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Trekking pelo litoral

Caminho Do Imperador: Da Juréia Até Iguape


Aventura de:

Tardou 2 anos para que se juntassem as condições - e vontade - para dar continuidade a uma caminhada que só não finalizei por falta de tempo, a Trilha do Imperador (ou do Telégrafo). Esta, por sua vez, já fora bem tradicional outrora por coincidir com uma romaria local, mas atualmente esta proibida por atravessar boa parte da Reserva Ecológica da Juréia, litoral sul de SP.

O trecho Guaraú (Peruíbe, litoral sul de SP) até Barra do Una foi perfeitamente viável num final de semana. Restava apenas o trecho que vai de Barra do Una, segue até a Ponta da Juréia e termina na Barra do Ribeira, em Iguape, 30km depois. Assim, atento ao tempo e à tábua das marés, resolvi de última hora ´terminar o serviço´, numa pernada que exige o legitimo espírito ´aventureiro´ pelas condições acima expostas. De quebra, a beleza singular de um dos rincões de nosso país que são poucos os privilegiados autorizados a pisar.

A lotação que tomei no Terminal Jabaquara, as 10hrs, com destino a Peruíbe foi até que bem rápida, e o céu azul desta vez permitiu apreciar atentamente os detalhes da descida de serra pela Imigrantes, que não fica atrás da Tamoios. E, num piscar de olhos passando por Mongaguá e Itanhaem, cheguei a Peruíbe quase meio-dia.

Assim, fui para a rua atrás da rodoviária que é de onde partem os ônibus para tudo quanto é canto, incluindo Guaraú e Barra do Una, para onde partimos as 13hrs, depois de um lanche. Viagem que fica emocionante somente depois da Praia do Guaraú, pois a precária estrada de terra serpenteia, em altos e baixos, a verdejante serra que compõe este trecho inicial da Juréia. Após passar pela farofada Cachoeira do Perequê, pelo Núcleo Itinguçu e da Cachoeira do Paraíso, é que definitivamente seguimos para a vila da Barra do Una, aonde chegamos as 14:30.

Minha idéia era aguardar o anoitecer para cruzar à nado a barra do rio até outra margem (longe da vista do pessoal da Reserva), mas como era cedo fui bisbilhotar as condições do mesmo. Pela praia plana e larga, logo alcancei a ampla foz do belo Rio Una do Prelado, onde apenas alguns pescadores tentavam fisgar alguma coisa nas águas calmas e escuras.

O rio, por sua vez, é obstáculo natural para o início da caminhada (na outra margem), já propriedade da Reserva Ecológica. Mas bastou notar a guarita do outro lado fechada que resolvi cruzar-lo naquele mesmo instante a fim de andar com luz e não à noite, conforme inicialmente previsto!

Assim, munido de sacolas de plástico, ensaquei meus poucos pertences, tanto que minha cargueira tava mais para ataque de tão leve: isolante, lanche, 2,5L de água, sobre-teto da barraca, rede, lona de plástico, chinelo e a roupa do corpo. Depois de cair na água para testar profundidade e correnteza, joguei a mochila nas costas e mergulhei resoluto a transpor os quase 70m de largura do rio.

Inicialmente tive dificuldade em nadar de peito, pois a barrigueira da mochila tornava a mesma ´dura´ demais nas minhas costas, impedindo de levantar a cabeça para respirar satisfatoriamente. Mas bastou soltá-la que tive mais tranqüilidade e liberdade em continuar minhas lentas e vigorosas braçadas, sob o olhar perplexo dos pescadores, que deveriam estar apostando entre si se chegava na outra margem ou não.

Devo ter demorado a ´eternidade´ de 7min. para atravessar o rio, tempo suficiente para descansar e tomar fôlego quando foi preciso, ora para compensar as suaves e frias correntezas que tendiam a me levar para o mangue, bem mais abaixo da margem arenosa que visava.

Quando pisei em terra firme quase desabei de cansaço, mas a sensação de vencer o rio bastou para continuar a pernada, as 15:30.

Dei um rápido trato na mochila (apenas para constatar que as sacolas vedaram tudo perfeitamente) e, descalço, tomei a longa, deserta e ampla Praia do Una, que segue por 12km intermináveis a sudoeste. Neste longo trajeto, agraciado por um céu limpo e sol na cara, passei por restos de um barco naufragado, urubus comendo a carcaça de um golfinho e muitos caranguejos, gaivotas, quero-queros e carcarás.

A larga faixa de areia, plana e dura, era limitada à direita por uma extensa planície de restinga arbustiva (com cactos!) que se estende quilômetros a noroeste, e termina aos pés da grandiosa Serra do Itatins.

A pernada transcorreu tranqüilamente e só teve uma breve pausa num raso riacho que foi motivo para um refrescante banho e numa simpática capelinha do Bom Jesus, que devia ser o objeto de culto das peregrinações ali efetuadas. Enquanto isso, à minha frente o maciço da Serra da Juréia ia lentamente se materializando onde um curioso pico parecendo o ´Garrafão´ (do parnaso) chamava minha atenção para sua curta crista a oeste.

As horas se passaram e o sol vai se pondo lentamente atrás da silhueta recortada das montanhas, no mesmo instante em que a maré sobe, deixando a praia cada vez mais estreita e inclinada, agora com areia grossa e fofa. Faltando pouco para Ponta da Grajaúna, resolvo esticar o isolante na praia, um pouco acima da faixa das marés e antes da restinga. Após comer, me cobri com o sobre-teto da barraca e fiz travesseiro da mochila, disposto a dormir.

No entanto, o vento continuou soprando do mar - pipocado de luzinhas de embarcações ao longe - assim que a noite caiu, deixou o firmamento coalhado de estrelas, onde uma ´quase´ meia-lua iluminava parcialmente a praia ao meu redor. Um espetáculo para os olhos, que só se fechariam mais tarde vencidos pelo cansaço! A noite de sono bom correu tranqüilamente, fora um sereno frio de madrugada e investidas de caranguejos curiosos da minha presença.

No domingo acordei com o cafuné de um enorme siri, as 5:30. A escuridão lentamente se dissolvia quando retomei a pernada, logo após comer algo e guardar meus pertences. Minutos depois, outra pequena barra de rio (raso) é facilmente transposta e logo estava no final da praia, onde uma placa ao pé do enorme rochoso indica que estou no ´Juréia: Núcleo Grajaúna´. Uma picada entra na mata de encosta (já maior q a restinga), à direita, onde há mais duas casas fechadas e a trilha se torna uma precária estrada de terra que vai lentamente contornando a ponta.

Ignoro uma bifurcação que sai pela direita, atravessando uma ponte e aparentemente indo planície adentro. Logo depois, deixo a estrada e tomo uma discreta picada, à esquerda, acompanhando a base do morro adentra na mata fresca e em pouco tempo sobe suavemente ao alto de uma encosta, do outro lado da ponta. A vista privilegiada (a 40m acima do nível do mar) da imponente Ponta da Juréia, iluminada pelos primeiros raios do sol é realmente fantástica!

Uma picada desce por degraus erodidos até a areia e num piscar de olhos, atravesso a curta praia, indo parar num costão rochoso, onde o mar impede a passagem. Mas, saltando de pedra em pedra vou ganhando altura outra vez, na diagonal até alcançar uma trilha que o contorna por cima.

Fico com receio em percorrer este trecho na maré alta, porque ao galgar pelas pedras as furiosas arrebentações das ondas só não me atingiam porque escolhia o momento apropriado para andar, ou seja, quando o mar se recolhia!

A trilha desce e - outra vez de pedra em pedra - alcanço a areia, onde logo me vejo cruzando os 3km desertos e largos da Praia do Rio Verde, onde apenas algumas gaivotas e maçaricos pareciam se incomodar com minha intromissão. A verdejante ponta da Juréia parece desabar junto ao mar e faz jus ao seu nome que em tupi-guarani significa ´ponto saliente´.

Ao final da praia, retorno algo de 200m onde acho um trilho arenoso, à direita, que se enfia na restinga arbustiva, passa por uma caixa d´água (e restos de uma construção) e adentra um belo túnel de vegetação para depois me ver no interior de uma baixa floresta, típica de mangue, até alcançar uma pequena casa caiçara onde parecia haver alguém em seu interior.

Logo adiante está o manso Rio Verde, a trilha continua nas pedras da outra margem, contornando a Juréia por cima. Felizmente, os 30m de largura do rio, que ganha este nome por refletir a verdejante serra em torno, foram facilmente vencidos carregando a mochila na cabeça, com água ate o peito, as 8hrs.

Do outro lado, a picada se enfia na mata subindo para a direita, mas logo beira a encosta em definitivo para esquerda, ganhando altura rapidamente. Aqui há muita água potável na forma de vários pequenos córregos descendo a montanha e o percurso é feito em grande parte dentro de densa mata, com alguns trechos abertos, permeados de macacões de samambaias e vistosas bromélias. Num deles, somos brindados com uma vista espetacular da Grajaúna e da praia do Rio Verde, 100m adiante do rio homônimo.

A trilha contorna a ponta e passa a bordejá-la agora para sudoeste, subindo e descendo suavemente, tendo um enorme costão e pequenas prainhas logo abaixo, à nossa esquerda.

Na seqüência, se embrenha novamente na mata, descendo em ziguezagues que exigem cautela nos trechos escorregadios, principalmente quando se esta calçando um simplório chinelo de dedo. Numa curva, a trilha parece descer para esquerda e ignorar uma bela e pequena queda d´água, mas o certo é seguir para a cachoeira, visível no meio da mata. Esta, por sua vez, despeja suas águas num poçinho de água cristalina, onde faço questão de mais um breve banho. Na seqüência, a trilha continua da base da cachoeira, bordejando a encosta de mata fechada, aonde vamos perdendo altura sutilmente.

Numa curva de trilha, temos uma janela na vegetação que permite um visual do outro lado da ponta: os intermináveis 15km da Praia da Juréia em meio a uma vasta planície de restinga! Praia que alcanço as 9hrs, após passar pela Portaria da Reserva, na qual não vi sinal nenhum de vida!

Com o sol começando a bater forte e sem ninguém à vista, não me restou alternativa senão a caminhar por horas aquela enorme e larga praia de chão duro e repleto de bolachas-do-mar em sua areia escura, trecho que seria tedioso não fosse a presença constante de urubus e gaivotas, mas principalmente de umas inconvenientes mutucas que me obrigavam a estar sempre em movimento.

O tempo foi passando e a sola calejada do meu pé começando a doer, mas felizmente faltando apenas uns 3km consegui carona com um motoqueiro que me deixou na muvucada praia da Barra do Ribeira (sinalizada por uma enorme antena de radio), sob o sol e calor escaldante do meio dia.

Dali bastou cruzar a pequena vila - cujas ruas de terra, areia e grama lembram uma Marujá com mais infraestrutura - e embarcar na balsa que cruza o grandioso rio Ribeira do Iguape. No outro lado, enquanto aguardava o ônibus das 13:30 para Iguape comemorei num boteco o sucesso da empreitada. O cansaço e alguns cochilos quase me fizeram perder o busão, cujo trajeto de pouco mais de uma hora fiz no mundo dos sonhos. Em Iguape, tomei outro busão, das 15:30 para São Paulo, onde cheguei 4hrs depois. Exausto e cansado, claro, porem satisfeito de ter tido o privilegio de percorrer um trilho histórico num dos redutos mais preservados de Mata Atlântica, que por conta de suas tantas dificuldades e restrições de acesso, ironicamente ainda mantém a paz e beleza preservadas.

Jorge Soto




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