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Via do Compressor – Cerro Torre

Após remover grampos, escaladores são ameaçados na Patagônia

Os escaladores Hayden Kennedy e Jason Kruk recentemente se envolveram em uma polêmica histórica: A remoção dos grampos da via do Compressor no Cerro Torre na Patagônia. De acordo com o jornal La Cachaña de El Chaltén, cidade argentina onde fica a montanha, a dupla sofreu ameaças e foi parar na delegacia. Os grampos foram confiscados.

Fonte: Jornal La Cachana

A ascensão de Cesare Maestri no Cerro Torre em 1970 utilizando uma potente furadeira movida a um compressor é parte de um dos capítulos mais polêmicos da história do montanhismo mundial (Para entender esta polêmica, leia o artigo “A conquista do Cerro Torre” parte 1 e parte2).

Os grampos fixos deixados na parede sudeste do Cerro Torre nunca foram aceitos, nem mesmo por Maestri, que logo após escalar a montanha, removeu algumas proteções na parte superior da montanha, uma parte ainda pequeno diante dos mais de 300 grampos deixados ali. Em 2007, os americanos Josh Wharton e Zach Martin chegaram a anunciar a remoção destes artifícios, mas houve um consenso em Chaltén que tais proteções, por mais que fossem polêmicas, deviam ser deixadas como parte de um patrimônio histórico do montanhismo mundial.

Mesmo após este consenso, o lendário montanhista Ermano Salvaterra declarou para a revista Desnível no ano passado que quem conseguisse escalar a rota do Compressor sem tocar nestes grampos, poderia ter direito a retirá-los na descida, feito realizado neste ano pelo Canadense Jason Kruk e o americano Hayden Kennedy.

Kruk e Kennedy já esperavam pela polêmica que seria resultado de seus atos, mas não imaginavam o desfecho que a história levou. Cercado por uma multidão de 40 pessoas, Jason quase foi linchado em uma cabine de telefone público em El Chaltén. Salvo pela polícia, que depois de tirar Kruk da enrascada, passou pela casa onde se hospedava Hayden, e encaminhou ambos para a delegacia para prestar esclarecimentos e devolver os grampos, que totalizaram 102, às autoridades argentinas.

Passado o susto e as explicações, a dupla, junto com o escalador Colin Haley e Rolando Garibotti concederam entrevista ao jornal La Cachanã (Argentina) onde contaram detalhes sobre a escalada e a remoção dos grampos no Cerro Torre e suas opiniões sobre o ocorrido:

La Cachaña: Retirar os grampos de Maestri era algo que tinham pensado quando planejaram subir o Torre?

Hayden Kennedy: Neste ano viemos pra Patagônia simplesmente para escalar, não tínhamos planejado de antemão retirar os grampos, nem sequer escalar a face Sudeste do Torre. Escalamos a Agulha Standhardt, Egger e também o Torre, mas não havíamos planejado, necessariamente, por aquela rota, porém, com o tempo caloroso e as condições climáticas favoráveis tivemos a possibilidade para tentar. Jason já conhecia bem a rota, porque no ano passado, junto com Chris Geisler, chegaram a cerca de 60 metros do cume por ali.

Jason Kruk: Em nenhum momento durante a ascensão pensamos em retirar os grampos da parede, nem sequer durante a escalada estávamos certos que chegaríamos ao cume. Para nós, quando te põe em pensar somente o objetivo, você perde a experiência de estar vivendo aquilo que está fazendo, isso é o importante para a gente. Foi somente no cume que decidimos retirar os grampos de Maestri.

La Cachaña: Vocês imaginavam que podiam acontecer todos estes problemas?

Hayden Kennedy: Discutimos e sabíamos que haveria muita gente que não ia gostar e que na internet seria muito comentado isso, mas não esperávamos esta reação do povo.

Jason Kruk: Não esperávamos que uma multidão enfurecida fosse nos atacar, para a gente foi muito triste que eles não vieram conversar conosco. Perdemos amigos por conta disso.

Hayden Kennedy: Não esperávamos tudo isso e também que iríamos terminar na delegacia de polícia. Igualmente, ao tomarmos a decisão, Jason e eu temos que estar preparados para as conseqüências.

Jason Kruk: Não nos importa o que os outros pensem de nós, tomamos esta decisão e estamos preparados para viver com isso. Nunca haverá um consenso sobre que lado está certo, assim, simplesmente o fizemos.

La Cachaña: Isso é algo comum? Quando um escalador resolve escalar uma via em livre e em estilo limpo remover as proteções fixas da parede? Eles têm direito de removê-los?

Colin Haley: Na escalada, os grampos de expansão começaram a ser utilizados na década de 1950, antes eles não existiam. Desde que começaram a ser usados, provocaram muitas controvérsias, pois permitem que qualquer escalador possa escalar qualquer montanha. Se você bate muitos grampos, pode escalar o que quiser sem dificuldade. Houve muitos casos que sacaram grampos de vias que eram demasiadamente protegidas. Não diria que é comum, pois na maioria das vezes os grampos estão onde faz sentido que eles existam, onde não há agarras naturais. Normalmente os grampos são retirados de lugares onde não faz sentido de estar, como perto de fissuras. A rota do compressor era uma das rotas com maior numero de grampos do mundo.

La Cachaña: Por que vocês removeram os grampos?

Colin Haley: As razões para fazer algo assim são muito claras para as pessoas do mundo da escalada. É muito difícil de explicar, mas o importante é o respeito à natureza, creio que sacar os grampos deixa limpa a montanha e agora só se pode escalar ela de uma maneira limpa, o que se põe se tira. De um lado está o “faço o que for preciso para chegar ao cume da montanha” e do outro está o respeita à ela.

Hayden Kennedy: É basicamente devolver a montanha à seu estado natural.

Jason Kruk: As pessoas que vieram pra cima de nós enfurecida me disseram que se elas fizessem o mesmo que fiz aqui na minha cidade, o mesmo aconteceria à elas. Mas eu quero convidá-los a ir lá e ver como se sentirão em suas casas. Eu farei todo o possível para se sintam bem vindos.

Colin Haley: Minha opinião é que parte do que aconteceu tem a ver com a escalada, mas também com o nacionalismo, acredito que muitas das pessoas que estavam bravas não estariam se Hayden e Jason fossem argentinos. Para mim, esta lógica não tem sentido, as montanhas são parte do mundo natural e o Cerro Torre pertence à todos escaladores do mundo, sem importar a nacionalidade. Uma atitude assim beira a discriminação.

Hayden Kennedy: Outra coisa que disseram é que nós estamos passando a borracha sobre uma parte de suas histórias, entretanto esta história não é a escrita, está feita e vai evoluindo. Esta é uma montanha muito polêmica e isso é só um capítulo. Não se pode roubar a história.

Rolando Garibotti: Eu estou totalmente de acordo com tudo e quero realçar o que disse Colin sobre ser local. O local julga pelo coração, é onde ele dedica seu tempo e sua energia. Para mim, estas pessoas são locais, porque vêem aqui todos os anos e colocam muita energia sobre estas montanhas. Eu tenho vivido mais de 15 anos fora da argentina e nunca ninguém me fez sentir que eu não era um local, eu saquei grampos, regrampeei vias, coloquei grampos e nunca ninguém me fez sentir que não podia por que falava outro idioma ou porque eu tinha sotaque.

Conlin Haley: A verdade também é que não há gente local de El Chaltén, todos são de fora.

Rolando Garibotti: A discussão sobre estes grampos é uma discussão filosófica, é uma discussão sobre qual é o sentido da montanha e porque vamos à montanha. Os grampos são um atalho para chegar ao cume, quando não tens capacidade para chegar. Para mim, o que interessa é a qualidade da experiência, eu prefiro não chegar a um cume se não tenho recursos e os meios para fazê-lo, é uma escolha pessoal, é uma questão estética. Há pessoa que vão para a montanha apenas para fazer o cume e há pessoas que vão pela experiência chegar até lá, a batalha que implica confrontar a natureza em seus próprios termos, seguindo alguns parâmetros básicos da escalada. Quanto ao que você utiliza, quanto menos, mais ético seu estilo.

La Cachaña: Ao remover estes grampos, não estão sendo injustos para aquelas pessoas que só conseguiriam escalar a montanha com a ajuda deles?

Rolando Garibotti: Mas então que coloquemos uma escada rolante até o cume do Torre! Há em algum lugar um lado negro do montanhismo, porque não é um esporte ainda muito bem definido. Maestri, sem dúvida, cruzou para este lado negro desde o começo. O que fez Maestri foi uma aberração. A questão é: O cume justifica os meios? Eu vou para a montanha procurar dificuldade, procurar desafio... E depois utilizo muitos meios para facilitar o caminho? Não há sentido! Alguém até poderia argumentar que teríamos que escalar pelados, pois até as cordas não seria justo. Bom, há parâmetros básicos aceitos pelos escaladores onde é permitido levar suas roupas, cordas, mochilas e outras coisas. Tudo o que vai além disso, furadeira, cordas fixas e outras tecnologias, tem um menos valor por uma questão simples: está utilizando muitos meios, desafiando menos a montanha com sua própria capacidade. Disto se trata a honestidade, a modéstia e se você não tem o nível técnico, escolha uma montanha mais fácil. Uma pessoa que quisesse fazer o Torre pelo compressor, hoje pode ter a mesma qualidade de experiência escalando outra montanha da mesma dificuldade que era. O que não vai ter mais é o nomezinho de turista “Eu escalei o Cerro Torre”, pois senão, que se instale uma escalada rolante, que tenha helicóptero e outros. Se começamos com a discussão que limitamos a possibilidade dos outros, então não há limites. Acabou!

O que de bom poderia acontecer é montar outra reunião, pois muita gente estava escalando quando aconteceu. Com todos presentes, os dois lados, poderemos confrontar as versões e opiniões.

Ao final, tudo foi uma questão de respeito, de respeitar os espaços. Os grampos pertencem a um museu a história continua estando aí, a história continua.

Fonte: Jornal La Cachaña

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:: A conquista do Cerro Torre - parte II

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