Escalar montanhas de altitude emagrece? - AltaMontanha.com - Portal de Montanhismo, Escalada e Aventuras
Como ficar em forma com a escalada

Escalar montanhas de altitude emagrece?


Colunista:

Há alguns anos, escrevi para a revista Go Outside uma história de como eu entrei em forma rapidamente combinando treino em academia com a realização de uma expedição de 40 dias pelos Andes. Mas será que ir para uma montanha de altitude é bom mesmo para emagrecer?

 
Na altitude, o gasto calórico para manter as funções básicas do metabolismo é muito alto. Acima dos 5500 metros, a absorção, análise e síntese dos nutrientes consome mais energia do que a que a gente pode adquirir dos alimentos e por isso o corpo se consome automaticamente. Claro que isso leva um tempo, mas é por este motivo que as altitudes acima desta cota são chamadas de “zona da morte”.
 
Num curto espaço de tempo, estar na zona da morte não é perigoso, mas é comum uma pessoa voltar de uma expedição à montanhas vários quilos mais magra. Em minha primeira experiência no Aconcágua, quando fiquei 18 dias na montanha, perdi 8 quilos, só para citar um exemplo.
 
No entanto, não se anime com estes dados. Como o corpo se auto consome na altitude, ele tenta repor esta perda com o processo que menos gasta caloria e nisso ele não consome somente sua gordura, mas também sua massa muscular. Por isso, quando você perde peso na montanha, perde peso ruim e peso bom também, o que pode ser ruim para sua saúde.
 
Ao longo de meus 17 anos de andinismo e de dezenas de expedições, experimentei os efeitos do emagrecimento rápido das grandes altitudes muitas vezes e em todas as ocasiões (menos uma) após perder peso muito rápido, ganhei peso mais rápido ainda.
 
Isso acontece porque o corpo interpreta o consumo rápido de calorias como uma crise e irá trabalhar para acumular o máximo de gordura possível para sobreviver a este “período de vacas magras”. O resultado é o acúmulo rápido de gordura localizada e ganho de peso. 
 
A única vez em que isso não ocorreu no retorno de uma expedição foi em 2013 quando participei de uma etapa da expedição Mundo Andino de Waldemar Niclevicz. Naquela expedição perdi 8 quilos, destes 6.5 de gordura, o que foi ótimo! Diferente das outras expedições, no retorno desta, pude me dedicar à malhar numa academia. Treinando e tomando suplementos alimentares corretamente, fui perdendo cada vez mais gordura e ganhando mais massa muscular. Após 6 meses de treino, perdi mais 1 quilo de meu peso total, porém ganhei 2 de massa muscular, perdendo outras 4 de gordura, chegando a 7.9% de gordura corpórea com 31 anos de idade!
 
Fiquei muito surpreso com a melhora de meus números. Evidentemente que isso trouxe resultados nas performances. Nesta época escalava com mais facilidade e caminhava muito mais rápido. Porém, se é difícil conquistar um corpo atlético, é mais difícil ainda mantê-lo. 
 
Após este período, comecei diversas expedições em alta montanha e perdi totalmente a rotina, de forma que não foi possível mais treinar. Ao invés de ficar magro, o efeito da altitude em meu corpo foi o de sanfona. Perdia peso durante as viagens e ganhava novamente quando estava em casa descansando. A repetição destas viagens resultou num acumulo maior de gordura em meu corpo e isso começou a ficar complicado, pois começou a afetar meu desempenho na escalada em rocha, além de afetar minha autoestima.
 
O corpo de um escalador de rocha e de um montanhista de altitude é bem diferente. Enquanto o primeiro precisa ser forte e leve, o segundo precisa ser resiliente. Ter “reservas” não é algo ruim, metabolicamente dizendo, a quem frequente altitudes elevadas. Porém isso me incomodava, pois sou muito polivalente e gosto de praticar uma gama muito grande de modalidades do montanhismo.
 
Acontece que eu não gosto de academia, não pelo exercício físico, mas sim pelo ambiente. Não gosto de música alta e ambientes lotados. O jeito para entrar em forma foi fazer o que eu mais gostava e que era a motivação para eu entrar em forma: escalar!
 
No começo de 2017 percebi que teria mais tempo em casa e por isso me matriculei em um treino particular em ginásio de escalada de Curitiba. Fui atrás de ajuda de um profissional e conheci o Willian Vieira, que é escalador e professor de educação física. Com ele comecei a treinar, junto com minha mulher Maria Tereza.
 
Willian preparou um treino que mistura pilates, com exercício funcional e escalada. No começo foi difícil, doía tudo e não conseguia finalizar os exercícios. A melhor parte do treino era escalar no final. Com o passar do tempo, fomos ganhando uma consciência corpórea e os exercícios foram ficando mais fáceis. Após 2 meses de treino, me sinto muito melhor e mais forte, sinto também que estou escalando com mais fluência, embora não tenha perdido peso algum. Perdi gordura e ganhei massa muscular, embora continue pesado.
 
A moral da história é que não existe receita fácil para perder peso e entrar em forma. Escalar alta montanha pode trazer um resultado muito rápido, mas manter a boa forma depende de seu dia a dia. Escalar muita alta montanha, faz mal à saúde e meu corpo é prova disso. A única maneira de estar bem, é fazendo exercício regularmente e claro, controlar a alimentação.
 
Para mim, fazer exercício regularmente só deu certo quando aliei o exercício à uma atividade prazerosa, que para mim é a escalada em rocha. Se quer ter saúde e manter a forma, a minha dica é que você descubra algum exercício físico que te divirta e encaixe sua prática no dia a dia. Se você fizer isso depois de uma expedição à alta montanha, melhor ainda, pois terá uma perda de peso rápida e terá que malhar para não recuperar, mantendo aquela forma que você conquistou após a expedição.
 
Talvez essa seja a melhor maneira que já experimentei para estar em boa forma. Porém isso exige dedicação e não é nada fácil. Não há receitas fáceis para estar bem e como tudo na vida, para ser bem feito, você precisa se dedicar.
 
Veja mais:
 



Publicidade:


Serviços Especializados


Aventurista

Publicidade

Publicidade