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A derrubada da Cruz do Marumbi

A Cruz do Marumbi


Colunista:

Subir escalando ou caminhando até o cume de uma montanha é sempre um ato de superação para principiantes ou veteranos que desfrutam vista de 360º com o mundo todo abaixo de seus pés. Invariavelmente se sentem invencíveis e poderosos. As montanhas mais importantes sempre tiveram uma cruz no cume para lembrá-los que são mortais e que mais acima há um poder maior. Ainda é assim no Aconcágua e já o foi no Marumbi antes de a derrubarem. E mesmo para ateus convictos seria hoje um bom segundo plano para selfs, a prova indiscutível da conquista.

Fazia algum tempo que falávamos em retornar a caminhar pela Crista do Gigante, talvez a única “trilha” que ainda vale o esforço no Marumbi devido a sua interdição logo em seguida à fundação do parque que a preservou selvagem e confusa. Olhando-a por fotos ou da estação poucos poderiam supor que oferece tantas e variadas opções para se transpor seus imensos paredões verticais e inúmeros degraus, mas nas duas ou três vezes que a enfrentei jamais consegui repetir exatamente a mesma linha e nem mesmo reencontrar muitos de seus obstáculos clássicos. Desta vez não foi diferente.
 
Com o Natan L.F. Lima e Domingos Fiorese Neto, cheguei à casa do Vita a noitinha e já colocamos o carvão para queimar na “gengis kan”. A fumaça imediatamente atraiu o Bruno e o Taylor que trouxeram uma jarra de caipiroska, mas pouco durou diante de tanta sede e precisaram retornar ao QG para reabastecer. A conversa animada avançou madrugada adentro. 
 
Taylor é herdeiro direto da melhor tradição marumbinista do período clássico. Filho de Edson Taylor Eksteins, conhecido pelo apelido de Otto, fazia “acontencer na vilinha” como outros da hegemonia alemã que, por seus feitos e coragem, gravaram seus nomes na história do marumbinismo. “Parece meio louco, mas é pacífico e foi nosso companheiro de muitas no Marumbi” nas palavras de Nelson (Farofa) Penteado. Muito devemos a esta geração que extrapolou todos os limites com parcos recursos, recebendo os novatos de braços abertos, sempre compartilhando seus conhecimentos e descobertas. Seus esforços nos legaram muito mais que audaciosas vias de escalada, na pressão conseguiram o tombamento da serra, a fundação do parque e até mesmo o despertar de uma vocação ou a indicação de membros da geração seguinte para empregos na área.
 
Se o despertador tocou, ninguém ouviu e as 10h00 da manhã o Neto correu pra fora chamando o “hugo”. Voltou com um bumbo tocando dentro da cachola e juntou-se com o Natan para formar uma fanfarra desafinada. Muito café preto pra espantar ressaca e só partimos depois do furão manco vir buscar seu almoço nas sobras do churrasco.
 
Percorremos a Frontal do Olimpo até as proximidades do Rio Taquaral e rumamos para o Ninho do Gavião, passando pelo pequeno escorrimento da encosta que em 1988 serviu de “motivo” para a interdição da trilha. O Ninho do Gavião é um sub cume na crista de onde se tinha maravilhosa vista, agora perdida em função do crescimento da vegetação. Foi conquistado em agosto de 1945 por Rudolfo Stamm e Gerdt Hasschbach que o batizaram em homenagem a Waldemar (Gavião) Buecken. 
 
Os tênues rastros seguem a direita, debaixo de mata densa, até bater na parede e desviar a direita onde é vertical para cima e para baixo terminando na pedra nua e sua curta escalada pela fenda na beirada do precipício. Há muito tempo atrás nem passei neste lugar, seguindo direto pelo paredão com auxílio de uma velha corrente instalada por Henrique (Vitamina) Paulo Schmidlin e mais tarde retirada pelos “donos da montanha”. Noutra ocasião cruzei direto sobre a pedra para a face oeste da montanha, em seguida escalando uma aderência exposta no limite do vazio para alcançar a lombada nua da pedra e chegar numa lapa inclinada aos pés do degrau. Nesta ocasião me acompanhavam o Pedro Hauck, Paulo Marinho, João (Johny) Carlos de Andrade, Raphael Pick e o Luiz Antoniutti.
 
Mas agora nos mantivemos na face norte cruzando pelo inferno de taquaripocas que dominaram a paisagem depois de um incêndio criminoso no inverno de 1982. O sol ardia no lombo quando alcançamos a laje inclinada e exposta do primeiro degrau quando o Neto saltou de costas sobre o Natan gritando “COBRA!”. No susto também pulou a jararaca, passando a centímetros de seu peito. Não tenho idéia de quem estava mais assustado, se o Neto ou a jararaca que tranquilamente tomava seu banho de sol. Depois, conforme a versão e o lugar que cada um ocupava na fila indiana, a jararaca variava de 90 centímetros a um metro e meio. 
 
As coisas mais incríveis ocorreram nesta altitude quando subi pela face oeste com o Dr. Douglas Schmidt, cardiologista que mais tarde me acompanhou nos Cerros Tunari e Illimani na Bolívia e Aconcágua na Argentina, também pelo Ernane Zonta, corredor, escalador e fisiculturista com um metro e cinqüenta de ombro a ombro, mãos de quebrar coco a tapa e pavio curtíssimo com o qual percorri o Rio Iapó de Castro a Tibagi numa balsa de raffiting, além do Ricardo Ehler e uma insólita dupla de pai e filho. O moleque de aproximadamente 13 anos com o braço engessado até o cotovelo devido a uma fratura recente. 
 
Formávamos um grupo bastante peculiar para estas paragens e facilmente fomos ultrapassados por um casal de jovens que rapidamente tomaram distancia depois do tradicional “Opa!”. Mas a vantagem não perdurou por muito tempo e logo em seguida encontramos a moça entalada numa fresta de pedra a beira do precipício. A coisa acabou ficando tensa dentro daquela grota. Acontece que a laje terminava num paredão que se projetava para fora do vazio com uma espécie de grutinha na extremidade. Tinha-se que nela penetrar de barriga para escalar uma curta chaminé e no topo girar o corpo para sair sentado de costas para o precipício. É até fácil quando de dentro da chaminé não se olha para baixo vendo delgadas nuvens passando sobre minúsculas árvores. O que tem de chaminé para cima, tem para baixo e pela fresta se contempla o imenso vazio.
 
Esperamos descongestionar a passagem sentados numa pedra ao sol e pacientemente devoramos parte do lanche, depois espantamos as moscas e como a moça não avançava nem um milímetro sequer começaram a surgir piadinhas. O sujeito no topo da chaminé foi ficando nervoso e descontando sua fúria na coitada que já furava a pedra com as unhas. Não sairia dali sem ajuda e os berros só pioravam a situação, então entrei na chaminé seguindo até ela onde travei os joelhos e pedi que neles apoiasse os pés para descansar. Depois nos apresentamos e conversamos tranquilamente até começarmos a subir usando minhas pernas travadas como escadinha. O sujeito soltava fogo pelas ventas, parecia uma locomotiva a vapor e tampouco agradeceu o favor, puxou a moça e se mandaram, mas o ritmo caiu e não mais conseguiram manter distância.
 
Muito a frente, na face de outro degrau, apareceu uma enorme pedra arredondada de escalada difícil que o sujeito se prontificou para servir de escada, mas a moça preferiu esperar por nossa ajuda. Na hora pensei; “Isto vai dar em merda!” E deu!
 
Devemos o desbravamento desta crista a Horst (Toti) Arno Hertel e Benedito Perdoncin que após muitas jornadas a concluíram em abril de 1946, mas naquele tempo uma trilha só era considerada operacional após vistoria que analisava a lógica do traçado, seu objetivo e acabamento entre outros itens. Rudolfo Stamm, o vistoriador oficial, a liberou ao público em outubro do mesmo ano.
 
A face norte é exposta ao sol e pouco ventilada, então o Natan, o Neto e eu já vínhamos a um tempo racionando água quando, adentrando uma grota, encontramos um fiozinho do precioso líquido escorrendo geladinho. Longa pausa antes de escalar o paredão e reencontrar as taquaripocas, gretas profundas e matacões isolados por mais taquaripocas. Passava das 16h00 e o tempo começava a mudar com as cumeadas se escondendo na neblina e aparecia um falso cume atrás do outro. Dentro da nuvem o frio e a umidade são de lascar e o cume não chega nunca, mas nunca não existe e saímos na Trilha Noroeste sem ver dois metros à frente. 
 
Quando fizemos esta montanha pela face oeste chegamos diretamente no cume debaixo de um sol de rachar e imediatamente esvaziamos as mochilas para traçar o que sobrou da comida dentro delas. Comia tranquilamente meu sanduba quando aparecerem uns três gorilas acompanhados pelo nosso amigo nervosinho que permaneceu afastado.
 
- Quem é o chefe? – repetiram várias vezes.
 
- Aqui ninguém é índio pra ter chefe – respondeu alguém.
 
- Quem é o líder? Aquele que se declarou no cadastro?
 
Ninguém respondeu, mas todos olharam diretamente para mim. “Que merda!” E veio bronca! Me chamou de irresponsável por arriscar a vida de turistas inexperientes. Por conduzir uma criança com o braço engessado por uma trilha tão perigosa. Que ao retornar à estação seríamos enrabados, multados, presos e processados por adentrar área intangível de um parque estadual por trilha interditada e já ia apertando o botão do radinho para comunicar a base quando viu se erguer um vulto volumoso por detrás. Não sei bem o que o fez mudar de idéia, se foi a estatura, a largura ou a cara feia do Ernane que mais tarde nos confessou que se levantou decidido a jogar nosso inquisidor com rádio e tudo pra dentro da grota.
 
Este cume tem outras histórias divertidas e até meados de 1940 se acreditava ser o último virgem, desencadeando uma corrida. Numa semana de julho o Stamm fez sua tentativa e na seguinte Alfredo Mysing e Geraldo Epp finalmente pisaram no cume registrando o feito numa folha de papel depositada dentro de uma garrafa lacrada, mas ao inseri-la numa fresta da pedra ouviram um som metálico. Cavaram com as mãos para descobrir uma placa de cobre com a inscrição; “Deixaram aqui esta lâmina: José Ribeiro de Macedo, Antonio Ribeiro de Macedo, Antonio Pereira da Silva, José Antonio Teixeira, José Ferreira Gomes, Joaquim Olimpio Miranda e Pedro Viriato de Souza. Em 26 de agosto de 1880.”
 
Sem querer desvendaram um mistério de 60 anos identificando o “Alto de São Sebastião”, montanha alcançada na 2º escalada dos pioneiros no Marumbi. A lâmina foi entregue depois aos cuidados do Museu Paranaense que a extraviou com sua assegurada competência. Nunca mais foi encontrada.
 
Adiado o quiprocó oficial da invasão no território sacro santo seguimos para o Olimpo no rastro de nossos algozes para encontrar a elite do marumbinismo tardio reunida numa roda de fumo aos pés da cruz de ferro. Por um tempo ficamos afastados como convém aos plebeus, só observando a realeza, mas Dr. Douglas não se conteve e resolveu fazer discurso.
 
Apresentou-se caminhando para o centro da roda enumerando uma a uma, todas as conseqüências físicas e sociais causadas pelo vício do tabagismo e da maconha. Citou exemplos e fez perguntas, mas o gato tinha comido a língua dos “donos da montanha” e então apontou o dedo para o que aparentava ser o mais velho na turma:
 
- E você “Peludo”, na tua idade já deveria ter superado esta fase. Maconha é coisa até compreensível na adolescência, mas agindo assim está dando péssimo exemplo pra estes jovens.
 
Deixamos o cume debaixo de um silêncio sepulcral e quando, num mirante da Trilha Frontal, olhamos para cima já não vimos mais a cruz. Certamente a tinham derrubado e a culpa sobraria para nós, os invasores. Chegamos à estação preocupados, mas não encontramos viva alma para nos enrabar ou processar, tudo deserto e silencioso, parecia um cemitério. Anos depois compreendi a dimensão do acontecido; fomos apenas testemunhas ocasionais da alternância de gerações na hegemonia marumbinista. A nova geração destruía os símbolos da precedente num processo infantil de auto afirmação. O Marumbi estava oficialmente sob nova administração. 
 
Agora, em meio à neblina densa, úmida e gelada, Neto e eu, reencontramos a lama pegajosa na Trilha Noroeste e deitamos o cabelo até a Ponta do Tigre seguidos do Natan que tratou de vestir um gorro pra espantar o frio na careca. A pouca comida que restava nas mochilas mal deu pro cheiro e tratamos de apertar o passo na esperança de encontrar o Juliano Pereira e a Michelle Carvalho com a churrasqueira fumegante e a picanha na grelha.
 
Na entrada do Apartamento Onze ligamos as lanternas e deslizamos na lama até o Vale das Lágrimas onde tinha encontro marcado com o azar. À frente, numa piramba vertical, girei o corpo para descer alcançando os degraus. A lei da ancoragem em três pontos seguindo no modo automático. Uma mão firme no degrau anterior à pirambeira, outra no primeiro abaixo e um pé no terceiro, mas antes do segundo pé alcançar o próximo deu-se o escorregão lateral. Culpa do barro acumulado na bota, do design tosco do degrau e principalmente da má instalação, perceptivelmente desnivelado à esquerda e não deu tempo para mais nada.
 
O corpo se projeta para baixo com violência e o degrau penetra abaixo das costelas. Constatei dolorosamente que tinha fígado, baço, pulmões e coração. Todos sendo deslocados para cima e comprimidos em separado, um após outro e o pulmão esvaziado num sopro. O antebraço colide com o ângulo da pedra e a mão se solta do ferro para que o osso não quebre como um graveto, só micro segundos depois a segunda mão sente o impacto de todo o peso do corpo que cai e também os dedos deslizam pelo ferro enlameado.
 
O Neto, de cima, só vê o risco de luz da lanterna sumir, cinco ou seis metros verticais abaixo, “Arrrrfff ”, o Natan ouve o som gutural do ar involuntariamente escoando pela boca. O corpo suspenso numa só mão, que no meio da queda encontrou o degrau de aço, pendula no vazio e retorna a pedra. Tudo acontecendo muito lento, frame a frame. O tempo é relativo e a eternidade cabe num segundo, isto é fato.
 
O gato tem sete vidas! O elefante nunca esquece e o lobo troca o pêlo, mas nunca os vícios!
 



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