1º Travessia Pico Paraná / Graciosa de ataque: Parte II - AltaMontanha.com - Portal de Montanhismo, Escalada e Aventuras
Travessia na Serra do Mar

1º Travessia Pico Paraná / Graciosa de ataque: Parte II


Aventura de:

Fiquei com a missão de despertador da galera, mas às 6h acordei antes do celular. Sem perder tempo, desmontamos tudo, e assim que assistimos o nascimento no leste, partimos rumo a árdua missão. Deixamos o cume às 6:40h, encarando a ameaçadora muralha negra avançava do oeste em nossa direção. Ela contrastava com o branco mar de nuvens que também vinha em nossa direção, transbordando por entre os colos das montanhas como se fosse um dique rompido. Pareciam imensas cachoeiras de nuvens despencando na planície litorânea. Mesmo com toda a pressa, não pudemos deixar de registrar o raro fenômeno.

 
28/12/2013 - Destino final: Graciosa
 
Então aceleramos para aproveitar o vigor matinal. Paramos apenas no rio depois do A1, onde fizemos o breve café da manhã. Indo em frente, chegamos rapidamente ao Itapiroca, às 8:40. Após registro no livro de cume, prosseguimos rumo ao Cerro Verde.
 
Em meio à longa descida, avistamos pessoas descendo as encostas do Tucum. Mas nem podíamos imaginar que logo à frente, ainda nos campos, encontraríamos outra equipe. Entre eles estava o Alvaro Vitto, acompanhado por outros dois. Estavam fazendo a travessia 7C, juntamente com os amigos Sergio Sampaio e Diana Rosa, e sua equipe de Florianópolis. Mais abaixo e já na mata alta, encontramos os próprios. Foi impossível não fazer uma pausa na correria para uma prosa, e registrar o encontro.
 
Foi nesta hora que começou a pingar. Depois das gretas do Cerro verde, ainda encontramos mais quatro pessoas de outra equipe, que foram os que avistamos descendo as encostas do Tucum. Apenas saudamos e seguimos em frente.
 
De volta aos campos, a furiosa chuva nos atingiu em cheio, e com ela vento forte e frio. Diante disso tratamos de passar rapidamente pelo Cerro Verde, e mergulhar rumo ao fundo do vale, onde novamente estaríamos protegidos na mata da Variante Mandela, aberta por nós semanas antes. Porém a proteção foi por pouco tempo, pois em seguida saímos nos campos de volta. Vento, chuva, frio e nevoeiro só aumentavam.
 
Ficando expostos novamente, sentimos a violência das gotas empurradas horizontalmente pelo vendaval no lado direito de nossas faces. Eram tão fortes que entravam no canal auditivo a ponto de causa dor. Se por um lado isso causava preocupação e desconforto, por outro acelerava nosso ritmo para escapar logo desse inferno.
 
Do cume do Taquaripoca, descemos rumo ao fundo de vale entre este e o Pico do Luar. Por ser uma trilha ainda muito nova, e se tratar de campos de altitude, perdemos alguns minutos até encontrar a entrada na mata. Quando nesta, o vento batia tão forte que fazia os troncos roçarem uns sobre os outros, criando assim um ranger furioso e fantasmagórico. Aproveitamos a proteção e demos um tempo até a tempestade acalmar. Beliscamos umas iguarias, e logo rompemos rumo à encosta íngreme que leva ao cume irmão menor do Luar.
 
Infelizmente não pudemos registrar como queríamos esta parte da travessia, pois o mau tempo não permitiu. A descida do Luar foi longa pelos campos e sobre o charco. Os tombos eram inevitáveis, e quando entramos na selva, mais um bom trecho se estendeu via riacho até enfrentar as encostas do Siri. Com tempo bom, essa parte é muito bonita e estimulante. Mas com tempo revolto, o lugar fica sombrio, e assume um semblante rude e ameaçador, como se a gente não fosse bem vindos por ali. Sendo assim, passamos batidos também pelo cume do Siri, e seguimos sem pausa rumo a nascente do rio que leva a Última chance.
 
Porém antes de descer por ele, ofereço aos camaradas a opção de tentarmos seguir ao máximo pelos campos, pois este rio que leva à última chance, é realmente medonho e desagradável de cruzar mesmo com tempo bom, quem dirá como estava aquele dia. Sendo assim, percorremos os campos a direita do vale, no intuito de interceptar a trilha do Ciririca mais abaixo. Até achamos um caminho relativamente batido, mas que logo ficou estranho, e tivemos que farejar a continuação. O terreno começou ficar nojento, cheio de gretas traiçoeiras e arbusto espinhosos. Até que num certo momento percebi que, apesar de ordinário, o lugar era familiar. Notei que se tratava do próprio rio xexelento que tentamos evitar. Pelo menos levamos sorte de interceptá-lo num ponto em que já terminava a parte ruim, e logo se tornaria mais amigável para pular entre as pedras.
 
Isso era o que eu acreditava até pisar numa solta que fez meu pé direito deslizar, arremessando a canela esquerda direto numa rocha afiada, que causou um profundo corte na mesma. Senti o sangue quente correr abundante, e também uma dor excruciante. Os amigos quando viram, acharam que ali terminava nossa travessia. Mas decidi ignorar aquela merda e continuar. Queriam ao menos fazer um curativo, mas recusei. Que se dane! Melhor era não deixar aquilo esfriar, e procurei manter o foco na travessia. Afinal já passavam das 13h, e ainda tínhamos mais da metade do percurso pela frente e após um suco em pó, tratamos de zarpar.
 
À frente o velho e ranzinza Ciririca, com sua subida longa e forte, que levaria ao último cume da nossa travessia. Isso era uma boa motivação para vencê-la numa só pegada. Como é de costume naquelas rampas, o grupo se dispersou um pouco, ficando espalhados num range de aproximadamente duzentos metros.
 
Às 14h pontuamos o cume do Ciririca, donde avistamos as famosas placas, as quais cruzamos ¼ de hora depois. Enquanto preenchia o livro de cume e descansava, os dois que faltavam chegaram. Breve pausa para fôlego, e às 14:45h despencamos a pirambeira rumo aos Agudos. Para Mildo Jr ali era terreno novo, e ficou impressionado com a encrenca que é descer o Ciririca pelo sul.
 
Vencido os abacaxis de sempre, era só caminhar pelo vale amarrotado até a Colina Verde, na qual pisamos 16h. Como já era esperado, não houve tempo para ir ao Agudo da Cotia. Isso além da energia, consumiria pelo menos uma preciosa hora. Então apenas deitamos uns minutos no local de acampamento para recuperar o ânimo, e não foi fácil se por em pé novamente para continuar o calvário.
 
Agora era andar os últimos 400m em campo, e adentrar o vale para seguir pelo primeiro córrego outra distancia desta, e  daí desembocar noutro córrego maior e melhor de andar (pelo menos nos cem primeiros metros), até que vire corredeiras, onde precisa ficar muito atento ao descer por rochas gigantescas, e escorregadias feito sabão. Com todo cuidado vencemos mais estes 450m até finalmente desembocar no rio Forquilha.
 
Minha bota completamente sucateada, inaugurada em trilhas em 2012, na Alpha Crucis, tratou de tornar esse trecho especialmente perigoso para mim. Para não correr risco de fratura, reduzi o ritmo. Em conseqüência disso, comecei ficar para trás, fazendo com que meus amigos tivessem que me esperar de tempos em tempos. Tentei várias vezes saltar mais rápido por entre as rochas, mas todas resultavam em tombos espetaculares. A integridade física nestas situações deve estar acima de tudo. Pedi desculpas aos amigos pelo ritmo lento, e continuei cauteloso. Assim foram pelos próximos 750 metros que andamos por dentro do Forquilha.
 
Ao passar pelas belas piscinas douradas, avisei aos amigos que a virada radical para noroeste estava próxima, e que ficassem atentos as fitas que marcam a saída do rio rumo a Garganta 235. Agora seria seguir tributário acima, e já se preparar para todo tipo de transtorno que costuma acontecer por ali. Assim como na maioria das quiçaças da serra, por onde passam raros animais com distúrbios mentais, brota da terra como praga dóceis plantinhas como bambus fogo, caraguatás, e unhas de gato, que disputam a tapa cada milímetro, e se encarregam de desfigurar qualquer rasto. Então acertar o alvo que é a garganta, se torna missão impossível sem um malvado calvário. Mais ainda por saber que a ultima vez que foi feita uma faxina por ali, foi na Alpha Crucis por mim, Jurandir, e Ivon Cesar (Sexta), quando ao subir, arregaçamos no facão e marcamos com as tradicionais fitas amarelas. O problema é que isso já fazia um ano e meio. Tempo esse que é uma eternidade para um mato ordinário, infeliz, que quando se olha mais atentamente, quase vê crescendo.
 
E assim foi. Logo depois de deixar o córrego, o rasto desapareceu. Lá estávamos nós procurando fitas no meio do nada para escapar logo dali, antes da noite chegar. Sorte que logo encontramos, e seguimos com todo cuidado para não perder as próximas, e fomos avançando. Finalmente o terreno começou aplainar. Isso que dizer que o objetivo está logo à frente. A mata densa já estava na penumbra, e nos restava menos de uma hora de luz quando chegamos ao tubo do livro de registro da Garganta 235, por volta de 19:30h.
 
Após um breve relato e demos o fora dali para aproveitar ao máximo a última hora de penumbra que nos restava. Entretanto agora, poderíamos usufruir da trilha que eu e Mildo penosamente construímos semanas antes, com várias investidas desumanas. Finalmente chegou a hora de ter a recompensa por todo o sacrifício. Jurandir e Fred, mais leves, desaparecem na frente. Eu e Mildo descemos cuidadosamente as encostas íngremes do Coxotós rumo ao remanso do rio Mãe Catira, sempre atentos as fitas amarelas que colocamos.
 
O esgotamento já nos fazia companhia à tempos, e isso nos torna mais vulneráveis e pequenos acidentes como tombos causados por escorregões ou tropeços em pedras e raízes. Finalmente no rio o terreno deu uma aplainada, e sem ter que se cuidar tanto, a caminhada voltou a render bem.
 
A preocupação agora é com os dois amigos. Supostamente estavam à frente, mas como era uma trilha recém aberta, um simples erro pode tirá-los do traçado e levá-los para outro rumo. Se isso tivesse acontecido, não haveria como saber antes de chegar ao fim da trilha no marco 22. Tal situação acaba me irritando, pois não os encontrava nos esperando em parte alguma.
 
No córrego, pouco antes do recém batizado Acampamento Lima (nome dado porque na abertura da trilha dormimos ali, e eu extraviei a lima que havia levado para afiar os facões), decidimos parar por um minuto para mandar para dentro o que restava da pouco comida que levamos. Foi ali também que não teve mais como caminhar sem lanternas, pois há tempos já vínhamos relutando contra as trevas.
 
Seguindo em frente, em minutos chegamos ao Lima, onde para nosso alivio encontramos os dois amigos sentados, descansando tranquilamente. Caminhamos juntos novamente a partir deste ponto, e mais a frente mudamos definitivamente para a margem direita do rio através passagem Débora (nome dado em homenagem a Débora, namorada do Miguel Trilheiro, que encontrou este melhor ponto de cruzar o rio, numa das investidas de abertura). Agora era manter o ritmo e em menos de uma hora estaríamos no Dique de Diabásio. Seguimos sempre atentos as fitas.
 
O silencio desta equipe totalmente esgotada, só era quebrado pelo barulho do rio e pelo som grave dos passos, já não tão ágeis pela escuridão floresta. Todos estavam no limite físico e mental. Quando isso acontece, qualquer destino parece inalcançável, e sendo assim, parecíamos jamais chegar no dique. Como o tempo é relativo, e alguns até dizem que ele não existe, num determinado momento, finalmente chegamos.
 
Nesta que é a parte mais bonita do rio, só havia escuridão, a qual era quebrada apenas pelos fachos raquíticos das nossas lanternas também já cansadas. Dali, anda-se um pouco pelo rio até chegar ao Salto Mãe Catira. Na abertura da trilha, propositalmente deixamos as partes mais belas do rio no roteiro.
 
Foi nesta parte, exatamente na curva que leva ao salto, que avistamos na água um animal em movimentos rápidos. Era um guaxinim. O encontro quebrou um pouco a monotonia e animou a equipe, e logo em seguida chegamos ao topo do salto. Lugar marcante este, pois além de espetacular, nos faz sentir (quase) em casa. Entretanto diante do nosso estado, saber que ainda haveria no mínimo duas horas de caminhada até pisar na Graciosa, não era algo muito animador. Pior ainda por saber que, com o ritmo comprometido, levaríamos bem mais do que isso.
 
Descer pela biboca do lado esquerdo do salto merece atenção até mesmo durante o dia e descansado. Imagina então à noite, e feito zumbis. Fomos com todo cuidado a cada passo desescalado até chegar na base, onde cruzamos o rio para andar pela suave trilha que abrimos. Mesmo nessa parte tranqüila a coisa não rendia, e os outros recantos poupados no trajeto, como piscina menor e piscina maior, custaram a aparecer.
 
Sobe desce sem fim até a descida final onde se cruza o rio pela última vez. Então sucede uma nova serie de sobe-desces margeando os últimos instantes do Mãe Catira, até chegar ao Rio do Milhão. Ali deixaríamos de acompanhar os rios de vez, e não ouvi-lo mais chega ser gratificante. Porém agora seria uma subida cruel e sem fim até pisar na Graciosa.
 
Todos no piloto automático, há muito tempo que já não se ouvia uma única palavra. Os passos eram curtos não rendiam mais nada. Metros pareciam quilômetros e minutos pareciam horas. Estávamos prestes a concluir a primeira travessia Pico Paraná/ Graciosa de ataque, mas esta havia nos cobrado um bom preço. Estávamos próximos a um colapso, e nem mesmo nosso olfato funcionava para sentir nossa catinga insuportável. O Fred em especial, neste momento era o que mais sofria. Por várias vezes tivemos que esperá-lo.
 
Se existe algo que todo montanhista não suporta, é ver lixo nas montanhas da serra do mar. Mas nesse dia em especial, todos nós ficamos muito felizes ao ver toda diversidade de lixo na trilha informando que a Graciosa estava poucos metros a nossa frente.
 
Pronto! Enfim à 1:20 da manhã, estava finalizada a travessia, e assim que o Fred saiu da mata, comemoramos modestamente com a pouca energia que nos restava. Há 18 horas e 40 minutos atrás estávamos no Pico Paraná, e agora, e sem pernoite, estávamos ali desmaiados no gramado do Marco 22.
 
Mas o pesadelo ainda não havia acabado, pelo menos não para mim. O Landcelta havia sido deixado três quilômetros serra acima, e não havia outro meio de resgatá-lo a não ser caminhar até lá. Entretanto se apenas um pobre diabo pode ir buscá-lo, não tem porque todos irem. Então, como coloquei todos ali nessa grande roubada, nada mais justo que poupá-los de mais esse sofrimento. Me propus a ir sozinho pegá-lo. Ninguém se opôs. Lá fui eu serra acima pela serração da Graciosa, rumo à Casa de Pedra.
 
Achei que nunca mais iria acabar, mas um dia cheguei lá. Troquei apenas algumas palavras com o Espalha Brasa que levantou pra me atender, e logo me despedi. A sensação ao sentar no banco do carro, foi algo do além. Agora era só resgatar os camaradas sucateados. Fui com cuidado pelo nevoeiro denso.
 
No marco 22, parecia uma pilha de gente morta. Juntamos os caquinhos e desaparecemos dali. Dirigi até onde a lucidez permitiu. Quando não deu mais, passei o volante para o Fred, afim de evitar uma tragédia.
 
Já era mais de 2h da madrugada quando todos estavam devidamente entregues em casa. Finalmente pudemos por um ponto final e descansar a carcaça de mais uma grande jornada insana pelas montanhas da nossa Serra do Mar.
 
No dia seguinte já havia esquecido a promessa que fiz aos demais durante a caminhada, de não mais meter a mim nem aos outros em enrascadas, e tratei de colocar na lista de afazeres o próximo objetivo que justificava a abertura de trilhas a partir do Marco 22: A Trilha dos Agudos.
 



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