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Polêmica no himalaísmo brasileiro

Maximo Kausch reafirma sua escalada no Shishapangma e acusa Cleo Weidlich

O montanhista Maximo Kausch, que recentemente escalou o Shishapangma Central enviou uma carta ao AltaMontanha onde acusa Cleo Weidlich de omitir fatos no relato em que narra sua tentativa de escalar o Shishapangma nesta temporada.

Fonte: Maximo Kausch

Liderando uma expedição no Ama Dablam – Nepal, o montanhista argentino/britânico/brasileiro Maximo Kausch nos enviou uma carta acusando a montanhista brasileira/americana Cleo Weidlich de não ter feito escalada alpina como em seu relato que descreve a tentativa de escalar o Shishapangma no Tibet, nesta temporada.

Maximo Kausch também esteve no Shishapangma, onde liderou uma expedição até o cume do Shishapangma Central, que é um cume secundário da montanha. Estando na mesma montanha, Maximo pôde observar a progressão de Cleo, que tentava a montanha por uma rota mais técnica que chega diretamente no cume principal da montanha.

Cleo Weidlich é a montanhista brasileira com o mais extenso currículum de montanha no Himalaia, com 5 cume de 8 mil metros e outras dezenas de montanhas. Cleo até 2009 era uma desconhecida do público brasileiro, pois apenas utilizava sua identidade americana. Ela foi “descoberta” naquele ano pelo historiador do montanhismo Rodrigo Granzotto Perón, que desde então passou a acompanhar de mais perto suas experiências.

Comparando declarações de Cleo com de outros montanhistas e líderes de expedição no Himalaia, assim como os dados de Miss Hawley, Perón pôde perceber que haviam muitas informações desencontradas. Assim como Perón, Maximo também encontrou inconsistências nas declarações de Cleo e juntos decidiram investigar a montanhista, produzindo uma matéria com questionamentos que nunca foram respondidos.

Conectado à internet satelital na base do Ama Dablam, Maximo se diz indignado com as declarações de Cleo sobre o Shishapangma e escreveu a carta que se encontra, na íntegra, abaixo. Ele afirma que tem muitas testemunhas que contestam as declarações de Cleo Weidlich, que ele afirmou serem fantasiosas.

Confira a declaração de Maximo Kausch na íntegra:

Cleo Weidlich obviamente está publicando essas noticias retaliando a matéria investigatória que eu ajudei a escrever sobre 10 escaladas controversas dela. A matéria foi escrita junto ao grande historiador Rodrigo Granzotto Perón no ano passado.

Sobre o Shishapangma eu jamais disse que cheguei ao cume Sul. Deixei bem claro que minha expedição alcançou o cume central da montanha assim como todas as expedições presentes na montanha. Conduzir clientes de uma expedição comercial através da acidentada crista entre o cume central e sul ficou muito difícil este ano. Haviam diversas cornijas, placas soltas e estava realmente perigoso. Talvez tenha havido alguma confusão, pois não tive tempo de escrever um relato. Só tive 3 dias em Kathmandu assim que eu desci.

No momento estou guiando um grupo de 10 pessoas aqui no Ama Dablam e não tive tempo para nada. Porém deixei e deixo claro que chegamos ao cume central.

Encontrei com a Cleo e seus 3 Sherpas pessoais descendo do acampamento 2(cada um puxando ela por uma parte, um puxando uma corda, outro carregando a mochila dela...) Em seu relato, ela diz ter sido 'o primeiro grupo de alpinistas a escalar a face sul sem a ajuda de cordas'. Quando perguntei a ela a que altitude chegaram ela disse 7600m, ou seja, 100 metros acima do acampamento 3.

Isso é o que ela fala, porém segundo os Sherpas na montanha, Cleo não saiu do acampamento 3. Outros dizem que ela nem saiu do acampamento 2. Porém apenas Cleo e os Sherpas podem nos contar a verdade. Baseando-se no histórico dela, realmente fico na dúvida.

Cleo teve 2 tentativas frustradas no Shishapangma no outono de 2011. Na primeira ela decidiu usar a rota aberta pelo nosso sherpa Jangbu ate o acampamento 3, porém o tempo estava ruim e ela ficou vários dias acima do C1. Ela estava tentando ser a primeira pessoa no cume neste ano e realmente forçou a barra escolhendo os piores dias para subir, aproveitando que ninguém estava lá. A questão que todos levantavam no base é que ela poderia estar fazendo isso para não ter testemunhas sobre um possivel fracasso de cume e depois dizer que esteve no topo mais tarde, como ela já foi acusada outras vezes. O difícil mesmo era para os pobres Sherpas dela que eram obrigados a subir e carregar peso nas piores das condições. Inclusive ela chegou a mandar um Sherpa embora porque ele estava preocupado com as condições péssimas. Porém mais tarde ela acabou recontratando ele e pagou 400 dólares a mais. Isso segundo os membros da própria expedição da Cleo, Asian Trekking.

A Cleo é motivo de piada aqui no Himalaia. A grande maioria das pessoas que já escalaram com ela ou perto dela tem algum tipo de  anedota a respeito das declarações dela ou da excentricidade dessa curiosa  pessoa. Na expedição do Shishapangma por exemplo, todos os que  dividiam base com ela passaram no nosso acampamento para contar anedotas da Cleo. Aparentemente ninguém suportava ela. Não convivi com a Cleo, portanto não sei dizer se consigo suportar ela ou não, no  entanto o pouco que conversei com ela foi suficiente para perceber um montão de informações erradas e fantasias.

No ano passado, por exemplo, ela me contou sobre várias montanhas que ela supostamente teria escalado no Himalaia e Karakoram. Publicamos uma matéria no AltaMontanha.com  com todas essas conquistas. Pouco tempo depois, no entanto, começaram a aparecer controvérsias e publicamos outra matéria com todas elas. A Cleo, no entanto jamais respondeu e inclusive até negou ter falado comigo. Nessas controvérsias existem verdadeiras pérolas.

Ela diz ter escalado o K6, montanha muito difícil no Paquistão que foi escalada apenas por poucas expedições. Ela também diz ter escalado uma montanha chamada Mouneera Peak, que na verdade nem existe!

Cleo chegou ao ponto de dizer que por ela ter resgatado e salvo a vida de 3 escaladores nepaleses no Everest, o governo do Nepal concedeu permissões gratuita a ela pelo resto de sua vida! E os absurdos continuam...

Ela obviamente ficou sentida com essa matéria e fez de tudo para me evitar no Shishapangma. O motivo de ela ter publicado essa matéria obviamente e uma retaliação para o que eu publiquei sobre ela.

Lendo o relato dela vejo diversas contradições. Por exemplo, a sondagem dela e do Sherpa, jamais aconteceu. O próprio Kami nos contou que a Cleo nem saiu do acampamento 2. E além da Cleo e do Kami, a Cleo naquela ocasião na verdade contratou mais um Sherpa.

Eu já presenciei a Cleo escalando, ela é uma das pessoas menos preparadas que já vi se mover numa montanha e depende totalmente de ajuda de terceiros para se locomover e carregar peso. Já vi com meus próprios olhos no Paquistão como o porteador de altitude dela calçava os crampons nas botas dela e trocava o freio oito cada vez que eles rapelavam numa ancoragem. Esta pessoa não tem a capacidade física de fazer o que ela diz ter feito no relato. Se quiserem, quando eu descer daqui posso pegar os relatos de cada pessoa e provar todas essas inúmeras contradições.

A escalada em 'estilo alpino', por exemplo. Jangbu Sherpa fixou 600m de corda junto com Kami Sherpa da IMG Expedition. O 'estilo alpino' foi por cordas fixas que inclusive eu comprei em Kathmandu 3 dias antes da expedição.

Nos dias de ócio no acampamento-base, muitos chegamos a conclusão de que a Cleo sente algum tipo de necessidade de se auto afirmar e contar detalhes que não aconteceram. Ela de fato esteve em muitas montanhas do Himalaia e Karakoram e tem um curriculum respeitável. Cleo não precisa mentir a respeito de tantas coisas, porém por algum motivo que desconheço, ela insiste em fazer o mesmo a cada escalada. Muito triste.

Como eu disse, não tenho nada a esconder. De fato nasci na Argentina, porém morei até os 6 anos de idade. Nos últimos anos eu não moro em nenhum lugar, pois escalo praticamente o ano todo. Tenho cidadania argentina e inglesa. A discussão se sou brasileiro ou não é bem longa. Morei a maior parte da minha vida no Brasil, me alfabetizei e aprendi a escalar por lá, por isso me considero culturalmente brasileiro, inclusive sou radicado e meu endereço de correspondência é o de lá, na casa da minha família.

Maximo Kausch


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