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Jorge Soto

O Morro do Caratuba


Aventura de:

Figurando como um dos pontos culminantes na divisa SP-RJ, o pouco conhecido Morro do Caratuba passa desapercebido diante sua vizinha mais alta e famosa, a Pedra da Macela. Situado no centro duma crista com vista privilegiada de tds os gdes picos ao redor, este desconhecimento se deve tb o fato do seu acesso ser vetado por estar inserido em propriedade particular. Contudo, ganhar o alto dos 1700m do Caratuba é algo mais fácil do que se possa pensar, demandando apenas meio período e muita cara-de-pau. E foi pra lá q fomos dar um pulo num dia ocioso qq, com esticadinha inclusive pra sua ilustre vizinha.

A manhã começava fria, porem tremendamente limpa, enqto rasgávamos a sinuosa Rod. Paulo Virgilio (SP-171), mais conhecida como Cunha-Paraty, em direção ao litoral.  No carro, eu, Nando, Barros e o Edson conversávamos o suficiente pra não cochilar, mesmo após uma breve parada em Paraitinga, mas a bonita paisagem a nossa volta já se encarregava de nos manter minimamente despertos aos detalhes descortinados a cada curva da via. O sol debruçava seus acolhedores braços através dos extensos mares de  morros, dando-lhes as mais variadas tonalidades de verde imagináveis.
 
Mas por volta do km 64, próximo dum quiosque (Kallas da Serra) de beira de estrada, deixamos o suave asfalto em prol duma precária via de chão batido q nos dava as  boas vindas ao bairro rural da Fazenda Taboão. O veículo trepida a medida q avança, e nesse compasso de puro chocalho ganha altitude, deixando asfalto cada vez lá mais embaixo e exibindo belas vistas das montanhas ao redor. Mas após cruzar uma escolinha, uma capela e casas esparsas aqui e ali, bordejamos as encostas nuas dos morros sgtes avançando sempre na direção sul pela via principal, até sermos sumariamente barrados por um portão denunciando propriedade particular e a entrada, proibida.
 
Pois bem, eram apenas 9hrs e adentramos no lugar mesmo assim na tentativa de conversar com proprietário, apenas meio receosos quiçá pela presença de cachorros. O  lugar atende pelo nome de Fazenda Serra Azul (ou do Taboão, não lembro) embora não haja placa, e se limita a uma gde chácara enfiada num vale entre morros onde  alguns funcionários operavam maquinário de roça nos arredores. Imediatamente surgiu um senhor q se identificou por Geraldo, já no perguntando o q fazíamos ali.  Argumentamos q desejávamos ter permissão de acesso, pois queríamos subir um morro dentro da propriedade. Logicamente q o cara nos negou o pedido, desfilando td  sorte de desculpa, mas principalmente q podia sobrar pra ele caso o verdadeiro proprietário soubesse da nossa entrada. Bem q tentamos dissuadi-lo de outras formas, sem sucesso.
 
Resmungando, vazamos dali já buscando alguma alternativa de acesso a propriedade pelas cercas q a delimitavam. Retornamos então uns poucos kms estrada abaixo, observando bem a encosta da montanha, até q reparamos noutra estrada paralela q nascia da principal e q ia no sentido desejado. Encostamos o veículo no mato a  margem da estrada, na cota dos 1200m, e começamos a andar ali mesmo, por volta das 9:30hrs.
 
Iniciamos a suposta perrengosa jornada subindo uma estrada de terra bem íngreme, onde ganhamos boa altitude ladeando a mesma encosta anterior. Qdo nivelou começamos a adentrar num vale paralelo a da fazenda da qual tínhamos sido enxotados. Já logo de cara conseguimos avistar os monólitos rochosos coroando a pré-crista do morro q objetivávamos, o q nos animou bastante e corroborou a decisão de q estávamos no caminho certo. Mas ai esbarramos noutra porteira, na verdade uma cerca de  arame apenas, onde estridentes cães já anunciavam a nossa presença . Surgiu então uma senhora de aspecto bem humilde q se identificou como Dna Maria, e q o lugar atendia como Faz. do Augusto. Visivelmente era caseira duma propriedade bem menor e mais simples, e com ela sendo mais razoável foi mais fácil dialogar q o chatinho  senhor anterior. Dna Maria nos deu não só permissão de acesso como apontou a direção da picada q subia a montanha. Como o morro q visávamos estava no meio das duas propriedades e foi seguindo as dicas dela q nos pirulitamos serra acima.
 
A picada sai dos fundos da casa da Dna Maria e mergulha em meio a voçorocas de samambaias, galgando suavemente  um ombro de serra ascendente e se mantem assim  por um tempo. No caminho, sujeirinhas de boi e cavalo se misturam no meio da trilha as de algum pequeno carnívoro, q supõe a presença de vida silvestre pulsante ali.  Mata tombada no caminho desvia nossa rota pra direita, a procura da continuidade da vereda, mas ela é encontrada logo mais adiante, e nos faz andar na refrescante  sombra dum bosque situado na encosta da montanha.
 
A vereda emerge novamente no aberto, sempre subindo a crista serrana, e se torna confusa pela profusão de trilhos de boi q nos ameaçam tirar da rota visada até ir de encontro um grotão rochoso intransponível. No entanto, a direção a seguir é óbvia e nos faz rasgar o capinzal encosta acima de modo a ir de encontro novamente com a crista serrana almejada, onde araucárias perfiladas servem como referência.
 
As 10:10hr damos enfim no alto dum cocoruto serrano onde, descampado e na cota dos 1550m, nos damos conta de estar bem na divisa das propriedades, fato reforçado por uma decrépita cerca q saltamos pra então prosseguir pernada livre e desimpedida morro acima. Daqui se avista parcialmente a tal fazenda do tiozinho chato, lá embaixo, mas a distância e a morraria colabora bastante pra dali em diante passar mais q desapercebidos pelos proprietários do lugar.
 
Dali em diante bastou apenas subir o pasto ralo da montanha, eventualmente tomando algum trilho de boi no caminho. Visivelmente uma precária via de terra bordejava a  montanha, como se a subisse ao largo de td sua extensão. Logicamente q nos mantivemos afastado desta pq vimos q alguns funcionários da fazenda na qual estávamos circulavam de moto. Mas até ali, onde estávamos, bastava se manter em silêncio e discretos, e assim fomos ganhando altitude lentamente. Enqto isso, horizontes  descortinavam-se a nossa volta, revelando belos picos se contrapondo a fundos vales e capões de mata.
 
A pernada então se mantem assim ininterrupta pela meia hora sgte, sempre subindo aos poucos através do pasto ralo da suave encosta serrana. Não tardou a surgirem os primeiros monólitos rochosos do trajeto, q anunciavam uma espécie de pré-cume local. A partir dali pedras e matacões pipocavam por td lado, de tds formas e tamanhos,  como se fossem sentinelas de pedra guardando o alto da montanha.
 
Eu e o Barros nos adiantamos, ansiosos pelo visu do cume, enqto o Nando e o Edson iam no compasso deles e sem pressa alguma, la atrás. Até q um pouco antes das 11hrs  nos vimos pisando nos 1700m do topo do Morro do Caratuba, onde um par de enormes rochedos coroava o largo e espaçoso cume. A brisa soprando forte no rosto apenas  pra nos preparar pra soberba paisagem q se descortina diante de nos. Enqto o quadrante norte era preenchido por um mar de morros, onde a tonalidade verde-claro dos  cumes se contrapunha ao esmeralda escuro do fundo de vales e capôs de mata, o quadrante sul era composto apenas pela silhueta de picos mais imponentes recortando o  horizonte, alguns bem conhecidos. Além da Pedra da Macela, do Corcovado de Ubatuba e do Pico do Cuscuzeiro, despontavam tb a Pedra da Jamanta, na Joatinga, e o Pico  do Papagaio, na Ilha Grande. O Alto da Fruta Branca e a Pedra do Sertão aparecem comedidos, próximos do litoral, enqto a Serra Fins surgia tímida na direção contrária.
 
Pois bem, uma vez ali td mundo simplesmente desabou embora a dificuldade tivesse sido nula, a meu ver. Não satisfeito com tal facilidade de acesso e vendo meus companheiros nada dispostos a maiores explorações (e sim apenas a ficar ali, relaxando) resolvi me dirigir a cadeia de morros bem a minha frente, q pela carta figurava como a divisa real dos estados carioca e paulista e deveria me brindar com uma vista mais ampla de onde estava. Pra isso teria q descer um fundo vale e subir tranquilamente pela encosta sgte. Aparentemente era coisa fácil pois de onde estava já tracejei uma rota com menos obstáculos no percurso.
 
Estipulei prazo de uma hora aos meus companheiros e lá fui eu, descendo o morro na direção do vale abaixo, onde cheguei sem maiores dificuldade a passo apressado  tomando alguns atalhos. Saltei um simpático córrego (afluente do córrego da estiva) e comecei a árdua subida do morro sgte, tendo aos poucos uma perspectiva diferente do vale q havia recém-cruzado. Uma vez no alto, coisa de meia hora depois, tive uma maravilhosa panorâmica do entorno, inclusive desprovida dos morros q bloqueavam  parte do visu do alto do Caratuba. Valeu a pena? Claro, sempre vale.
 
Me juntei novamente aos meus colegas antes do tempo q havia estipulado, arfando feito camelo, mas avisando os meus amigos q havia gente da fazenda circulando de  moto nos arredores, o q era verdade pois duma hora pra outra o som de motos era bem audível. Com receio de q estivessem nos procurando, nos pirulitamos rapidinho dali, por volta do meio-dia e meia, refazendo td caminho feito até ali. Chegamos no veículo coisa de hora e meia depois, com alguns urubus planando sob a gente na esperança frustrada de conseguir carniça fácil.
 
Com tempo mais q de sobra, nos dirigimos então num boteco próximo dali, o tal Kallas da Serra, onde bebemoramos e até arriscamos um karaokê improvisado na base do violão pelo seu jovem dono, o Zé Novais. Na cia de vários capiaus dali q engrossavam a cantoria desafinada das músicas q eram desfiladas, tomamos conhecimento de vários outros picos e points bacanas pra dar um visu, dicas estas devidamente anotadas. 
 
Zarpamos do boteco pouco depois das 15hrs, quase trancando as pernas e chamando urubu de meu louro. Vendo q ainda tínhamos tempo de sobra, resolvemos dar um pulo na Pedra da Macela, rolezinho clássico da região quase do lado de onde estávamos. Como apenas o Barros e o Edson nunca tinham pisado lá, fomos mesmo pra matar o tempo pois eu e o Nando já conhecíamos aquilo lá de tds as formas imagináveis e inimagináveis.
 
Falar do know-how de acesso pra Pedra da Macela agora é redundante, motivo pelo qual vou apenas me limitar a narrar o episódio de forma geral. Pois bem, chegamos na  porteira de acesso a  estrada q leva ao cume e lá fomos nós, subindo devagar-quase-parando a sinuosa via q leva ao topo. Tb pudera, já tínhamos subido um morro e agora  subíamos outro em condições nada favoráveis q beiravam o avançado estado etílico. É tava meio difícil, mas assim mesmo tocamos pra cima, firmes e fortes, ignorando as doses de cevada, Gabriela e cachaça. Mas ai chegamos no alto dos seus 1840m um pouco antes do sol se pôr, tendo aquela vista maravilhosa da baia de Angra, Paraty,  etc..além, claro, dum vislumbre interessante do próprio Morro do Caratuba, agora tingido pelos tons alaranjados daquele belo crepúsculo. Na sequência, retornamos de  volta ao veiculo, no escuro, doidos por um banho, ducha, comida e mais alguns goles de cerveja.
 
O Morro do Caratuba não figura com esse nome em carta alguma, na verdade, tenho até dúvidas de q esse seja seu verdadeiro nome.  Essa foi apenas a denominação q  adotamos apenas pelo fato de Dna Maria chamá-lo assim, pois qdo lá fomos queríamos apelidá-lo de Morro das Pedras ou Morro dos Matacões. Independente de  denominação, o  Caratuba é mais uma opção fácil e diferenciada de montanha cênica pelos arredores de Cunha. E o melhor, com chance de esticar o programa a outros  picos e, quem sabe, duma nova travessia pelo entorno. E isso não demanda mto não. Com uma carta e bússola na mão, aliada a vontade e disposição de cair no mato, as  possibilidades por Cunha (ou em qq lugar) serão infinitas.
 



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