A Odisséia Austral - AltaMontanha.com - Portal de Montanhismo, Escalada e Aventuras
De carona pela Patagônia

A Odisséia Austral


Aventura de:

10.000 Km percorridos de carona e 5 montanhas escaladas em seis meses de viagem até o fim do mundo. Isto foi a Odisséia austral, a primeira grande viagem de Maximo Kausch e Pedro Hauck. A grande diferença? Eles gastaram quase nada para fazer tudo isso.

A idéia de fazer uma grande viagem nessas condições já não era novidade, desde antes de nos conhecermos, já sonhávamos em algum dia estar no topo de alguma montanha ou caminhando livremente por paisagens desérticas e selvagens.

Nos conhecemos em 98, acampando em Minas Gerais, Brasil. Saber que Maximo era argentino, foi o estopim para uma longa conversa e projetos sobre essa região que tanto nos fascinou por tanto tempo, este foi o início de nosso grande sonho. Durante 1 ano, nos preparamos para este grande projeto. O roteiro não era nem um pouco modesto: percorrer 10.000 quilômetros, de carona e a pé dando a volta por todo o cone sul, passando pela Argentina e Chile, e escalando suas mais famosas montanhas. Ninguém acreditou que conseguiríamos. Só conseguimos juntar 800 dólares cada um, mal tínhamos equipamentos adequados, além da pouca idade (apenas 18 anos), que para muitos, significava pouca experiência.

Saímos dia 18 de janeiro de 2000, cheios de expectativas e medo. Fomos para Villa Gral. Belgrano (próximo à Córdoba, Argentina), cidade natal de Maximo, onde nossa viagem estava programada para começar. Nosso primeiro desafio foi cruzar a Sierra Grande de Córdoba, uma serra do tamanho da Mantiqueira no Brasil Cruzamos a serra a pé, passando pelo seu ponto mais alto, que é o Cerro Los Linderos, com 2800 mt. Já parecia que estar naquela altitude, era uma grande coisa. Mal sabíamos o que estava por vir.

Nosso primeiro contato com os Andes, foi em Mendoza. Cruzando a pampa árida daquela região, nos deparamos com uma enorme muralha nevada no horizonte, cujos cumes se confundiam com as nuvens. Tudo parecia inalcançável, aliás, aquela região, é a mais alta desta cadeia montanhosa, onde fica o seu ponto mais alto, o Aconcágua, o qual pretendíamos escalar. Acabamos não conseguindo autorização para escalar o Aconcágua, tão pouco, tínhamos dinheiro para isso. Mesmo assim, nossos anseios não foram frustrados, pois acabamos indo em direção a outra montanha, o Cerro Plata, vizinho do Aconcágua, com 6100 metros de altitude (800 metros a menos que o topo do hemisfério sul).Jamais havíamos tido qualquer contato com alta montanha e neve antes de escalar o Plata, o resultado, foi mais do que positivo, pois mesmo sem equipamentos, fomos os únicos presentes na montanha daquela vez, que chegou ao cume.

Trocando as trilhas pela estrada, chegamos ao Chile. Após uma breve estada em sua capital, Santiago, rumamos ao sul, e logo após, escalamos nosso primeiro vulcão, o vulcão ChilIán, com 3200 metros de altitude. Foi apenas uma introdução, o melhor ainda estava por vir, logo após, escalamos o vulcão mais impressionante de toda nossa odisséia, o vulcão Villarica. Este é um cone perfeito, apesar da baixa altitude, 2880 mt, possui uma grande amplitude, pois se eleva desde os 200 metros de altitude. Dentre as particularidades que o tornou o mais bonito de toda nossa viagem , a principal foi que ele estava ativo!

Chegamos lá durante a noite, enquanto preparávamos nosso "delicioso" jantar, ficamos surpresos ao ouvir ruídos, como se estivesse havendo um tremor. Mais tarde, olhando para o cume, tivemos a surpresa de descobrir que o Villarica era um pouco nervoso, pois a fumaça que ele próprio soltava, era iluminada pela matéria incandescente dentro de sua cratera. Chegamos ao cume sem maiores dificuldades, de lá pudemos ver sua lava no interior da cratera e todas as montanhas ao redor do vulcão, inclusive, um outro vulcão, o Lanin, que é o mais alto da Patagônia e que decidimos escalar também.

0 Lanin faz a divisa da Argentina e Chile. A estrada internacional, mais parecia uma estrada rural, era de terra e em certos lugares, mal poderiam passar 2 carros ao mesmo tempo. No Lanin, conseguimos pela primeira vez equipamentos que foram emprestados pelo guardaparque. Chegamos ao cume com o dia fechado, onde mal podíamos enxergar um ao outro devido à neblina. O vulcão estava extinto e no lugar do cume, havia um grande glaciar. Abaixo do glaciar haviam várias cavernas de gelo, onde nos abrigamos do frio e do vento. Lá dentro, desfrutamos de um agradável calor de - 7†C.

Descendo o vulcão, voltamos à civilização, depois de percorrer vários quilômetros pelos meio da estepe e de bosques, até chegar em Bariloche. Cidade que se orgulha de ser, a porta de entrada da Patagônia. O lugar tão esperado, no qual havíamos acabado de chegar. Em Bariloche, tentamos sem sucesso escalar o Monte Tronador. Detidos pelos grandes glaciares dessa montanha e pelo mau tempo, voltamos às trilhas, por onde caminhamos mais de 3 dias até chegar ao Chile e nos deparar com o 4† vulcão de nossa viagem, o famoso Vulcão Osorno. Ele é o símbolo do sul do Chile e assim como o Villarica, mantêm sua forma cônica perfeita e nevada. Dessa maneira, achávamos que iria ser fácil alcançar o seu cume. Pura ilusão! No Osorno, quase perdemos nossas vidas em sua pendentes de gelo com mais de 60† de inclinação. Com poucos equipamentos, tivemos que desistir no falso cume a poucos metros de seu ponto mais alto. Mesmo não chegando ao cume, foi uma grande conquista, pois ficamos sabendo que aquele vulcão apresenta grandes dificuldades, e que matou mais de 100 pessoas que tentaram vencê-lo, dentre eles, 2 brasileiros.

Logo após, trocamos as montanhas pelo mar e cruzamos todos os canais do sul do Chile, atravessando também, a lendária ilha de Chiloé. Chegando na XI região chilena, a realidade era outra. O isolamento geográfico, dificulta o povoamento daquele lugar. As cidades são pequenas e quase não existe movimento nas estradas, que em geral, são todas de terra. Pela primeira vez, fora das montanhas, tivemos a sensação de estar sozinhos, mas isso foi apenas o começo, logo após, quando cruzamos a fronteira da Argentina de novo, nos deparamos com o grande deserto da Patagônia. Lá, não estávamos apenas sozinhos, mas isolados numa região selvagem e completamente desabitada.

Na Argentina, cruzamos a ruta 40, uma lendária estrada que liga o nada ao nada. Ter andado de carona nessa estrada, foi muito mais difícil que ter escalado todas nossas montanhas. O tráfego por lá era nulo, ao ponto de ter dias que não passava nenhum carro por lá. Ficamos vários dias no meio do deserto. As pessoas que nos davam carona, às vezes, paravam para caçar guanacos e ñandus que pastavam livremente pela estrada. Numa noite, um puma, esteve a menos de 5 metros do nossa barraca.

Voltamos à civilização numa manhã em que a estepe havia virado tundra, devido a uma nevasca. A cidade à qual chegamos, tinha menos de 500 habitantes. Em Chaltén também fica o imponente Fitz Roy, montanha que já foi considerada a mais difícil do mundo em ser escalada e que levou a vida de metade das pessoas que tentaram vencer suas paredes de rocha de mais de 1000 metros de altura. Na base do Fitz Roy, tivemos contato com o clima ferrenho da Patagónia, com neve e ventos de mais de 100 km/h. Às vezes, em um só dia, podia fazer sol, chover e nevar, e a noite, gear. Próximo Chaltén, fica El Calafate, com suas geleiras gigantes, por onde também estivemos. Visitamos o Glaciar Perito Moreno e testemunhamos várias quedas de barreiras de gelo com mais de 30 metros de altura.

Atravessamos a pé, pelo meto do deserto, nosso sexto limite internacional. Assim chegamos ao parque nacional Torres del Paine, no Chile, que com suas montanhas, lagos e bosques, é considerado o parque mais bonito da Patagônia. Cruzamos o estreito de Magalhães por Punta Arenas e assim chegamos à Terra do Fogo, que de quente, tem apenas o nome. Novamente, havíamos chegado à Argentina e ao Atlântico. Os dias na terra do fogo, no fim do outono, são curtos. O dia nascia às 10 da manhã, e às 16:00 já estava escurecendo novamente. O sol apenas passava pelo horizonte. Foi nessas condições, numa noite em que caíam flocos de neve do tamanho de bolas de ping-pong, que chegamos à Ushuaia, a cidade mais austral do mundo.

Vinte quilômetros após Ushuaia, a estrada, a terra e o mundo acabavam. Uma placa anunciava o fim do mundo. De lá, se podia ver a ilha de Navarino. Após esta ilha, fica a ilha de Hornos, que é a última porção de terra da América e do mundo. Lá começa a passagem de Drake, onde o mar faz a curva e o Atlântico encontra o Pacífico. Estávamos abaixo do paralelo de 55†. Havíamos chegado ao incontestável fim do mundo. A própria placa que nos indicava isso, já nos indicava o quanto havia que percorrer para voltar para casa: " Buenos Aires 3020 kms".

Já havíamos chegado à metade do nosso roteiro, ainda faltava subir todo o frio litoral atlântico argentino. A volta pelo litoral foi mais rápida. Em alguns lugares, conseguíamos grandes caronas que nos levavam por mais de 500 quilômetros. Conhecemos muitas das grandes cidades da Patagônia no caminho, que são verdadeiros oásis no meio da estepe patagônica. Passamos também, pela península VaIdéz, onde se encontram várias colônias de pingüins, lobos marinhos, elefantes marinhos e grupos de baleias. Naquela altura do litoral, já não fazia mais frio negativo e a água não congelava mais à noite.

Nossa aventura terminou em Buenos Aires, onde reencontramos vários amigos que conhecemos durante nosso percurso. Quando voltamos para casa, tudo havia mudado, mas sem dúvida, o que mais havia mudado, fomos nós mesmos. Esta foi a primeira expedição e primeira experiencia de montanha de nossas vidas.

Mais fotos desta viagem no site Gentedemontanha



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