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Jorge Soto

Cachu da Cacéia e cachoeira dos Pretos


Aventura de:

“Meu, aqui o tempo tá bem ruim, tá chovendo um tanto e acho melhor adiar o rolê programado..Foi mals..”

Foi com essa msg nada animadora pelo celular q comecei o último domingo, qdo já estávamos a caminho de Mogi das Cruzes, quase no comecinho da Rod. Airton Senna. Olhei com cara de funeral pros demais integrantes do veículo – Lore e o motora, Alexandre – não escondendo a frustração de da possibilidade de ter mais um fds longe do cheiro de mato. E realmente, aquela manhã começara bem nebulosa se for levar em consideração os dias quentes e claros do resto da semana. “Dane-se, vamos colocar em prática o famoso “Plano B emergencial”, pensei. Só q incrivelmente não tinha nenhuma carta na manga, pois contava única e exclusivamente com aquela trip programada - um poço escondido em Salesópolis – na qual nosso “guia”, q naquela altura abortara o rolê, era imprescindível.

 

“O q dá pra fazer aqui por perto, pra não perder a viagem?”, perguntou um impaciente Alexandre. Imediatamente revirei minhas memórias e lembrei duma cachu da qual já fazia vaga idéia de sua localização, uma tal de Cachoeira da Cacéia, situada na divisa de Franco da Rocha e Mairiporã. Dei essa sugestão pro pessoal e em comum acordo topamos esse programa incerto. E seja o q Deus quiser.

 

Retornamos pelo mesmo caminho, deixando as escuras brumas q encobriam boa parte do litoral e zarpamos sentido interior, onde a promessa de tempo melhor ainda dava garantias de aproveitar aquele dia. Pegamos a Rod. Bandeirantes, passamos pelo Rodoanel e pontualmente as 9hrs chegamos em Franco da Rocha. Dali tocamos pela “Estrada do Governo”, sentido Mairiporã, refazendo o mesmo caminho q se faz pra chegar ao PE Juquery. Mas após passar a ilustre unidade de conservação é preciso atentar pra sinalização a direita, onde uma discreta placa apontando a direção duma tal Estrada da Caceia.

 

Dito e feito, num piscar de olhos abandonamos o asfalto da SP-23, cruzamos uma simpática ponte concretada com bela vista do espelho dágua da Represa Paulo de Paiva Castro refletindo o céu nublado claro daquela manhã. Adentramos então no estradão de terra q leva o nome tradicional de Caceia, mas q oficialmente é Armando Barbosa de Almeida e basicamente bordeja td represa pela sua margem esquerda. Incrível ver q este vasto reservatório hídrico de quase 10km de extensão é pouco conhecido, oferece mtas paisagens cênicas e é bastante procurada pelos locais pra pesca e esportes náuticos. Entre outras curiosidades, esta represa integra o sistema Cantareira de abastecimento, responsável por proporcionar água p/ mais da metade da Gde São Paulo.

 

E lá fomos nós pela bucólica Estrada da Caceia, q por sinal qdo não tem vistas da represa é cercada de verdejante mata de ambos lados e vez ou outra aparece alguma chácara ou sitio pra nos lembrar da proximidade da urbe. Pois bem, após andar um tempo pela supracitada via, vemos q ela adentra numa espécie de “golfo” da represa, bordejando gdes morros cobertos de verde. Aqui q é preciso atentar pruma placa com as inscrições “Zelador desta Área em nome de Geraldo Rodrigues Silva” pois ela indica o acesso a cachu. A gente não sabia nada e foi perguntando no caminho, mas esta discreta placa é o pto de referência do atrativo e está situada quase numa curva, na convergência do vale formado pelos morros supracitados.

 

Pois bem, as 9:40hrs estacionamos o veículo num seguro acostamento perto da placa, bem do lado duma cerca com uma picada adentrando no vale. Tocamos enton por ela desimpedidamente, passando por um enorme matacão já logo no começo e despertando a atenção d e estridentes cães nalgum pto do alto da encosta direita, onde é possível ver algumas casas isoladas. A picada adentra na mata e sobe suave o vale, onde já é possível escutar o murmúrio de água correndo a nossa esquerda. 

 

Não dá nem 5min de caminhada e nos deparamos com um gde poço á esquerda,  ao sopé de largos lajedos por onde a água se despeja graciosamente. E acompanhando mais um pouco a trilha terminamos desembocando numa gde clareira (cercada de algum lixo, diga-se de passagem) onde está a tal Cachu da Caceia, na verdade uma laje vertical menor q metro e meio por onde a agua cai num poço raso, cercado de areia fofa. Tem até uma corda pendendo duma arvore onde é possível mergulhar no poço do sopé da cachu, mas somente em tempo qdo a vazão de agua é maior. Acredito q após temporada de chuvas o lugar fique mais cênico, mas não é o caso. O lugar é bonito e bacana, mas deixa mto a desejar pra quem ta acostumado as gdes quedas da Serra do Mar. A título de comparação, é menor q a “Cachu do Banquinho” ou “Agua Fria”, em Paranapiacaba. É preciso lembrar q esta “queda urbana” está situada em propriedade particular, do tal Rodrigues Silva (o senhor da placa) q provavelmente adquiriu o sitio e apresentou um registro junto a prefeitura pra utilização do lugar. Em tempo, o acesso é gratuito.

 

Ficamos ali um pouco e beliscamos alguma coisa. Eu subi o alto da cachu e vi q no alto tem outro patamar, onde a agua cai doutra pedra logo acima, mas desci rapidinho pq as pedras (assim como os lajedos ao redor) estavam lisos feito sabão e não senti mta firmeza na aderência da minha bota. Pois bem, dali prosseguimos a pernada vale adentro pois a trilha ia além da cachoeira, morro acima. Tocando pela vereda logo vimos algumas bifurcações q entravam no q devia ser casebres mocados no meio da mata e, mais acima e com mais mato em volta, logo demos q estávamos já no alto do morro.

 

Dali em diante aparentemente a picada dava meia volta e retornava pela outra encosta do vale da cachu, passava por um campinho de futebol e descia suavemente até a Estrada da Caceia, onde os garranchos duma placa afirmavam estarmos saindo da “Alameda das Begônias”. Dali pro carro foi questão de poucos minutos. Pronto, as 10:40hrs finalizávamos nossa “aventura” improvisada, da qual eu não escondia meu desapontamento. Pois é, rolezinho numa “cachu” q tava mais pra bica e ainda por cima sem possibilidade de banho é algo bem frustante. Quem sabe essa cachu seja melhor apreciada por bikers – bem comuns pela Estrada da Caceia – como alternativa de banho refrescante durante um pedal, ne?

 

Pois bem, dali pegamos o veículo e rodamos mais 7km até chegar em Mairiporã, onde estacionamos ao lado duma feira dominical. Aproveitamos pra tomar nosso desjejum tardio, na base de pastel e refri, enqto discutíamos o q fazer o resto do dia: mais um rolê ou cada um pros seus respectivos lares.. “Vocês conhecem a Cachu dos Pretos, em Joanópolis?”, perguntou a Lore. Um uníssono “não” ecoou na barraquinha do japonês e estava decidido ali o q faríamos o resto daquele dia. 

 

Tocamos então pela Rod. Fernão Dias e pela Dom. Pedro até Piracaia, onde o tempo realmente havia melhorado 100%.. O sol e calor preenchendo o firmamento ao meio-dia em nada lembravam aquela manhã cinza e incerta. Ai, se arrependimento matasse.. Pergunta aqui e ali, finalmente após rodar quase 100km de Sampa pela BR-381 chegamos a Joanópolis as 13hrs, autodenominada “Capital Nacional do Lobisomen”. Cidade de ar bem tranqüilo e interiorano, com direito a pracinha central, igreja matriz e coreto. Situada quase na divisa com MG, o município detém diversidade natural generosa e é abastado em recursos hídricos, tornando-se assim a mais nova estância turística de SP.

 

Pergunta aqui e ali, bastou seguir a ótima sinalização indicando a tal Cachoeira dos Pretos, provavelmente o maior atração da cidade. E assim deixamos a cidade em direção leste, serpenteando a sinuosa estrada por 18km em meio a colinas forradas de verde-claro. Foi ai q de repente vi um enorme véu claro despencando duma montanha, ao longe. Era a Cachu dos Pretos. Meu, já tinha ouvido falar da queda mas não esperava q fosse tão gde assim! Pois é, e se a Cachu da Caceia me desapontara pelo tamanho, esta aqui me surpreendia positivamente pelo mesmo motivo.

 

Por ser a principal atração turística da região, é natural q a fazenda em q está inserida a queda seja explorada comercialmente até o sabugo da unha. Só não esperava q fosse tanto assim. O negócio tava mais pra “Mini-Playcenter pé-verméio”, ou seja, um microparque de aventuras com td infra necessária pra rapel, arborismo e tirolesa. Já na entrada e após pagar o montante de 5 pilas por veículo, o difícil foi achar vaga pra deixar o carro. O sol e calor daquele início de tarde parece q encorajara tds cidades ao redor a desovar seus habitantes aqui!

 

Após estacionar a duras penas, imediatamente nos esprememos na muvuca em direção a queda. Passamos pelo restaurante, lanchonete, loja de souvenires, artesanato, chalés, etc..até chegar na beira da corredeira, onde a muvuca e farofa reinavam soberanas. Era muita gente ali e de certa forma lembrei da Rua 25 de Março na véspera de Natal! Pede licença aqui e ali, e nos espremer por umas pedras, eis q chegamos numa espécie de mirante abarrotado de gente, onde podíamos ver a queda mais de perto. E mesmo a relativa distancia, a Cachu dos Pretos impressionava. Sua altura de 154m, o gde volume de agua despencando e o estrondo pelas quedas fazem dela uma das mais imponentes do estado de Sampa. Devido a sua importância, a queda faz parte duma Área de Preservação Ambiental e Proteção de Mananciais, pois é ali q as águas do Rio Cachoeira (ou dos Pretos) se junta as nascentes do Rio Piracicaba e contribui pro abastecimento da capital paulista. 

 

 

Pois bem, mas a gente queria mesmo era curtir a cachu mas bem longe daquela muvuca infernal. Foi ai q reparei q do outro lado do rio uma discreta picada percorria a mata ciliar margeando o rio, deduzindo q ela desembocaria nalgum remanso logo adiante menos apinhado de gente. Cruzamos então cuidadosamente o rio com agua até os joelhos e uma vez na outra margem caminhamos tranquilamente pela vereda q se mostrou bem sussa. Alguns avisos de “Perigo de Morte”, “Abelhas” e “Pedra Escorregadia” estão ali oportunamente pra desencorajar o turista comum, mas não o aventureiro responsável de fds. 

 

E dessa forma subimos suavemente até um patamar bem acima da muvuca, q só foi possível chegar desescalaminhando um trecho de terra solta. Pronto, estávamos enfim sós num local lajotado unicamente nosso, tendo a enorme cachu a nossa frente, onde nos deleitamos com muitos cliques, banho numa piscininha segura, descanso e até garfadas do lanche trazido nas mochilas. O borrifo resultante do rugido furioso da cachu despencando com td força nunca foi mais q bem-vindo naquele dia quente e ensolarado. Donos daquele paraíso particular, acredito q ficamos meia hora fácil, de boa, curtindo.

 

Mas depois das 15hrs resolvemos tocar pro topo da cachu, uma vez q uma óbvia picada se esgueirava sorrrateira encosta acima. E toma piramba pro alto, onde num piscar de olhos ganhamos altitude e caímos noutro patamar bem mais acima de onde havíamos descansado solitariamente. Ali havia um casal aventureiro só no relax nas pedras, e não era pra menos. A queda vertical da cachu inviabilizava qq banho com segurança, sem levar junto alguém junto correnteza abaixo. Pausa pra fotos e contemplação, claro!

 

Dali prosseguimos vereda acima atravesssando um espesso bambuzal, mas ainda com vestígios de vereda no chão. Foi ai q o terreno verticalizou forte e braços foram tão úteis qto pernas. Escalaminhada total onde qq galho, mato, fenda ou pedra servia pra ganhar impulso e prosseguir a ascensão, o q demandou habilidades simiescas tanto da Lore como dum exaurido Alê. Mas o terreno abrandou e a rota passou a ziguezaguear suavemente a encosta vertical palmilhada, onde uma fresta na mata permitiu vislumbrar o qto havíamos subido. Mas td q é bom dura pouco pois não demorou pra piramba embicar de vez e avançar na raça, escalando mato mesmo!  Até ali já não seguíamos trilha alguma e sim apenas algum vestígio de passagem anterior, terra remexida ou mato baixado. Afinal o sentido era um só: pro alto!

 

E após um último lance de vara-mato vertical - onde havia até um barbante servindo de “corda” – finalmente emergimos no topo da cachu, respirando aliviados por estar ali, 154m no topo daquela cachu, observando dum patamar privilegiado as águas do Rio da Cachoeira (ou dos Pretos) despencando no vazio. Da mesma forma, um punhado de turistas nos observava atônitos do mirante oficial do topo (do outro lado do rio), quiça se perguntando como havíamos chegado ali, uma vez q a rota deles certametne devia ter degraus e corrimãos bem seguros. Enqto meus amigos descansavam eu subi um pouco o rio de modo a ver se encontrava passagem pro ouro lado, mas aparentemente não encontrei. Vi q ali no alto o rio era mais fundo e forte, e então desisti de atravessa-lo na raça por medida de segurança aos meus companheiros.

 

Missão cumprida, as 15:40hr vimos o céu se encobrir dum negrume ameaçador e começamos a descer td cachu novamente. Mas não pelo caminho de vara-mato por onde havíamos chegado e sim por uma óbvia trilha q nascia de onde estávamos. Essa picada desce td encosta direita da queda com muito mais segurança e sem rasgar vegetação alguma. Bem batida e aos ziguezagues, essa vereda nos passou desapercebida na ida, mas paciência. O q seria uma travessura dominical sem o mínimo de perrenguinho, ne?

 

Foi só alcançar a base da cachu e na sequencia o estacionamento q caiu um forte temporal, q se resumiu a típica pancada de verão q parou tão subitamente surgiu. Nos despedimos da Cachu dos Pretos repletos de satisfação e voltamos pra Joanópolis bebericar alguma coisa, mas não sem antes bater uma foto com o tradicional “lobisomem” q deu fama a cidade. Uma vez num simpático botequinho orbitando a praça principal, bebemoramos a empreitada com um delicioso sanduba mineiro observando o pacato vai-vem de Joanópolis. La ficamos um tempão, antes de zarpar pra Sampa tendo como paisagem a silhueta escarpada da Serra do Lopo destoando a noroeste.

 

Pra finalizar, uma curiosidade sobre a origem do nome da “Cachoeira dos Pretos”, q pode sugerir alguma relação com a época da escravidão. Mas não, pois é referência ao sobrenome da família Oliveira Preto, q residia nas proximidades da queda nos idos de 1574. Mas diferente da lenda do lobisomen, essa família era real e composta por aventureiros daquela época: sertanistas, bandeirantes e desbravadores. O q mal essa família pioneira sabia era q 500 anos depois mais e mais aventureiros continuam aportando em suas antigas terras, curtindo sua grandiosa queda de forma desbravadora. Nem mesmo q sejam aventureiros de final-de-semana recorrendo a um “Plano B emergencial”, de modo a ter seu merecido quinhão de perrengue dominical.




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