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Série Extinções em Massa

Mares Ácidos


Colunista:

Esta coluna comenta sobre o aumento da acidez nos oceanos e seu efeito sobre os corais, talvez a mais fantástica das criaturas marinhas. Assim como a coluna anterior, foi grandemente baseada no livro A Sexta Extinção de Elisabeth Kolbert.

Vocês sabem que, desde a Revolução Industrial, temos lançado na atmosfera quantidades crescentes de dióxido de carbono.  Hoje a concentração deste gás no ar é de 400 partículas por milhão, a maior desde muitos milhões de anos. O dióxido de carbono tem a infeliz propriedade de se dissolver na água, formando o ácido carbônico.  
 
Os gases da atmosfera são absorvidos pelo oceano e, inversamente, os gases dissolvidos nele são liberados na atmosfera. No equilíbrio, as mesmas quantidades de CO2 seriam absorvidas e liberadas, ou seja, uma troca igual. Porém, os volumes crescentes do dióxido de carbono atmosférico estão sendo mais absorvidos do que liberados e contribuindo para acidificar os mares.
 
O metano, resultado da decomposição da matéria orgânica, existe em grandes volumes em depósitos marinhos. Ele é estável em mares profundos e frios. Porém o aquecimento global nas águas rasas tem começado a liberar este gás. Ele também se transforma em CO2 e contribui mais ainda para a acidificação. Infelizmente, a quantidade de metano é brutal, talvez maior que a de carbono.    
 
A acidez é medida pela escala de pH. O nível 7,0 é neutro, as medidas acima representam um ambiente alcalino e as abaixo, um meio ácido. Os mares são alcalinos, com um pH próximo a 8,2. Por ser logarítmica, a escala é enganosa, pequenas diferenças numéricas significam grandes variações percentuais. Em meados deste século, o pH da superfície do oceano deverá cair para 8,0 e, no fim do século, para 7,8 – nossos mares serão então quase 200% mais ácidos do que no início da Revolução Industrial.    
 
A África está se aproximando da Europa, movimento tectônico que costuma gerar correntes hidrotermais no solo marinho - ou algumas vezes erupções vulcânicas. Infelizmente, o gás que borbulha delas é puro dióxido de carbono. Existe nas proximidades de Nápoles uma ilha minúscula onde este efeito é particularmente forte. 
 
Lá o pH desce a níveis esperados para o fim deste século. O efeito é catastrófico: em terço das espécies coralíneas presentes simplesmente desapareceu e muito dos dois terços restantes foram corroídas, arruinadas, mutiladas ou deformadas. Então, este é o panorama do futuro dos nossos mares.
 
Uma outra forma de perceber isto é observar o efeito da acidez nos recifes. A Grande Barreira de Coral, a maior do mundo, se estende por mais de 2.5 mil km desde a Austrália até a Nova Guiné, abrangendo quase 3 mil recifes (barreiras de corais), 300 atóis (ilhas oceânicas circulares) e 600 ilhas continentais (formações costeiras). Mais importante, abriga uma biodiversidade maior do que toda a Europa. O primeiro europeu a avistá-la foi James Cook, o descobridor da Austrália, que quase naufragou lá. De forma impressionante, esta barreira corre hoje risco de extinção.
 
Existem no mundo várias outras barreiras. Entre as maiores estão as do Mar Vermelho, da Nova Caledônia no Pacífico e de Belize, na Península de Yucatán - elas variam de cerca 2 mil a 1 mil km. Se a primeira é considerada resistente e preservada e a segunda apresenta ainda uma boa conservação, a terceira já se encontra bastante afetada, como acontece em quase todas as demais. 
 
Os recifes são paradoxos orgânicos, erguidos por minúsculos seres gelatinosos, sendo parte animal, vegetal e mineral – e também parte vivos e parte mortos. Os corais resultam da calcificação de ouriços, peixes, mariscos e ostras, em colônias formadas por indivíduos de centenas de diferentes espécies. Eles estabelecem uma relação de simbiose com as algas, cuja fotossíntese gera os nutrientes necessários. 
 
Os corais funcionam como abrigo para um quarto de toda a vida marinha. Convive neles uma infinidade de diferentes espécies, desde moluscos e algas, a peixes e aves, a crustáceos e plantas. Por isto, são comparados a florestas tropicais com enorme biodiversidade. Os corais se desenvolvem mais rapidamente em mares tropicais, que apresentam águas claras e quentes, com maior insolação – todos estes sendo fatores propícios.
 
Porém os mares tropicais têm baixo teor de nutrientes, mesmo os mais importantes, como o nitrogênio. Por isso, as águas nos trópicos deveriam ser estéreis. Mas os recifes são capazes de criar florestas exuberantes dentro desses desertos marinhos. Esse paradoxo só é possível devido à reciclagem promovida pelos corais, quando os nutrientes são trocados entre diferentes organismos que lá habitam, gerando uma espécie de sofisticada cadeia alimentar.
 
Os corais crescem melhor em ambientes com alta saturação de carbonato de cálcio. O nível ideal é 5 – no nível 2, eles param de crescer. Com a acidificação dos mares, os minerais necessários à sua calcificação são dissolvidos, causando sua morte prematura. Hoje não mais existem locais com nível acima de 4 e, no fim do século, não haverá ambiente com nível maior que 3. E pior, neste nível, as ervas daninhas passam a prosperar. Como disse um estudo, todos os recifes deixarão de crescer e começarão a se dissolver.
 
E existem outros riscos: a pesca predatória, em especial com uso de explosivo ou cianeto, para capturar peixes pequenos ou ornamentais; o escoamento de resíduos de fertilizantes agrícolas; o desmatamento, que causa o assoreamento e reduz a limpidez da água; o aumento do tráfego marinho, causado pelo turismo; o aquecimento global, que rompe a simbiose com as algas.
 
Quando os mares esquentam, a morte dos corais ocorre pela destruição das algas às quais eles são associados e que lhes fornecem o alimento. Assim, podem ser danificados tanto pela acidez como pelo aquecimento. Ao morrerem, restam apenas os esqueletos calcários, que têm coloração esbranquiçada. Por isso, este processo é chamado de branqueamento. Ele funciona como um sinal visual de destruição.    
 
A triste realidade é que o número de espécies de corais ameaçadas de extinção supera o da maior parte dos animais terrestres. No futuro, é possível que só existam vestígios de corais, como aconteceu no passado com as extinções do Permiano ou do Cretáceo, de que falei em coluna anterior. Se os corais desaparecerem, todo o rico ecossistema associado a eles morrerá junto. E, uma vez mais, o mundo ficará mais pobre e vazio.
 



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