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Quase...

Cerro Plomo, com direito a carona de helicóptero


Aventura de:

Sempre pensei em fazer algo diferente mas achava que faltava experiência, até que um dia estava revendo as fotos de montanha com a esposa e ela simplesmente me deu uma sacudida, me falando que não entendia como eu não procurava algo maior para fazer. Só no Ibitiraquire eu já tinha passado por: um ciclone extratropical que destruiu minha barraca, temperaturas congelantes e fora todas as noites em que me embrenhei na mata sozinho...

Há tempos queria visitar o Pico Paraná "nevado", mas é difícil demais acertar as condições climáticas. Fiquei de olho no tempo para sincronizar a chuva e o frio e, no dia 04/08/2011, peguei o frio mais intenso que já tinha sentido nessa vida, acompanhado de um vento que cortava a alma. Para se ter ideia derrubei água na barraca e ela congelou, meu termômetro quebrou em -4 graus Celcius... mas nada de nuvens, só gelo. Me frustrei pela ausência de neve, nem traços, nem um mísero sincelo, mas valeu muito a experiência com o frio. Nesse mesmo dia alguns turistas se divertiram com uma geada de -1 grau no Barigüi.

Então depois dessa chamada da esposa comecei a me animar, mas entre a animação e um planejamento de crédito existe uma grande distância. No início de dezembro do ano passado ao ler seu artigo sobre o Cerro El Plomo e mais algumas informações do site Andes Handbook a aventura me pareceu possível, uma boa montanha para iniciar, enfim faria algo fora do país e em uma montanha andina, uma grande realização.

Entretanto isso era só o começo, haviam muitas incertezas, muitas informações para buscar, uma semana de férias e a dificuldade para arrumar alguém como companhia em uma viagem tão rápida, já era metade de dezembro e queria viajar no final de janeiro.

Nesse momento foi crucial o contato com Hilton Benke e muita leitura para afastar alguns fantasmas como altitude, gretas, frio, equipamentos certos, transporte e mais uma série de detalhes que, mesmo que escrevamos um grande planejamento, sempre faltará algo.

Assim, mesmo com só uma semana para executar o feito, isso já me parecia possível, pois as informações chegavam em meio a um bombardeio de e-mails para os chilenos e com todo o apoio do Hilton Benke. Entretanto, algo que não fechava: o transporte.

Imaginei uma série de possibilidades mas a mais arriscada foi a que me agradou: estaria em Santiago no domingo de noite e no Refúgio Federacion na terça-feira pela manhã, já com todos os equipamentos necessários. Para realizar isso, algo nada convencional: um helicóptero! Isso mesmo, um helicóptero... seria loucura praticamente executar um teletransporte até 4.200m?

Bem, de início já haveria a dificuldade do choque com a altitude e, depois, quem me levaria até lá? Quanto a altitude consultei um médico e o diamox foi uma solução a se aplicar. Quanto aos helicópteros, consegui achar algumas empresas que transportam esquiadores, mas ficou a dúvida se eles iriam tão alto.

Minha bagagem para o Chile foi a roupa do corpo e uma caixa de papelão, o mínimo, já que compraria tudo lá... só não levei a "bagagem" em uma sacola de supermercado porque estava levando meu canivete companheiro de aventuras.

Chegar no Chile foi muito bom pois todos são muito amistosos com os brasileiros, aliás acho que deveríamos aprender a ser como eles.
Fiquei em Las Condes e já na segunda feira pela manhã estava sentado na porta da AndesGear. Passei a manhã inteira para fechar a lista de equipamentos, me senti como uma mulher dentro de um shopping center, passaria o dia inteiro lá olhando os equipamentos, mas tinha a segunda missão do dia: fechar o transporte de helicóptero.

Desde antes de minha saída do Brasil estava tentando fechar o transporte mas o Parque Torres del Paine estava queimando e parte da frota chilena especializada em montanha tinha ido em apoio, então teria que contar com a persistência e um pouco de sorte. Um apoio do pessoal do hotel, três horas de ligações e sucesso! Conseguimos alguém que topasse voar pelas montanhas.
Então estava liberado para comprar mantimentos e fui rapidamente a um mercado. Retornando, a recepção do hotel avisou que o dono da empresa do helicóptero tinha ido duas vezes lá me procurando, preocupado para saber se estava preparado para este voo tão arriscado, talvez não fosse boa ideia...

A noite chegou e foi a hora de check de equipamentos, rever os planos e da despedida da família, já que na manhã seguinte era o tempo do café da manhã e voar, já que 8:40 estaríamos saindo do heliponto do hotel.

31/01/2012, 8:00 da manhã, chega no hotel o dono da empresa, Alejandro, preocupado comigo. Conversamos um pouco sobre a ascensão, ele falando sobre os efeitos da montanha e fazendo perguntas... até que fui mostrando para ele todos os equipamentos, falando sobre a consulta com o médico e a medicação para enfrentar o choque. Vi que o semblante de preocupação deu lugar a confiança, sinal verde para subir! Pontualmente 8:40 lá estava o helicóptero, enfim montanha.

O voo em si já foi um ponto alto de todo esse evento, um passeio aéreo por Santiago, ver o helicóptero subindo cada vez mais em direção a cordilheira e mesmo assim o chão insistia em se aproximar. 9:40 já estávamos a 4.135m no Refugio Federacion, em um pouso suave apesar de alguns ventos. Pela primeira vez aos pés dos Andes, muito bom iniciar assim.
Via a felicidade estampada no rosto dos pilotos Alejandro e Ricardo por estarem ali também, então sentamos para uma longa conversa. Alejandro, que foi da força aérea chilena, me contava suas histórias de montanhas, mostrando no horizonte as que ele já tinha subido e também do relacionamento dos incas com as montanhas.

Conversamos sobre amenidades e recebi muitos conselhos, uns técnicos e outros sobre a vida, e dois destes me chamaram a atenção em especial. O primeiro sobre saúde, disse que o cuidado maior que deveria ter não era com a respiração em si mas com o coração, dizendo que era o órgão que mais sofre com essas mudanças... mil artigos falam disso, mas foi o comentário que me tocou. Mas interessante foi o segundo, para sempre pedir permissão para subir a montanha, um local sagrado. Não foi difícil compreender o significado, já que a maioria dos montanhistas sobe a montanha atrás de paz espiritual, todos somos atraídos por esse lado sagrado da montanha.
 
Em meio à conversa perguntei se era normal montanhistas irem de helicóptero para as montanhas ou se eu era o único "louco" a pedir por isso... eles deram risada dizendo que era a primeira vez que eles levavam um montanhista para subir uma montanha, que isso não é normal...
 
Eram 11 horas quando quando eles decidiram ir, notei um pouco de tristeza pela partida apesar de ainda felizes por estar ali na montanha. Eles estavam tão felizes que eles decidiram ir tomar um café no Valle Nevado antes de voltar para Santiago.
Eu também estava muito feliz por estar nos pés do El Plomo e por toda aquela conversa amigável. Após o helicóptero sumir rapidamente em meio ao gigante vale veio o peculiar silêncio montês. Hora de montar acampamento.

Nesse momento tive uma amostra do que seria estar ali, levei uma hora e meia para levantar um acampamento que costumo montar em 20 minutos - e como cansou! - tirei uma hora de cochilo para recuperar as forças.

Conforme planejado, subiria o Cerro El Plomo somente no dia 02/02 pois precisava aclimatar. Enquanto isso sentar e apreciar a paisagem, o que achei o bem interessante.
O Cerro El Plomo é um local bem frequentado e cosmopolita, a começar por dois austríacos que desceram do cume na parte da tarde, praguejando em alemão enquanto catavam o lixo de sua barraca disperso por um gavião furtivo que procurava comida, praguejam e riam. Encontrei na volta um casal de americanos de Michigan que largaram tudo por lá para ensinar inglês em Santiago. Um pouco de inglês nessas horas sempre ajuda a se enturmar.

Procurei comer e dormir para poupar energia e aclimatar melhor, achei interessante que as embalagens plásticas herméticas de alguns alimentos estavam estufadas pela baixa pressão.

No fim de tarde me senti um pouco indisposto e me lembrei que chá ajuda a aclimatar, fiz um chá de boldo que foi o estopim para minha maior preocupação, uma corrida de 10 metros para fora da barraca para colocar tudo para fora. Incrivelmente me senti muito bem depois disso tudo e passei admirando o fim de tarde enquanto os últimos raios de sol douravam a parede do El Plomo até a completa escuridão. A barraca dava vista para uma cachoeira semi congelada que nascia e morria em meio às pedras, nunca tinha visto isso. Outra coisa interessante era o filete de água formado pelo derretimento dos glaciares que de dia formava um pequeno córrego descendo a montanha, mas essa fonte de água durava algumas horas somente e voltava a congelar ao final do dia.

Alejandro comentou que as noites acima dos 4.000 metros costumam a ser mal dormidas, mas esta primeira foi exceção a regra, pois dormi muito bem, o que credito em partes a medicação ter auxiliado na aclimatação e principalmente por ter comprado um saco de dormir para menos 40 graus... que me obrigou a dormir só de cueca!

No dia seguinte acordei bem disposto e conversei um pouco com os austríacos, que já estavam levantado acampamento. E mais gente subindo, um grupo sem barracas que ficou no refúgio, bem interessante pois estavam leves e rápidos.

Almocei muito bem, já tinha constatado que a comida era muita, então restava consumi-la para baixar o peso. Erro dos erros cometido foi aproveitar a água corrente para lavar louça, o ar seco engana, a água estava a zero graus, gelo derretido... foi o tempo de correr para a barraca, secar as mãos, ligar o fogareiro para dar uma aquecida e esconder as mãos por uns 10 minutos junto ao corpo dentro do saco de dormir esperando que elas parassem de latejar.
 
Teria que esperar até meia noite para iniciar a subida para o cume mas estava muito ansioso por estar lá e estar parado. Decidi ir até La Hoya, local onde uma das geleiras do El Plomo "morre", seriam somente 3 horas fora. O detalhe é que chegando a La Hoya e vendo toda a geleira "desaguando" em um lago congelado e todos os penitentes fiquei fascinado e lá se foi um bom tempo admirando todo aquele local.
 
De tarde chegaram mais duas pessoas que jurava serem italianos, montaram acampamento com duas barracas daquelas que se compra em mercadinho e mal as prenderam ao chão... me desesperava olhar para aquilo.

 
A ansiedade se mostrou inimiga, estava tão feliz por estar lá que não consegui dormir. Me hipnotizei com o fim do dia, com a lua e as estrelas, quando me dei conta já era meia noite, hora de subir!

Isso me ajudou a cometer mais dois erros, esquecer o diamox e o protetor labial. A soma de tudo isso iria cobrar seu preço e a única coisa que tinha a meu favor era a plena consciência do risco que estava correndo por estar só, sem dormir e pisando pela primeira vez nos Andes. Pensei que colocar a consciência antes do orgulho e da teimosia me ajudaria bastante.

Iniciei a solitária subida. Apesar do terreno lunar aquela dinâmica me lembrava uma subida noturna ao Caratuva, que é aquele tipo de subida que nunca acaba e que é melhor seguir meditando e movendo as pernas sempre para frente, sempre lembrando de esquecer de perguntar se falta muito para chegar.

Eram 3 da manhã quando cheguei ao Refúgio Agostini e fiquei muito feliz de ver ele todo reformado, novinho. Parei para ver as luzes de Santiago e isso teve seu preço pois o corpo esfriou e passei a sentir muito frio por causa dos ventos, imediatamente o cansaço cobrou seu preço. Decidi entrar e tirar um cochilo até as 6 da manhã já que estava com meu cobertor térmico de emergência, assim recobraria um pouco das forças e seguiria.

Foi uma piada! O fato é que em altamontanha as coisas funcionam diferente do que estava acostumado e o cobertor que já me auxiliou duas vezes do Ibitiraquire de nada adiantou naquelas condições severas. Então o jeito foi procurar me isolar ao máximo do chão, ficar em posição fetal e ter um pouco de paciência, assim consegui tirar um cochilo e acordar melhor depois de 2 horas de sono.

Eram 7 da manhã, notei que não havia trazido o diamox e o protetor labial. Então foi a hora de ponderar: o dia estava nascendo sem nuvens ou vento, estava com o moral recomposto, tinha passado mais de 40 horas acima de 4.000 metros... decidi por ir até onde me sentisse confortável.

Segui andando, quando vi os dois companheiros "italianos" da barraca de mercadinho ao longe, seria questão de pouco tempo para eles me passarem, enquanto ia pegando os caminhos mais a direita, mais longos, porém mais suaves, os vizinhos subiam como carneiros monteses.

Eram 9 da manhã quando passei os 5000 metros. Incrível como para meu corpo isso ficou muito claro - talvez como a dificuldade de um avião em transpor a barreira do som, invisível mas muito presente - como senti dificuldades: passos muito lentos, um pouco de azia e cansaço. Nem acreditava que meus vizinhos "voavam" pela trilha, ali o amador era eu. Agora, por vezes parava e tirava um cochilo de 5 a 10 minutos no meio da trilha. E a trilha foi ficando íngreme até atinjir o platô onde está o glaciar leste e a pirca del inca, local que pisei faltando 15 minutos para as onze da manhã e parei para mais 20 minutos de cochilo.

A dificuldade crescia em nível exponencial, cheguei na beirada do graciar e a azia se tornou um problema tão grande quanto o cansaço, tentei comer para ver se resolvia mas o que ajudava um pouco era descansar. Já no Brasil, minha irmã, enfermeira, me comentou que azia pode ser um sintoma de stress cardíaco, que me fez lembrar do concelho do Alejandro.

Enquanto preparava os crampones e admirava a bela paisagem os vizinhos retornavam atravessando o glaciar, momento em que os observava para algum aprendizado, queria seguir a trilha que eles fizessem.

Tentei conversar com eles, falavam tão enrolado que imaginei que fossem russos, saiu a conversa em inglês, onde descobri que eram chilenos mesmo, já acostumados com a montanha.

12:36, já com os crampones à postos, saí pelo glaciar e para mim aquilo foi um grande prazer, cheguei a esquecer de todas as dificuldades com a altitude. Minha primeira travessia de glaciar e o moral subiu um pouco. O gelo estava bem carpado, sem neve, não foi difícil, cheguei 13:10 na outra beirada. Levei 36 minutos para atravessar o Glaciar mas para minha cabeça foram somente 10 minutos de pura alegria. O detalhe foi que após o glaciar parei de desabei, mais 30 minutos me recompondo. Não era um bom sinal, imaginei que poderia ter sido por causa da travessia do glaciar, concentrei lembrando que o terreno não seria mais tão íngreme, faltava muito pouco, valeria à pena seguir.

Reiniciei a caminhada, mas em 100 metros de trilha parei por mais duas vezes, na primeira 15 minutos, na segunda 50 minutos! Algo estava errado mesmo.

Foi quando olhei para trás e vi nuvens lambendo o glaciar até que ele sumisse. Bem, agora não tinha dúvidas de que era a hora de descer. Apesar de ter pedido autorização para a montanha e ver que ela estava sendo benevolente comigo, havia chegado a hora em que ela encerrou o expediente para os montanhistas naquele dia. Entendi o recado e fiz meia volta.

Então foi muito rápido até chegar ao glaciar colocar os crampones e sumir no meio das nuvens... o remédio para essa dificuldade? O Santo GPS, que tinha marcado a melhor trilha e mostrou o melhor caminho de volta em meio ao agora confuso glaciar.

Quase uma hora descendo já tinha deixado as nuvens para trás - ou para cima - e pude observar outro fenômeno que eu nunca tinha passado daquela forma, neve e vento, os flocos vinham em uma trajetória parabólica dos céus, onde via aquelas "abelhas" branquinhas voando ao meu encontro e para um impacto congelante contra a face.
Daí por diante foi a sequência natural de descida de montanha, por vezes mais difícil que a subida. Um detalhe foi que minha água acabou e isso fez muita falta no restante do caminho em meio àquele clima seco.

Cheguei ao anoitecer ao Refugio Federacion para cair na barraca e o tão esperado saco de dormir, além da tão esperada água, que tive que tomar em goles de passarinho, já que meu estômago foi massacrado pelos ácidos estomacais.

No dia seguinte foi o dia de levantar acampamento, agradecer e me despedir da montanha e seguir até o Valle Nevado e depois até Santiago.

Apesar de não ter pisado no cume fiquei muito feliz com tudo, fui bem sucedido no que me propus, me sentindo mais preparado para retornar para o Cerro El Plomo, que para mim foi tão receptivo como o calor do povo chileno.




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