Serra Fina para poucos - parte 2
Colunista: Parofes
13/09/2010 - 12:42
Antes mesmo de começar o retorno sabíamos o que teríamos pela frente. No primeiro dia encaramos 8,3km e 1.258 metros de desnível com mochilas pesando pelo menos 15kg cada por metade do caminho, peso que foi aumentado após a coleta da água para quase 20kg cada. No segundo dia já havíamos caminhado 6,6km só para chegar ao cume da montanha objetivo. Agora teríamos que fazer o mesmo para voltar, não seria fácil mesmo sem o peso do dia inicial.
Escoriações diversas banhadas ao suor salgado tornam a caminhada extremamente desconfortável, dolorida. O cansaço aumenta a medida que adversidades se acumulam, porém isso não era novidade para nenhum de nós. Aliás, estamos ficando profissionais em montanhas de difícil acesso e desconhecidas. Que tal abrirmos uma agência e guiar deficientes pelo mato alto? Sim, pergunta retórica, seria imprudente não?
Quando chegamos ao último cucuruto depois da subida do vale, onde tivemos nossa primeira visão do Ruah, estávamos exaustos. Não tínhamos mais nem uma gota d´água, sorte que racionar garantiu água até ali, a apenas centenas de metros do riacho. Nos demos ao luxo de caminhar até a cachoeirinha mesmo, sem precisar pegar água antes. Começava a anoitecer, já era 17:45h. Fizemos uma pausa merecida no filete de água, abastecemos para a caminhada de subida da Mina, cozinhar e beber a noite toda, e ainda alguma sobra para o começo da caminhada da manhã seguinte. Resultado, quatro quilinhos de água para cada um pelo menos. Éramos em quatro porém só tínhamos duas lanternas de cabeça, Paula e eu. Assim, ela foi na frente e eu em terceiro para garantir uma iluminação dinâmica.
A noite caiu, o frio veio. Avançando pelo mato alto do Ruah víamos diversas lanternas andando pelo vale e outras diversas descendo o quarto ponto culminante brasileiro. Paramos para fotos noturnas. Alguns minutos ali e seguimos para completar a travessia do vale. Passamos pelo camping e nele uma multidão de cerca de quarenta pessoas acampadas, diversas barracas, falatório, luzes.
Para o alto e avante, passamos pelo camping e começamos nosso último obstáculo para chegar às barracas e nossa comida, prêmio do dia: Vencer os 270 metros de desnível para chegar aos quase 2.800 metros da Mina. Já no começo da subida passamos por dois guias, um deles ajudando um deficiente a descer a montanha! Gente, pera lá...Ganhar dinheiro tem limites. Uma visão rápida me sugeria que o cliente sofrera um derrame pois seu lado direito tinha sequelas. O guia o segurava pelo braço montanha abaixo. Imprudência pura. Reconheço, todos precisamos de uma sensação de vida após um problema de saúde tão grave, mas acredito que a própria gravidade de um banho de sangue não programado no cérebro, suficiente para sequelar 50% de seu corpo, é um segurança de dois metros de altura por um de largura que não me deixa entrar em algumas festas, inclusive em uma travessia de dezenas de quilômetros e tanto desnível como a Serra Fina. Me desculpem, não concordo e vi ali uma cegueira pelas verdinhas. Muito errado. Meses atrás postei no meu blog fotos da feira para deficientes físicos que visitei aqui em São Paulo, vi lá equipamentos adequados a deficientes inclusive para espeleologia! O que vi lá era correto e ideal, o que vi na Serra Fina neste feriadão era errado, muito errado. Nem acredito que os guias sejam culpados pois estavam ali representando uma agência, que é a responsável pelo fiasco.
Enfim, subimos, subimos, e subimos...O cansaço a essa hora já era total, que dia! Que pernada! Parecia não terminar...Finalmente, já quase 19:30h da noite, na escuridão total, chegamos ao topo da Pedra da Mina, 12,5 horas depois de começar a andar no início do dia, com o total aculumado de 13,2km de caminhada. No cume, encontrei o amigo Carlos Levi, batemos um rápido papo e fui pra minha barraca, estava a beira da exaustão completa. Dois meses parado pesaram muito forte sobre mim que, sem dúvida, era o mais cansado do grupo. Entrei na minha barraca, me deitei por dez minutos e durante esse tempo, não consegui sequer me virar pro lado para alcançar a cartela de dorflex. Tive tontura, minhas costas doíam e os ferimentos ardiam. O corpo todo arrepiado evidenciava a hipersensibilidade à temperatura por causa do esgotamento físico. Precisava me alimentar rápido.
Fiz um esforço, em câmera lenta fiz uma vitamina C efervecente, bebi com 2 comprimidos de dorflex. Fiz suco de laranja com acerola (tang), fiz a janta e comi, já no final da refeição comecei a me sentir melhor. Levei uma hora pra fazer isso tudo, parecia que estava em alta montanha. Aliás, me lembro que em algum momento o Tácio me disse “Cara estou tão cansado que me sinto andando num cinco mil!”. Eu concordei, como esse dia foi cansativo...
Depois da comida e bebida o mal estar passou e meu corpo estacionou dando boas vindas ao sono e ao saco de dormir. Me aninhei ali e fechei os olhos. Nem saí para fazer fotos e vídeos, para dar boa noite ou congratular os companheiros. Ouvi alguém me chamando lá pelas 21:00h e depois que ouvi meu nome umas 4 vezes respondi algo que não me lembro. Apaguei. Só acordei às 03:00h, fiz o pipi da madrugada e voltei a dormir, acordando umas cinco e meia. Já me sentia 50 ou 60% renovado, mas ainda cansado.
Resolvi combater o cansaço com uma boa alimentação, fiz outro pacote do macarrão supra citado e mais suco, um café da manhã que mais parecia almoço. Comi, saí da barraca quase seis e meia, fiz fotos e um vídeo. Já estávamos sozinhos no cume, todos tinham deixado a montanha continuando a rota da travessia. Melhor assim.
Poucos minutos depois todos acordaram e começaram sua rotina de café da manhã. Eu me afastei, fui ao banheiro, enterrei o resultado e esperei o pessoal se arrumar para o nosso novo objetivo, o morro do Tartarugão diretamente a Oeste da Pedra da Mina, não muito distante, representava um obstáculo de longe mais acessível do que o do dia anterior. Começamos a andar só às 08:15h, tarde e sem pressa.
O tempo já não era lá as mesmas maravilhas dos dias anteriores mas ainda não havia alteração de pressão, nuvens se aproximavam bem de longe então tínhamos uma boa janela de tempo ainda. Descemos a face oeste da Mina pelas lajes seguindo os totens. Ao longe um outro grupo de travessia se aproximava, quatorze pessoas, provavelmente dois guias e os outros clientes. Passamos e começamos a procurar um jeito de atravessar o mato alto até a base do Tartarugão, que estava a cerca de quinhentos metros à nossa frente.
Lá se vai mais mato. Não sei se era pior ou se era cansaço acumulado do dia anterior, pegamos mais dois trechos de vara mato, o segundo mais longo e difícil de transpor, até que finalmente conseguimos atravessar revezando a dianteira entre eu e Tácio, até chegar a uns lajeados de pedra que faziam uma verdadeira avenida natural até a base da montanha. Perfeito. Seguimos e começamos a subida final, neste momento toda a energia recuperada durante a noite já tinha ído por água abaixo e já estávamos cansados de novo. Lentamente seguimos e fomos vencendo o desnível. A subida é bem óbvia e fácil, para descansados é claro.
Chegamos lá e pudemos contemplar um marzão de nuvens bem bonito, o Capim Amarelo se erguia como um vulcão no topo da crista inicial da Serra e nos dava boas vindas, diretamente a norte tínhamos a belíssima visão do morro do Melano, uma linda montanha de 3 cumes (com cerca de 2.500m de altitude) e que não é reconhecida pelo IBGE (vou te contar, essa lista é mais do que furada!). No cume, ainda sem alteração de pressão, medi 2.631 metros de altitude, consultei o Tácio e o GPS dele mediu 2.632 metros, mudando para mais alguns metros minutos depois. A lista do IBGE dá o cume como tendo 2.595 metros.
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