Travessia Alpha-Crucis, dia 1 - AltaMontanha.com - Portal de Montanhismo, Escalada e Aventuras
A maior travessia do Brasil

Travessia Alpha-Crucis, dia 1


Aventura de:

28 de Junho de 2012, quinta-feira 16h – Definitivamente o tempo melhorou, e todas as previsões marcam uma janela de bom tempo por pelo menos cinco dias. Converso pelo celular com o Sexta para partirmos neste mesmo dia, e ele concorda. Precisamos aproveitar ao máximo o tempo estável.

Ao tentar contato com Jurandir, o celular não atende, e só cai na caixa de mensagem. Enquanto isso, concluo a arrumação da mochila ainda na empresa. Porém ainda faltam alguns itens, como a comida para a primeira etapa da caminhada, e a fita amarela de demarcação. Deixo a empresa às 16:30 e vou correr atrás disto. Primeiro passo no mercado e compro 20 barras de cereais, e isotônico em pó. Depois sigo pra loja de ferramentas comprar a fita de demarcação, e finalmente vou para casa me preparar pra partir.
 
Pelo facebook, converso de volta com Sexta. Ainda não conseguimos contato com Jurandir, mas deixamos mensagens pra ele, comunicando da decisão de partir logo naquela noite, ao invés de ser na manhã do dia seguinte. O plano é ganhar tempo entrando pela fazenda Pico Paraná, pra subir e dormir no Guaricana.
 
Liguei para o proprietário da fazenda informando sobre nossa ida. O mesmo estava com seu filho recém nascido num médico aqui em Curitiba, e disse que não haveria problemas se chegássemos na fazenda antes das 22h, para ser atendidos pela sua sogra.
 
Enquanto reviso os últimos detalhes, Sexta sinaliza que conseguiu falar com Jurandir, que está tudo certo, e que pretendem sair de Paranaguá entre 19:30 e 20h. Peço que sejam ágeis afim de chegar em Curitiba até 21h, pois ainda levaríamos mais uma hora até a fazenda, e só nos deixariam entrar até as 22h.
 
Tomo aquele banho caprichado, por saber que vai levar muito tempo até o próximo. Finalmente às 19:30h, fecho definitivamente a porta de casa, sem grandes certezas de que sobreviverei para reabri-la. Ainda passo no armazém comprar 10 pacotes de salgadinhos de 50g cada, e então sigo pra casa da mãe no Bairro Portão. Lá, a janta reforçada me espera. É sentir que estamos fazendo algo que levaremos tempo pra fazer de volta. Procuro aproveitar tudo ao máximo, como se fosse a última vez.
 
Sexta liga às 20h dizendo que está saindo de Paranaguá, e marcamos às 21h no restaurante Papiadore, no Cajuru. Despeço-me da família e sigo a pé pro terminal do Portão, onde tomo o expresso para praça Eufrásio Corrêa, e de lá, outro até o lugar marcado. Às 21:10 os loucos aparecem. Euforia geral ao abraçar os companheiros desta que será a maior jornada de nossas vidas. No veículo estava também a esposa do Sexta, a qual voltaria pela estrada da Graciosa depois de nos deixar na fazenda do Pico Paraná.
 
Pelo caminho, parada pra abastecer. Aproveito e entrego ao Sexta os 25,00 que havíamos combinamos pelo translado.
 
Com o céu crivado de estrelas, nada mais podia dar errado. Mas logo após o pedágio, uma guardinha xarope do posto da polícia rodoviária nos sorteou e pediu pra encostar. Azedei na hora. Pediu o de sempre: documentos, descer, abrir bagageiro... Ao ver nossas cargueiras, perguntou pra onde íamos. Sexta foi objetivo: Pro Pico Paraná! E estamos atrasados pra chegar à fazenda, que fecha às 22h! Ela entregou os documentos e seguimos viagem.
 
Chegamos à porteira exatamente 22h. Levamos uns três minutos pra abrir, fechar, e descer até a frente da casa pra se deparar com a corrente bloqueando a passagem. Os cães avisam sobre nossa chegada, e logo aparece a sogra. Pergunta: Vão pra onde? Pico Paraná, responde o Sexta. Já é mais de 22h! Não posso deixar vocês passar... Agora, só amanhã 7 horas! Tento-lhe explicar a situação, e que comuniquei nossa vinda durante a tarde. Ela rebate dizendo que não sabe da nada. Então vou ligar pra ele e a senhora conversa pra confirmar, ok? Quando tento ligar, da fora de área. Argumento ainda, em vão, que se passaram apenas alguns minutos das 22h. Ela retruca dizendo que são ordens, e que não pode nos deixar passar e ponto final.
 
Em qualquer outra situação, acharíamos outros meios de passar ali sem problemas. Mas desta vez, se tratava da Alpha Crucis, a travessia das travessias, e não queria manchá-la já no início. Como pretendia escrever a história como faço agora, contar essa parte ia no mínimo causar revolta em quem decidiu por conta própria, estabelecer horários de funcionamento num parque nacional. Como o plano original era mesmo começar por Bairro Alto, e havia um veículo disponível que ia rumo ao litoral pela Graciosa, não perdemos mais tempo e sumimos dali.
 
Durante a descida pela estrada da Graciosa, cruzamos com o marco 22, lugar onde sairíamos da primeira etapa da travessia alguns dias à frente.
 
A viagem seguiu tranqüila. Como era quinta-feira, e meio tarde já, as estradas estavam desertas, e isso nos conferiu velocidade. As 23:25h estávamos no fim da estrada calçada de Bairro Alto, e exatamente as 23:30 iniciamos a caminhada, e depois que o carro conduzido pela esposa do Sexta se foi, sumimos na escuridão deixando para trás os últimos indícios de civilização.
 
A nossa frente, toda a Alpha Crucis por fazer. Conscientes do que isso significava, procuramos não pensar muito no assunto, e simplesmente caminhamos determinados. A estrada da Conceição estava toda roçada e seca. Isso, somado ao entusiasmo dos três caminhantes, proporcionou agilidade na progressão.
 
Em uma hora chegamos à picada do Cristovão. Mais uma hora e vinte minutos até a entrada pro Guaricana. Ali mocamos o peso extra e subimos apenas com o necessário pra passar a noite. As 2:45h da manha chegamos no cume da primeira montanha da travessia, ávidos por descanso. Escolhemos um lugar logo após o cume para montar o bivaque sob céu estrelado e as luzes de Curitiba ao fundo. Adormecemos cientes que os próximos dias seriam duma atividade muito mais intensa e desgastante, do que esta que provamos para chegar ali.
 
 
 



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