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Martin Luther King

I Have a Dream


Colunista:

Martin Luther King foi um pastor batista, ativista dos direitos políticos dos negros norte-americanos. Adepto da desobediência pacífica de Gandhi, liderou diversas passeatas e influenciou a criação de leis sobre os direitos civis. Foi assassinado antes de completar 40 anos. Abaixo, uma adaptação do seu discurso de Washington.

Há cem anos, um grande americano, sob cuja simbólica sombra nos encontramos, assinou a Proclamação da Independência. Esse decreto fundamental foi como um grande raio de esperança para milhões de escravos negros que tinham sido marcados a ferro nas chamas de uma vergonhosa injustiça. Veio como uma aurora feliz para pôr fim à longa noite de cativeiro.
 
Mas, cem anos mais tarde, devemos encarar a trágica realidade de que o negro ainda não é livre. Cem anos mais tarde, a vida do negro está ainda infelizmente dilacerada pelas algemas da segregação e pelas correntes da discriminação. Cem anos mais tarde, o negro ainda vive numa ilha isolada de pobreza no meio de um vasto oceano de prosperidade material.  
 
De certo modo, viemos à capital para descontar um cheque. Quando os arquitetos da república escreveram as palavras da Constituição, eles assinaram uma nota promissória da qual todo americano seria herdeiro. Essa nota foi uma promessa de que todos os homens teriam garantia aos direitos inalienáveis de “vida, liberdade e busca de felicidade”. 
 
É óbvio que a América de hoje ainda não a pagou no que concerne aos seus cidadãos de cor. Em vez de honrar esse compromisso sagrado, a América entregou ao povo negro um cheque inválido devolvido com a seguinte inscrição: “Saldo insuficiente”.
 
Porém recusamo-nos a acreditar que o banco da justiça abriu falência. Recusamo-nos a acreditar que não haja dinheiro suficiente nos grandes cofres de oportunidade desse país. Então viemos para descontar esse cheque, um cheque que nos dará à vista as riquezas da liberdade e a segurança da justiça.
 
Agora é tempo de tornar reais as promessas da democracia. Agora é hora de sair do vale escuro e desolado da segregação para o caminho iluminado da justiça racial. Agora é hora de retirar a nossa nação das areias movediças da injustiça racial para a sólida rocha da fraternidade. 
 
Seria fatal para a nação não levar a sério a urgência desse momento. Esse verão sufocante de insatisfação legítima do negro não passará até que chegue o revigorante outono da liberdade e igualdade. Mil novecentos e sessenta e três não é um fim, mas um começo. 
 
Há algo, porém, que devo dizer a meu povo: não tentemos satisfazer a sede de liberdade bebendo da taça da amargura e do ódio. Devemos sempre conduzir nossa luta no nível elevado da dignidade e disciplina. 
Não devemos deixar que o nosso protesto criativo degenere na violência física. 
 
Esta nova militância maravilhosa não nos deve levar a desconfiar de todas as pessoas brancas, pois muitos dos irmãos brancos, como se vê pela presença deles aqui, estão conscientes de que seus destinos estão ligados ao nosso. Estão conscientes de que sua liberdade está intrinsicamente ligada à nossa liberdade. 
 
Não poderemos estar satisfeitos enquanto a mobilidade do negro for passar de um gueto pequeno para um maior. Enquanto nossas crianças forem destituídas de sua individualidade e privadas de sua dignidade. Não poderemos estar satisfeitos enquanto um negro no Mississippi não puder votar e um negro em Nova Iorque achar que não há nada pelo qual valha a pena votar.
 
Eu sei que alguns de vocês chegaram aqui após muitas dificuldades e tribulações. Alguns de vocês acabaram de sair de pequenas celas de prisão. Vocês são veteranos do sofrimento criativo. Continuem a trabalhar com a fé de que um sofrimento injusto é redentor. Voltem para o Mississippi, para o Alabama, voltem para a Carolina do Sul, para a Geórgia, voltem para Luisiana, para as favelas e guetos das nossas cidades, sabendo que essa situação será alterada. Não nos embrenhemos no vale do desespero.
 
Digo-lhes hoje, meus amigos, que, apesar das dificuldades e frustrações do momento, eu ainda tenho um sonho. É um sonho profundamente enraizado no sonho americano.
 
Eu tenho um sonho de que um dia essa nação levantar-se-á e viverá o verdadeiro significado da sua crença, de que todos os homens são criados iguais. 
 
Eu tenho um sonho de que um dia, nas montanhas rubras da Geórgia, os filhos dos escravos e os filhos dos donos de escravos poderão sentar-se juntos à mesa da fraternidade.
 
Eu tenho um sonho de que um dia mesmo o estado do Mississippi, um estado desértico sufocado pelo calor da injustiça e da opressão, será transformado num oásis de liberdade e justiça.
 
Eu tenho um sonho de que meus quatro filhos pequenos um dia viverão em uma nação onde não serão julgados pela cor da pele, mas pelo conteúdo do caráter. 
 
Eu tenho um sonho hoje!
 
 
Eu tenho um sonho de que um dia bem lá no Alabama, com seus racistas cruéis, meninos negros e meninas negras possam dar as mãos a meninos brancos e meninas brancas, como irmãs e irmãos. 
 
Eu tenho um sonho hoje!
 
Eu tenho um sonho de que um dia todos os vales serão elevados, todas as montanhas e encostas serão niveladas; os lugares mais acidentados se tornarão planícies e os lugares tortuosos se tornarão retos. 
 
Essa é a nossa esperança. Essa é a fé com que regresso ao Sul. Com essa fé nós poderemos esculpir na montanha do desespero uma pedra de esperança. 
Com essa fé poderemos trabalhar juntos, rezar juntos, lutar juntos, ser presos juntos, defender a liberdade juntos, sabendo que um dia haveremos de ser livres. 
 
E se a América quiser ser uma grande nação, isso tem que se tornar realidade. E que a liberdade ressoe então do topo de nossas mais prodigiosas montanhas.
 
E quando isso acontecer, quando permitirmos que a liberdade ressoe de cada vila e cada lugar, de cada estado e cada cidade, seremos capazes de fazer chegar mais rápido o dia em que todos os filhos de Deus, negros e brancos, judeus e gentios, protestantes e católicos, poderão dar-se as mãos e cantar as palavras da antiga canção espiritual negra:
 
“Finalmente livres! Graças a Deus Todo Poderoso, somos livres, finalmente."
 



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