Travessia Alpha-Crucis, dia 2 - AltaMontanha.com - Portal de Montanhismo, Escalada e Aventuras
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Travessia Alpha-Crucis, dia 2


Aventura de:

29 de Junho de 2012, sexta-feira 6h – Como de costume desperto logo nos primeiros sinais de luz, mas ainda era sacanagem acordar os camaradas. Meia hora depois já não mais, e dou o toque de alvorada. Assistimos o nascimento do sol às 7h, e logo depois desmontamos o bivaque.

 
Eu e Jurandir ainda tentamos encontrar as grandes rochas a noroeste do cume, enquanto o Sexta se diverte vendo a gente lutar já cedo contra a quiçaça. Voltamos logo depois sem lograr êxito, e vamos fazer o registro no livro de cume. Brinco dizendo que agora faltam apenas 43 cumes pra terminar a travessia, e exatamente 8h da manhã, deixamos o Guaricana rumo ao Ferreiro.
 
Começar um longo dia de caminhada já descendo, é animador. A mata seca não acumulou nem sequer orvalho, e isto também é ótimo. Em poucos minutos os músculos já estavam aquecidos, e ganhamos velocidade. Quase chegando à picada do Cristovão às 9h, resgatamos o excesso de peso que ficou escondido, e sem perda de tempo, seguimos avante.
 
Das linhas de alta tensão, o Ferreiro se fez visível novamente, e antes das 10h chegamos à cascata que marca o inicio da trilha que sobe o mesmo. Ali é um lugar agradável, com água abundante, e assim decidimos que era o melhor lugar pro café da manhã antes de enfrentar a subida contínua. Sexta puxa um bolo destes industrializados, eu um pacote de salgadinho, e Jurandir bolacha recheada. Para beber, um litro de suco em pó. Estava pronto o banquete. Antes de sair, abastecemos os reservatórios, pois não sabia se tinha entre o vale do Ferreiro e o Ferraria. Enchi as garrafas que tinha, uma de 1 litro, e a outra de meio. Os amigos fizeram o mesmo.
 
Iniciamos a subida em definitivo. A todo momento me flagrava que estava na tão sonhada Alpha Crucis, isso me parecia surreal, e me dava um impulso extra nas encosta inclinadas. A ascensão do Ferreiro é rápida, e não demorou chegar aos campos e rochas. Do primeiro falso cume, observei os amigos mais abaixo. No seguinte, larguei a mochila e fui resgatar alguns cordeletes que havia esquecido no bivaque da tentativa frustrada do final de semana anterior.
 
Às 11:15 chegamos no cume do Ferreiro, com sua impressionante visão pro Ferreria. Comemoramos a chegada na segunda montanha. Sem perder tempo fizemos a aplicação do adesivo, junto ao breve relato. Jurandir observa duma rocha o vale entre este e o Ferraria, e se impressiona com a profundidade. Comento que devemos sair sentido ao sul, descendo 300 metros, e descrever uma curva suave de 90 graus rumo ao leste. Assim, evitaríamos as intimidadoras paredes, e talvez o mar de espinhos infernais do fundo do vale.
 
Partimos ao meio dia para o plano. Com facão em mãos, iniciamos os trabalhos, na esperança que durasse muito menos do que realmente durou. Mas um bom trabalho jamais deve ser feito com pressa. Não tivemos grandes desafios na descida, e num determinado momento chegamos num leito seco por onde descemos. Na verdade, era uma cascata seca, que mais abaixo começou surgir água corrente. Estava com meu litro e meio inteiro ainda, mas lembrei aos amigos que deviam reabastecer, pois certamente seria a ultima água por muito tempo. A próxima, só na subida pro Taipabuçu. Aproveitamos neste trecho as facilidades de andar por rio, e logo chegamos ao fundo do vale, onde sinalizamos com uma nova marca Alpha Crucis.
 
O fundo de vale era um bosque espetacular, tão limpo e plano que era até difícil marcar. Sem muita demora começou subir, aviso inquestionável que chegamos nas encostas do Ferraria. Agora não haveria mais nada alem de subida pesada até chegar ao topo. Nossa esperança morava na possibilidade remota da vegetação ser somente ruim, e não péssima. Mas nossa boa sorte estava prestes a acabar.
 
Conforme fomos ganhando altura, o bosque foi desaparecendo, e dando lugar a um emaranhado de infinitas espécies de plantas e cipós espinhentos que enlouqueceriam até o mais calmo dos monges budistas. Era minha vez de seguir como abre alas, e facão não era arma contra esse tipo de demônio. A trama era tão fechada que simplesmente freiava o facão, enquanto o corpo era simultaneamente perfurado por vários espinhos. Houve partes onde simplesmente me vi preso, imóvel, com espinhos malignos por todo lado. Minha única saída, ainda que inútil, era desferir até palavrões que nem existiam, a tudo e a todos.
 
Aquele emaranhado satânico estava a ponto de me enlouquecer, e não havia duvidas que era de longe o pior que já tinha enfrentado na vida. Até mesmo a capa do meu GPS foi furtada por aquele mato dos diabos. Só fui perceber muito tempo depois, quando saí nos campos. Eu é que não ia voltar pra resgatá-la nem que fosse de ouro. Quem escapa do inferno pro purgatório, não ouse recuar um metro que seja por nada nesse mundo. Foi justamente deste purgatório que assistimos a lua nascer atrás do cume do Ferraria, pouco depois das 16h. Agora as coisas ficariam um pouco mais fáceis, mas ainda levaríamos pelo menos uma hora com inclinação 45º até pisar no cume.
 
O Sexta havia emprestado uma PET pro Jurandir carregar água, já que este saiu tão as pressas de casa que acabou esquecendo. Mas achei estranho quando vi o Jurandir lhe oferecer água, e ele usá-la para abastecer seu egoísta camel bag.
 
Com os últimos raios de sol, finalmente atingimos o topo do Ferraria. Estirados no chão, usamos as ultimas luzes pra fazer o registro, pois logo partiríamos pro Taipabuçu, Caratuva, e dormiríamos no A1. Bom, isto era o que estava nos planos. O que não estava, era o Jurandir com fortes dores abdominais, que o acompanhava de forma crescente desde manha ao sair do Guaricana, mas que só fomos saber naquele momento. Ele se deitou pra ver se passava.
 
O Sexta já vinha prometendo desde lá de baixo que faria um arroz pro jantar. Como compartilhamos a comida por todo tempo, eu entraria com o suco. Surpresa mesmo foi saber que ele contava com a minha água para cozinhar, que alias era a mesma que ia usar pro suco. Ele havia bebido toda a água do camel bag, e Jurandir também estava sem. Trocando por miúdos, aqueles 800ml de água na minha garrafa, era tudo que tínhamos. Lógico que protestei, afinal quando passamos na última água no fundo do vale, alertei-os sobre isso. Meio contrariado, cedi a água. Sexta drenou 600ml, sobrando apenas 200 pro suco, que seria dividido em três, e tudo que teríamos até chegar nas encostas do Taipabuçu, onde se tivéssemos sorte, haveria um filete escorrendo na rocha.
 
Nesse meio tempo, Jurandir apresenta assustadora piora no quadro clinico, a ponto de se contorcer, e gemer de dor. As coisas ficam bem tensas. O frio se instalou, e a moral despencou. Eu e Sexta ficamos em volta do fogareiro a álcool feito de lata, tentando se aquecer enquanto o arroz cozinhava, enquanto o outro lá, rolando de dor no chão.
 
Tentamos formular o plano B – Vamos até o Taipa pelo menos... Jurandir, você consegue ir até o Taipa? A dor está muito forte? – Numa voz baixa e sofrida, sai um sim, numa resposta que nunca soubemos se foi pra primeira ou pra segunda pergunta. Concluímos pela lógica que ele não tinha condições mínimas nem pra ficar em pé, muito menos enfrentar uma jornada até o Taipabuçu. Nem mesmo aceitou o arroz feito pelo Sexta, que por sinal estava ótimo. Sua dor só aumentava. Comecei a ficar realmente preocupado, pois eu nunca vi o Jurandir abrir a boca para reclamar de nada. Se aquele cara está gemendo, por pouca coisa não era. O Sexta diz que é apenas uma dor de barriga. Mas e se não for?
 
Tentamos descobrir a origem da dor, mas o sujeito só comeu barrinhas de cereal pela manha quando tudo começou. O que poderia ter numa barrinha de cereais para causar tudo aquilo? Eu, numa situação totalmente atípica, levei alguns remédios básicos pra alguma emergência. Entre eles, antiácido ENO, Dorflex, e Tylenol 750. Optamos inicialmente pelo ENO.
 
Comicamente, não havia água sequer para preparar o remédio. Pra isso, o Sexta teve que catar as últimas gotas do seu camel bag, que deu uns 50ml no máximo. Empurramos goela abaixo no amigo. Já era fato que a noite seria por ali mesmo, então iniciei a montagem do bivaque, e pedi pra Jurandir que fizesse o mesmo. Porém ele permanecia deitado, imóvel, e gemendo de dor. Passou-se meia hora, e nada de melhora. Tentamos a última carta da manga, o Tylenol 750. Teve que engolir seco, pois não havia água nem pra isso.
 
Uso pela primeira vez o celular, pois havia combinado com algumas pessoas que só ligaria das 20 às 22h, afim de poupar bateria para casos de emergência. Ligo para minha mãe, e informo do progresso do dia, mas também do problema. Jurandir já havia comunicado que se não melhorasse, ia voltar embora pela fazenda do Pico Parana. Isso era como uma bomba nuclear caindo em minha cabeça. O Sexta já havia dito que não faria a travessia completa por razão do fim das suas férias em 02/07, e que retornaria pra casa da Graciosa.
 
Se Jurandir realmente abortasse, seria o fim da Alpha Crucis. Quando digo, fim, seria fim de verdade. Eu já estava farto disso tudo. Há quinze anos que carrego esse fardo nas costas, e nestes últimos tempos, ele andava pesando dez vezes mais. Não havia sido fácil chegar até ali, e não me refiro a estas ultimas 24h horas de caminhada, mas sim nos últimos anos de preparativos pra essa travessia. Há menos de uma semana atrás, tivemos que abortar do Ferreiro por mal tempo, o que não foi fácil. Agora que tudo parecia bem, que conseguimos a janela de bom tempo, e tudo mais favorável, uma nova desistência seria a gota d´água pra mim. Eu ia desistir da travessia definitivamente.
 
A cada tempo perguntava pro Jurandir se estava melhor, e a resposta, sempre negativa. Isso foi dando uma agonia. Cheguei cogitar com o Sexta, a hipótese de acionar um resgate. Como sempre sarcástico, disse que aquilo ali não era motivo pra isso, e que ficaria muito feio pra gente chamar resgate por causa de dor de barriga. Realmente seria vergonhoso se o problema fosse só esse. Mas pior ainda seria não tomar atitude alguma, e o camarada amanhecer como as rochas do cume: duro, imóvel, e gelado.
 



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