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Jorge Soto

A cachu do Jamil


Aventura de:

Jamil era o gorducho bonachão proprietário da Faz. Nossa Senhora das Graças, situada na confluência do Rio Monos com o Rio Capivari, pto simbólico da região, pois esses rios deram origem ao nome da maior Área de Proteção Ambiental de São Paulo, a Capivari-Monos. O tempo passou, o Jamil foi expulso da fazenda pelo próprio pai, mas a simpática cachoeira situada dentro de sua propriedade ainda mantém o nome do pançudo dono. Este é mais um relato dum passeio sussa e refrescante de menos de 20kms pelo extremo sul da cidade de São Paulo.

Encontrei a Renatinha no Terminal Grajaú por volta das 8hrs naquela manhã lindamente ensolarada e sem qq nuvem corrompendo o firmamento. Mal deu nem tempo de tomar um pingado e embarcamos no “6093 – Vargem Grande”, q zarpou até numa viagem bem rápida na direção sul. Meia hora depois saltávamos no Terminal Parelheiros onde a sorte parecia sorrir pra nós, pois num piscar de olhos tomamos o latão “Barragem”, cujo tempo de duração de sacolejo se assemelhou ao anterior, ou seja, meia hora quase exata. Viagem esta onde a janela do coletivo não tardou a emoldurar uma paisagem tipicamente interiorana, forrada de chácaras, sítios e muito verde. De lampejo pudemos ver até um pequeno braço da Represa Billings reluzindo o céu azulado daquela manhã.

As 9hrs saltamos no bairro da Barragem,  pto final do buso, q nada mais é o último bairro da zona sul de Sampa. Simples, o bairro praticamente se limita a uma rua cercada de casas e algum comercio. Impossível não reparar nos traços indígenas de boa parte dos moradores, q denunciam a proximidade da Aldeia Curucutu. Tomamos então nosso breve desjejum num dos vários quiosques perfilados na rua, além de comprar algum “lanchinho de trilha” num mercadinho perto do pto final. Resumindo, o lugar nem lembra q ainda estamos na região Metropolitana de São Paulo.

Pois bem, deixamos então o burburinho local  e a “civilização” pra trás e começamos a andar pela larga rua principal q não demorou pra virar de chão. O odor de damas-da-noite invade as narinas qdo tomamos a primeira bifurcação q surgiu, q desembocou noutra estrada de terra maior q toca na direção sul de forma quase q interminável e sempre em linha reta. A partir daqui não tem erro pois basta tocar sempre pela via principal, ignorando as laterais. Na verdade, este estradão passa por cima duma ramificação desativada da EF Sorocabana.
O trajeto então segue sempre pro sul, com pouca variação de direção, bordeja alguns morros cobertos de mata e passa por baixo de duas linhas de alta tensão. Dormentes empilhados em ambas margens da estrada denunciam o passado ferroviário do lugar. Uma placa (reluzindo de nova) da Funai numa via lateral é a única novidade desde a última vez q estive nessas bandas, o q instiga minha curiosidade q fica pruma próxima ocasião. Fora isso, o horário torna a pernada agradável, e assim coloco a conversa em dia com minha amiga enqto a atmosfera transparente daquele dia promissor se encarrega em estender os braços do Astro-Rei na nossa direção. E com força. Totalmente aberto e sempre exposto, protetor solar e boné aqui são artigos essenciais.

E assim, após quase 5kms engolindo poeira sem nenhuma vivalma cruzando nosso caminho, as 10:15hrs nossa rota intercepta o trecho ativo da EF Sorocabana, q por sua vez é oriundo de Embu-Guaçu. O apito dum trem próximo denuncia sua iminente passagem, coisa q ocorre num piscar de olhos e com frequência por aqui. Emparelhados então com o trilho, não demora p/ gente  passar por um punhado de vestígios de construções abandonadas, a exceção duma pequena casa q  - ao lado dum enorme totem do Núcleo Curucutu do PE Serra do Mar - serve atualmente de posto pra Guarda Ambiental. De fato, nestas bandas bordejamos os limites do Núcleo Curucutu do referido parque mas aparentemente não se encontra ninguém na base. Claro q passamos batido, a diferença das ocasiões anteriores onde tivemos q dar satisfações aos guardinhas do nosso destino. Em tempo, andar pelos trilhos atualmente é proibido.
Por volta das 10:30hrs pisamos na Estação Evangelista de Souza (o tal Barão de Mauá), q marcou a história do Estado de São Paulo durante a expansão da EF Sorocabana, projetada pra escoar a produção cafeeira do interior ao porto de Santos. Aqui, a tranquilidade do lugar só é rompida pela presença de meia dúzia de funcionários da ALL fazendo a manutenção da via férrea. A partir daqui como nossa direção toca pro sul podemos prosseguir tanto pelos trilhos como por uma estradinha de terra q parte paralela, bordejando a morraria, da estação. Claro q optamos pela primeira opção. Desimpedidos dos guardinhas, do fato de andar pelos trilhos ser mto mais “aventureiro” e interessante - sem contar q abrevia o trajeto ao destino – a pernada então prossegue tranquila pela via férrea. Mas não por muito tempo.

Por volta das 11hrs tropeçamos com uma estrada de chão cruzando a via férrea. É aqui q abandonamos os trilhos e tocamos pra direita, uma vez q pra esquerda daríamos na Faz. Bambu e na Cachu das Virgens (do Rio Pioli), como foi relatado noutra aventurinha. Pois bem, tocando pra direita (oeste) basta seguir sempre pela simpática e bucólica estradinha florestada, onde a verdejante mata em volta nos refresca e protege do forte sol daquele horário. A cada passo dado nossa paisagem a noroeste vai descortina pelas frestas da mata um belo vale q mistura mata ciliar e algum reflorestamento, reforçado pela presença de pinheiros e araucárias perfilados a margem da via, onde tons lilases das quaresmeiras pipocam dos bosques de ipês ao norte.

Após serpentear um morrote damos na entrada da Faz. Nossa Sra. das Graças. Uma antiga guarita ao lado dum portão fechado marcam o lugar, onde é possível avistar um laguinho e uma casa com sinais de gente no interior. Bato palmas e imediatamente um rapaz moreno, troncudinho e portando um enorme facão aparece. É o Sebastião, o novo caseiro do lugar q agora toca a fazenda com sua esposa, Francilene, e seus 4 filhos pequenos. Uma das lendas mais divulgadas é q o Jamil (e “sua” fazenda) foram desativados por estar dentro do PE Serra do Mar mas isso não procede. Na verdade a fazenda é propriedade legitima do Seu Saade, pai do Jamil, e não faz parte do Pque Estadual e sim da APA Capivari-Monos. Ele, sim, doou parte das terras ao Pque e ainda por cima tem outro pedaço em fase de licenciamento ambiental. O babado forte é q seu Saade estava descontente em como seu robusto filho tocava seu pedaço, daí tomou a decisão radical de expulsá-lo. Os detalhes deste barraco dariam um novelão mexicano q não convém esmiuçar aqui. Dez anos se passaram e a fazenda foi tocada por vários caseiros (incluindo o irmão do Jamil) e ai entrou o Tião e a Francilene, q atualmente prestam contas ao Seu Saade. E o Jamil? Bem, o Tião comentou q ele mora na Lapa e q as vezes dá as caras na fazenda p/ relembrar os bons tempos.

Pois bem, após pagar uma taxa irrisória e assinar um livro de visitas, damos continuidade a pernada ainda pelo estradão principal. Conheço pelo menos outros dois acessos “alternativos” q não demandam necessariamente passagem pela entrada principal, mas como vim aqui em caráter “oficial” após um tempão ausente afim de saber da condição atual do lugar, não pestanejei em desembolsar din-din pra aceder a cachu. Além do mais, a ideia daquele dia era o de um rolezinho sussa, e a Renata creio q não estava muito disposta a maior esforço, tipo escalaminhar pirambas ou rasgar mato no peito.

A caminhada então prossegue desimpedida na direção oeste, onde passamos pela antiga área reservada a camping. Um estrutura com teto contem área com boa infra pra cozinhar, banheiros e quartos. Aparentemente estava td largado e sem eletricidade, embora as torneiras funcionassem perfeitamente e houvesse vestígios de fogueira próximos. Ainda pelo estradão, não tarda a chegar aos nossos ouvidos o típico marulhar de água, onde logo se revela o belo e manso Rio Capivari, q a estrada passa a acompanhar. Um enorme e decrépito pontilhão de madeira surge pela direita, mas eu ainda me aventuro em pisar o alto de sua estrutura de consistência duvidosa atrás de boas fotos do Vale do Capivari, sob os protestos duma emputecida Renata.

Após a ponte a estrada acompanha o rio, q por sua vez faz uma curva pra esquerda e nos leva na direção sul. Não demora pra precária estradinha nos levar a um amplo descampado cercado de pinheiros e eucaliptos, onde há vestígios duma construção abandonada, provavelmente uma estação madeireira. Na verdade, aquela fazenda já serviu pra extração de madeira a mto tempo atrás, mas com o atual licenciamento ambiental ela se comprometeu a reflorestar td o q desmatou. As promessas não param por ai. Parece q há planos pra montar um pólo ecoturista ali, com arborismo, tirolesa, etc. Mas, claro, td ainda não passa de promessa. Até pq isso já devia ter sido feito faz tempo.

Após o descampadão a estrada finalmente dá lugar a uma trilha, q se embrenha na morraria forrada de verde, num misto de reflorestamento e mata ciliar. Sempre acompanhados pelo Rio Capivari a nossa direita, o mesmo agora deixa de ser mansinho e tranquilo e passa a se mostrar mais irrequieto, com corredeiras cada vez mais furiosas. A trilha é bem tranquila, sem percalço nenhum, embora haja eventualmente q desviar duma ou outra arvore tombada. Fundações concretadas do q outrora foi uma ponte emergem do rio, testemunhas do passado extrativista do lugar, q contrasta com o nome da APA em q está inserida.

A trilha então é subitamente interrompida por um pequeno afluente do Rio Capivari q corre manso e transversal a direção palmilhada. Como a continuidade da picada estava do outro lado deste afluente, havia necessidade de dar um jeito de passar pro outro lado. Há uns troncos atravessados servindo de ponte, mas q não inspiram mta segurança. A única opção q nos resta é cruzar o afluente pela água mesmo e no trecho mais raso, claro. Claro q este q vos escreve é quem vai testar a profundidade da água, e assim encontro uma passagem entre bancos de areia q permitem a travessia segura. No meu caso, com agua até a altura do abdômen. A Renata, menor do q eu, teve mais dificuldades, mas nada q andar na ponta dos pés com a mochila na cabeça não resolvesse. Acredito q em tempos mais secos e até no inverno esta travessia seja bem fácil, e não demande sequer entrar na água.

A picada prossegue bordejando o rio, com corredeiras cada vez mais furiosas, não demora em alcançar o rugido alto duma queda maior. Era o topo da Cachu do Jamil, onde enormes rochedos espremem o rio q se despeja numa larga queda d’água de quase 3m de altura. Dali, a picada então desvia pra sudoeste e finalmente nos leva num belo remanso de largas lajes de pedras, onde finalmente estacionamos o esqueleto na sombra duma pequena árvore. Com bela vista da cachu - q reluz lindamente ao sol do meio-dia - e donos absolutos daquele belo recanto natureba, nos presenteamos com um refrescante banho no piscinão proporcionado pelas águas geladas do Capivari, além de mastigar um lanche q nunca esteve tão delicioso. Lixo? Incrivelmente nenhum, embora nos finais de semana ali deva ferver de gente, algo q constatamos pelo número de assinaturas no livro de visitas.

Descansados e revigorados, prosseguimos pela trilha q num piscar de olhos nos levou a outro lindo remanso numa curva do Rio Capivari: uma enorme praia fluvial, cuja areia dourava ao sol daquele início de tarde. Desnecessário dizer q tivemos mais uma sessão de tchibum e tchibum naquele paraíso natureba. Somente mais tarde foi q apareceu a única alma viva naquele atrativo do Capivari. Na verdade duas, pois tratava-se dum casal de jovens. Aqui não custa frisar pra ter cuidado nos banhos de rio, uma vez q os afogamentos aqui são freqüentes, seja por fatalidade seja por imprudência. “Mês passado uma menina se afogou levada pela correnteza e uma semana atrás um moleque morreu ao entrar na água bêbado..”, frisou Tião.
Só deixamos o lugar depois das 14hrs, satisfeitos do dever cumprido mas cientes de q teríamos muito chão pela frente. Na volta conversamos com a Francilene, q por pouco não nos contou a vida inteira dos seus penosos 30 anos, além da dureza q era morar ali sem eletricidade alguma. É, seu amor pelo Tião era gde mesmo a pto de suas pernas estarem repletas de marcas de picadas de pernilongos e suas mãos estrebucharem de tanto esfregar roupa. “Ai q falta faz uma máquina de lavar aqui..”, queixava-se ela. “Já faz 5 meses q tô aqui..não sei se guento mais um..”, completou.

Nos despedimos da sofrida mulher e começamos a longa jornada de volta, sempre pelo mesmo caminho. O interminável e enfadonho trecho de 8kms de estrada de terra só não foi mais desgastante pelo calor daquele dia pq corria uma brisa refrescante q amenizava o fervor daquela tarde infernal. Na volta tb tropeçamos com a Guarda Ambiental (trajados de “Rambo”), a quem acenamos cordialmente. E devagar-quase-parando finalmente chegamos na muvuca rural do bairro da Barragem, por volta das 17hrs, onde antes de pegar conduça de volta encostamos no boteco de modo a comemorar aquele dia exclusivamente natureba.
 
Resumindo, a Cachu do Jamil é programa ideal pra td família. Existe uma estrada bem conservada q parte do Bairro da Barragem, segue paralela a linha férrea e cai direto na Faz. Nssa Sra. das Graças, o q abrevia consideravelmente o trecho a pé. Por ser roteiro breve, se houver disposição a pernada pode ser emendada com outras cachus da região, como a do Rio Pioli e do Capivari. Pode até arriscar aventuras mais ousadas um pouco mais longe, indo na Cachu do Forno, do Túnel 24 e a Duas Quedas. Ou encarar inclusive uma travessia selvagem até Marsilac através duma estrada a muito abandonada. O fato é q esta breve e descompromissada visita deste setor de Parelheiros revela mais possibilidades de programas naturebas diferenciados no extremo sul de Sampa.
 




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