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Série extinções

O Homem de Neandertal


Colunista:

Esta é minha última coluna sobre o tema da extinção, onde descrevo o misterioso desaparecimento de uma espécie emocionante, que muitos dizem ter sido humana.

Na primeira coluna desta série comentei que, após a última das extinções em massa há 65 milhões de anos, começaram a surgir humildes mamíferos noturnos. Mais tarde, eles irão crescer até os gigantescos animais da megafauna, que também se extinguiram, como comentei na segunda coluna. 
 
Neste processo, aparecem os pequenos primatas, dos quais foi achado um fóssil com quase 50 milhões de anos, chamado afetuosamente de Ida - parece uma mistura de lêmure e macaco, com grandes olhos para a visão noturna. Ele poderia ser considerado o elo entre os prossímios e os antropoides. 
 
Os primeiros evoluíram para os atuais lêmures e galagos, mas são os antropoides que nos interessam. Ao longo do tempo, seu grupo ramificou-se em duas famílias, a dos gorilas, orangotangos e chimpanzés e, finalmente, a dos hominídeos.  O fóssil de um Egitopiteco, que existiu há 30 milhões de anos, indica que talvez tenha sido nosso mais antigo ancestral.
 
Entre 6 e 12 milhões de anos aparecem outras formas primitivas na África, com nomes impronunciáveis. Até surgirem em vários locais africanos os Australopitecos, há 3-4 milhões de anos atrás. Alguns especialistas afirmam que eles são nossos antepassados; dizem outros que o gênero homo evoluiu separadamente, a partir de um ascendente comum.
 
Vou preferir acreditar que eles eram hominídeos, antecessores do chamado Homo Habilis, uma criatura bípede mais talentosa de 2 milhões de anos atrás, que já fabricava ferramentas. Seu descendente provável é o Homo Erectus (a partir de 1½ milhões de anos). 
 
Ele já é totalmente bípede, possui um cérebro maior, usa o fogo e produz utensílios mais aperfeiçoados. Foi ele que iniciou a migração para fora da África. É provável que tenhamos evoluído dele, embora haja opiniões de que viveu até 130 mil anos atrás, quando os Homo Sapiens já existiam.
 
Há dois modelos para explicar a nossa origem. O predominante afirma que a transição entre o Homo Erectus e o Sapiens ocorreu na África, há 200 mil anos. A distribuição da espécie é associada à migração do Homo Sapiens para outras regiões do mundo, onde teria substituído as populações mais arcaicas e se diversificado em várias raças relativamente recentes. 
 
Mas existe outro modelo em que a evolução do Homo Sapiens teria acontecido diversificada e separadamente em vários locais, a partir de 800 mil anos atrás (portanto, num processo muito remoto), gerando antigas populações de raças distintas. 
 
Nesta evolução, há um momento em que os modernos Homo Sapiens migram para a Europa (ou lá se desenvolvem) e encontram os Homens de Neandertal. 
 
Este nome designa na Alemanha um pequeno vale (ou tal), batizado em honra a um pastor luterano - ele buscava naquele local idílico inspiração para os hinos que compunha. Curiosamente, seu sobrenome Neander significa homem novo. 
 
Há a suspeita de que estes eram uma linhagem humana, ou seja, sapiens. Porém é mais comum supor que evoluíram de um ancestral comum, numa divergência 500 mil anos atrás, não sendo portanto sapiens. 
 
Diferentemente do que antes se acreditava, os Neandertais, sapiens ou não, eram entretanto seres sofisticados e inteligentes e não brutamontes ignorantes. Eles falavam (embora lentamente), produziam ferramentas variadas, enterravam seus mortos, construíam abrigos, usavam adornos e conheciam a música.
 
Entretanto, tinham feições simiescas, eram pequenos, atarracados e musculosos. Seus ossos redondos indicavam serem lentos, sem a agilidade dos homens modernos de ossos ovais. 
 
Mesmo usando armas, não as arremessavam, de forma que tinham de galgar os animais para abatê-los. Por isto, muitos fósseis exibem lesões.  Suas vestimentas de peles não eram costuradas, pois não conheciam as agulhas. Neste sentido, suas ferramentas eram mais toscas e menos flexíveis e variadas do que as dos humanos modernos.
 
Viveram nas regiões frias da Europa a partir de 300 mil anos atrás e desapareceram há 30-40 mil anos. E porque foram extintos? Acho simplista pensar que foram simplesmente exterminados pelo Homo Sapiens. 
 
Este teria sido o primeiro genocídio da história, apesar de terem coexistido por talvez 5 a 10 mil anos. Certamente a competição com o Homo Sapiens resultou em conflitos, nos quais os Neandertais estariam em gradativa desvantagem. Mas houve outros fatores.
 
As populações neandertais eram pouco móveis, nunca passaram a leste além do Oriente Médio nem atravessaram os mares. Talvez esta inércia seja explicada por sua adaptação ao nicho ecológico em que viviam e pela falta de estímulo para mudança, já que eram magnificamente adaptadas. 
 
Esta imobilidade teria acarretado uma fraca variedade genética devido à consanguinidade e ao isolamento social. Sua menor versatilidade impediu que evoluíssem da condição de meros predadores, dependentes da caça que veio a escassear.  Vale lembrar que seu tempo de gestação mais longo, de talvez um ano, teria dificultado o crescimento populacional. 
 
Há a hipótese de que os Neandertais desenvolveram olhos maiores para se adaptarem às noites mais longas e escuras da Europa – a área do cérebro para processar a visão teve de aumentar em detrimento daquela envolvida com o pensamento e a socialização. Este não foi o caso dos humanos rivais, provenientes das ensolaradas savanas da África. 
 
Sem os benefícios da agilidade, da agricultura, da abstração, da habilidade e da cooperação, acabaram cedendo a Europa para os verdadeiros novos homens. Os últimos grupos remanescentes recuaram há talvez 25 mil anos até o clima ameno do sul da Espanha. 
 
Lá se refugiaram nas cavernas de Gibraltar – do seu alto podiam avistar as terras africanas. Só um estreito mar separava os neandertais da sobrevivência. Mas essa não era uma opção. Eles nunca inventaram os barcos. A espécie se extinguiu, como comenta um estudioso.    
 
Porém possivelmente eles não desapareceram totalmente. Há evidências de que conviveram e cruzaram com os humanos. Talvez tenham sido mais geneticamente absorvidos do que fisicamente eliminados pelos humanos modernos. 
 
Análises do genoma mostram que os não africanos têm até 4% do DNA neandertal – o que, segundo um estudo, nos teria surpreendentemente protegido da depressão, pois eles eram imunes. Assim, os Neandertais ainda vivem não só entre, mas dentro de nós. 
 



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