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Conservação da Natureza

Quanto Vale um Parque?


Colunista:

O Brasil dispõe hoje de 71 parques nacionais – apesar de percorrê-los há décadas, nem conheço metade deles. O primeiro foi criado em 1937 em Itatiaia e o último (até o momento deste artigo), na discutida Serra do Gandarela mineira em 2014. Durante os vinte anos iniciais, o Brasil quase não dispunha de parques, apenas aqueles três iniciais da mesma época: Itatiaia, Órgãos e Iguaçu.

Mas, a partir da década de 1960, quando Brasília começou, foram criadas novas unidades para proteger o Cerrado que abraçava a jovem capital. Já nos anos de 1970 as novas reservas então formadas visavam preservar a Amazônia, talvez por segurança nacional. Mas até 1990 ainda havia realmente muito poucas unidades. 
 
Durante os vinte anos anteriores a 2010, a quantidade de parques simplesmente dobrou, e em todo o Brasil. A maior unidade, com quase 4 milhões de ha, é a das Montanhas do Tumucumaque (AP) e a menor, o Parque Marinho da Ilha dos Currais (PR), que não chega a 1.500 ha. 
 
São ao todo 25 milhões de ha, ou impressionantes 3% do território nacional. Claro que existem muitas outras formas de conservação, algumas sendo de proteção integral e outras de uso sustentável. Por exemplo, a Estação Ecológica, o Monumento Natural, a Área de Proteção Ambiental ou a Reserva de Desenvolvimento Sustentável. 
 
Para gerenciar este patrimônio, foi fundado o IBAMA em 1989, que consolidou várias agências envolvidas com o meio ambiente. Desde então, o órgão teve em média um presidente por ano, evidência da instabilidade de sua gestão, o que não é nenhuma novidade no Brasil.
 
Como você já descobriu, poucos de nossos parques estão oficialmente abertos aos visitantes, apenas um terço deles. Segundo o IBAMA, os dez parques mais populares tiveram uma visitação de 6 milhões de pessoas – das quais mais da metade correspondendo ao PN da Tijuca no Rio. Acredito que, se considerarmos todos eles, mal chegaremos a 10 milhões de visitantes anuais. 
 
O primeiro parque natural do mundo foi estabelecido em 1872 nos Estados Unidos em Yellowstone. Como no Brasil, durante o início só havia três parques: Yellowstone, Mackinac (no Lago Huron) e Yosemite. Desde então, o país chegou a 59 unidades. A mais recente delas até este momento data de 2004. A maior unidade abrange mais de 5 milhões de ha no Alaska e a menor, algo como 80 m² na Pensilvânia (embora seja apenas um memorial, ver adiante). 
 
O IBAMA americano chama-se National Park Service, que completou cem anos em 2016. Ele teve em média um presidente a cada 5 anos, sendo que três deles o comandaram por um terço de toda a sua história. O NPS administra cerca de 410 unidades, emprega 22 mil pessoas, acolhe 400 mil voluntários por ano e dispõe de um orçamento de U$$ 3 bilhões. São 33 milhões de ha (aí incluídas todas as unidades, não só os parques naturais), ou 3.5% da superfície do país.
     
É importante notar que o sistema americano é mais diversificado do que o brasileiro. Nós temos aqui 12 tipos diferentes de reservas, todas sendo naturais; lá eles têm 20. E, mais fundamental, existe grande preocupação com sítios e monumentos históricos, incluindo memoriais, cemitérios, fortes e campos de batalha. 
 
A Casa Branca e a Estátua da Liberdade são parques nacionais. Existem memoriais para vários presidentes, sejam históricos (como Jefferson e Lincoln) ou recentes (como Carter e Clinton). Para os norte-americanos, uma reserva não protege só a natureza, mas também preserva a história.
 
Entre os parques naturais, existem áreas dedicadas exclusivamente à recreação, a rios e a litorais. E, sobretudo, às fantásticas rotas cênicas, longas travessias das quais as mais conhecidas são a Appalachian Trail, a Pacific Crest e a Continental Divide. Acredite, elas variam de 2 a 3 mil km e são normalmente percorridas ao longo de anos seguidos pelos mochileiros, tradicionalmente durante suas férias. 
 
Aqui no Brasil, o Rio de Janeiro talvez implante proximamente os 180 km da Transcarioca e os Estados do Sudeste, futuramente os 400 km da TransMantiqueira. Elas seriam nossas primeiras rotas cênicas. Dispomos pelo menos dos 1.800 km da Estrada Real em Minas, que não chega a ser uma estrada parque, mas é pelo menos bem divulgada. No Pantanal existem duas estradas parque, em especial a Transpantaneira com 145 km, que é um cenário de fato único.  
 
Pasme, os parques naturais norte-americanos são visitados anualmente por mais de 70 milhões de pessoas. Todas as 410 unidades recebem inacreditáveis 350 milhões de visitantes, e sabe porquê? Devido à presença das áreas de recreação, das estradas parque e dos sítios históricos – sua visitação conjunta é mais do que o dobro da dos parques naturais. Só uma observação: acredito que o triste desinteresse dos brasileiros pelo passado venha grandemente da ausência de sítios históricos preservados e divulgados, como sempre fizeram os Estados Unidos. 
 
Há países com uma surpreendente quantidade de parques naturais: nas enormes extensões da China e da Índia; nas regiões tropicais do Sudeste Asiático, particularmente na Tailândia; e, na Europa, a Rússia e a Escandinávia. Países como a França e a Islândia têm algo como 10% de seus territórios por eles ocupados.      
 
Para chegar finalmente ao título desta coluna, encontrei recentemente a menção a um estudo de avaliação dos parques americanos. Partiu de uma pesquisa que indagava quanto um cidadão estaria disposto a pagar para evitar a hipotética perda de um quinto dos seus parques nacionais.  (A possibilidade de perda de todos os parques não foi considerada viável; já um quinto de perda devido a cortes orçamentários foi enxergada como realista.) 
 
A metodologia foi a mesma usada na área médica pela ANVISA americana, para aferir a disposição das pessoas em pagar para evitar lesões físicas. Por acaso, já havia encontrado um método semelhante no Brasil, para determinar o preço do ingresso a ser cobrado num parque, se não me engano no Cipó, quando se pensava em privatizá-lo.
 
O resultado usou hipóteses conservadoras (como atribuir zero a quem não respondeu e desconsiderar o impacto da biodiversidade) e chegou ao valor de US$ 92 bilhões por ano. Depois de pensar um pouco, acredito que você achará este valor baixo – considere que só a atividade econômica dos parques norte-americanos gera quase US$ 35 bilhões a cada ano.
 
Mas existe aqui uma ilusão, pois o estudo chegou a um valor anual, ou seja, simplesmente uma verba estimada a cada ano. E quanto seria o valor perpétuo, vale dizer para garantir os parques para sempre? Um especialista em matemática não teria problema em calcular, a partir da verba anual, algo como US$ 2 trilhões. Parece muito? É apenas um pouco mais do que um décimo do PIB norte-americano do corrente ano.
 
Você estaria disposto a investir um décimo de toda a produção brasileira de um só ano para manter para sempre os nossos parques? Não parece uma pechincha?
 
Agora, apenas uma nota final. Acho horrível a mania americana de colocar um cifrão em todos os aspectos da vida. Para mim, os parques valem tanto quanto toda a nossa natureza, pois possivelmente é tudo o que nos restará depois que a ganância e a ignorância devastarem o meio ambiente. Para mim, valem todo esse PIB e muito mais.
 



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