O Cânion do Engano - AltaMontanha.com - Portal de Montanhismo, Escalada e Aventuras
Costa Rica (MS)

O Cânion do Engano


Colunista:

Esta é a última das matérias sobre os nossos cânions – a menos que eu descubra novas gargantas até agora desconhecidas.

Um dia li no jornal sobre um cânion na região agrícola de Costa Rica (MS), composto por um conjunto desorientador de sete gargantas. Na primeira folga que tive, viajei para lá com um veículo alugado. Desembarquei do carro na prefeitura e logo um técnico do Meio Ambiente mostrou-me o formato do parque. 
 
Quando consultava o mapa, notei que os limites estavam marcados a lápis. Sem saber, eu estava falando com o próprio agrimensor que fizera o levantamento e o mapa era o seu original! Esta foi uma oportunidade emocionante e única de encontrar um parque no exato momento em que era definido.
 
(No momento em que releio este texto antes de sua divulgação, lembro que ontem mesmo estava estudando os limites de um novo parque numa serra distante. Procurava ajudar um grupo de moradores de uma cidadezinha a propor esta nova reserva. Acho que nunca tinham ouvido sobre IBGE, curva de nível, escala ou cartografia. Quem sabe eu possa novamente ver os limites de um PE desenhados a lápis!) 
 
Voltando ao cânion, existe um rio que penetra no parque e, de sua cachoeira, era possível avistar a maior parte dos cânions que confluíam para a garganta principal. É uma região bonita, com encostas densamente recobertas de verde, morros com formatos curiosos e cortes bastante íngremes. Eles compunham amplas furnas que iam convergindo mais à frente, em distantes regiões planas. 
 
Abordar o parque pelo Cânion do Engano (ou seja, pelas terras altas da nascente do rio) foi uma proposta delicada, pois a trilha de descida era feita de um arenito muito íngreme e desagregado. Subindo ou descendo suas paredes, corríamos o risco de machucar a nós mesmos e à natureza. Os deslizamentos eram comuns e por pouco escapamos de duas grandes pedras que rolaram à nossa frente.
 
Era possível chegar ao rio lá embaixo e seguir a jusante até a região plana mais além, que recebia as águas dos demais cânions. Era também possível escalar a mesa oposta, subindo até o espigão que separava este cânion do seguinte. Entretanto, pela inexistência de trilha, não fizemos nem uma coisa nem outra. O carrascal que recobria as encostas nos impediu de avançar e resolvemos acampar por ali, depois do susto de quase termos sido esmagados pelas pedras.
 
Quem sabe se aplique aqui a descrição de Jean Pierre von der Weid: Uma pedra que cai numa tarde de verão, sem razão nem porquê, é o recado discreto da natureza avisando-nos que tudo ali se transforma no lento caminhar dos tempos (...) não somos mais do que expectadores do grande filme da existência, olhando para (...) uma tela apenas desse longo desfilar de quadros.  
 
Estávamos com dois rapazes da região, que eu havia recrutado como guias. Descobri porém que eles apenas sabiam um pouco mais do que nós. Achava curioso que ambos aceitavam qualquer alimento que oferecia. Então percebi a razão: eles não haviam trazido comida alguma! No pensamento deles, cabia a nós alimentá-los.
 
Decidimos no dia seguinte explorar a região, que é um celeiro agrícola atravessado pelo caudaloso Rio Sucuriú. Claro que a comida acabou, ao longo do dia disputávamos com as vacas as gordas mangas das fazendas. E assim passamos três agradáveis dias, imersos naquele calor do Centro Oeste.
 
Mas, ao invés de Cânion do Engano, o parque foi batizado com o infeliz nome de PE das Nascentes do Taquari. Aliás, nada surpreendente para um Estado que escolheu a meu ver um nome equivocado, ao ser desmembrado do Mato Grosso do Norte. Mas o fato é que deixei Costa Rica sem conhecer direito o cânion. Muito tempo depois, passei na região e soube que ele continuava praticamente inexplorado. 
 



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