TRAVESSIA ITAGUARÉ-MARINS, PÁSCOA 2012 - AltaMontanha.com - Portal de Montanhismo, Escalada e Aventuras
Ao contrário

TRAVESSIA ITAGUARÉ-MARINS, PÁSCOA 2012


Aventura de:

Não foi o manicômio na trilha como previsto, mas chegou (muito) perto. Nesta Páscoa em meio à toneladas de trabalho no escritório e mais toneladas de trabalho pra entregar na pós, quase fiquei sem viajar. Nada que muita xavecada no chefe não resolvesse, mas por pouco não passei o feriadão em São Paulo com a cara amarrada e chupando dedo. Mas vamos ao que interessa! Vou pular a viajem de ida, pois não conta como um dia, e sem muitos detalhes mesmo, nem tirei muita foto nem fiz um tracklog detalhado. Meu intuito maior aqui era treino.

 

DIA 1 – ACAMPAMENTO BASE ITAGUARÉ-ACAMPAMENTO
CASTELINHO
Decidimos fazer a travessia no sentido contrário pra evitar muvuca e
acampamentos lotados. Chegamos bem tarde, já que demoramos 2 horas
só pra sair de SP. Na chegada no Milton trocamos rapidinho de roupa e ele
já levou a gente pro ponto de saída. A estrada é bem ruim, e com o carro
pesado, a gente sentia as raspadas no útero!
 
Acampamos na Base do Itaguaré – eu, Artur, Marcelo e Gerson
(o Marinzeiro). Acordamos umas 7 da manhã pra sair às 8, e enquanto
desmontávamos acampamento um outro grupo chegou em partes pra também
fazer a travessia ao contrário. Abastecemos os cantis num riacho que passa
ali pertinho pra subir com água. Além de ter chegado tarde, dormi mal pacas,
então já sabia que nesse dia ia rolar sofrimento.
 
Pé na trilha, começamos a caminhada cada vez mais íngreme em mata
fechada, rumo ao Itaguaré. Pra colaborar com a dificuldade, estava bem
quente e o tempo bastante aberto. Aí já começou o castigo do sol, mesmo em
mata fechada. Na sombra era uma sauna, fora dela, uma torradeira. Depois de
um longo tempo, chegamos à crista, e começou o trepa pedra. Nessas horas
parece que a perna encurta, ainda mais com muitos quilos nas costas. Aliás,
trepa pedra da melhor (ou seria pior?) qualidade: locais expostos, desníveis
grandes, pedras ásperas e muito pulo de alto porque em alguns locais a perna
simplesmente não chega. Ah, inclua aí muito arremesso de mochila.
 
Depois de muita escalaminhada, chegamos à base do Itaguaré, onde
reabastecemos. Eu já estava exausta, mas sabia que era só o começo.
Desistimos de subir o referido pico porque o tempo estava fechando e abrindo
demais pra subirmos, mesmo sem a mochila, e arriscarmos um raio na cabeça.
Pausa para lanche no último ponto de água do dia, e depois tocar vale abaixo,
 
vale acima, vale abaixo de novo e vale acima até o acampamento Castelinho.
Nesse percurso, muito capim alto, bambu e mata fechada, que me roubaram
meu pingente de caveirinha alada, e quase seqüestraram meus óculos escuros.
Chegamos no Castelinho sob chuva leve, e logo depois de montar as barracas
já começaram as pancadas de chuva, trovoadas e raios. De lá dava pra
perceber que apesar do medo, quem estava f*dido mesmo era quem estava na
Serra Fina, onde as nuvens pretas ficaram estacionadas a maior parte do dia.
Janta feita, bastou capotar – admito, foi bem puxado. Segundo os outros do
grupo, que já conheciam a trilha, foi o sai mais difícil. Deu até certo alívio...
 
DIA 2 – ACAMPAMENTO CASTELINHO-ACAMPAMENTO BASE
MARINS
Energias renovadas depois de uma excelente noite de sono, acordamos
prontos pra um dia de vara mato. Saímos tarde – perto das 10h – o que
é bastante atípico pra mim, e confesso que não me agrada muito. Prefiro
sair cedo, evitar a maior parte do sol forte e chegar cedo, mesmo que pra
ficar sem fazer nada, do que passar a maior parte da trilha andando sob sol
forte. Mas como estava como convidada, fiquei na minha e me preparei
psicologicamente pra agüentar o sol.
 
O dia começou tenso – me falaram que teria menos vara mato mas foi bem o
contrário, muito capim alto, às vezes mais alto que eu. Desde o dia anterior
já estava com bastante arranhão e corte nos braços, e dessa vez era na cara
também. Dá-lhe vara mato crista acima, vale abaixo, depois crista acima
de novo, até chegarmos na Pedra Redonda. Visu maravilhoso lá de cima,
inclusive era possível ver “a corda” no paredão da subida pro Marinzinho.
Porém, essa hora começa a ficar tensa, porque a gente começa a perceber
que a água que a gente tem é pouca pra sede que só aumenta. Eu torcia pras
nuvens entrarem na frente do sol, o que aconteceu umas 3 vezes por poucos
segundos. Eu queria tomar meio litro em cada parada, mas meio litro era o que
eu tinha nesse ponto, então dava 2 goles bem regulados. Sofrimento!
 
Depois do descanso, iniciamos a descida do vale pra depois subir em direção
ao Marinzinho. Mais um subida íngreme e bem cansativa, com sol na cuca o
tempo inteiro, e algumas partes extremamente expostas (Quero minha mãe!
Quero uma corda! Quero um pára quedas!) Chegamos à tal corda (momento
de muita emoção!), atravessamos, subimos mais um pouco, e finalmente
estávamos no Marinzinho. Lá no cume tem uns boulders e os meninos
passaram um tempo maquinando possíveis subidas. Nessa hora 80% do meu
pensamento já era: “preciso de água”. Estava com uns 200ml. É nessa descida
que tem uma marcação na rocha indicando “abigo” (sem R mesmo). Essa
trilha leva pro Maeda, e não pro Marins. Quem avisa amigo é.
 
O objetivo agora era o Marins era água. Dizem que o caminho que a gente fez
é mais difícil que a travessia tradicional (realmente, pelo perfil altimétrico,
 
tem subidas mais íngremes), mas a descida que veio depois me deixou com
dúvidas. Basicamente, desescalaminhada pura em rochas enormes e super
expostas, muitas vezes em ângulos bastante desafiadores pra quem está com
mochila. Nesse momento tive certeza que não faria essa travessia sozinha. E
é descida que não acaba! Fora que sendo tudo em rocha, com quase nenhuma
marcação, a navegação fica extremamente difícil. É pra quem tem (muita)
experiência, mesmo com GPS.
 
Bem, passadas fortes emoções, avistamos um grupo próximo à base do
Marins, e parecia que eles estavam bebendo água. Sim! Tinha água por ali!
Fiquei tão feliz que de repente o cansaço sumiu e desci a encosta rapidinho.
Uma poçona de água escondida estava bem cheia, com fila pra encher garrafa.
Não deu outra, enchemos tudo que tínhamos, e ficamos um tempão lá fazendo
isso. E como eu estava mega desidratada, tomei uns 3 litrões logo de cara
e devolvi as garrafas pro Marcelito encher. Ele não entendeu muito bem de
onde vinha tanta garrafa vazia e até ficou meio bravo, mas enfim, água é
energia né zenzti! E eu estava sem!
 
Depois de nascer de novo após beber muita água, tocamos pro Marins que
estava ali do lado. Nisso cruzamos um grupo de umas 8 pessoas, sendo 3
guias e uma menina de 10 anos andando em ritmo de minhoca, no começo
da travessia, e já eram umas 15h – um assunto que dá pano pra manga, ou
melhor, muito polêmico!
 
Subimos até o platô do Marins, onde tem um acampamento grande. Nisso
rolou uma votação pra ver se a gente acampava lá em cima ou não. Como o
tempo não estava lá muito estável, ficamos no platô, onde já tinha um povo
acampado. Até que fiquei feliz, porque ia descobrir no dia seguinte que subir
o Marins de mochilão é pra doido.
 
Depois de um pinceladíssimo por do sol, jantei Liofoods pra 2, e literalmente
capotei. Íamos acordar às 5 no dia seguinte pra ver o sol nascendo no alto do
Marins. Já cansou de ler?
 
DIA 3 – ACAMPAMENTO BASE MARINS-MILTON
Acordamos cedão num friozinho de uns 12 graus. Lua cheia e céu limpo
ajudaram na subida do paredão de rocha do Marins, a maior parte a 45 graus.
Eu ia subindo e pensando, "ou hoje eu caio e morro na subida, ou caio e
morro na descida". Isso porque estava sem mochila heim!
 
Chegamos lá em 15 minutos já com o sol nascendo. E valeu! Acima das
nuvens apenas o sol, o maciço da Serra Fina e a pontuda Pedra da Mina ao
fundo, e depois em sequência se aproximando de nós, o Itaguaré, a Pedra
Redonda e o Marinzinho. Conforme o sol ia subindo, a sombra do Marins ia
sendo projetada lá embaixo. Realmente magnífico! Foi uma meia hora que
 
valeu todo o sofrimento dos dias anteriores.
 
Tocamos pra baixo pra desmontar acampamento, e saímos rapidinho pra
chegar no Milton e voltar pra Sampa. Gerson e Artur foram na frente
porque eu e o Marcelo paramos pra pegar água. Acabou que tenho amigos
que adoram pegar o caminho errado mais difícil e acabamos “descobrindo
caminhos novos” durante a descida, que teve seus momentos de desescalada
com emoção. E apesar de todos os momentos de trecho exposto, fui levar um
chão numa das partes mais idiotas da trilha. Rasguei minha calça e arranquei
um bife do joelho. Morri de dar risada com a situação ridícula e continuamos
a descer.
 
Depois da trilha de terra, mata fechada, estradinha, e mata fechada de novo,
chegamos no Miltão, que nos recepcionou com trutas fritas, saladinha, arroz,
feijão, e a melhor cerveja que eu já tomei na minha vida. Tudo estava lindo
até começarmos a levar as coisas pro carro, aí veio o cheirinho de gasolina... e
a descoberta de que o tanque estava furado e vazou quase todo o combustível
que tinha lá. Nada que um aventureiro não tire de letra: gambiarras feitas,
partimos pra São Paulo com gostinho de conquista.
 
CONSIDERAÇÕES FINAIS
 
 
Planejamento é fundamental em qualquer trilha, principalmente
quando você tem ciência de que é importante carregar (muita) água
por conta da escassez. Em um certo momento nos demos conta de que
em 4 pessoas, tínhamos 4 barracas e 4 cozinhas. Faz as contas do peso
morto! Isso é que é treino!
 
 
Fui com 2 Nalgenes de 1 litro cada e mais 1 de 750ml, e não achei
suficiente. Bebo muita água e queria ter levado pelo menos mais 1 litro.
 
 
Sendo uma trilha muito exposta ao sol, acho fundamental começar a
andar cedo pra cobrir uma boa distância antes do sol ficar a pino.
 
 
Pra trilhar sozinha (se for baixinha como eu), fundamental levar
equipamento para içar a mochila.
 
 
Trilha puxada, cansativa e exigente. É preciso preparo físico, mental,
e coragem pra transpor as inúmeras partes de rocha exposta que tem
que ser vencidas na escaminhada acima ou abaixo.
 
 
Talvez pela época (ainda não é alta temporada), a trilha ficou um pouco
chata. Antes de chegar no Marins, estava convencida de que era muito
vara mato pra pouca montanha. O Marins no final da travessia coroa a
 
trilha, e dissipa um pouco esse pensamento. Mas é bastante irritante em
vários momentos transpor o capim alto que não pára de cortar, e a mata
que se enrosca em absolutamente tudo. Dei até uma broxada de fazer
Serra Fina, pois aparentemente lá é ainda pior.
 
 
Como treino, foi excelente – até porque passei a travessia inteira
carregando uns 3 kg de peso morto. Treino físico pelo cansaço e dor, e
treino mental porque cheguei no fim dos dias exausta com medo de não
dar conta do próximo dia. Verdade que tentei acompanhar o ritmo das
duas lebres que estavam comigo, mas foi um estímulo pra ir mais forte
que de costume.
 
 
Dessa vez levei comida mais leve e na medida exata.
 
 
Um dos pontos altos de trilha é conhecer gente bacana. Foi minha
primeira vez com os três – me pegaram pra Cristo, mas entrei de boa na
brincadeira, e no geral foi super agradável e bem do jeito que eu gosto
– trilha difícil, gente sem frescura, grupo coeso, ritmo bom.
 
O Milton, da Base Marins, dá apoio e logística pro pessoal que faz a trilha em
qualquer sentido, inclusive pra quem faz a Transmantiqueira. O problema é
chegar lá, os táxis das cidades próximas cobram bem caro e a estrada rasga
tanque de carro.
 
Gerson, dono do site Marinzeiro, além de gente boníssima, é guia da região e
pode dar muitas dicas.
 
De novo, o site com a previsão de tempo mais precisa foi
o CPTEC (pesquisando Piquete e Marmelópolis).
 



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