Trekking ao acampamento base do K2 - Parte4 - AltaMontanha.com - Portal de Montanhismo, Escalada e Aventuras
Uma viagem ao Karakouram

Trekking ao acampamento base do K2 - Parte4


Aventura de:

O acampamento está sendo desmontado. Os porters atarefados arrumam suas cargas enquanto Ali os observa pitando um cigarro acocorado. Uma mula também integra nossa expedição. Carrega querosene, fogões e sacos de 20 kg de farinha. Devemos partir, segundo meus cálculos, às 07:15, o que de fato ocorre.

Por Beatriz Azevedo

Leia a terceira parte do relato.

O dia está lindo, um céu azul, imaculado, quanta diferença de Islamabad com seu céu quase sempre nublado. Promete ser outro dia de muito calor já que durante a noite não fez frio. Ontem, comi uma sobremesa, o kheer. Trata-se de um mingau de arroz, leite, amêndoas e erva doce, deveras saboroso. Apesar de a lua não se mostrar após o escurecer, só dá as caras tarde da noite, já que em fase de crescente timidez, de manhã, quando acordo, está lá em cima, claramente, visível, acompanhando meu caminhar até o sol ofuscá-la por completo. O percurso, ainda, segue o curso do rio Braldu, filhote do degelo do Baltoro Glaciar, as margens, em alguns pontos, elevam-se bem acima do leito, atingindo uma altura em torno de 40 metros. Durante o trajeto, muitos daqueles arbustos espinhentos em que floresce a linda flor cor de rosa com 5 pétalas e miolo amarelo.

Chegamos em Bardumal às 10:50 onde paramos pra almoçar. Há uma construção de pedra com três peças onde os porters acendem os fogareiros e preparam a comida. O tráfego destes homens indo a Concórdia e retornando a Askole continua intenso. Daqui ouço o marulhar forte do rio. De repente, chama minha atenção a algaravia, nervosa, em urdu, dum velho batendo boca com Ali. Divertido, meu guia mais escuta do que fala. Curiosa, não resisto e questiono-o. Ele, jocosamente, conta que o velho exige dinheiro pela nossa permanência no local. Pergunto por quê, intrigada. Ali explica que os acampamentos são propriedades particulares, assim a cada proprietário é permitida a cobrança de estadias pelo uso do terreno. Ali, entretanto, defendendo nossos interesses financeiros, nega-se a pagar: “Bitriz, we just stay here one hour...this owner doesn’t have any reason to demand money.” Esse guia é tudo de bom!!

Saímos de Bardumal às 11:50. Durante o trajeto, Ali esclarece que o pico à minha esquerda é o Paiyu. Sempre costeando o rio, seguimos, agora, por um caminho onde se pisa sobre pedras rentes à água. Olho em torno e me vejo num vale cercado, nos seus 360º, por montanhas. Um desbunde! Apenas o branco da neve nos topos e encostas quebra a monocromática tonalidade marrom das rochas. Vejo à minha frente um enorme aglomerado de torres de granito, em que despontam cumes pontiagudos e irregulares, quase descobertos de neve: este paredão cor de chocolate são as Trango Towers. Atrás, um ponto branco, o K2. Decepcionantemente pequeno dessa distância. Avisto, longínguo, também, o Broad Peak.

O céu mantém-se azulado, nuvem alguma perturba sua coloração uniforme. Estou cansada, também, pudera, além de a temperatura estar em torno de 36º C, já atingimos 3.400m. Um ponto verde se destaca na paisagem: eis Paiyu. Lá há muitas árvores e, portanto, sombra, aleluia (!), artigo raro durante o trekking. São 14:10. Calculo mais uma hora de caminhada até lá. Mesmo nesta altitude há moscas e das grandes. E a companhia constante dos rios e do fio do telefone satelital.

Chegada em Paiyu às 15:50, um lugar super legal. Minha barraca é montada embaixo duma frondosa árvore. Coisa boa porque, ontem, em Jhola eu não sabia o que era mais refrescante, se ficar na barraca, uma autêntica sauna, ou se do lado de fora, num clima de antecâmara do inferno. Diante da barraca, há o lindo arbusto florido de rosas e uma montanha com o topo coberto de neve. Parece cartão postal! O camping está lotado: afora as duas expedições de escaladores e uma de trekkers, há a nossa. Sem falar nas centenas de porters que as acompanham. Uma muvucagem pra lá de excitante! John, o guia-chefe de uma delas, um paquistanês carismático, aproxima-se e começa a conversar. Conta que trabalha há 24 anos nessa profissão. Orgulha-se de já ter guiado vários escaladores de elite, entre eles Hans Kammerlander, famosíssimo no meio, por suas tentativas de descer esquiando do topo até o acampamento-base os montes Everest e K2. Convida-me a ficar em sua casa, com sua família, quando eu for a Hunza Valley.

Algumas expedições de escalada são tão sofisticadas - a de John é uma delas - que, afora o cozinheiro, levam, ainda, o assistente de cozinheiro e um, pasmem (!), lavador de pratos! Fico sabendo, pra meu desconsolo, que não vai ser possível a travessia do Gondoghoro La. As crevasses no seu topo estão enormes, sendo complicada a passagem. Só pra profissionais, não amadores como eu....snifff. Isso vem acontecendo desde o ano passado....coisas do aquecimento global. Mas, bah, nem tudo está perdido, pois não é que hoje haverá uma festa?!

Desço a trilha que leva aos toaletes e peço a Mussa, meu porter, que encha de água um enorme balde. Entro na pequena cabine. O banho é de canequinha e a água gelada, escorrendo sobre meu corpo, faz com que eu solte gritinhos estridentes. Tão bom tudo isso!! Quero estar reluzente e cheirosa pro festerê à noite! Lá pelas 21 horas, os porters fazem um círculo e, utilizando seus containers como tambores, iniciam a cantoria. Homens entram na roda e dançam, alguns aos pares, outros, desacompanhados. Manuseiam, em elaboradas e delicadas evoluções, as mãos.

Percebo a nítida herança indiana nesses movimentos. Eles não se drogam, não enchem a cara, como nós ocidentais, e são bem mais espontâneos e descontraídos. Sabem se divertir, sem a necessidade de qualquer aditivo. Pra refletir. John não aceita minha recusa e me baixa da pedra, onde estou sentada, até o chão, pelos sovacos, como se eu fosse uma pluma. Sou, assim, obrigada a entrar na roda......e danço, tentando, canhestramente, imitar os bailarinos. Lá pelas tantas, meu querido guia exibe faceiro seus dotes artísticos, evoluindo com graça na rodinha. Observo que os movimentos suaves não excluem a evidente virilidade daqueles homens. Encantadores! A festança dura até 23 horas quando, então, o acampamento silencia. A noite, estreladíssima, um show atrás do outro.

Descansando num Oásis

Tiramos o dia pra descansar em Paiyu, daí acordo às 06:00 sem pressa alguma. Tiro algumas fotos e filmo, inclusive, o vôo das inúmeras gralhas que passam pra lá e pra cá no céu azul, despido de nuvens. John me procura pra se despedir. Sua expedição está de partida pra Concórdia. Peço a ele pra tirarmos uma fotografia. O simpático guia escolhe como pano de fundo uma das árvores que viceja florida ao redor. Posamos, então, faceiros.

No desjejum, é servida uma iguaria paquistanesa, um bolinho achatado, o pinke cake. Oito da manhã e a temperatura, já alta a essa hora, prenuncia o calorão que nos aguarda o restante do dia. Lembro, sorrindo, de um episódio da festa de ontem à noite. Um jovem e magro porter, dançarino dos melhores, exibia, faceiro, seus dotes, quando John puxou pra entrar na roda outro porter. Este homem, um baixinho de pernas tortas e feições lombrosianas, iniciou sua dança. Com gestos grotescos se espalhava pra tudo quanto é lado. O outro não gostou e deu-lhe um leve empurrão. O baixinho nem se abalou, continuou a ocupar todo o espaço da roda. Lá pelas tantas, o magro dá uma bundada no baixote e lá ficam os dois se empurrando bunda com bunda, querendo um expulsar o outro do círculo. Apesar do evidente desgosto do jovem bailarino, a cena era cômica, e todos riam muito do embate entre os dois. Sacanagem pura do John que usou a vaidade dos porters pra divertir os espectadores.

Resolvo questionar Ali sobre os homens andarem de mãos dadas. Ele admite sem maiores constrangimentos que não rola só amizade, não. Alguns são namorados mesmo. Concluo que o homossexualismo masculino é tolerado, portanto, no país. Ali observa, irônico, que se aos homens é permitido andarem de mãos dadas na rua, o mesmo não ocorre entre um homem e uma mulher. É escândalo na certa! Coisas do Paquistão!

O camping é dividido em terraços, assim, em cada um, acomodam-se as diversas expedições que chegam a Paiyu. Vejo, no terraço abaixo de onde estamos instalados, um jovem e desço até lá pra conversar um pouco. Esclarece que é tcheco e prefere escalar em lugares não muito badalados, manifestando certo desprezo pelos oito mil. Conta que já escalou o Fitz Roy e também alguns picos nas Torres Del Paine. Dou bye bye e subo até onde está minha barraca.

Sento, do lado de fora, numa cadeirinha, observando o tcheco e seu companheiro, que chegara um pouco depois, armarem juntos suas barracas, enquanto, animadamente, conversam naquele áspero idioma deles, dando muitas risadas. Escuto uma gritaria e, curiosa, vou até o lugar de onde provém o zum zum zum. Uma aglomeração de porters gesticula ao redor de uma lona azul onde estão dispostos pedaços de carne, ainda, sanguinolentos enquanto dois homens, ao centro, colocam os nacos em sacos plásticos. Fico sabendo que é costume as expedições comprarem uma cabra (os donos dos acampamentos possuem criação desses bichos), matá-la e dividir os despojos entre si. Tal partilha, entretanto, não se dá tão igualitariamente assim, daí o motivo de os porters dessa ou daquela expedição reclamarem pra si este ou aquele pedaço com grande alarido.

Tudo se acalma, por fim, e os porters saem carregando satisfeitos seus quinhões, garantia de que irão comer algo mais substancial, além da insossa ração diária de chapati e sopa a que se submetem durante o trekking. Nós também ganhamos a nossa porção, o que se evidencia quando um de nossos porters passa por mim e aponta, alegre, um saquinho com alguns pedaços da carne. Ali vem até onde estou - permaneço sentada do lado de fora da barraca pois o calor, ainda, não arrefeceu - conversar sobre o nosso itinerário do dia seguinte. Concordo com tudo o que propõe, aliás, uma das raras ocasiões em que deixo decidirem por mim, até porque nem conheço nada mesmo das trilhas, hehehe. E sabe duma coisa? Às vezes, muito de vez em quando, é bom ter alguém que decida em meu lugar!

Um porter, alto e magro, sempre sorridente, dono de dois grandes e espaçados incisivos centrais superiores, um tanto quanto projetados pra frente, vem me trazer nimko, uma espécie de pastelina, levemente condimentada com pimenta preta, tempero muito usado na comida paquistanesa. Pergunto seu nome e percebendo a sua evidente dificuldade em entender inglês, novamente arrisco “what is your name?” Ele pensa um pouco e dispara que nem uma metralhadora “Muhammad Ali”. Eu continuo a interrogá-lo, me “achando a repórter” “are you a porter or a guide?” Outra pausa, ar de confusão total, então, rapidamente, decide “Muhammad Ali”. Nem preciso acrescentar que desisti de qualquer tentativa de continuar batendo papinhos com Mr. Smiley, apelido dado a ele por seus companheiros.

O céu continua claro e brilhante, apenas uma brisa agita vez por outra a folhagem das árvores. Muhammad me chama pro almoço. Niaz todo orgulhoso serve o tal carneiro ensopado. Desmancho-me em elogios, na verdade, não gostei muito desta carne, não! – às vezes, porém, é necessário um pouquinho de falsidade pra agradar, tipo noblesse oblige, sacou? Entretanto, os paquistaneses parecem apreciá-la muito porque comem-na com evidente prazer. De sobremesa, vermicillies, uma massa tipo cabelinho de anjo misturada com leite. O gosto lembra açúcar queimado. Os elogios, dessa feita, são sinceros.

O calor está sufocante. Nem pensar em tomar banho de rio porque as águas são congelantes. Entro na barraca, leio algumas páginas das aventuras de Amundsen no Pólo Sul e não resisto à modorra, logo estou dormitando com o livro sobre a barriga. Fim de tarde, saio pra passear e desço até o rio. Alguns porters enxaguam peças de roupa. Um deles, penso, deve ser o da minha expedição, lavando as minhas. Como meus dedos estão dilacerados devido à psoríase (o clima muito seco detona a minha pele demais, assim aconteceu, também, no Atacama), pedi a Ali se conseguiria algum porter pra fazer esse serviço para mim. Depois da janta, enquanto fumamos um cigarro, indago de Ali qual seu signo. Ele não sabe qual dia e mês nasceu. Explica que é uma situação comum, nas aldeias do país, os pais não registrarem os filhos, devido às dificuldades de locomoção até as cidades onde se localizam os cartórios. Conta, sorrindo, que sua mãe o pariu enquanto dormia. Quando ela acordou, ele já estava, acomodado, entre as pernas maternas.........será que compreendi corretamente?! Sei lá, seu inglês estropiado e meu ouvido pouco afeito a este idioma, podem bem ter colaborado pra eu entender um tanto quanto errada a narrativa de seu nascimento...porém, tudo é possível neste mundão governado por deuses, alás, budas e orixás.

Um certo frescor já se faz sentir. As nuvens exibem agora um leve tom rosa, resquícios de um sol em declinío. Dos refeitórios dos tchecos e dos espanhóis, escuto alegres risadas. Porters, puxando pelos cabrestos seus cavalos, passam diante de mim, enquanto outros dois passeiam tranqüilamente de mãos dadas. Amanhã teremos de acordar cedo de modo a evitarmos, o máximo possível, a exposição sob o sol forte, em especial durante as primeiras horas da tarde. Hoje, ao contrário de ontem, todos deitam cedo, um tácito toque de recolher faz com que, já às 21 horas, estejamos acomodados nas barracas preparando-nos para dormir. Não existe melhor disciplina que o esporte!

Continua...




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