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Sul do Chile

Ascenso invernal ao vulcão Osorno


Aventura de:

A região de Los Lagos, no norte da Patagônia Chilena, é um ótimo destino para quem deseja fazer uma escalada em gelo com menos complexidade técnica e sem necessidade de aclimatação. Próximo a cidade de Puerto Varas, capital turística de Los Lagos, estão localizados alguns dos vulcões mais famosos da região, Osorno 2.652 m, Puntiagudo 2.493 m e Calbuco 2.003 m, ainda ativo, tendo sua última erupção em 2015.

Fora estes vulcões, o Vale de Cochamo fica próximo a cidade. Este vale é um dos locais mais importantes da escalada no Chile, conhecido como o “Yosemite Chileno”, pela qualidade e extensão das paredes de granito.
 
O vulcão Osorno é um grande ícone da região. Por estar afastado da cordilheira central se destaca na paisagem plana de altitude baixas. Ensenada, o vilarejo mais próximo, está a 56 metros sob o nível do mar, praticamente 2600 metros de desnível até o cume.
 
 Normalmente se faz um ataque direto. Você pode sair do hotel de madrugada, pegar um carro até a estação de Ski localizada a 1100 m, atacar o cume e voltar para o café da tarde.
 
Nossa estratégia foi um pouco diferente. Em Puerto Varas contatamos nosso amigo e guia de montanha, Mike Sanchez. Marcamos de nos encontrar já na montanha, em um dia que a previsão apontava como ideal para fazer cume. Mike nos mostrou um site de meteorologia interessante: https://www.windy.com. Quem não conhece vale a pena conferir.
 
Então o ataque ao cume ficou marcado para 31 de julho, tínhamos 4 dias para nosso encontro com Mike. Fizemos uma aproximação lenta, acampamos em uma falésia de escalada conhecida como Petrohue, nome de um vilarejo próximo. O tipo de rocha predominante por lá é o basalto, uma rocha de origem vulcânica. É sempre legal conhecer novos tipos de rocha, esta me pareceu bem lisa dificultando um pouco mais os lances de aderência. A via que mais gostei era fácil, devia estar cotada em 4 grau, mas muito interessante. Uma fenda que começava pequena com movimentos de oposição e agarras e ia aumentando até entalar todo o braço.
 
Na véspera do ataque pegamos algumas caronas que nos deixaram no ponto de encontro com o Mike, que estava fazendo um curso. O espaço onde aconteceu o curso chama Trekka e funciona como café, centro de interpretação vulcanológica e abrigo para montanhistas que estejam participando de algum curso. Fica a 600m de altitude, distante 6 km do Centro de Ski.
 
O sol estava se pondo quando Mike terminou suas atividades e veio ao nosso encontro. A essa hora não sobem mais carros. Então ele nos sugeriu que pegássemos uma carona de volta ao vilarejo, para dormir na casa de um amigo que poderia nos dar uma carona para fazer o ataque ao cume na madrugada do dia seguinte.
 
Enquanto Mike estava ocupado com o curso, eu e minha companheira Gabi demos uma sondada no lugar e encontramos uma pequena guarita de madeira abandonada onde guardamos nossa carga. O pequeno casebre de madeira era grande o suficiente para nos acomodar deitados, então decidimos pernoitar por ali mesmo.
 
Marcamos de nos encontrar às 4:30 da manhã. Naquela região o sol só nasce 7:30. Nos despedimos de Mike, que desceu de carona para o vilarejo, preparamos nossa janta e arrumei os equipamentos para o ataque. Desta vez eu usaria meus próprios equipamentos, e me sentia muito satisfeito organizando tudo aquilo: crampons, piolet, botas rígidas, gaiters, óculos categoria 4, luvas impermeáveis, lanterna, calça com membrana impermeável, fora os habituais equipamentos de escalada, primeiros socorros e alimentação, como géis e barras energéticas. Tudo pronto, agora só restava a ansiedade da noite antes do ataque ao cume.
 
O ATAQUE
 
4 horas da madrugada o alarme toca, me obrigando a deixar o conforto do meu saco de dormir. Tento comer alguma coisa, me hidratar, pouco tempo depois chegam Mike e seu amigo. Gabi me desejou boa sorte e nos despedimos. Ela teria a tarefa de desarmar nossa acampamento e levar o restante da carga para o centro de ski.
 
A noite estava estrelada, a janela do dia 31 aconteceu como o previsto. Iniciamos a subida caminhando por um terreno de pequenas rochas soltas, e logo atingimos o início da área nevada. Fizemos uma parada rápida para colocar os crampons e seguimos para cima. O clima estava agradável, mas assim que atingimos o ombro, no sentido noroeste, ficamos expostos ao vento. 
 
A medida que subimos a situação piorava, algumas rajadas chegaram a nos empurrar de tão fortes. Quando mudávamos de direção e recebíamos as rajadas de frente eu sentia os cristais de gelo batendo no meu rosto como pequenas agulhadas. Depois de algum tempo recebendo essas rajadas de frente já percebia meu nariz e bochechas perdendo a sensibilidade. A sensação térmica devia ser de -20, como calculamos eu e Mike. A partir dos 2.300 m a inclinação sobe para uns 40, 45 graus e chegando próximo ao cume temos trechos de até 80 graus. Aproveitamos um platô, antes desta parte mais empinada, para nos encordar. 
 
Nesta época a montanha está bem diferente, as gretas todas tapadas devido ao acúmulo de neve. O vento frio e úmido forma muito sincelo, acúmulo de gelo que normalmente segue a direção do vento, sendo uma formação bastante quebradiça. Enquanto traçamos um caminho pelo pequeno labirinto de gelo, a encosta ganhava inclinação. 
 
Começamos a fazer paradas com estaca de neve e piolet. Para montar as paradas tínhamos que quebrar o gelo com o piolet, escavar uma plataforma para sentar e pisotear outra para os crampons.
 
Duas cordadas e chegamos no crux, com certeza o trecho mais interessante. Mike estava com duas piquetas técnicas então passou voando por esse trecho. Eu que não tenho experiência nesse terreno e estava só com uma piqueta, tive que usar os degraus chutados por mike como agarras para minha mão esquerda.
 
Vencido este trecho chegamos no platô do cume, mais alguns metros e estávamos lá. Apesar do vento, o clima estava ótimo e tivemos um visual 360º. Nos comprimentamos, comemos algo, uma agua quente para “calentar” e iniciamos a baixada.
 
Descemos por uma outra rota, buscando a menor pendente. Ainda assim tivemos que fazer mais 2 paradas e desescalar os trechos mais inclinados. E em pouco mais de uma hora estávamos no refúgio. No total foram 7 horas de atividade com poucas pausas e um desnível de 1500m em 6 km.
 
Enquanto fazia minha pesquisa encontrei uma tabela interessante no site: http://www.andeshandbook.org. Um gráfico mostrava que a maior parte das ascensões, registradas pelo site, são feitas no período do verão. Com certeza o ascenso invernal não foi um passeio para turistas. E apesar de eu ter sofrido um pouco com o frio quando cheguei no refúgio já estava pensando: Quando será a próxima?
 
Grafico retirado do site Andeshandbook que registra o numero de ascensões 
 
 
 



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