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Proibido tirar foto!

A chácara da Baronesa


Colunista:

Conhecido também por Haras São Bernardo e datado da década de 30, a história do atual Parque Estadual Chácara da Baronesa é tão pitoresca quanto conturbada. Situado entre Santo André e São Bernardo do Campo, o lugar já criou os melhores cavalos de corrida do país e quase virou conjunto habitacional. Em 2001 a chácara foi transformada em parque estadual mas continuou abandonada pelo poder público, pra sair de fato do papel em 2014. Sabendo desse inusitado histórico, me programei metade do dia pra visitar esta interessante área de preservação repleta de atrativos naturebas e muita história. Mas que incrivelmente não pode bater foto. Como assim?

Sem muita pressa, desembarquei na Estação Santo André da CPTM pouco depois das 9hrs. Aquela manhã dominical começara envolta com certa nebulosidade, que foi se dispersando no decorrer do período ao mesmo tempo que escancarava um sol tímido, mas de calor sufocante. Dali podia ter pego no terminal de ônibus logo adiante qualquer busão que tocasse pelo Corredor Metropolitano, nome como também é conhecida a Av. Pereira Barreto, sentido Jabaquara. Podia ter me valido também de qualquer transporte que tivesse como destino o Jd Baeta Neves, mas como tava bem disposto resolvi fazer tudo a pé afim de conhecer a região.
 
Toquei então na direção da Praça do Quarto Centenário, onde desviei pela agitada via que seguia pro sul e permanecer nela indefinidamente, no caso, a Av. Ramiro Colleone, que depois do Shopping ABC passa a se chamar Pereira Barreto. No caminho, cliques pro Paço Municipal, o Marco Zero da cidade e das três caras da Praça da Maçonaria. Na metade do trajeto, se olharmos na direção sul, é possível avistar uma enorme ilha verde destoando meio da horizontalidade urbana. Lá está nosso destino. Abandono a via palmilhada na altura dum enorme Supermercado Sonda, e me pirulito pela Rua Thales dos Santos Freire, cruzando o fétido Córrego dos Meninos. Mas num piscar de olhos abandono esta via pela primeira que nasce pela esquerda, a Rua dos Americanos, e por ela sigo até o final. Este é o bairro Baeta Neves, área basicamente residencial com pouco comercio, onde tem inclusive um minúsculo terminal de lotações, além da simpática Paróquia São José, cuja arquitetura lembra vagamente um templo islâmico. No final da rua, cruzo uma via principal, o Córrego Taioca, e então ando numa minúscula e curta via cascalhada que atende incrivelmente pelo nome de Av. José Fernando Medina Braga, onde alguns barracos se espremem na margem oposta ao córrego. Dali já consigo avistar o belo portal de entrada do parque.
 
Uma vez cruzado o portal de entrada, comecei a bater fotos do lugar sob o olhar fechado de um dos seguranças a que ali se encontrava na enorme guarita da entrada. “Viu, não pode bater foto daqui não!”, diz ele enquanto se aproxima de mim. Curioso pela inesperada restrição, parei um pouco pra conversar com ele pra que me explicasse o aparente motivo pra não poder registrar nada ali dentro, uma vez que ali é área pública e eu posso fazer o que bem entender desde que não desrespeite as normas oficiais, e essa não era uma delas. “É coisa de político, sabe! Fomos instruídos pra isso!”. Pois é, pra bom entendedor meia palavra basta. Na certa o lugar ta cheio de irregularidade e não querem divulgação, além do parque se tornar espécie de “coringa” em época de eleições municipais. “Pode tirar uma ou outra... mas muita não! E cuidado pra não se perder nas trilhas!”, emendou pra mim, quando o convenci que não era repórter e só partilharia o material num álbum pessoal.
 
Depois dessa inesperada e inusitada restrição dei continuidade a minha visita, adentrando no largo estradão de chão principal cercado de muito mato. Uma academia ao ar livre, um orquidiário fechado e uma quadra abandonada surgem já logo no inicio. Já logo surge uma ramificação á direita que resolve conhecer e me deparo com as ruinas duma minúscula casinha. A trilha prossegue bordejando o limite sul do parque, que basicamente acompanha o um poluído Córrego Taioca. Não demora pra picada me devolver ao caminho principal, em coisa de poucos minutos.
 
Novamente na espinha dorsal do parque prossigo a pernada ganhando altitude de maneira imperceptível. O estradão se alterna com antigo calçamento cruzando uma floresta de aparência sinistra. Incrivel não haver mais ninguém ali, uma vez que a movimentação maior se concentra próximo á entrada. E dos guardas, que só reparei circular naquele mesmo setor. A ausência de sinalização é um fator a ser considerado, pois reparei que conforme se adentra mais no parque surgem trilhas e mais trilhas, sendo bem fácil se perder. O jeito é - pra quem não tiver traquejo e boa orientação - se manter sempre na principal.
 
Surge uma bifurcação e procuro me manter naquela que em pouco tempo se pirulita rumo alto da colina. No caminho, abandono a mata fechada e desemboco no que parece ser o setor onde se concentrava a casa principal da antiga fazenda, as cocheiras e demais instalações, todas caindo aos pedaços. Apenas a casa principal parece ter sido restaurada pra uso ser sede do lugar, mas quando estive ali se encontrava fechada. E pensar que aquilo tudo era conhecido por Haras São Bernardo. Desde a década de 30 o terreno da Chácara Baronesa pertenceu ao Conde Crespi, que vendeu mais tarde a propriedade ao casal belga, o Barão Von Leittner e sua esposa, a baronesa Maria Branca Von Leittner, passando a ser conhecida desde então como a Chácara da Baronesa. Até meados da década de 60, o espaço era utilizado para treino de cavalos de corrida, nível exportação. Era constituído de casa principal com piscina (aterrada), pastagens fechadas e cercadas por árvores, havendo três grupos distintos de cocheiras e vacarias, com baias para cavalos de corrida, um depósito e quarto para empregados e diversos caminhos ladeados por ciprestes. 
 
Seguindo pela via principal alcanço o amplo topo da colina, marcado por uma decrepita caixa dágua e uma área que me lembrou o “Quadrado”, de Trancoso. Cocheiras se emparelhavam lado a lado, formando um quadrado, deixando um amplo espaço gramado no meio. Atrás desse setor encontro mais ruinas, estas parcialmente engolidas pelo mato mas que faziam lembrar algum templo tailandês. A mistura de musgo, pedra e ferro dali faria a alegria de qualquer fotógrafo. Lixo? Incrivelmente nenhum. Apenas o de maços de cigarro baratos aqui e ali.
 
A seguir algumas infos interessantes previamente pesquisadas na internet sobre as instalações: “O Haras, como foi planejado, visava de fato a criação de cavalos de corridas, por isto ele possuía 17 pastos, entre fileiras de árvores, a casa do administrador e a casa da baronesa, com um grande portal de entrada, tinha cerca viva de hibiscos vermelhos, sempre bem aparados e só perdia em beleza para o gramado muito verde dos pastos. A Baronesa e seu marido, belgas de nascimento, viajavam três meses por ano á França como turistas e quando estavam no Brasil passavam boa parte do tempo dentro do Haras São Bernardo. Tudo era diferente. A agitação era incrível, traziam tudo da Europa, desde as ferramentas, como uma simples lima até as sementes do capim próprio para pastagem dos cavalos. O Haras empregava 72 duas pessoas, que roçavam, carpiam os pastos, varriam as ruelas e a estradinha principal, cuidavam de cada palmo da chácara. Eram 32 éguas criadeiras, que em certa época chegou a 74 cabeças, entre éguas, potros e garanhões. No local tinha também 15 vacas cujo leite servia de alimento para os patrões e empregados. Os cavalos eram tratados com leite desnatado e aveia importada da Inglaterra. As cocheiras em número de três, possuíam luz elétrica e água encanada. Os potrinhos nasciam e contavam com maternidade, enfermaria e farmácia. Com um mês e meio de nascidos eram levados para a cocheira, onde permaneciam até completarem um ano de idade. A próxima morada era a cocheira instalada ao lado da pista de adestramento e dai, às competições do Jóquei Clube.”
 
Dali a vereda principal passa a acompanhar um alambrado que delimita o parque a oeste e praticamente circunda a APA, passando por onde era o antigo cemitério dos pocotós. Creio que durante minha visita só vi suas pessoas circulando naquela enorme área, pois como disse a maioria dos visitantes se concentra próximo a portaria e guarita dos guardas. Mas nesta picada principal existem varias ramificações que resolvi fuçar e levam ao miolo mais rústico e selvagem do parque. Resumidamente estas veredas rasgam a encosta sul e oeste, passando por pequenos córregos que desembocam no principal, ou seja, o Taioca. São picadas íngremes que sobem e descem em alta declividade e sempre cercado de mato alto e espesso. No setor nordeste havia tanto rombos no alambrado como invasões de barracos alocados no meio da mata. Sim, o parque tem o problema de gente vivendo irregularmente. Outra coisa, não existe iluminação alguma! E como a mata é muito densa acredito que em dias nublados fique tudo um bréu de escuro.
 
Optei por me manter no emaranhado de veredas do centro, algumas terrivelmente lisas de musgo e encharcadas nos estreitos vales espremidos nas dobras mais íngremes do morro. Ali encontrei um quiosque abandonado, uma cobrinha que se assustou tanto quanto eu, mais ruínas engolidas pela mata e, pasmem, nenhum lixo! Numa delas dei de cara com uma dupla de policiais que se surpreendeu demais com minha súbita aparição e quase sacou arma na minha direção. Quando viram que era mais um turista disseram que tavam, assim como eu, pisando pela primeira vez ali e reclamaram da falta de sinalização pois andavam meio desnorteados. Falei pra eles conhecer os córregos internos e tal mas declinaram falando que não queriam se perder. Reiterando, é fácil mesmo se perder ali.
 
Dali comecei a pegar uma trilha mais fechada, onde bambuzinhos cresciam timidamente do solo atestando que realmente era um caminho menos visado. Com bússola na mão fui dando a volta de modo a alcançar o caminho principal, passar por mais algumas ruinas escondidas no mato e voltar pra guarita da entrada, onde descansei, utilizei o banheiro e bebi água. Sim, o parque não dispõe de sanitários e só tem um bebedouro, logo na entrada! Essa rusticidade forçada é sinal do abandono atual, uma vez que houve degradação significativa da infra-estrutura original. Taí o motivo da proibição de fotos.
 
Conversando mais com os guardinhas fui informado que o parque serve de atalho pras duas comunidades do entorno, por isso os rombos no alambrado. Perguntei da segurança e responderam orgulhosos que nada era relatado a muito tempo, embora relatos na internet contradigam isso. Mas de fato, durante a minha visita solitária não senti risco algum nesse sentido. Sorte? Não sei..  Mas deixaram subentendido pra mim que o maior problema, fora a infra detonada, eram as invasões que continuam ocorrendo. Sempre há promessa de realocação das 300 familias que moram mocadas entre os pinheiros da íngreme encosta rente ao Córrego Taioca, mas nada se faz de palpável. 
 
Deixei o parque pouco depois das 14hr refazendo todo caminho de ida, mas não pude deixar de pensar nos altos e baixos do parque que acabara de visitar. O declínio da Chácara da Baronesa começou a partir da década de 70, com a industrialização e chegada do Polo Petroquimico de Capuava. Sim, a poluição prejudicou o desenvolvimento dos animais de raça inviabilizando a permanência daquele sofisticado haras.  A área foi então comprada pra construção de um conjunto habitacional, mas em 1978 a Prefeitura de Santo André declarou o espaço como área de utilidade pública, inviabilizando o projeto habitacional. Aos poucos, o local foi abandonado pelo poder público e ocupado por famílias carentes. Em 1986, o espaço alcançou a condição de APA e posteriormente foi tombado pelo Condephat. Em 2001 a chácara foi transformada em parque estadual, mas continuou abandonada. Após muita luta dos moradores, o parque finalmente saiu do papel e foi inaugurado em 2014. Contudo, essa espera de quase 20 anos parece se prolongar pois abandonado, o parque precisa de revitalização.
 
E essa é a atual condição dessa interessantíssima área de preservação que mescla natureza e história. É um local que vale a pena visitar, mas ciente dos problemas e eventuais riscos. Contudo, a degradação do parque não deixa de ser reflexo do descaso do poder público municipal, que permite a invasão do entorno sem resolver nada a médio prazo. Esse é o triste paralelo do antes e depois da Chácara da Baronesa. Na década de 70 a vizinhança deixou de ver passear aqueles belos e esguios cavalos campeões que não só brilhavam de tão limpos; brilhavam nos torneios do Brasil e no exterior. Hoje essa mesma vizinhança deixa de usufruir plenamente de uma bela e oportuna área de lazer, que já foi o orgulho da baronesa que lhe empresta o nome.
 



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