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10 mil Km de carona!

Odisséia Austral: 10 anos depois...


Colunista:

Hoje, dia 18 de Janeiro de 2010, faz 10 anos que eu e meu amigo Maximo Kausch saímos de casa com uma mochila nas costas e retornamos somente 5 meses mais tarde, percorrendo 10 mil Km de carona pela Patagônia e escalando várias montanhas com apenas 800 dólares no bolso, numa época em que a Argentina era dolarizada...

Até hoje eu pouco divulguei esta grande aventura. Até porque há tanto o que se dizer e muito o que se entender. Não foi apenas ir, há muitos sentimentos que até hoje eu não consigo digerir e se eu posso dizer que algum acontecimento fez minha vida mudar, posso dizer que foi esta viagem.

Pra começar, nós tínhamos somente 18 anos de idade. Nunca havíamos escalado alta montanha e nem viajado sozinho, aliás, eu havia acabado de sair do colégio e vivia todos aqueles conflitos que todos os adolescentes vivem.

Muitas vezes quando somos jovens e contestamos a sociedade, nossos pais, para mostrar a realidade cruel do mundo, abrem as portas de casa e dizem: “Pode ir”. E você, sem ter reação e sem saber o que fazer, põe o rabo entre as pernas e resolve se adaptar ao sistema e com o tempo começa até a gostar de dinheiro...

Pois bem, meus pais não precisaram abrir as portas, nem mesmo brigar comigo. Saí voluntariamente para conhecer o que é viver à “margem” da sociedade por minha conta e sem ter que provar nada a ninguém.

Em nossa democracia temos a obrigação de trabalhar e produzir e o direito de comprar e escolher entre as marcas “A” e”B”. Não existe a opção de não participar do sistema, a não ser que você seja índio... Tanto é que a palavra “marginal” se aplica a mendigos, ladrões e “vabagundos” (esta palavra que mereceria uma atenção especial sobre seus conceitos). Abstraia a marginalidade como algo ruim e apenas como a vontade de não participar do sistema e tenta buscar uma solução para uma marginalidade sadia. Pois bem, ela não existe.

Experimentei um tipo de marginalidade sadia através de um nomadismo em uma região que é pouco habitada e que ainda preserva muito de sua paisagem original e selvagem, a Patagônia e os Andes. Juro que em minha intenção original não queria me tornar um montanhista, embora o ambiente de montanha fosse extremamente sedutor pelo sentimento de liberdade que ele evoca.

Foi assim que eu escalei minha primeira montanha de altitude na vida, o Cerro Plata, de quase 6 mil metros de altitude. Max e eu tínhamos apenas uma barraca comprada em agropecuária. Eu não tinha isolante térmico e dormia com um saco de dormir fino e inapropriado. Max, tinha um saco de dormir Coleman comprado no supermercado, uma mochila Trilhas e Rumos e a roupa que ele usava era confeccionada por ele mesmo. A calça, por exemplo, era de tecido de guarda chuva preenchido por um material que é usado como filtro de aquário.

Além do Plata, ainda escalamos o Vulcão Chillán, o Villarica (vendo a lava dentro da cratera no cume), o Lanin, tentamos o Tronador (mas sem equipamento foi impossível) e quase culminamos o Osorno. Tudo isso fizemos sem a ajuda de ninguém e sem nunca ter tido a dica, ou ter tido aulas de montanhismo, aprendemos tudo sozinhos...

Uma vez por semana, íamos em supermercados para encher a mochila de suprimentos. Com as mochilas carregadas (40 kg), sobrevivíamos por algum tempo. Não ficávamos hospedados em lugar nenhum, dormíamos na rua, montando a barraca em mocós, quando era perto da civilização, ou no mato, quando era distante. Chegamos a dormir no acostamento de estrada, em píer de barco, rodoviárias, estação de trem, dentro de parque público (do tipo parque Ibirapuera), dentro de casas abandonadas, em terrenos baldios e até mesmo dentro de um navio abandonado no meio do deserto.

Desta maneira, íamos adiante, às vezes de carona, outras à pé... Várias vezes tivemos que andar dezenas de quilômetros em estradas sem tráfego para chegar a um lugar desejado. Houve uma vez que ficamos 3 dias parados no meio da estepe da Patagônia, esperando por uma carona. Durante todo aquele tempo, ninguém passou pela estrada...

Conhecemos El Chaltén com neve. Lá, um acidente provocado por uma vela queimou o chão da barraca...  Aliás, a barraca ficou destruída depois de tanto uso. As geadas, freqüentes depois do paralelo de 40°, fizeram o zíper da lona da barraca descarrilhar, depois foi o zíper do quarto da barraca e logo do mosquiteiro. Na Patagônia tínhamos que colocar uma lona sobre a entrada da barraca para não ficarmos totalmente abertos às intempéries. As raposas se aproveitavam e várias vezes entravam na barraca para roubar nossas panelas sujas com o jantar. Numa destas vezes perdemos os talheres e tivemos que improvisar “hashis” com gravetos para comer e cozinhar.

Também conhecemos Torres Del Paine, totalmente fora de temporada. Dormimos em uma praia suja no estreito de Magalhães, em Punta Arenas e chegamos na Terra do Fogo em um dia de chuva... e em uma noite de neve chegamos ao fim do mundo, em Ushuaia, onde acampamos num parque urbano, para ser tirado pela polícia mais tarde e ter que dormir em um albergue, coisa que fizemos apenas 3 vezes durante a viagem. Aproveitamos a “infra” pra tomar banho também... Coisa que fizemos cerca de 20 vezes durante todo este tempo. Durante uma das vezes que passei mais de 20 dias sem tomar banho, me olhei no espelho e vi um homem engraçado, barbudo e irreconhecível. Quem era ele?

Até hoje não sei quem é....


Mapa da Odisséia Austral
Veja mais:

A Odisséia Austral


Pedro Hauck,  colunista do Altamontanha.com é também dono e editor do site Gentedemontanha e tem apoio de Botas Nômade.






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