nenhum sul-americano culminou no Karakoram este ano.

Os dados mais precisos vieram do website pessoal de Fernando Gonzalez-Rubio, de onde se percebe que ele foi até 7.800m no G1 e 5.000m no G2, em ambos desistindo por causa do péssimo tempo e das nevascas constantes.
 
Tragédias e resgates milagrosos de helicóptero
 
em no início da temporada uma greta tomou a vida do grande montanhista e esquiador extremo Jean-Noel Urban no Gasherbrum I. Entre outras realizações, o alpinista francês havia esquiado do cume do Cho Oyu e do Gasherbrum II. Uma grande perda.

Aproximadamente um mês depois outra greta levou consigo Karl Unterkircher, um nome em ascensão, com novas rotas no Gasherbrum II e Jasamba em 2007 e no Chongra neste ano. Seus companheiros de cordada – Walter Nones e Simon Kehrer – passaram por maus bocados na perigosíssima Face Rakhiot do Nanga Parbat, mas conseguiram escapar ao atravessar toda a encosta para a Rota de Hermann Buhl em 1953 (uma via mais segura), após uma estressante semana de ordálio e provação e foram resgatados de 5.900m por helicóptero do Exército do Paquistão.

No Spantik o austríaco Armin Liedl tomou uma queda e quebrou as pernas. O resgate aéreo, realizado também por piloto do Exército do Paquistão, foi incrível, a 5.700m e o montanhista ferido foi retirado bem em tempo e passa bem. Aproveito para ressaltar o trabalho fascinante do resgate aéreo do Paquistão, cujos pilotos de helicóptero são sabidamente os mais habilidosos no ar rarefeito, com resgates incríveis.

O dia 1º de agosto era para ser um dos mais perfeitos de toda a história do K2. Vinte e seis alpinistas de 8 países diferentes escalando juntos num esforço conjunto das equipes do Esporão de Abruzzi e da Rota Cesen.

As primeiras notícias, contudo, não eram animadoras. Um escalador sérvio (Dren Mandic) foi deixar passar alguns companheiros no Gargalo da Garrafa, perdeu o equilíbrio e caiu centenas de metros para a morte. Instantes depois também um paquistanês tomou queda e faleceu.

Um prenúncio nada bom, mas que foi eclipsado pela felicidade total de 18 cumes, os primeiros às duas da tarde e os últimos às oito da noite. Comemorações e mais comemorações. Era, contudo, apenas o olho do furacão.

Na descida um serac enorme quebrou da geleira superior do K2 e caiu, causando imensa avalanche que varreu o Gargalo da Garrafa e as encostas superiores da montanha, levando a vida de 5 alpinistas. Outros 4 ficaram trancados na parte superior, pois a avalanche cortara as cordas fixas. No final do dia 2 de agosto o obituário continha 11 nomes. Este foi infelizmente o terceiro pior desastre da história dos cumes 8.000 (apenas atrás do Nanga Parbat em 1937 e do Manaslu em 1972).

O nível de periculosidade da “Montanha Assassina”, que vinha caindo consideravelmente (38% em 1986, 31% em 1996, 23% em 2007), voltou a ser o que era nos anos 90, agora com 26%.

Outra tragédia ocorreu no Muztagh Tower (7.273m), onde o famoso alpinista Pavle Kozjek caiu para a morte na face norte. Pavle era conhecido por novas e complexas rotas no Shishapangma e no Cho Oyu e por suas impressionantes subidas-relâmpago nos Andes, batendo recorde de velocidade em vários picos.
 
Records e primeiras ascenções na temporada 2008:
 

Este ano tivemos 8 primeiras ascensões de alguns países em montanhas do Karakoram. Além disso, aquelas montanhas virão o segundo homem mais velho a pisar no cume do K2. Confira:

a) K2:

Primeiros Noruegueses – Cecilie Skog e Lars Naesse
Primeiro Irlandês – Gerard McDonnell
Primeiros Nepaleses do grupo Bhote: Jumik e Pasang
Segundo mais velho – Hugues d`Aubarede (FRA), 61 anos, atrás apenas de Carlos Soria (65)

b) Nanga Parbat:

Primeiros Iranianos: Leila Esfandiary, Kazem Faridyan, Sahand Aghdaei, Hossein Abolhassani e Amir Hossein Partovinia

c) Broad Peak:

Primeiro Português – João Garcia
Primeiro Finlandês – Veikka Gustafsson

d) On Gasherbrum II:

Primeiro Finlandês – Veikka Gustafsson
Primeiros Dinamarqueses – Jakob Urth e Jacob Klaris-Jensen



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