Transmantiqueira: a odisseia do peregrino - AltaMontanha.com - Portal de Montanhismo, Escalada e Aventuras
União das travessias da Serra Fina e Marins Itaguaré

Transmantiqueira: a odisseia do peregrino


Aventura de:

O mundo das grandes travessias tem ganhado mais brilho diante dos olhos das novas gerações, e não podia ser diferente comigo. Apesar de estar na montanha quase todo final de semana, um bate/volta começou a deixar um desejo cada vez maior de ficar e continuar caminhando por aqueles cumes, conhecendo, desfrutando a aprendendo mais de mim e da natureza.

A ideia surgiu de uma trilha cancelada ao Pico dos Marins em maio deste ano. Minha namorada a tempos quer muito ir pra lá e como boa paulista que é, tece elogios empolgantes sobre a Serra da Mantiqueira. Mas, por um surto de virose nos nossos parceiros, a trilha foi cancelada, mas a vontade de ir pra lá só cresceu e somando-se a necessidade de conhecer o Parque Nacional de Itatiaia (PNI) e explorar os pontos altos do Rio de Janeiro. Desta forma, surgiu a Transmantiqueira nos meus planos. Ao invés de fazer a travessia Marins – Itaguaré e depois ir de ônibus até Itatiaia, por que não emendar na Serra Fina e fazer tudo numa pernada só? 
 
Dia 1
 
Como a ideia era ir gastando o menos possível a única forma era ir de carona, e então no último dia 24 sai de Curitiba em direção a São Paulo de carona no caminhão do meu tio até a saída para Santos, nas proximidades do posto O Fazendeiro. A primeira noite foi no caminhão mesmo.
 
Dia 2
 
No segundo dia levantamos perto das 6 da manhã e fomos tomar café. Meu tio seguiu viagem sentido Santos, e eu fiquei na beira da BR pedindo uma nova carona. Uns 25 minutos depois outro caminhoneiro parou, estava indo para o Rodo Anel e poderia me dar carona ate Embu das Artes. Muito feliz embarquei pois já seriam alguns km a menos. Desci no posto da PRF em Embu, fiquei por ali um tempo tentando alguma carona ate São Jose dos Campo (SJC), mas pra minha infelicidade ninguém que parou estava indo pra esse lado.
 
Depois de um tempo notei uma viatura da PMSP parada no posto de combustível ao lado de onde estava. Conversei com os policiais que me deram um apoio para pegar um ônibus que me deixaria no centro de SP. Lá, peguei o metrô até a rodoviária do Tietê, onde poderia comprar uma passagem para São José dos Campos. Na verdade, eu resolvi parar em São José para conhecer meu sogro que mora lá, era caminho mesmo então fui lá pedir a benção do seu Lauro....rsrs. Cheguei lá perto das 15 hrs, e me informei que do lado da rodoviária tinha um serviço de ação social, aproveitei para tomar um banho e ficar pensando no que falar pro sogrão até dar 18 horas, quando minha sogra sairia do trabalho pra me buscar. Passei uma noite super agradável na casa dos sogros, ganhando uma energia extra (comida bouuuaa) para a trilha.
 
Dia 3
 
No dia seguinte peguei o primeiro ônibus as 5:30 de SJC para Lorena, e perto das 8 horas já estava lá pegando outro pra Piquete. Um pouco antes das 9 cheguei em Piquete e ufa!!! assim terminou a peregrinação para chegar ao início da travessia. 
 
 Em Piquete comecei em caminhar em direção a base do Pico dos Marins. Subi caminhando pelo acostamento da Rodovia Juscelino Kubitscheck de Oliveira até uma estrada vicinal que liga Piquete ao Bairro dos Marins. Dali em diante foi uma looonga jornada: estradinha cheia de belas subidas, descidas e cheia de curvas.  Algumas horas de caminhada depois, avistei um carro indo na direção do bairro, estava com cara de cachorro abandonado vagando pela estrada quando o motorista parou e ofereceu carona (pense numa pessoa feliz!). Subi na caçamba e fui segurando uma calha que por causa do tamanho estava vibrando bastante. Não demorou muito estávamos no bairro, agradeci a carona, peguei a mochila e segui o caminho. 10 passos adiante começou a estradinha de chão que sobe a serra até a base da montanha.
 
No início estava feliz com a carona, acreditando que faltava pouco, só que não!rsrs... estava longe ainda, e bora lá andar mais um pouco. Mais a frente encontrei alguns romeiros indo a cavalo em direção a Aparecida do Norte. Alguns paravam pra me perguntar:  “onde você vai com essa mochila enorme seu doido?”, e eu explicava com o maior prazer. Ganhei muitas palavras de incentivo, compromissos de orações e um pão com mortadela hehe!!
 
Por volta das 15 horas cheguei, no Refúgio Base Marins e conversei com o seu Dito, responsável do local. Ele me mostrou as reformas que estava fazendo, o local tem área de camping, restaurante, alojamento, estacionamento, e oferece serviço de resgate pra quem faz a travessia, um lugar bem organizado. Sem perder muito tempo, parti em direção ao morro do Careca onde iria acampar. Cheguei por volta das 16 horas, armei minha barraca e fiz 1 litro de chá para afastar o frio. O tempo estava todo fechado, mas bem seco. As 18 horas fui dormir, o dia seguinte prometeria fortes emoções! 
 
Dia 4
 
Acordei de madrugada com um pouco de frio, coloquei mais uma blusa e resolvi dar uma olhada na temperatura, e para a minha surpresa estava -7°C!!!Pensa no frio! Voltei a dormir,  e as 6 horas o despertador já gritava, e cadê a coragem de sair lá fora, estava tudo congelado! Criei coragem ao escutar outros doidos passando em direção ao cume. Fiz mais um chá, tirei o gelo da barraca e guardei a tralha. No caminho encontrei vários trepa pedra que acumulam um pouco mais de pessoas na trilha. Aproveitei pra conversar um pouco com um grupo, e de quebra ganhei uns aperitivos (hahah só filando uma comida). Já no último ponto antes da subida própria do Marins, fui um pouco em direção a trilha do Marinzinho onde escondi a cargueira para subir somente com a câmera e o bastão até o cume.
 
Na subida tive o privilégio de encontrar uma galera local bem animada pra combinar com aquele dia lindo de céu aberto. Faltando pouca coisa para o cume, e na companhia de mais dois trilheiros, um rapaz a nossa frente sofreu um acidente. Ele se apoiou  numa pedra que estava solta, e ela caiu por cima dele, parando em cima do seu peito e parte da cabeça.
 
Nós 3 tivemos dificuldade para retirar a pedra, e acalmar o rapaz que pouco falava nosso idioma. Fiz uma avaliação do seu estado e vi que ele tinha lesões graves. Os outros dois colegas assumiram a responsabilidade de cuidar do acidentado enquanto eu fui para um local onde fosse possível o contato com resgate. Um pouco mais acima, usei vários celulares de pessoas que estavam por lá para ligar no 190, 192, 193 e alguns números de emergência locais, mas nenhum atendia. Então tentei contato com meus familiares e finalmente deu certo! Após alguns minutos e a ajuda do meu pai e da minha sogra, a base do GRAER da PMSP me ligou, passei as coordenadas de GPS, e começou a espera do resgate.  Perto de mim haviam algumas pessoas acampando, e eles foram muito solidários em me emprestar uma blusa e me dar um pouco de comida pois como eu só tinha ido para fazer o cume e voltar, minhas coisas estavam lá em baixo.
 
Após algumas horas de espera, o helicóptero chegou, ajudamos a retirar o rapaz e colocá-lo no helicóptero (já era 15:30pm) e ele partiu em direção ao hospital de Taubaté. O tempo estava fechando e resolvi não ir até o cume.
 
Com a travessia adiada em um dia, dormi na base do Marins, e isso foi muito bom! Encontrei com o Wladimir Loyola que guiava um grupo de amigos da PMMG, os Trepators Adventure. Pessoal bem animado, me convidaram para jantar com eles, e eu nem pensei pra responder rsrs. Um grande incentivo estar com pessoas tão bacanas quando se está sozinho.
O Wladimir me incentivou bastante para terminar a transmantiqueira que só estava no começo.
 
Dia 5
 
No dia seguinte sai cedo em direção ao Itaguaré, ganhei companhia até o Marinzinho, dois trilheiros que haviam subido pelo Maeda e acampado no Marins e agora estavam retornando. O vento estava me castigando com rajadas fortes e um gelo de bater os dentes. Já na descida do Marinzinho encontrei a temida corda, que nem é tudo o que falam, tem lugares bem mais chatos um pouco mais a frente.
 
Como o trecho era curto fui sem pressa e curtindo o dia de céu azul, que se resumiu em trepa pedras e escaladas de aderência depois de rastejar arrastando a cargueira entre buracos e pedras. Mais a frente deixei ela escondida para fazer uma rápida subida no cume do Itaguaré, e coloca rápido nisso: antes das 17 horas já tinha descido e estava com acampamento montado! Encontrei outro grupo que estava no Itaguaré e me indicou um ótimo lugar para acampar, com uma linda vista e abrigo do vento. Os companheiros também me convidaram pra jantar com eles, e claro, nem pensei aceitei na hora. Durante a janta eles me passaram muitas informações sobre a trilha, afinal ali é o quintal deles.
 
Dia 6
 
Fui dormir e no outro dia cedo comecei a descida do Itaguaré, coisa rápida e bem tranquila, uma trilha um pouco judiada pela erosão mas muito bonita em meio a mata, passando por alguns riachos. Estava bem quente e fiquei com muita vontade de dar um pulo no rio, mas ainda tinha muito para fazer aquele dia. Desci o mais rápido que consegui até chegar na estrada de acesso a Passa Quatro, e bora lá sem pensar muito porque tem chão até a cidade, o planejamento era ir até o Quartzito para acampar.
 
Já era perto das 13 horas quando ganhei uma carona até Passa Quatro, adiantando um pouco a pernada e fazendo grande diferença pela oportunidade de conversar com alguém. Passei na cidade comprar um queijo e uma geleia, e tão logo segui em direção a Toca do Lobo.
 
Depois de um tempo caminhado pela estradinha de chão poeirenta, parando em algumas casas para pedir água, aponta um caminhão indo em direção ao meu destino e sem perder tempo pedi uma boléia. Novamente a felicidade inexplicável vendo as curvas as decidas e as suuubidas da estrada, e eu sentado em cima de uns sacos de farelo bem tranquilo rsrs.
 
Até que aquele doce momento acabou, então vamos lá andar novamente! Um tempo depois achei uma plaquinha indicando que faltavam 4 km para a Toca do Lobo, e o fim do dia ia chegando e nada daqueles 4 km acabarem.
 
Adiante encontrei um senhor com a sua esposa usando de verdade seu jeep 4x4. Ele estava querendo subir até a Toca do Lobo para buscar o filho que estaria terminando a Serra Fina, porém uma erosão mais forte, ou melhor uma baita voçoroca estava atrapalhando um pouquinho o andar da carruagem hehe. 15 minutos depois, chego na Toca do Lobo e lá encontro o Fábio e mais 2 amigos que haviam acabado de chegar e estavam aproveitando o rio, avisei ele que seu pai estava um pouco mais abaixo. Eles me passaram várias informações da trilha e um de seus amigos me deu um amendoim salgado que levantou minha moral! Me despedi deles e continuei andando até o Quartzito onde iria acampar, seguindo as orientações do Fábio e seus amigos. Lá montei o acampamento, fui buscar água e tomar um banho. Ahhh coisa boa, estava um calor! Fiz um suco e fui comer o queijo e a geleia. A noite foi bem tranquila e quente comparado as outras. 
 
Dia 7
 
Como tudo que é bom dura pouco, o dia amanheceu com céu encoberto e um baita vento. Vamos lá guardar as coisas e seguir o rumo, pois o dia seria longo:  subir o Capim Amarelo e ir até  o topo da Pedra da Mina.
 
Subi o Capim amarelo o tempo todo brigando com o vento que devia estar em torno de 80 km/h em alguns lugares, curtia comigo mesmo por ter passado de quatro em alguns trechos da crista onde até agora, não sei como o vento não me levou montanha baixo. Como o meu planejamento era um café da manhã bem forte (arroz carreteiro, feijoada e por ai vai), eu caminhava praticamente o dia todo e com muita energia heheheh.
 
Depois de subir o Capim e passar uma sequencia de sobe/desce,  quase na cachoeira vermelha encontro o Renato e a Nataly, dois irmãos que estavam fazendo a serra Fina tentando um bom tempo, mas infelizmente não foi o que encontraram: o tempo estava encoberto, feio, frio e ventando muito. Conversamos um pouco e logo voltamos a andar, fomos até o acampamento ASA do lado do rio claro, e o último antes da pedra da Mina. Como de praxe, montei a barraca e fui ao rio pegar água e tomar meu banho (nada melhor que relaxar alguns minutos na água gelada para revigorar). Voltei, fiz um chá e ficamos conversando um pouco de dentro das barracas, pois o tempo não ajudava a colocar o nariz para fora. Os irmãos estavam pensando em sair pela rota do Paiolinho, fiquei um pouco tentado a abortar a travessia por causa do visual all White hehehe, mas depois de conversar com alguns amigos e da mensagem de apoio da minha namorada, que disse: amor TACALEPAU NESSA SERRA FINA! Resolvi continuar, e logo fui descansar hahahah.
 
Dia 8
 
Meus companheiros de acampamento saíram bem cedo,  quando eu ainda estava terminando meu café da manha (um ótimo baião de dois). Com tudo guardado e muito gás, em 10 min de caminhada já os encontrei. Agradeci pela companhia, desejei uma ótima trilha a eles e comecei a subir a pedra da Mina que de onde eu estava parecia uma montanha pequena, diferente da magnitude que eu a via, alguns km atrás. Foram 20 min até o cume, tirei algumas fotos e logo segui, queria chegar no final de qualquer forma.
 
Desci a pedra da Mina e passei o vale do Ruah riscando o chão. Passei o Cupim do Boi até a base do Três Estados andando sem parar. Comecei a subir o Três Estados em um ritmo mais lento, as pernas não estavam tão boas mais, cheguei miando no cume. Parei pra comer e ligar para mulher. Coisa de 15 min e já estava andando novamente, agora faltava pouco. Não demorou para chegar nos Ivos e começar a descida até o Sítio do Pierre. Neste ponto eu estava bem exausto e a mínima subida me deixava bem lento. Mas vamos nessa,  tá acabando! Perto das 18h já tinha passado o sítio e estava chegando na rodovia. Na rodovia tentei pegar uma carona até a garganta do registro, mas já estava escuro e a chance de alguém parar era muito remota. Então a única coisa que me restava, era ir andando. Foi mais uma hora até a garganta, chegando lá as 19.
 
Fiz contato com o PNI e fui informado que a subida do Agulhas Negras estava fechada por causa do mau tempo e a previsão era de bastante chuva para o dia seguinte. Sendo assim resolvi por encerrar minha Odisseia pela Serra da Mantiqueira. Ainda tive uma grande sorte de conseguir uma carona para Resende, e de lá peguei um ônibus para o Rio de Janeiro de onde voltaria de avião para Curitiba. Foram 6 dias na maior empreitada da minha vida sobre montanhas, e com isso aprendi muitas coisas, principalmente sobre mim. A Serra da Mantiqueira cativou meu coração, e espero em breve repetir esta travessia de forma mais completa, desta vez acompanhado da minha digníssima, pra tornar estes momentos mais especiais ainda.
 
Dados da Trilha
 
Aclive acumulado: 5625 m
Declive acumulado 4573 m
Distancia a pé 91,2 km
Distancia total 115 km (com as carona)
 



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