Travessia Pedra Grande - Pedra do Coração - AltaMontanha.com - Portal de Montanhismo, Escalada e Aventuras
Pernada entre Atibaia e Bom Jesus dos Perdões

Travessia Pedra Grande - Pedra do Coração


Aventura de:

Cartão-postal de Atibaia, o maciço da Pedra Grande pode ser acessado por carro ou usando os próprios pés. Seja por estrada de chão ou pelas suas três veredas oficiais, o que poucos sabem é q o alto da Serra de Itapetinga - braço desgarrado da Mantiqueira - pode tb ser vencido pela "Trilha Sul", caminho q nasce da bucólica Faz. Pacaembu. Emendando então esta rota com a precária Estrada Municipal, vingou uma puxada travessia de 25kms (e desnível de 700m) q partiu de Atibaia e findou em Bom Jesus dos Perdões. No trajeto, os largos visus descortinados do alto da Pedra Grande e da Pedra do Coração, contrastando com o encanto-mor daquele cafundó de vales, a Cachu do Barrocão.

Após rodar mais de 60kms pela Rod. Fernão Dias (BR-381), finalmente eu, Ricardo e Elaine chegamos no centro de Atibaia num horário até q meio avançado, ou seja, por volta das 10hrs  daquele domingo de céu azul e sol brilhando a pino. Lá, bem do lado da rodoviária atibaiense e a exatos 710m de altitude, encontramos a Débora e a Simone, integrantes campineiras  da trupe. Em tempo, nos encontramos no centrão da cidade pq a logística da travessia assim demandava, uma vez q retornaríamos aos veículos mediante transporte coletivo diretamente  de Bom Jesus dos Perdões.

Pois bem, após engolir rápido desjejum numa das várias padocas ao lado da rodô, começamos a pernada propriamente dita em direção ao sopé da Pedra Grande, ou seja, rasgando a cidade  sempre pro sul. Cruzamos seu charmoso centro histórico, com destaque pro Mercado Municipal e a Igreja do Rosário, erguida em 1763 por escravos proibidos de freqüentar a igreja  tradicional. Passamos tb pelo simpático e movimentado Lago do Major, espécie de“Ibirapuera atibaiense” e q consiste num enorme lago cercada duma bela área verde com direito até  teleférico. Num piscar de olhos caímos na Av. Santana, e por ela tocamos um bom tempo por quase td sua extensão em linha reta pro sul. Nisso, o maciço da Serra de Itapetinga ia  ficando cada vez mais próximo, exibindo aos poucos o figura do seu maior atrativo, o enorme domo rochoso da Pedra Grande.

Pois bem, por volta das 11hrs chegamos no famoso Campo de Pouso, lugar onde o Clube Atibaiense de Vôo Livre realiza suas performances. Dali basta adentrar no Condomínio Arco-Iris e  tocar sempre pra cima, inicialmente por td Rua Madri pra findar na Rua Moacir Zanoni, subidinha brava q já começou a testar o fôlego dos integrantes menos condicionados da trupe.  Meia hora depois alcançávamos a entrada das 3 vereda oficiais q levam ao alto da serra, onde decidi “democraticamente” q tomaríamos a trilha q atende pelo nome de“Minha Deusa”, de  quase 3km. Como não pisava ali já faz 5 anos, surpreendeu-me o fato de já não haver mais uma enorme e útil placa de madeira sinalizando as trilhas (“Minha Deusa”, “Mangueira” e dos  “Monges”, e seus respectivos niveis de dificuldade). Provavelmente deve ter sido vitima de depredação ou dos constantes incêndios (criminosos ou não) q costumam assolar a serra.  Uma pena.

E assim começávamos a subida da pedra propriamente dita, ganhando altitude aos poucos em meio a terreno árido e exposto qto arbustivo e pedregoso. A picada eventualmente se  ramifica mas logo a frente se reencontram, afinal, tds os caminhos levam ao alto. Seja serpenteando os enormes rochedos ou escalaminhando trechos erodidos, o sol forte reduz o  ritmo da pernada, distanciando uns dos outros. Levar boné e água extra foi fundamental pois calor parecia emanar do chão e o desgaste, consequentemente, é maior. Qq sombra aqui  vale ouro, embora ela seja bem escassa. E brisa q é bom, nada.

A pernada suaviza qdo palmilha em nível o perímetro da encosta, tocando pro sul. Surgem até alguns arbustos e árvores solitárias maiores pra dar um certo alivio com sua sombra  refrescante, mas o percurso continua em sua maior parte aberto e exposto. O alivio mesmo é olhar pra trás e perceber o qto já se subiu, apreciando a paisagem atibaiense ficar lá em  baixo, cada vez mais pequenina, embora uma boa parte da montanha se mostre infelizmente calcinada pelas queimadas.

As 12:15hrs nossa rota mergulha em direção ao fundo duma dobra serrana, onde um oportuno capão-de-mata nos convida a uma refrescante parada. Mas o voto dum pit-stop maior é dado  mesmo pela presença de água, cujo borbulhante rumorejo era audível conforme nos aproximávamos. O lugar atende pelo nome de “Cachoeira dos Duendes”, embora não passe duma minúscula  bica, onde o precioso liquido despenca duma pequena pedra. Contudo, em meio ao calor sufocante daquela paisagem árida e desoladora aquele pequena nascente figura como verdadeiro  oásis! Claro q molhamos o rosto e reabastecemos tds nossos cantis.

A jornada abandona o aprazível bosque e prossegue morro acima, agora no aberto e com declividade bem mais acentuada em meio a triste paisagem calcinada pelo fogo. Enormes valas  surgem mas são facilmente vencidas na base da escalaminhada, embora o chão demande cautela em virtude das pedras soltas. E após breve trecho onde alguns verdejantes arbustos  pareceram escapar ilesos do incêndio, vem a ultima e extensa piramba morro acima, quase q em linha reta. Mas devagar e sempre, com muitas paradas pra retomada de fôlego, chegamos  finalmente ao alto da serra por volta das 13hrs. Agora havia simplesmente q tocar pelo alto da crista na direção sul, apenas apreciando a paisagem ao redor. Mas em virtude do  cansaço e da gde probabilidade da Pedra Grande estar muvucada além da conta, decidimos fazer nosso pit-stop ali mesmo, na beirada dum aprazível mirante rochoso, numa bem-vinda  sombra na cota dos 1300m!

Revigorados, prosseguimos então pelo dorso rochoso da crista não apenas apreciando o belo visual q se descortinava a nossa frente, mas tb recebendo a suave brisa q soprava nosso  rosto. De repente ela surgiu, enorme, grande e imponente, fazendo jus ao nome q leva: ela mesma, a Pedra Grande! Num cenário q lembrava uma das edições da franquia “Mad Max”, o  gigantesco belvedere rochoso estava tomado por muuuita gente a pé, ao redor de vários veículos em volta. Pra completar a paisagem, inúmeros pontinhos coloridos orbitavam o cenário  azulado q preenchia o cenário, na base de aficionados de asa-delta e paragliders.

Cruzamos td aquela muvuca palmilhando aquela suave e imensa rampa rochosa, e nos pirulitamos em direção ao pto mais alto da Serra de Itapetinga. Tocamos pela batida trilha do  Cocoruto q se embrenha em meio a belos boulders e finalmente damos no alto das Pedras Gêmeas, onde havia tb uma turminha de orientais curtindo o visu. Ali, a quase 1400m tínhamos  uma panorâmica pra lá de privilegiada de td entorno, melhor ate q da Pedra Grande. Os quadrantes norte e oeste eram preenchidos por reminiscências de Extrema, Bragança Paulista,  Valinhos, Jundiai e, com esforço, até Guarulhos; já nos quadrantes restantes, qdo não havia as escarpas dos espigões centrais da Serra do Itapetinga, podíamos ter vislumbres  esparsos de Bom Jesus dos Perdões, Piracaia, Igaratá, Sta Isabel, Nazaré e, com algum esforço maior, a silhueta de Camanducaia.

Pois bem, até aqui td mundo vai.. então vamos á travessia propriamente dita! Do topo basta seguir pra sudeste, e descer ate o primeiro baixo platô de pedras, pra depois  desescalaminhá-las sem maior dificuldade até uma clareira logo abaixo. Dali partirão picadas pra vários mirantes ao redor, mas é preciso buscar uma vereda, por entre os arbustos, q  desça em definitivo. E ela é logo encontrada ao bordejar um dos tais mirantes rochosos. Não tem segredo.

A vereda então mergulha mata adentro, como q se enfiando numa grrota entre rochedos. Ali começamos a descer suavemente, sempre bem servidos de sombra e não raramente atravessando  túneis de bambuzinhos. Pois bem, essa é a eu chamo de “Trilha Sul”, direção q a picada segue quase q constantemente, as vezes quebrando pra sudeste. O trajeto cruza em torno de 3  ou 4 platôs/mirantes rochosos, onde é possível apreciar a vista ao redor, tds revelando boa parte do quadrante sudoeste, sul (Serra do Vuna e Pedra Vermelha) e sudeste, sendo este  ultimo de nosso interesse. Ele não só revela o fundo vale do Ribeirão dos Pintos q teremos q alcançar mas a longa e extensa e verdejante escarpa serrana q teremos q contornar pra  passar por outro lado.

Após o ultimo mirante o caminho mergulha na mata em definitivo, fresca e aconchegante. A descida é suave e bem desimpedida por trilha bem batida q as vezes dá lugar a uma vala bem  erodida. Mas após contornar alguns rochedos e perder bastante altitude, é possível perceber a mudança na vegetação ao redor, q ganha mais altura e exuberância, sinal q nos  aproximamos do fundo do vale. Fundo este alcançado as 14:40hr onde desembocamos numa vereda maior, mas q nos mantemos no ramo q da continuidade a nossa rota pro sul. “Falta  muito?”, ouvi alguem perguntando em tom de lamúria la atrás, mas bastou um olhar q fulminaria o mais corajoso mortal q qq pergunta desse mesmo naipe ficou pra trás mesmo.

A pernada então prossegue ininterrupta pela vereda sempre pro sul, em nível e sem dificuldade alguma em meio a mata fresca e agradável. Difícil acreditar q este miolo da Serra do  Itapetinga é tão rico em umidade e verde, bem diferente daquele outro, árido e desolador, q preenche as encostas da Pedra Grande. Cruzamos então por dois enormes brejos q  configuram como as nascentes do Ribeirão dos Pintos e assim nossa jornada se mantém ininterrupta, sem desnível algum, sempre tocando pro sul ou sudeste. Mais adiante, cruzamos o q  restou de duas porteiras e ignoramos uma saída pela esquerda.

Por volta das 15hrs damos nos fundos do Sitio Pacaembu, onde um incrédulo caseiro teve q segurar uns cachorros pra q não caíssem matando sobre a gente. O senhor foi bem solicito ao  nos passar infos a seguir, e assim nos despedimos dele e dos seus pulguentos, q depois não queriam desgrudar da gente. Deixamos então aquela bela e simplória fazendinha, com  direito até um belo lago q represa as águas do Ribeirão dos Pintos, pra então cair na precária  Estrada Municipal cerca de 15min depois - sim, aquela mesma q leva a galera  preguiçosa motorizada ate a Pedra Grande – e por ela seguir um tempo, sempre pro sul.

Mas não deu nem outro quarto de hora pela via q a abandonamos por outra, mais discreta e bem mais precária, q começava a voltar pro norte, no caso, nordeste. Na verdade  contornávamos um enorme espigão de serra, e assim fomos adentrando num vale paralelo ao do Ribeirão dos Pintos, vale este cercado de enormes montanhas e muito mais verde q o  anterior. Civilização? Só vimos em td trajeto algo de 2 ou 3 pequenas chácaras mas nem sinal de vida no interior delas. Pois bem, após andar um tanto em nível, nossa rota começou a  descer cada vez mais e mais forte, sempre pra nordeste. Se a via já era precária ela se tornou intransitável próximo do fundo do vale, uma vez q enormes crateras se alternavam com  afloramentos rochosos no meio do caminho. “Carro aqui só se for tracionado!”, pensei comigo mesmo.

Mas por volta das 16hrs chegamos num pto onde abandonamos a precária via em favor duma óbvia vereda mais íngreme q ia de encontro ao nosso destino. Como levava carta e bússola a  tiracolo (sempre), se seguíssemos pela via principal tb chegaríamos ao pto desejado, mas daríamos uma volta maior porém nivelada. “Duro ou mole, galera?” perguntei pra galera, mas  como minha votação foi bem tendenciosa o “duro” venceu com ampla margem de diferença. Começamos então a subir a íngreme picada q abandonava aquele fundo de vale e galgava a encosta  serrana a nossa direita. Atravessamos um simpático bosque de eucaliptos e serpenteamos rochedos até dar num terreno lajotado onde o caminhar tornou-se mais suave.

E assim, as 16:45hrs, caímos nos 1180m do alto da Pedra do Coração, ou melhor, nos inúmeros rochedos e mirantes q compõem o conjunto dela. São varias pedras cercadas de voçorocas  de samambaias q levam a vários ptos lajotados com bela vista do outro lado da serra, no caso, o fundo do Vale do Ribeirão Cacheirinha e, ao fundo, a pequenina Bom Jesus dos Perdões  se esparramava pela larga baixada, ao norte. Uma breve pausa pra descanso e apreciar o sol lentamente se debruçar no horizonte e tingindo a paisagem de cores rubro alaranjadas,  antes de dar continuidade a pernada.

Pois bem, final de travessia mas não de jornada. Tomamos então a precária e íngreme estrada de chão q parte do topo da pedra e percorre por sua crista descendente tocando pra  leste. A esta altura do campeonato já havia duas personagens da trupe q literalmente se arrastavam: a Simone, q busquei distrair o tempo td contando lorotas das minhas andanças; e  a Elaine, por sua vez amparada pelo seu consorte, o Ricardo, q tb já fazia uso de pedaços de madeira como bastões de caminhada naquela íngreme e interminável descida.

Lá embaixo, ao cairmos na Estrada Municipal (BJP-050), o som de água correndo furiosamente ganhou a forma da fantástica Cachu do Barrocão, enorme queda de vários niveis por onde o  Ribeirão da Cachoeira despeja suas águas através de vários patamares e banheiras em direção ao vale, fundo do vale, pouco mais abaixo. Mas é daqui tb q se tem a melhor vista da  Pedra do Coração, q de fato se assemelha ao principal órgão do aparelho circulatório humano. Na verdade a montanha é td um maciço rochoso e, tal qual a Pedra Grande, exibe uma  enorme face mais saliente em td sua encosta q guarda esta semelhança.

Dali em diante começou a camelação de quase 4kms por asfalto em direção a Bom Jesus dos Perdões, onde nossa esperança era a de q conseguíssemos carona pra aliviar as dores da  galera menos condicionada. A luz não tardou em ir embora e o manto negro logo se debruçou sobre aquele fundo e largo vale, e nada de carona. Mas foi ai q surgiu um tiozinho  embriagado q ofereceu lugar pra apenas 4 pessoas. Logicamente q o “boi de piranha” a ser sacrificado fui eu, e lá se foi o povo enqto eu prossegui minha camelação a pé em direção a  cidade, agora no escuro. A urgência em chegar se devia ao fato de q, pelas infos, o último bus partia dali as 18:30hrs. Eles vazariam e depois me buscariam coim veiculo, em tese.

Mas o planejamento de resgate nem foi necessário pq por volta das 19hr reencontrei a galera num pto da cidade, sinal de q o último bus devia estar atrasado.Bom Jesus dos Perdões é  uma pequena, simpática e religiosa cidade às margens da Rod. D. Pedro (SP-065). Religiosa principalmente, pois era impossível não cruzar com uma igreja evangélica a cada 50m! Os  “perdoenses” (como são chamados os nativos de lá) q me perdoem pelo trocadilho, mas a cidade carece e muito de bares e botecos. Enfim, de agito, sinal de ser a típica cidade do  interior. Em tempo, o nome da cidade nasceu em homenagem ao padroeiro da cidade, motivo pelo qual esta repleto de pequenas igrejas de estilo barroco, q mal pudemos apreciar direito  por conta do horário avançado. 

Vazamos logo a seguir, dando adeus aquela pacata cidade q vive a sombra de sua vizinha mais ilustre, na qual chegamos por volta de meia hora depois. Antes de voltar pra Sampa,  bebemoramos a empreitada mas principalmente parabenizamos as bravas guerreiras Simone e Elaine, q chegaram ao final daquela extenuante e despretensiosa jornada estampando não  apenas cansaço, mas tb um sorriso vitorioso de superação. 

Travessias de Atibaia até Bom Jesus dos Perdões pela Serra de Itapetinga não são novidade. Eu mesmo realizei (há séculos atrás!) outras duas rotas pelo setor norte da serra. O  lance tá mesmo em agregar ao rolê alguns atrativos q façam valer a chinelada, coisa q desta vez vingou a contento com duas notórias pedras e uma cachu. Outra coisa, não é  necessário fazer o roteiro acima na correria de forma a não perder a última condução pra Atibaia; depois tomamos conhecimento de inúmeras vans (lotações irregulares) q realizam o  mesmo trajeto de meia em meia hora. Logo, a cidade de Atibaia, tão conhecida pela sua festa da uva e atrativos naturais q inspiram td sorte de atividade aventureira, pode se gabar  de acrescentar mais uma ao seu vasto currículo: a de respeitáveis travessias serranas.




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