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Naturalistas

Walden, Muir e Yosemite


Colunista:

Já me referi antes ao naturalista Humboldt, personagem do livro A Invenção da Natureza de Andrea Wulf. A coluna a seguir comenta sobre dois brilhantes escritores e ativistas nos Estados Unidos do século XIX que foram influenciados por ele – e nos influenciaram até os dias de hoje.

Walden, Muir e Yosemite
 
Henry Thoreau nasceu nos Estados Unidos no começo do século XIX, quando o país havia expandido seu território, devorado suas florestas e crescido em população, riqueza e tecnologia. Thoreau concluiu seus estudos e, devastado pela morte do irmão, refugiou-se por dois anos à volta do pequeno lago Walden na Nova Inglaterra. Lá ele construiu sozinho a cabana cujo desenho decora o livro de mesmo nome, que levou quase dez anos para escrever. E lá ele descobriu a natureza.
 
Thoreau comunicava-se de uma maneira mágica com a natureza – com as plantas, a neve, as flores, as estações, os pássaros. Nela ele encontrou sua verdade espiritual. Mas ele também a observou e mediu meticulosamente. Como Humboldt, descobriu que tudo era interligado no tecido do mundo, que cada ano era um círculo, que a terra vivia e crescia. Ele escreveu que: Fui para os bosques viver de livre vontade (...) para, quando morrer, não descobrir que não vivi!
 
A obra de Thoreau é uma curiosa mistura de sensibilidade, filosofia, objetividade, anarquismo e imaginação. Com sua insistência na vida simples e livre, sua condenação do progresso capitalista, sua visão poética da natureza e sua denúncia aos privilégios e à escravidão, Walden tornou-se um livro muito influente, precursor dos movimentos hippie e ambientalista. 
 
Mais tarde, Thoreau recusou-se a pagar impostos e pregou a desobediência civil, num ensaio que Tolstoi adorava. O mestre russo recomendou-o por carta a um jovem advogado que estava preso na África do Sul - ninguém menos do que Gandhi (do qual falarei numa outra coluna).
 
John Muir nasceu cerca de vinte anos depois de Thoreau. Sua família emigrou da sua Escócia natal para os Estados Unidos quando era jovem. Muir fugiu quando adulto para o Canadá, para evitar o alistamento durante a Guerra Civil norte-americana. Lá continuou suas observações botânicas, pelas quais tinha fascínio. Suas leituras de Humboldt fizeram com que quisesse conhecer a América do Sul, em especial o Rio Amazonas.
 
Com este objetivo, empreendeu aos 30 anos uma viagem de 1.600 km a pé (e praticamente só com a roupa do corpo) até a Flórida – para embarcar para o sul. Porém a malária fez com que retornasse de Cuba para a Califórnia.
 
Isto mudou sua vida, pois pôde então conhecer o Vale de Yosemite, pelo qual se encantou. Por anos trabalhou nas proximidades e explorou toda a região. Na época, aquele local da Califórnia estava se transformando pela ação da irrigação, da agricultura e da urbanização – e Muir começou a lutar para preservá-lo.
 
Ele também começou a ver o mundo de uma maneira nova, a enxergar o emaranhado da vida, a perceber a harmoniosa unidade da terra, a ouvir o sedutor canto da natureza. Muir tornou-se um formidável escritor e ativista, com uma prosa alegre e espontânea. Convenceu o Presidente Roosevelt (com quem acampou por quatro dias) a retirar da negligente tutela estadual o Vale de Yosemite, integrando-o ao recém-criado parque nacional à sua volta.
 
Muir participou da primeira disputa moderna de âmbito nacional entre a natureza e o progresso. Ele lutou contra a construção de uma barragem para abastecer a cidade de São Francisco. Esta obra submergiria um dos mais belos vales no interior do parque de Yosemite. Ele perdeu a luta, mas os preservacionistas haviam entendido como fazer lobby, como conduzir uma campanha nacional e como atuar na arena política (...) estabelecendo um modelo de ativismo futuro, como conta Andrea Wulf. Isso é até hoje algo que não conseguimos aqui no Brasil.            
 
Mesmo quando envelheceu, Muir continuou sonhando com o Amazonas. Já viúvo, releu Humboldt e embarcou finalmente para Belém. Tinha cerca de 70 anos e mais de 40 haviam se passado desde aquela sua travessia a pé. Eu apenas saí para uma caminhada, e por fim decidi ficar ao ar livre até o pôr do sol, porque sair, eu descobri, era na verdade entrar, ele escreveu depois de regressar.    
 
Hoje Yosemite recebe 4 milhões de visitantes nos seus 300 mil ha de desfiladeiros e cachoeiras, vales e glaciares, florestas e montanhas. As formações graníticas de El Capitan e Half Dome, a gigantesca queda de Yosemite, os vales dos Rios Merced e Tuolumme e a floresta de sequoias centenárias compõem este refúgio que celebra a persistência da vida. 
 
Esta generosa natureza pertencera numa época remota a uma tribo muito feroz, de quem se dizia que eram yohemeti ou assassinos. Acabaram sendo completamente exterminados e dela só restou a memória do seu chefe Tenaya, que nomeia um dos lagos do parque. Se não os índios, pelo menos sua terra pôde ser preservada graças à voz encantada e poderosa de Muir.
 
 
 
 



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