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Ricardo - Rato - Baltazar

Fim da temporada com escalada na Mermoz

Recebemos o derradeiro relato do escalador gaúcho Ricardo “Rato” Baltazar sobre a temporada 2011/2012 na Patagônia Argentina. Depois de permanecer por mais de três meses em El Chaltén, Ricardo está retornando ao Brasil, provavelmente antes do Carnaval. Foi uma proveitosa temporada para ele. Com um bom desempenho nas exigentes condições do local, Ricardo acabou alcançando 5 cumes importantes neste período. Além do Cerro Torre, ele fez cume na Poincenot, Saint-Exupéry, Innominata e por último, no final de janeiro, a Aguja Mermoz, no cordão de montanhas do Fitz Roy.

Fonte:

Texto: Ricardo "Rato" Baltazar                         Introdução: Eduardo Prestes

A Mermoz possui 2723 metros e está localizada entre as agulhas Guillaumet e Val Biois, e próxima ao Pilar Casaroto e ao próprio Fitz Roy. A montanha foi batizada pela expedição francesa que esteve em Chaltén em 1952, elaborando mapas e realizando escaladas (inclusive a primeira ascensão no Fitz Roy). O homenageado, Jean Mermoz, foi um piloto francês que voou na região na década de 30, trabalhando para o correio postal argentino (operado na época por uma empresa francesa). Ele morreu jovem, com 35 anos, quando seu avião perdeu-se nas águas do Atlântico Sul, junto com outros três colegas. Para a escalada da Mermoz, o parceiro de Ricardo foi o curitibano Alessandro, que já havia escalado a Aguja Saint-Exupéry uns dias antes. A rota escolhida para a ascensão foi a Via Argentina, na face noroeste. Trata-se de uma linha com cerca de 600 m de extensão (mais aproximação), graduada em 6ª+ francês. Por esta via foi feita a primeira ascensão da Mermoz, em 1974, pelos argentinos H.Cuiñas, G.Vieiro e F.Olaechea. A via inicia na face oeste e busca a crista noroeste da montanha, e daí para o cume. É uma via de dificuldade moderada, com trechos onde é possível escalar em simultâneo. Com bom tempo e movendo-se com eficiência, Ricardo e Alessandro conseguiram subir e descer a Mermoz em um único dia.

Ricardo tinha planos de tentar ainda mais uma ou duas montanhas, mas o bom tempo de janeiro deu lugar a uma primeira quinzena de fevereiro com tempo ruim. Já satisfeito com o saldo da temporada, Ricardo tomou a decisão de voltar ao Brasil. Em sua última mensagem enviada a partir de Chaltén, Ricardo comenta a escalada da Mermoz e faz um breve balanço de suas experiências nestes meses de exílio na Patagônia. 


Bamoooo maluco !

Bora, bora, bora !

Pues, depois de mais de três meses aqui em Chaltén, acho que está chegando a hora de voltar para a terrinha. Foi uma temporada rica em experiências e descobertas, e também bastante completa em termos técnicos. Tentei dividir um pouco os momentos que passei nas montanhas e com os amigos, mas foi apenas uma pequena amostra. Na Patagônia, tudo é muito intenso, seja resistindo ao tempo e ao desgaste físico, seja celebrando nos bares e acampamentos. Tem coisas que é preciso viver para entender. Numa temporada dessas, além das lembranças, o que fica de mais importante são as amizades que fazemos nas montanhas, que são para sempre.

Em relação às escaladas, minha despedida acabou acontecendo na Mermoz. Depois de voltar do Cerro Torre, fiquei uns dois dias em Chaltén, me recuperando. Mas logo veio uma nova janela de tempo bom, e aqui é preciso aproveitar as oportunidades que aparecem. Acabei acertando uma investida com o Alessandro, de Curitiba. Uns dias antes, ele já havia escalado a via Chiaro di Luna, na Agulha Saint-Exupéry, junto com um escalador de Brasília, o Guilherme. Nesta brecha, o Guilherme havia seguido com mais dois argentinos para o Pilar Casaroto, enquanto eu e o Alessandro fomos para a Mermoz, uma agulha entre a Guillaumet e a Agulha Val Biois, próximas da face norte do Fitz Roy. O acesso é feito com uma caminhada até o acampamento Piedra Del Fraile e dali subindo para o bivaque Piedra Negra. Escalamos a Via Argentina, na face noroeste, tem uns 600 metros, com umas passadas de 6b. A escalada durou um dia cheio. Começamos às 7 da manhã, depois de bivacar no pé da parede. Chegamos ao cume lá pelas 3 da tarde e às 7 da tarde já estávamos na base novamente. Foi uma escalada tranquila e veloz, um bom encerramento para a temporada. O único imprevisto foi o corte de uma das cordas por um bloco que caiu. Na verdade, estão caindo muitas coisas das montanhas, porque tem feito calor e o degelo acaba soltando as pedras. Ocorreram alguns acidentes por aqui neste ano, relacionados com isso.

O pior dos acidentes foi a morte de uma amiga canadense na Saint-Exupéry, a Carlyle Norman. Ela era guia de montanha, tinha 25 anos e estava no camping com a gente, assim como o parceiro dela na escalada, o Cian. Uma pedra soltou da parede e a atingiu na cabeça, rachando o capacete. Quando descemos do Cerro Torre, tinha muita gente no vale, em Niponino. Eu fiquei para descansar um dia e o Victorio seguiu para Chaltén, pois tinha que trabalhar. O Cian tinha descido da montanha, sem conseguir trazer a Carlyle. O Rolo Garibotti, o Colin Haley e mais dois escaladores foram tentar o resgate, fizeram várias cordadas na via, mas o tempo fechou e eles não conseguiram chegar até ela. Chovia, estava bastante frio, a rapaziada fez o que pode, mas não deu. Nem com o helicóptero da Red Bull foi possível resgatá-la. No outro dia, chegou-se a pensar em uma nova tentativa, o Toni Ponholzer estava por ali, todos querendo ajudar, mas o clima estava sinistro. A menina era querida por todos, ficou um astral meio baixo depois disso. Mais tarde, juntei minhas coisas e desci para Chaltén. Encontrei o Cian no camping, arrasado. Lembrei também do ano passado, quando o Bernardo não conseguiu voltar do Fitz Roy. Nestes momentos, percebemos o quanto estamos expostos nas escaladas na Patagônia e como é difícil qualquer tipo de resgate nestas montanhas.

Falando no Toni, ele acabou não conseguindo escalar a face norte do Cerro Torre, que era o projeto dele no início da temporada. Mas ele voltou em janeiro com a equipe da Red Bull e subiu o Cerro Torre pela face oeste (Via Ragni), junto com um amigo austríaco (o Marcus). O propósito não era chegar ao cume, mas auxiliar nas filmagens da escalada em livre do David Lama na crista sudeste. De volta a Chaltén, os austríacos fizeram um estrago, bebendo cerveja em quantidades incomensuráveis !

Já os italianos malucos, para os quais fizemos o porteo das cargas até o Circo dos Altares no início do ano, se meteram numa epopéia lá na face oeste da Torre Egger. Os Matteos (ambos tem esse nome) estavam quase chegando no colo entre a Punta Hérron e a Egger, o guia mandando um artificial cabuloso num teto gigante, quando sacou uma das peças e o Matteo guia vazou, arrancando todas as porcarias que ele havia colocado no teto, o bicho aterrisou na testa do outro Matteo que estava embaixo, arrancando até a filmadora que estava presa no capacete dele. O guia ainda continuou caindo mais uns quantos metros até a segurança travar. Isso lá no meio do nada, bem depois da PQP ! Não satisfeito com o voo, ele ganhou o teto de novo, resolveu bater um spit, mas a broca quebrou. Depois de mais peripécias e quedas, acabaram descendo sem terminar a via. O intenso e inesperado calor fez com que as rimaias na base da via se transformassem em cânions engolidores de gente. Como o glaciar começara a se desfazer, os caras resolveram voltar para Chaltén, para comprar mais umas escadas, quando o tempo fechou de vez. Eles então deixaram a face oeste da Egger para a próxima temporada, parece que a diversão ainda não foi suficiente para eles, deve ser encrenca pura o bagulho.

Vários brasileiros mandaram bem por aqui em janeiro. Uma rapaziada de Minas escalou a Media Luna, o Mocho e mais uma agulha que eu esqueci. Eram o Luiz Lugoma, o Pedrinho, Edgar (Kaka) e o Gustavo. O Guilherme e o Alessandro subiram a Chiaro di Luna, na Saint-Exupéry. Depois o Alessandro subiu comigo a Mermoz e o Guilherme subiu com um casal de argentinos a Mate,porro e todo lo demás, no Pilar Casaroto. Esta mesma via foi escalada pelos amigos Bonga e Irivan, até o cume do Fitz Roy, os caras mandaram muuuuuito. O Chiquinho e o Erminio (de Curitiba), junto com o Valentin (argentino de Córdoba) escalaram o El Mocho. O Daniel e o Eduardo (de Joinville/SC) fizeram uma tentativa na Franco-Argentina, no Fitz Roy, mas as condições da Brecha dos Italianos estavam ruins, tudo muito instável.

E foi isso, depois da onda de calor do final de janeiro, o tempo fechou. O que não choveu na temporada está caindo agora, em fevereiro, ficou sinistro mermão. Na montanha então, está um pandemonium, pobre dos brazucas que chegaram agora para escalar. Mas a Patagônia é assim, um jogo de paciência.

Nunca tive um plano para a temporada, as coisas foram simplesmente acontecendo. Na verdade, no início, eu nem sabia o que eu estava fazendo aqui outra vez ! Mas essa Patagônia gruda na gente. Não pensei que a Mermoz seria o último cume da temporada. Ainda tinha “ganas” de escalar, tentar a Aguja de la S ou a Val Biois, para ir completando todos os cumes principais do cordão do Fitz Roy.  Mas a paciência e a resistência já não são as mesmas do início da temporada. Eu estou meio sem grana, os porteos escassearam, vou ter que pagar excesso de bagagem, também estourou meu tempo na Argentina. Com o clima péssimo, sem perspectiva de melhora a curto prazo, antecipei a passagem. Só consigo pensar em praia !

E eu ando mesmo precisando de um resgate do soldado Ryan. A carcaça está reclamando. Essa brazucada que anda por aqui acorda lá pelas 11h, toma mate, joga um futebol e lá pelas 3 da tarde começa a função, os caras começam a entornar vinho goela abaixo, vira uma festa de loucos, e tem sempre alguém dando de beber aos animais, o troço não pára ! A qualquer hora, tem alguém disposto a tragar litros incomensuráveis de algum líquido volátil. Preciso fugir daqui, rápido, o fígado está na capa !

Sobre o futuro, o plano é continuar sobrevivendo ! Ou melhor, conseguir sair da Argentina e seguir na pelea. Por isso eu digo: escalar é a parte mais fácil ! Difícil é chegar até aqui, conseguir comer por três meses e juntar um dinheiro para ir embora. É sempre na estica, acho que eu nasci predisposto a me meter em roubadas, o Inhaca não me larga !!!

Por outro lado, meu orgulho tem sido sobreviver, às montanhas, às dificuldades. Na Patagônia, as montanhas reservam lições de auto-conhecimento, ao alcance de qualquer um que se disponha a buscar suas encostas. Trata-se de uma tarefa árdua, que precisa ser aceita de bom grado, despindo-se dos conceitos que formamos quando estamos com os dois pés no chão. A impressão que tenho é de que quanto mais montanhas eu escalo, mais longe eu estou de ser um escalador. Vencer significa voltar para casa e para os meus. E a maior conquista é permanecer uma pessoa simples, capaz de rir como uma criança pela vida.

Agradeço ao pessoal do Alta Montanha, em especial ao Pedro Hauck, por acreditar na idéia e abrir o espaço para os relatos no site. Agradeço também a minha família, aos amigos e a Deus, por tudo o que fizeram e fazem por mim.

Dedico esta temporada e estas escaladas ao meu grande amigo Vladimir Henkel, o Vladi, parceirão de canionismo, e que por um capricho do destino, partiu cedo. Ele certamente está lá em cima, me guardando e dando muitas risadas com todas estas roubadas nas quais eu me meti e me safei não sei como.  

Agradeço ainda a todos que acompanharam os relatos aqui no Alta Montanha e deixaram seu comentário, a vibe chegou na Patagônia ! Valeu !!!

Grande abraço, e nos encontramos na próxima temporada ! Fiquem com Deus e zás !!!

Ricardo “Rato” Baltazar

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