Setor Escola do Anhangava: Rompendo o silêncio - AltaMontanha.com - Portal de Montanhismo, Escalada e Aventuras
Vandalismo

Setor Escola do Anhangava: Rompendo o silêncio


Colunista:

Em Outubro de 2013, eu com Rafael Wojcik e Leandro Bonato “Castor” conquistamos um novo setor no morro do Anhangava que batizamos de “Escola” por ser composto de vias de escalada fáceis, destinadas ao ensino e também à escalada familiar, um conceito ainda pouco conhecido no Brasil. Muito provavelmente você nunca deve ter ouvido falar deste setor, ou se ouviu foi pelas palavras de outros que não dos conquistadores. Isso porque antes de ter divulgado, parte deste setor já havia sido depredado com a destruição de duas vias. Recentemente mais duas outras vias tiveram os grampos arrancados, num ato de agressão e vandalismo covarde e injustificável.

O Morro do Anhangava, localizado há cerca de 30 quilômetros de Curitiba é conhecido por ser o campo escola da escalada do Paraná e de fato é o local escolhido por todos os cursos deste esporte/cultura.  Representando vários estilos de escalada, há vias de todos os tipos: Aderência, diedros, tetos, fendas, chaminés e agarras, por isso é um local excelente para começar a escalar.
 
Ministro cursos no Anhangava desde 2008, quando ainda era o diretor de escalada do CPM, o Clube Paranaense de Montanhismo. Já naquela época sentia que apesar da fama, o Anhangava estava com seu método de ensino um tanto quanto defasado. Não porque não existam boas vias para que as pessoas se iniciem, mas pelo fato inegável que quase todas as vias fáceis do morro são mal protegidas e são pouco convidativas para quem não domina as técnicas. Como professor, não apenas de escalada, mas sendo formado num curso de licenciatura, acredito no poder experimental para o aprendizado. Ou seja, o acerto e o erro ajudando as pessoas a aprenderem. No entanto a maioria das vias fáceis do Anhangava, não permitem o erro.
 
Ainda no meu primeiro curso no morro, estava na base da Jose Peón, uma das poucas vias fáceis e bem protegidas do Anhangava, quando um senhor com sotaque inglês pediu licença para passar. Ao contrário do que fazem quase todas as pessoas, este senhor depois de escalar continuou sua ascensão montanha acima. Mais tarde vim a descobrir que esta pessoa era ninguém mais, ninguém menos que John Biggar. Tentando imitar John, anos mais tarde, descobri que no topo da via Peón começava uma trilha que dava exatamente na base das rampas do Anhangava. No entanto a vista dali é bem diferente da de quem vai ao cume. Pela primeira vez naquele ângulo pude ver uma enorme parede que para mim era desconhecida e que me chamou atenção. 
 
Cruzando o vale da Puppi em sua montante, atravessei uma mata de bambus e logo cheguei à base desta parede onde para minha infelicidade encontrei  alguns  grampos. Eles ficavam distantes um do outro lateralmente e em alturas distintas, não aproveitando a linha natural vertical. Achei que se tratava de reserva de vias e comecei a pesquisar para saber a história daquele local.
 
 
Após consultar dois “dinossauros” do Anhangava, cujos nomes não citarei para não incluí-los nesta polêmica, acabei descobrindo que aqueles grampos eram do Leandro Bonato, “Castor” e que aquilo que parecia ser a reserva de várias vias era na verdade uma única via transversal. Então o procurei e contei a ideia de abrir um setor novo de escalada, com vias fáceis para iniciantes e também para crianças, algo inexistente no Paraná. Ele achou fenomenal e assim aproveitando os grampos existentes fomos junto com Rafael conquistar vias de baixo para cima.
 
A primeira via que conquistamos, que chamamos de “Farofa”, fica mais direita da parede, vence um platozinho e logo cai num local onde a parede é mais inclinada. Após vencer este lance, ela passa por um sistema de agarrinhas com bastante uso dos pés que exige a sabedoria de se movimentar. Ela terminava num belo platô e dali se inicia uma segunda enfiada mais curta e muito mais fácil para os novatos aprenderem a escalar uma via de duas enfiadas, dar segurança de cima e unir duas cordas para fazer rapel.
 
A segunda via, chamada de “Vitamina”, começa numa aderência, chega a um platô onde há uma barriguinha mais inclinada e dali começa uma rampa fácil com parada no meio e uma no topo da pedra de onde há um acesso simples até o cume do Anhangava exatamente no local onde o pessoal do Parapente decola. Era uma via muito fácil e ideal para colocar crianças para escalar pela primeira vez. Estas duas vias de duas enfiadas tinham 40 metros cada.
 
Uma segunda parede mais à esquerda, próxima ao vale da Puppi, abrigava outras três vias. A primeira demos nome de “Canguru” em homenagem ao pai do fotógrafo Zig Koch, um dos conquistadores da Torre da Prata. É uma via linda para iniciantes, começando em um platô num lance de aderência que fica mais inclinado e se converte numa parede de agarras grandes, uma via linda de 25 metros de altura.
 
Utilizando a mesma parada, porém começando mais à esquerda ficava a "Bito Meyer", que tinha uma saída mais difícil que era realizada com uma oposição. 20 metros de altura. 
 
No final da parede, bem à esquerda, ficou a via mais linda do setor, "Toninho Palmiteiro", um quinto grau técnico de 30 metros de altura. Via de posicionamento e muito trabalho de pé. Um pouco mais difícil para os alunos e que destoava com o objetivo do setor, mas que foi bem aproveitada pelos alunos mais talentosos.
 
Conquistamos cinco vias de escalada, sendo que duas eram de 3 grau, duas de 4 grau e uma de 5. Como a finalidade era didática, batizamos as vias com nomes de grande montanhistas paranaenses, para que as novas gerações conhecessem os feitos dos mesmos.
 
 
Para acessar o novo setor realizamos melhorias no mesmo caminho que fiz para chegar ao local pela primeira vez. A partir das rampas, logo após o maior trecho das escadas da trilha normal do Anhangava acessamos a trilha que dá no topo da via Peón. Dali, avistando uma pedra pontuda, num local onde há lajedos e campos de altitude, começa uma descida até a parte superior do vale da Puppi, num local que deve ter um desnível de uns 8 metros, onde instalamos degraus de contenção. A partir dali a trilha encosta na parede e não foi necessário abrir nenhum caminho. Trata-se de uma trilha natural extremamente discreta que já sobreviveu 3 verões e que já tinha indicios de ter sido usada antes.
 
O Setor Escola revolucionou os cursos de escalada que eu e Rafael ministramos. Antes era raro conseguir finalizar as práticas num único final de semana. Os alunos saiam com dificuldades, não achavam um local onde pudessem colocar em prática o aprendizado. Percebi que somente nossos alunos que tinham amigos que já escalavam e que podiam guiar as vias para eles progrediam, enquanto que a maioria abandonou a escalada depois que fez o curso. Como guiar uma via de escalada sendo que as mais fáceis têm proteções esparsas? 
 
Com o setor  conseguíamos finalizar o curso de forma mais rápida e os alunos saíam melhor preparados. Apenas para exemplificar, havia se tornado praxe que no ultimo dia de curso os alunos guiassem 7 vias. Ampliando a gama de vias e tendo uma pratica maior e mais satisfatória. Fora isso, ainda utilizamos o setor para levar filhos de amigos que tiveram pela primeira vez a experiência de escalar, promovendo a chamada escalada familiar.
 
Não que as vias anteriormente utilizadas nos cursos fossem ruins. Acontece que outro fato irrefutável para a conquista deste setor é que estas vias são simplesmente as mais concorridas do morro. Vias como a Andorinhas e Peón estão sempre lotadas. Além disso locais como a Pedra do Almoço é muito frequentado e muitas pessoas não gostam de virar audiência quando estão enfrentando dificuldades pela primeira vez. Isso sem falar que as melhores vias para começar no Anhangava, como as citadas e outras do setor interiores ficam distantes e perde-se muito tempo para percorrer o caminho entre uma e outra. Será que é interessante manter a concentração de tanta gente em poucas vias? Não seria legal ter mais opções e volume de vias fáceis para uma pessoa iniciante possa escalar antes de ter experiência de encarar algo mais desafiador? Não seria mais interessante levar novatos em um local mais discreto com uma vista linda onde eles não ficariam tão expostos aos olhares e comentários de todos que passam pela trilha principal? Será que não é melhor treinar em uma via mais fácil do que ter que colocar estribo no crux de vias difíceis para que os alunos tenham opção de vias para serem escaladas?
 
Por conhecer bem o conservadorismo do escalador paranaense, decidimos não divulgar o Setor Escola tão breve. Pois sabíamos que seríamos criticados e sabíamos que seria melhor esperar um momento ideal e também esperar que a trilha e a base das vias estivessem melhores preparadas e assentadas, como já estão hoje em dia a fim de minimizar o impacto.
 
No entanto como continuamos utilizando o local para ministrar nossos cursos, as fotos circularam na internet provocando a inveja de alguns radicais. Um deles se aproveitou da ingenuidade de uma amiga em comum e oportunamente disse a ela que gostaria de receber o croquis do novo setor para divulgar. Acreditando em suas palavras, pedi ao Rafael que enviasse a ele o croquis do Setor Escola, achando que com isso poderia haver uma abertura e assim divulgar o novo setor. No entanto, esta foi uma grande armadilha e os croquis foram usados como “provas de um crime”. Como se abrir vias de escalada fosse crime e nós os bandidos da história.
 
Este escalador cínico, sem caráter e ardiloso atuou como um militante contra o Setor Escola, manipulando diversas pessoas e nos acusando de, entre vários absurdos, ter cometido “crime ambiental” por ter aberto a trilha até a base das vias e também ter “infringido a ética” do montanhismo por ter protegido aquelas vias. Armando um verdadeiro tribunal de inquisição contra mim e meus amigos.
 
Além daqueles absurdos, fomos acusados de ter poluído a água do Anhangava, de ter usado furadeiras (como se isso fosse algo antiético) e de ter conquistado vias de cima para baixo (o que é uma grande invenção). Até o nome das vias foram criticados. Disseram que as vias eram feias, eram fáceis demais, eram chatas e que não contribuíam com a escalada, pois já haviam vias em estilo parecido. Disseram também que eu deveria ter consultado a “comunidade” antes de conquistar. Mas peraí? Quem é a comunidade? Pelo visto os dois experientes escaladores que eu consultei não fazem parte. Seria a FEPAM? Eu fui diretor de escalada da FEPAM por 8 anos e nunca ninguém me pediu permissão para abrir uma via. 
 
Por que eu preciso pedir a benção antes de abrir uma via? Será que alguém que me criticou já escreveu um projeto, fez um EIA RIMA e enviou ao IAP para pedir permissão? Ele pediu permissão à “comunidade”?  E o direito autoral? E a liberdade de estilo? Será que isso não faz parte de uma conquista de uma via de escalada?
 
Logo que fomos “denunciados” por abrir as vias de escalada fomos convidados a participar de uma reunião com renomados escaladores para discutir o setor. Animei-me a achar que este ato fosse uma mostra de civismo, de promover uma necessária discussão sobre conquista de vias no Anhangava e poder explicar os fatos, mas não foi isso o que aconteceu. Infelizmente a reunião foi apenas uma maneira de legitimar a destruição do setor. Não ouviram nossos argumentos, nossa história e nossas motivações, apenas nos informaram o que já havia sido julgado: Que as vias “Vitamina” e a “Farofa” “transgrediam a ética da escalada” por estarem num local onde havia uma “via em solo” e que, ou a gente removeria as vias dali, ou eles o fariam. Ainda disseram que deveria ser proibido a abertura de vias no morro e pretendiam reativar a chamada "Moratória do Anhangava".
 
Não concordei que estas vias transgrediam o código de ética, pois não há nenhum registro de que ali existiam vias em solo. Se não há sequer um relato, como há tradição? No guia do Anhangava não há nenhuma menção de via naquele local. Mas na verdade havia via sim, a que foi conquistada pelo Castor que concordou em modificá-la e aproveitar as proteções anteriores para abrir vias de baixo para cima. A conquista do Castor foi ignorada, meus argumentos desconsiderados, nunca houve uma discussão e as regras obscuras e nunca divulgadas foram tomadas como lei suprema e assim no calar da noite, em Julho de 2014 estas duas vias sumiram do mapa. O código de ética foi manipulado como justificativa para este absurdo.
 
Nunca concordei com os argumentos, nunca aceitei a destruição de nossas vias. No entanto me mantive em silêncio, pois sabia que minha revolta não mudaria a maneira das pessoas pensarem e que qualquer ação, ao invés de chegar a um acordo apenas resultaria no aumento do conflito, já que os envolvidos não tinham humildade e muito pouca civilidade para tratar do assunto. Isso apenas demonstrou como egos dos escaladores paranaenses, principalmente desta geração que se destacou nos anos 1980 1990 são extramente inflados e que na verdade eles não passam de uns medrosos que temem que o Anhangava seja “invadido”, que aquele lugar mágico onde eles escalam há 30 anos fique diferente. Eles têm medo do novo, têm medo do que não conhecem, têm medo de ficarem para trás, por isso não aceitam que outras pessoas elaborem novos projetos, conquistem novas vias sem seu aval ou participação. 
 
Medo de quem? Da Janaína e da Priscila? Minhas ex alunas cujo um dos valentões que mais se opôs e mais nos denegriu foi super simpático ao mostrar a elas a via “Quarto Mundo”, conquistada pelo Denis Julian  no ano passado, um ano depois de nossas vias serem depredadas! Uma pessoa que foi enfática ao nos afirmar que qualquer centímetro de pedra do morro tinha via em solo, levou as meninas para conhecer uma via “longa e fácil”, contradizendo o que ele mesmo falou sobre a proibição de vias no morro. Além disso, um ano antes ele era um dos que diziam que o Anhangava ia ser "invadido". E foi por pessoas como Raquel Canale, Fred Olinger, Rodrigo Sass, Rita de La Cruz, Aline Bratti, Rodrigo Janz, Mateus Biesek, Anselmo Martins, Adilson, Maria Tereza. Todas estas pessoas e muitas outras que aprenderam a escalar ali e ainda frequentam o morro, são amigos de todos e só contribuem com ótimo clima de amizade que existe no morro, fora esta picuinha que não tem nenhuma razão.
 
Passado quase dois anos, as cicatrizes já estavam se fechando. Estávamos desempenhando nossas atividades profissionais no montanhismo quando recebi a notícia pelo Castor de que outras vias haviam sido depredadas. Isso na mesma semana em que fiquei sabendo que a Bibi e a Dani abriram mais uma via no morro, em homenagem à Roberta Nunes, demonstrando mais uma vez que não existe uma restrição para aberturas de vias no Anhangava como me foi dito em 2014.
 
De maneira anônima e sem deixar vestígios as vias Canguru e Bito Meyer foram destruídas e assim como as demais tiveram as chapeletas roubadas. O bandido sorrateiro, no entanto, não teve o mesmo glamour em destruir as proteções e deixou na parede dois grampos com olhal arrebentado, porém na parada espertamente deixou uma proteção disponível para montar um rapel e finalizar o serviço mais tarde. 
 
Levou nossas chapeletas, e nosso sonho em transformar a escalada num esporte mais democrático. Destruiu o projeto do Setor Escola e deixou seu recado. Agora entendo o que quer dizer “pedir autorização para a comunidade”. De fato o que este episódio deixou mais que evidente é aquilo que todos comentam que no Paraná existem os “donos da montanha” e que se você não baba ovo, e não é amiguinho de fulano ou ciclano não tem permissão para se destacar e muito menos para deixar um legado. 
 
Acredito que se eu morresse hoje seria lembrado por ter incentivado centenas de pessoas a começar no montanhismo. De ter lutado a favor da visitação e valorização dos parques, por ter escrito centenas de artigos e colaborado para todos os meios de comunicação outdoor, além de ter conquistado mais do que somente vias de escalada, mas também várias montanhas. Disseram que as vias do setor escola poderiam ser escaladas de bota. Pois bem, eu poderia escalar elas de bota dupla, como já fiz dezenas de vezes nos Andes escalando montanhas que estes sujeitos de mente pequena nem imaginam como são. No entanto não abri estas vias para mim, abri estas vias para formar uma nova geração que tenho certeza que já é melhor do que esta, que manchou sua história e deixando em seu legado apenas a ignorância, intolerância prepotência e estupidez. 
 
 



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