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Serra do Cipó

Importantes cadenas femininas em Minas

Recentemente a escaladora Francine Borges,fez duas ascensões muito importante na escalada feminina, primeiro fez a cadena da morfina um 9a com um bouder no meio no dia 10/09/2009 e dois dias depois 12/09/2009,encadenou a heróis da resistência 9c a via mais clássica do Cipó de quase 30mts, cada vez mais o setor feminino continua evoluindo. Com a palavra Francine...

Fonte: fpoderclimb

Por Francine Borges

Serra do Cipó

A primeira vez que fui pra Serra do Cipó foi em 1995 e desde então me apaixonei por este famoso pico de escalada brasileiro. As vias de lá são perfeitas, rocha "macia" para as mãos quando comparada aos granitos, a gente pode escalar por vários dias e a pele permanece inteira. Até hoje não conheço um escalador que não tenha gostado da Serra do Cipó, que além das escaladas ainda nos proporciona incríveis banhos de cachoeira e passeios pela serra, sem falar do queijo minas e da cachaça, pra quem gosta, hehehe.

Durante estes anos escalei muitas das vias do grupo 3, um dos setores lá na Serra do Cipó, desde 5° até 9c, minha última conquista. Todas as vias têm um valor especial pra mim, pois o fato de poder estar lá já vale muito a pena!

Mas falando das duas últimas cadenas, que rolaram na semana passada...

Já fazia mais de 2 anos que eu estava entrando na Morfina (9a), sem estress claro, tinha fim de semana que eu dava uns 2 pegas na via, as vezes passava meses sem nem pensar em voltar a tentar o crux dela, que para mim, que tenho 1,52m de altura, é bastante exigente, já que tenho que dar um bote, de perder os dois pés, em um tridedo. Além da força e explosão do lance, ainda tem que acertar a mira... hehehe

Em julho do ano passado eu lesionei o dedo anelar da mão direita, tentando a Ética Decomposta (9b), também no Cipó. Tive que ficar parada até dezembro do ano passado recuperando da lesão fiquei esse tempo sem escalar e aproveitei pra me dedicar a faculdade. Em dezembro mesmo fui pra Bariloche e fiz uma base pra fortalecer os dedos, o corpo e a mente. Escalei muitas vias de 6° e 7°, só no fim da viagem entrei em 8° e em um 9°, isso foi crucial para a recuperação.

Em julho passei 10 dias no Cipó, escalando tudo o que eu podia, mas sem exageros. O que eu queria era escalar, me mover na rocha, aproveitar a serra do cipó. Agora em setembro, resolvi esticar o feriado e ficar, novamente, 10 dias no Cipozim e foi muito bom. Havia pouca gente escalando no feriado e nos dias de semana menos gente ainda... Aproveitamos pra escalar muito, vias como Lamúrias de um viciado (7b), O dia em que a terra parou (7b), Esqueceram de mim (6sup/7a) e as duas vias que eu queria encadenar: Morfina (9a) e Heróis da Resistência (9c). No início da semana eu entrei nas duas vias, já estava fazendo a Morfina com uma queda e a Heróis com duas, porém eu tinha dificuldade no crux da segunda parte da Heróis, logo depois do descanso tem um lance de tridedo, que sempre me custou muito. Recebi um beta que me ajudou demais, a Fernanda (escaladora de MG), me deu o beta de um reglete pra ajudar a chegar mais perto do tridedo e dito e feito.

Na quinta-feira (10/09) encadenei a Morfina, cheguei no grupo 3, aqueci na Lamúrias, dei uma entrada na Morfina, caí no tridedo, mas já estava muito feliz por ter agüentado alguns segundos nele. Logo em seguida entrei novamente e consegui realizar a via sem quedas, do inicio ao fim. Foi uma sensação única, tudo fluindo perfeitamente bem... nessa hora a harmonia entre escalador e rocha é plena... a satisfação e alegria de superar nossos próprios limites é muito boa! Quem escala sabe exatamente o que é isso, para os que não escalam é difícil entender o sentido de ficar subindo em “pedra”, mas nós sabemos o valor de cada escalada...

Aproveitei pra descansar na sexta e sábado subi pra escalar. Eu e a Natasha entramos na via “O dia em que a terra parou” (7b) uma via linda e longa, ao lado da Lamúrias, logo na sequencia entrei na Heróis, estávamos apenas nós duas na Sala de justiça, momento raro, pois este setor é bastante requisitado e vive cheio de gente. A via é longa e há um descanso providencial antes do crux do tridedo, cheguei neste descanso e aí fiquei, pensando e conversando comigo mesma... respirei tranquilamente, até estar preparada pra fazer o crux... lembrei das palavras do Kava: toda entrada é uma entrada, hehehe... pensei em aproveitar a chance, estava ali, o dia ensolarado mas com um ventinho gostoso que refresca enquanto descasava, aquele ventinho da cadena, palavras do Wagninho (hehehe). Confesso tbm que lembrei o quanto tem que escalar pra chegar no descanso e resolvi dar o máximo de mim. Só avisei a Natasha que eu ia seguir e fui, me concentrei no movimento, bloquei a mão esquerda e me lancei pro tridedo, quando vi havia parado na agarra, respirei fundo, juntei a mão esquerda em um reglete ao lado, subi os dois pés e me lancei pra agarra grande, de mão esquerda... ainda não havia acabado, fiz mais 3 lances e costurei, respirei novamente, conversei comigo de novo, tentando manter a calma e a euforia de estar ali, realizando todos os movimentos sem nenhum erro... fiz mais uma costura, mais alguns movimentos e estava no top da via... o grito de alegria saiu naturalmente... Como é bom escalar e se superar a cada escalada... sempre respeitando a si, aos outros e a natureza... este é o espírito!

Bons ventos a todos... boas escaladas... namastê!

Francine Borges

Introdução de Fábio Poder

Fotos: Murilo Vargas

Fonte: fpoderclimb

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