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Guarujá

O Saco do Major


Aventura de:

A Praia Saco do Major é uma pérola situada na cidade-balneário de Guarujá, litoral de Sampa. Deserta, selvagem e cujas areias claras são cercadas de morros forrados de Mata Atlântica, seu nome deriva de sua topografia e por ter sido, no passado, moradia de um oficial aposentado. Atualmente este paraíso está em propriedade particular e seu acesso é, em tese, proibido. Mas tomando oportunas picadas extrativistas é possível chegar nesta minúscula baia de ondas fortes e águas transparentes em menos de 3hrs de pernada. Geograficamente, o Saco do Major se situa no extremo oeste da Ilha de Sto Amaro, cuja silhueta se assemelha a de um dragão. Portanto, não deixe de conhecer esta linda praia onde carro não chega, encravada na “boca” deste réptil imaginário.

O veículo rasgava a Rod. Imigrantes (SP-160) em direção a Baixada Santista sob um céu azul e atmosfera límpida naquela manhã quente e abafada. A promessa de bom tempo justificava uma merecida visita ao litoral paulista, e a vontade da Lau (oriunda do interior paranaense) em conhecer alguma praia foi a deixa necessária q buscava pra descer a serra. Somada a td isso, a dica soprada pelo Nando em conhecer uma praia selvagem e deserta bem do lado dum dos maiores balneários do país era convite mais q irrecusável. Então, vamos que vamos!

Após descer sinuosamente a maravilhosa Serra do Mar que bordeja o vale do Rio Pilões e rasgar encostas através de vários túneis e viadutos, chegamos na horizontalidade da Baixada Santista, onde tomamos a Rod. Cônego Domênico Rangoni (SP-055) em direção à Ilha de Sto Amaro, popularmente conhecida como Guarujá. A paisagem de td este trajeto já encantava a Lau, acostumada mais a geometria retilínea dos campos de soja q a verdejante e escarpada “Muralha”, onde eu e o Nando identificávamos facilmente várias cachus famosas rasgando a encosta. Paraíso, Perequê, Marcolino e tantos outros nomes se juntavam ao de serras próximas, como a de Cubatão, Mogi, Quilombo, Morrão e a do Meio, alcunhas q pouco significavam pra Lau (e mta gente daqui mesmo), mas q pra mim e o motora já haviam sido palco de trocentas aventuras passadas.

Chegamos no centro do Guarujá por volta dumas 9hrs, onde  tomamos um farto desjejum numa padoca a meio caminho da Praia de Asturias e do Tombo. Como era alta temporada, o lugar fervia de turistas e portanto zarpamos rapidinho dali. Atentando sempre a sinalização em direção à Praia de Guaiúva, chegamos na dita cuja num piscar de olhos, onde estacionamos as margens da Avenida dos Caiçaras. A Praia de Guaiúva é uma das menores da ilha, com quase 1km de extensão e cercada por paredes de pedras. Bonita e sem mto barulho, suas águas calmas e rasas são o destino certeiro de famílias inteiras.

Pois bem, eram 9:30hr e após chegar na praia bastou caminhar pelo chão arenoso, compacto e claro, em direção ao seu extremo norte, deixando o borburinho pra trás, e no muralhão de pedras buscar o q se assemelhasse a alguma vereda. E ele foi encontrada sem nenhuma dificuldade, se esgueirando sinuosamente por entre a baixa mata de encosta. Este comecinho de caminho é repleto de lixo de visitantes irresponsáveis, q vai rareando conforme se mergulha vereda adentro. Há algumas bifurcações discretas no caminho, mas teoricamente basta nos manter na principal, ou seja, a mais óbvia e pisada.

Pois bem, tocando por esta estreita vereda q rasgava a encosta, cruzamos várias bananeiras, um enorme rochedo onde havia uma bica e algumas frestas na mata, de onde tínhamos bela vista pro mar aberto. Mas chegou um ponto q a picada começou a descer forte até desembocar no costão rochoso. Buscamos sua continuidade, sem sucesso.

Enqto meus companheiros descansavam aproveitei pra pedir informações pra única pessoa q ali vi, relativamente próxima, meio q escondida numas pedras. Era um caiçara q tomava banho como veio ao mundo num poço formado entre as pedras e o mar. Claro q esta minha indiscrição foi motivo de piada pra Lau e o Nando, mas como estávamos sem-direção fui na cara-de-pau mesmo pedir ajuda ao peladão, q buscou sem sucesso esconder sua “jibóia” e mostrava certo constrangimento diante minha aproximação. O fato foi q, segundo ele, realmente havíamos deixado escapar a vereda correta logo no início, uma vez q a trilha q correta era uma das tantas bifurcações (menos batidas) q tínhamos visto logo no comecinho, só q tocava indefinidamente pro alto.

Retrocedemos então deixando o costão (e o peladão, q agora vai pensar duas vezes em buscar “privacidade” na orla) pra trás, adentramos um tanto pela trilha e, ao invés de voltar td ao início, o Nando decidiu simplesmente tocar pra cima pelo mato. Afinal, uma vez no alto interceptaríamos a vereda correta! E assim se fez, começamos a subir a encosta na marra, q neste trecho se mostrava bastante íngreme e nos obrigou a segurar em qq coisa q servisse de apoio, fosse tronco, mata ou pedra. Trecho pirambeiro de rasga-mato q nos deixou sujos e ensopados de suor no ato. Mas ao ganhar altitude o terreno suavizou e o rasga-mato tornou-se até razoável, sem gde demanda dos braços ou esforço de subida.

Um tanto depois eis q alcançamos os quase 180m do alto do morro, cujo nome consta na carta como “Morro de Icanhema”, onde nossas suspeitas realmente se confirmaram. Uma picada bem evidente rasgava td a extensão da crista da morraria no sentido desejado, isto é, pra sudoeste. Dali em diante bastou acompanhar aquela “quase avenida” em meio a mata, onde um discreto corte vertical na encosta denunciava q aquela vereda já fora uma antiga estrada, atualmente tomada pelo mato. E assim prosseguiu nossa jornada, palmilhando a crista abaulada daquela sucessão de pequenos cocorutos, sem mta diferença de altitude. Sombreada, agradável, com eventuais janelas na mata em direção ao mar e com indícios de vida selvagem bem próximas, a caminhada teve continuidade naquele compasso inabalável por um bom tempo. As vezes a vegetação ameaçava se debruçar na trilha ou arvoredo tombado obstruía o caminho, mas nada q um simples desvio resolvesse.

Mas eis q a vereda começa a descer suavemente e desemboca num trecho aberto, onde as vistas se abrem permitindo vislumbre do horizonte ampliado a nosso redor, onde o escarpado e verdejante relevo parecia dividir o azul celeste do firmamento das tonalidades mais escuras do oceáno. Dali já podemos adivinhar q estamos próximos de adentrar na tão almejada baia. Não demora pra vereda se alargar e cair numa precária estrada, q por sua vez desce até o selado q divide os morros maiores. Aqui existe uma encruzilhada evidente onde o sentido a tomar é mais q óbvio, isto é, rumo ao mar.

Descendo forte através dum largo estradão com pouco (ou nenhum sinal) de uso, o forte calor só não é sentido pela presença sempre agradável de farto arvoredo em volta. Mas o trovejar de arrebentação cada vez mais próxima acelera nosso passo pq não víamos a hora de dar um tchibum.
E assim, pouco antes do meio-dia, o estradão termina no fundo da tal baia, ou seja, na entrada da Praia do Saco do Major. Uma casa abandonada (e com algumas pichações) num cocoruto cercado de grama e palmeiras são hj testemunhos q ali já fora a residência do tal major, militar reformado q hj empresta o nome ao lugar. E o milico não poderia ter escolhido lugar melhor pra descansar na aposentadoria. Uma faixa de areia alva de quase 400m extensão cercada de pedras e morros verdejantes isola aquele lugar paradisíaco, onde a vista pro mar delimitando o céu já justifica uma merecida visita. Uma bica encravada nas rochas garante água fresca, doce e potável necessária pros visitantes da vez. E o melhor, não há ninguém!

Donos absolutos daquele paraíso, nos regateamos da melhor forma possível, ou seja, com tchibum no mar, afinal o sol estava de rachar. O frescor e silêncio das águas cristalinas do mar só é quebrado vez ou outra por alguma arrebentação maior. Na sequência, ficamos lagarteando á toa na areia ou apenas de admirando o belo panorama descortinado a nossa frente, principalmente as lanchas e escunas q eventualmente adentravam na baia, paravam e depois prosseguiam seu trajeto. Dureza apenas é a ausência de sombra, mas com jeito é possível encontrar algum quinhão da mesma nos gdes rochedos q salpicam td extensão da praia. Havia um pouco de lixo e sinal de fogueira, infelizmente, sinal q eventualmente alguns andarilhos irresponsáveis tb chegam naquele bucólico lugar e não fazem sua parte no quesito preservação.

Por volta das 14hrs e após delicioso lanche, julgamos prudente retornar devido ao forte calor. Tomamos um bem-vindo banho na gostosa bica de agua doce, removemos td sal do corpo e começamos a volta. Dando as costas á praia, nos despedimos deste belo paraíso e iniciamos o árduo caminho q tínhamos pela frente. Árduo pois ele começa com a enorme e interminável pirambeira vencida horas antes. Mas devagar e quase parando alcançamos o selado q une a morraria, onde descansamos um pouco e decidimos não voltar pela trilha de ida, e sim passar óleo-de-peroba no rosto e sair pela entrada da fazenda mesmo.

Do selado, a estrada desceu suavemente então pro outro lado da morraria embalada com bela vista da cidade de Santos, e em pouco tempo nos vimos no aberto, num pastado repleto de búfalos e algumas casas da fazenda, das quais buscamos passar desapercebidos a despeito da ausência de movimentação na mesma. Respiramos aliviados somente qdo pisamos no asfalto, já na entrada da fazenda, onde uma lacônica placa escancarava “Sitio Mato Grosso – Prop. Particular - Proibido Entrar, Caçar e Transitar”. Com sol fritando os miolos nos resignamos apenas a esperar condução as margens duma deserta Estrada Sta Cruz dos Navegantes, mas felizmente conseguimos carona com um morador local q passava por ali. Alegria geral, claro, pois algo de 8km nos separavam ainda do veiculo. Não bastasse, nosso “salvador” nos deu dicas de outro caminho pra aceder o Saco do Major, pois ele mesmo tb eventualmente frequentava a praia. Uma trilha mais extensa q parte do bairro Santa Cruz dos Navegantes, mais conhecido como Pouca Farinha. Quem sabe um dia a gente se anima a realizá-lo, não?
 
Fomos deixados no final da Av. dos Caiçaras, onde tivemos apenas q tocar pela supracitada via até alcançar o veículo. Antes de zarpar passamos numa padoca onde nos abastecemos de refris e, claro, cervejas, pra somente logo a seguir dar adeus ao Guaiúva. Ao tomar caminho em direção a Sampa nosso olhar se voltou pela última vez á muvuca barulhenta das praias do Guarujá. Muvuca esta q contrastava com a beleza silenciosa, solitária e selvagem da Praia do Saco do Major, situada logo ao lado. Requisitos estes q nem a “selvagem” Prainha Branca tem, por sua vez situada no outro extremo da Ilha de Santo Amaro. E a Lau, será q gostou de conhecer o litoral paulistano? Sem dúvida, pois conheceu uma praia exclusivamente só pra ela.

 




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