Bate e Volta em Casa Grande

2

Casa Grande é uma localidade em Biritiba-Mirim (Mogi das Cruzes) da qual apenas ouvira falar faz algum tempo, na Região Metropolitana de São Paulo, há 94 kms da capital. A pequena vila na verdade é um complexo da Sabesp inaugurado em 1939 q , alem de abrigar hippies na década de 60 após sua desativação, detém uma localização privilegiada no alto da serra e está repleta de atrativos naturebas. Estes vão desde vários remansos bucólicos, poços e cachus dos rios cristalinos, belos visus do litoral e até caminhadas q descem ate Bertioga. E foi lá q tivemos um bate-volta apenas pra sentir o gostinho deste desconhecido rincão próximo à urbe. Um pto prolífico pra futuras incursões localizado no centro da Serra do Mar mogiana.


As infos eram escassas e na net pouco há! Digite “Casa Grande” ou “Biritiba-Mirim” no Google q não encontrará nada a respeito. Até agora. Casa Grande é daqueles locais q apenas se ouve alguém sussurrar de vez em qdo, sem mta freqüência, e q acaba ficando por isso mesmo, relegado à condição de “lenda-urbana”. A culpa mesmo foi do Nando, q voltou a mencionar do local pra mim estes dias, e ainda por cima deu-se o trabalho de verificar modos de chegar até lá. Isto pq uma coisa era certa nesse local de poucas certezas: Biritiba-Mirim fica no “fim-do-mundo” dos limites da região metropolitana de SP!

Dessa forma, as 9hrs saltamos em Mogi das Cruzes e imediatamente nos dirigimos à Pca do Imigrante Japonês, onde supostamente havia um busão q nos deixaria bem próximo de Casa Grande. Após beliscar rapidamente alguma coisa numa padoca, cruzamos quase td a movimentada Av. Vol. Fernando Pinheiro Franco até o final, onde uma pequena pracinha em forma de triangulo anunciava ser um pto de saída dos ônibus ate Salesópolis, entre outros destinos. Lá nos informamos q o coletivo – um tal de “210 Mogi-Biritiba Mirim”, tinha apenas 4 horários e não circula domingo -&nbsp, não ia até nosso destino e sim ate os “quase-arredores” do mesmo. Dane-se, tomamos mesmo assim o busão as 9:40 e rumamos ate Biritiba-Mirim, onde pelas infos dos motoristas teríamos mais opções (diretas) ate Casa Grande. Assim, deixamos Mogi e logo tomamos o asfalto pela mesma estrada q leva ate Salesópolis, enqto um céu azul isento de nuvens recortava as serras, delimitando o horizonte.

Saltamos na simplória e mirrada rodoviária de Biritiba-Mirim as 10:20 apenas pra descobrir q o único busão q seguia ate nosso destino (um tal de “Terceira”) tem poucos horários e q teríamos q aguardar mais de 1hr ate o próximo sair. Bem, já estávamos lá, paciência. Nesse meio-termo já começamos a calibrar com cerveja sob o forte sol da manhã, alem de dar um breve rolê pela cidadezinha, q com ar interiorano e forte influencia japonesa tem a economia baseada na agricultura.

Enfim, hora de partir. O busão q tinha marcado sair as 11:30 de fato partiu apenas 15min depois. Aqui não há pontualidade nenhuma e qq planejamento não faz sentido algum. O pessoal daqui vive num mundo paralelo, onde a vida é mansa, o motorista trata os passageiros pelo nome e a correria inexiste. Horários são apenas referencias.

Pois bem, embarcamos num coletivo caindo aos pedaços e zarpamos numa viagem de apenas 16km q pareceu interminável! Ao deixar a cidade embrenhou-se por tortuosas, precárias, sinuosas e esburacadas estradas de terra em velocidade reduzida, parando a cada 500m pra pegar ou deixar alguém. Santa paciência! Isto pq ainda não havia entrado nos solavancos empoeirados mais adiante, q nos deixou com pó da cabeça aos pés! Contudo, num piscar de olhos nos vimos no meio da mata, tendo de ambos lados uma morraria verdejante pontilhada do lilás das quaresmeiras dando o tom!

Enqto ouvia “Who made who” no meu player pra não dormir, as 12:30 o busão chegou em seu pto final, um bairro rural conhecido como “Terceira”, marcado apenas por um decrépito pto de madeira e mto mato ao redor. Deixei de lado a voz rouca do Angus pra largar os sentidos ao vento afim de captarem a essência deste inicio de Serra do Mar mogiana. Após coletar as infos do motora de q horas ele partiria no final da tarde o vimos manobrar pra depois retornar pela estrada, e se perder no meio do pó levantado! Meu, era meio-dia e meia! Mais de 4hrs pra chegar ate aqui, q bosta! Em fcao disso já começávamos a questionar da produtividade efetiva do nosso bate-volta daquele dia! Ou seja, ir pra Casa Grande da próxima vez só de carro ou de cargueira, já pra pernoitar no mato!

Ajeitamos as mochilas de ataque, alongamos e começamos nossa pernada rumo Casa Grande, distante ainda alguns bons kms estrada acima. E sob o forte sol de inicio de tarde avançamos pela estrada, sempre em meio a morraria forrada de vegetação, principalmente bosques intermináveis de eucaliptos, enqto conversávamos pra passar o tempo. A medida após 3kms de andança a paisagem ia ficando cada vez mais exuberante no quesito mata, e inclusive passamos por uma bica à beira da estrada datada de 1926, q refrescou nossas cabeças reclamando do forte calor.

Mas logo a pernada, q sempre se manteve em nível, começou a descer sinuosamente com alguma declividade até acompanhar um largo espelho d´água, q era nada mais q um pequeno braço do enorme Reservatório de Ponte Nova, o maior do Sistema Produtor Alto Tietê, também da Sabesp e q vem de Salesópolis. A estrada SP-92 por si já é cênica, e o enorme lago ao lado enfiado na mata apenas lhe conferia charme especial, tanto q vimos alguns velhos pescadores sentados à margem da água, pacientes em tentar voltar com algo pro almoço de casa.

Após ziguezaguear pela estrada, as 13:30 ouvimos o som inconfundível de água despencando nalgum lugar, em meio a mata! E logo à nossa direita surgiu uma bela cachu caindo numa seqüência de varias lajotas fortemente inclinadas, do alto da serra! O local tinha algum lixo e estava repleto de trabalhos e oferendas, tanto q apelidamos o local de “Cachu da Macumba”. Indiferente a isso, o Nando refrescou-se ali naquelas águas energizadas por Ogum ou Exu, vai saber. Eu preferi dar um rápido rolê nos arredores apenas pra descobrir uma boa área de acampamento, um tatu afogado e uma trilha q subia a cachu, sabe-se lá pra onde. Não tomei banho pq queria fazê-lo num lugar “melhor”.

E não tardou pro meu desejo se realizar. Prosseguindo a pernada em meio ao calor sufocante da tarde, não demorou a passar a acompanhar um ruidoso rio pela direita, e as14hrs encontramos à beira de estrada uma trilha q dava acesso ao mesmo num local pra lá de privilegiado! Após cruzar duas cambaleantes pontes-pênseis, a picada nos largou nos amplos e largos lajedos as margens do cristalino Rio Claro! O local é cênico, repleto de poços, uma área da acampamento e pequenas cachus, bem acessível. Donos absolutos do lugar, estacionamos ali pra tchibuns e um breve lanche, claro!

A pernada teve continuidade meia hora depois, sempre naquele compasso em meio á verdejante Serra do Mar mogiana pontuada pelas intermináveis florestas de eucaliptos na morraria à direita, provavelmente propriedade da Suzano, industria de celulose. Mas as 15:30 e quase 7km após o inicio da pernada a partir do ponto de bus, caímos na portaria de “Pedra Grande”, q nada mais é a entrada da atual Estação da Sabesp do Rio Claro, no alto da serra. A partir daqui já era propriedade particular, mas ainda assim adentramos ao menos pra coletar infos concretas da região com os guardinhas da guarita, q foram mto cordiais e prestativos em nos esclarecer os atrativos dali.

Daqui havia uma trifurcação: a primeira, uma estrada de terra q dali acompanhava a represa e dava em Salesopolis, 18km dali, ideal pra bikers e motoqueiros, o segundo, um caminho q dava nas ruínas da vila anterior, no alto da serra ate um mirante privilegiado com vista pro litoral e vários acessos aos rios próximos, como o Guacá, Guaratuba e o Ribeirão do Campo, assim como descidas ate Bertioga através da serra e ate um circuitão pela Pedra do Sapo, e uma terceira estrada precária q atravessava fazendas isoladas pra depois se perder no mato, mas com alguns acessos confusos (por trilha) aos ptos do segundo caminho.

Pois bem, justamente este segundo caminho foi o q despertou tanto meu interesse qto o do Nando, mas deles era o único dentro da propriedade da Sabesp, e portanto proibido! Seu acesso era feito mediante prévio agendamento e aparentemente sem gde burocracia, tanto q pegamos tds as infos necessárias pra isto pra retornar lá já uma próxima ocasião, q deve ser em breve. Alem do mais, dentro do complexo localiza-se a estação de tratamento de água e a Represa de Ribeirão do Campo, localizada a 20 quilômetros dali, no alto da Serra do Mar, na altura de Boracéia.

Com o dia findando, infos já coletadas e sem mto mais o q fazer, o rolê ate ali já havia valido a pena pelo prévio reconhecimento da região, o q já tava de bom tamanho. Como nossa preocupação era a volta, já q busão ali não havia (principalmente qdo chovia!), resolvemos aguardar ali alguma carona até algum local. Nesse meio-termo tomamos mais umas brejas no restaurante dos funcionários, onde felizmente as 16:30 conseguimos nos acomodar na caçamba de uma saveiro q, após mta poeira e sacolejo, nos largou num boteco a beira da estrada, já no bairro da “Terceira”, meia hora depois.

Com tempo de sobra, entornamos mais umas brejas e até uma pinga de Cambuci, para tomar o sacolejante busão de volta pra Biritiba-Mirim, com os mesmos passageiros q havíamos chegado até ali!! Após o repeteco da via-sacra de conduças ate a “pauliceia desvairada”, cheguei em casa um pouco antes da meia-noite, cansado!

É verdade q nesta primeira incursão à Casa Grande mal conseguimos arranhar a superfície do q a região oferece, mas de qq maneira já nos calçamos devidamente pra futuras incursões mais ousadas q já saltaram à nossos olhos. Por exemplo, a descida do majestoso Rio Guaratuba, q com seu gde volume de água despenca sinuoso pra Praia de Boracéia, em Bertioga. Ou até o desconhecido Rio Guacá. Mas este e tantos outros são programas futuros deste pitoresco lugar – um rincão cujo difícil e longínquo acesso o mantém ainda preservado – q podem esperar. Por ora podemos nos regozijar somente com a simples consciência da mera existência dele, mais uma pérola esmeralda q podemos encontrar na super povoada Região Metropolitana de São Paulo.

Continua em: Casa Grande 2 – o retorno.

Jorge Soto
http://www.brasilvertical.com.br/antigo/l_trek.html
http://jorgebeer.multiply.com/photos

Compartilhar

Sobre o autor

Jorge Soto é mochileiro, trilheiro e montanhista desde 1993. Natural de Santiago, Chile, reside atualmente em São Paulo. Designer e ilustrador por profissão, ele adora trilhar por lugares inusitados bem próximos da urbe e disponibilizar as informações á comunidade outdoor.

2 Comentários

    • Casa Grande foi um lugar legal pra se ir na década de 80,depois ficou conhecida demais e os boizinhos destruiram o lugar já naquela época a água já era contaminada,e tem muitos roubo por lá o lugar virou uma merda

Deixe seu comentário