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Desânimo? Que nada...

Bivacando na Chuva


Aventura de:

A idéia de fazer um bate-volta noturno no Pico Paraná já nos atraía há tempos. Sempre faltava a oportunidade certa. Então, num sábado de tarde, recebi um telefonema do Helton me convidando para ir. O tempo não estava lá muito bom, e por ser começo de dezembro não dava pra esperar grande coisa, chuva é normal nessa época.

Preparei rápido uns sandubas, joguei algumas coisas na mochilinha preta e fiquei esperando o Helton passar. Pra minha sorte, como mais adiante vocês vão ver, tive a brilhante idéia de levar uma camiseta do Inter (faltavam poucos dias pra grande final do Mundial Interclubes de 2006, queria uma foto exclusiva no cume do PP), uma calça reserva e, é claro, uma capa de chuva.

No final da tarde o Helton chegou, e seguimos direto pra Fazenda. Ficamos um tempão conversando com o Dilson, e dali a pouco o Helton começou a reclamar de dor de cabeça. Pouco a pouco fomos perdendo o tesão por ir caminhar, sabíamos que iríamos pegar garoa no caminho e ali dentro da casa estava tão agradável... Mas a idéia de dormir ali e subir no domingo alguma outra montanha não nos atraía! Arranjei um analgésico pro Helton, e por volta das 22h30min zarpamos.

Subimos num ritmo forte até a Pedra do Grito, onde fizemos uma breve parada. Depois seguimos até o Getúlio, onde paramos outra vez. A dor de cabeça dele não passava e já cogitávamos a opção dele voltar sozinho, pois eu estava determinado a continuar. Neste tempo em que ficamos parados, o céu magicamente se abriu, nos brindando com uma infinidade de estrelas sobre nossas cabeças. Isso deu um novo fôlego, imaginamos que o tempo iria abrir, e seguimos adiante. Poucos minutos depois nos demos conta de que era ilusão nossa, pois pesadas nuvens voltaram a fechar o céu.

Na bica fizemos uma breve parada para pegar água, mas depois da Pedra da Corda paramos novamente para avaliar nossa situação, que não era nada animadora: ainda tínhamos um longo trecho pela frente e a garoa estava engrossando, por vezes parecia chuva mesmo. Apesar dos pesares, tocamos em frente.

Subimos pela encosta do Caratuva num ritmo forte, sem pausas. Pouco antes da bifurcação do Itapiroca, já percebemos a encrenca que nos esperava: deste lado da montanha a vegetação estava totalmente encharcada, e das árvores caía uma chuva grossa, cada vez que elas eram tocadas por nós. Assim, passamos de molhados a encharcados em poucos minutos. Tudo piorou quando alcançamos os trechos de campo aberto, onde soprava um vento gelado.

O desânimo tomava conta. Em certo momento, paramos pra decidir se continuávamos ou não. Apesar de que tínhamos condições físicas de seguir até o PP durante a noite, o lado psicológico não colaborava nem um pouco. Decidimos ir até o Abrigo 1 para então ver o que fazer.

Percorremos a trilha rapidamente, e por volta das 2:00 já estávamos nas clareiras do Abrigo 1. Com o frio e o sono apertando, resolvemos colocar roupas secas e descansar um pouco antes de continuar.

Tirei da mochila uma calça e um moletom secos e para minha sorte, achei a camiseta do Inter, bem sequinha, de dentro da mochila. Vesti por cima deles a capa de chuva e me acomodei contra uma rocha! Como estávamos indo apenas fazer um ataque, não levamos nem isolante, nem saco-de-dormir e muito menos barraca! Apesar do frio, do chuvisco e da dureza do meu leito, consegui dormir profundamente. Já o Helton, que se não me engano não tinha roupa seca para vestir, passou por maus bocados!

E quando a noite já parecia perdida, o céu limpou e surgiu uma lua maravilhosa. Com direito a arco-íris de lua!!! E maravilhosamente surgiu a sombra do gigantesco PP em meio à neblina... É por momentos únicos e inesquecíveis como estes que vale a pena passar por apuros como aqueles.

A lua se foi e voltou o chuvisco, com ele o vento e o frio da madrugada. Já não dava mais para suportar, foi quando decidimos retornar. Eram por volta das cinco da manhã. Se continuássemos, era certo que já no segundo passo na trilha ficaríamos encharcados de novo, e naquele frio era a última coisa que queríamos.

Com pouco tempo de caminhada, fomos notando que o tempo abria novamente. Se andássemos rápido, dava pra subir o Itapiroca e ver lá de cima o nascer do sol. Andamos rápido, sem nenhuma parada, e menos de uma hora depois de sairmos do Abrigo 1 já estávamos na área de acampamento do Itapiroca, e o sol ainda não tinha nascido.

O espetáculo que se seguiu foi impressionante: nuvens corriam pela encosta do Caratuva, outras envolviam o PP. Ao Norte, nuvens corriam entre as montanhas da serra do Capivari. E pouco a pouco a luz do amanhecer foi tingindo a paisagem com fortes tons vermelhos e dourados.

Após o raiar do dia voltou a neblina e o frio. Fui rapidamente até o cume assinar o caderninho, enquanto o Helton me esperava por ali mesmo. Em menos de vinte minutos já estava de volta, agora o nevoeiro tomava conta de tudo. Não perdemos nenhum minuto e iniciamos a descida.

No caminho, pausa para algumas fotos turísticas na bica cimentada, no Getúlio (onde já tinha sol) e na Pedra do Grito. Do Getúlio dava para ver que no alto das montanhas o tempo continuava encoberto.

Apesar do frio que passamos dormindo ao relento, foi mais uma aventura inesquecível!!!



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