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Filas no Everest.

O Everest nas palavras de Ueli Steck

O alpinista suísso foi um dos primeiros este ano a alcançar o cume do Everest sem uso de oxigênio engarrafado. Narra toda sua aventura em longo depoimento e discute temas atuais como a utilização de O2 e os engarrafamentos acima do Colo Sul.

Fonte: Blog do Ueli Steck e Desnível

Um dos primeiros cumes no Everest em 2012 foi protagonizado pelo suísso Ueli Steck, que chegou ao teto do mundo em 18 de maio pela Face Sul sem necessidade de oxigênio artificial. De fato, foi o primeiro de uma lista muito reduzida a chegar ao cume sem O2 engarrafado, com apenas um punhado de montanhistas entre os quais se encontra também seu companheiro nepales Tenji. Em 2011 Ueli Steck abortou a escalada pela Face Norte a menos de 200 metros do cume diante da eminência de sofrer graves congelamentos. Agora, dias depois de sua escalada vitoriosa, publica um resumo completo de sua aventura num longo comunicado apontando as razões pelas quais decidiu enfrentar o Everest. 

Porque ir ao Everest?

Existe algumas coisas na vida de um alpinista que precisam ser feitas. Para mim, uma delas era escalar o Monte Everest. Este era um dos objetivos que desejava alcançar como escalador e alpinista.

O Monte Everest é o ponto mais alto da Terra. Em nenhum outro lugar o ar é mais rarefeito do que no Everest. É o terceiro Pólo. Escalar a montanha mais alta do mundo é uma idéia que nunca saiu da minha mente.

Apesar disto, estava assustado. Esta montanha está, do ponto de vista comercial, literalmente congestionada. Um grande negócio tem se desenvolvido ali nos últimos anos. É um negócio direcionado aos clientes, que tentam fazer o cume através de rotas fixas com o uso de oxigênio artificial. Sem este recurso, até agora, foram registradas 142 escaladas. É apenas uma pequena porcentagem em comparação com as outras 6.000 escaladas.

Depois de Loretan e Troillet, nenhum outro suíço conseguiu chegar ao cume e retornar ao campo base sem oxigênio. Isto me fascinava. Muitos montanhistas fortes necessitaram de várias tentativas para fazer cume sem usar deste fantástico dopping engarrafado.

Escalar o Everest é uma decisão muito pessoal. Para mim, uma escalada usando oxigênio nunca foi uma opção. Desde o princípio, queria alcançar o cume de verdade, sem ar engarrafado.

Companheiro nepalês e a estratégia anti congestionamento

Tenji é um jovem nepalês de 21 anos a quem conheço a muitos anos e que também já havia trabalhado para mim no passado. Agora, ele queria também subir o Everest sem usar oxigênio. O convidei para escalar comigo. Não como sherpa carregando meu equipamento. Queria que escalasse como meu companheiro. A princípio era uma situação difícil para ele aceitar. Assim eu também poderia fazer o chá e isto era outra situação inusitada para ele. Porém, de algum modo, aceitou a nova situação e passamos um bom tempo juntos. Mudou de Sir a Daí. De senhor a irmão.

Havia de antemão estudado exaustivamente as previsões de tempo. Sabia que isto seria um fator importante. Tenji e eu estávamos perfeitamente aclimatados. E havíamos passado uma noite no Colo Sul a quase 8.000 metros. Meteotest (empresa de metereologia) me enviou uma previsão positiva para 17 e 18 de maio. Para 19 asseguravam ventos mais fortes e de 20 para frente a coisa ficava crítica. Então se apresentava o seguinte problema: O congestionamento.

O número de alpinistas presentes na rota ao mesmo tempo que nós representava um perigo em potencial. Não podíamos ficar esperando ali em cima. Sofreríamos congelamentos muito rapidamente. Mas não poderíamos mudar o fato de estar na mesma rota com toda aquela multidão de alpinistas. A solução era muito simples. As expedições comerciais não podiam iniciar a escalada antes das cordas serem fixadas e a equipe de fixação, com 10 sherpas, haviam planejado partir em 18 de maio equipando a via até o cume. Era uma situação afortunada para nós, além de ser o dia menos frio conforme as previsões. Faríamos o cume com eles.

Relato do Ataque ao Cume

Regulamos o despertador do relógio para as 11 da noite. Mas não foi necessário. A equipe de fixação (cordas) saiu juntamente com uma dupla de alpinistas chilenos. Foram barulhentos o suficiente para nos acordar. Bebemos muito chá e café. Comemos pão com mel. Estávamos prontos as duas e meia da madrugada. Víamos as luzes a nossa frente. Eles haviam partido uma hora e meia antes. Os alcançamos em um quarto de hora.

Seguiríamos este caminho por muito tempo. Também teriam que instalar cordas fixas no Balcony. Precisei me acalmar e pensei que não seria bom seguir muito rápido. Estava curtindo. Alcançamos o Balcony ao despertar do novo dia. O grupo inteiro se deteve, comendo e bebendo. Eu troquei as baterias de minhas botas. Uma grande invenção. Conservei sempre os pés e as mãos quentes. O montanhismo de altitude não é de todo mau...

Seguimos adiante. A partir de agora tínhamos de instalar cordas fixas. O terreno não é empinado. Na realidade, poderia escalar sem as cordas. Meu bastão especial de Leki, equipado com uma espécie de piqueta se revelou uma ferramenta ideal para esta encosta. Sem dúvida, estava nervoso em decorrência da lentidão. Atrás dos sherpas. Seria pouco respeitoso de minha parte ultrapassá-los uma vez que faziam o seu trabalho. E realmente faziam muito bem este trabalho. Nunca antes havia visto uma equipe de sherpas trabalhando juntos com tanta eficiência. Eu permanecia na fila, e foi divertido. Com a espera tivemos a oportunidade de conversar. Tenji tinha ficado para trás, mas continuava. Éramos os únicos a não se esconder por trás de uma máscara de oxigênio. Por isto recebemos muitas demonstrações de respeito vinda dos sherpas. Porém sentia tanto ou mais respeito por eles em função do trabalho que faziam!

O caminho para o cume era longo e nunca acabava. De repente, o ritmo se intensificou. Sempre para cima porém o antecume ainda estava distante. Finalmente desapareceu o primeiro da fila. Isto significava que alcançou o antecume, assim faltavam 100 metros para o cume. A partir do antecume, descendo 20 metros, começa a aresta que conduz ao cume. Consultei o relógio. Era tarde. Seria muito tarde quando chegaríamos ao cume. No entanto o tempo estava perfeito, porém que aconteceria se mudasse? Uma tempestade era improvável. Para dia 19 as previsões eram boas. Confiei nos sherpas; eles haviam estado muitas vezes no cume. Sabiam o que estavam fazendo. Eu sabia por mim mesmo que podia descer rápido. Alcançaria o selado sul em uma hora e meia se começasse agora do antecume. Decidi enfrentar o risco e seguir adiante.

No Escalão Hillary tive que esperar mais. Pelo menos 40 minutos. Comecei a tremer. A temperatura absoluta não estava demasiado baixa, talvez 20 graus negativos. Mesmo assim tremia de frio. Fiquei contente quando seguimos adiante. O Escalão Hillary me decepcionou um pouco; imaginava que seria mais emocionante, e nem é tão empinado. E de repente tive a sensação de que os outros se moviam muito rápido. Não conseguia acompanhá-los. Daqui para a frente teria que lutar, queria muito alcançar o cume. Tenji vinha atrás de mim e não podia vê-lo.  Me concentro no trajeto. Cada passo era um passo mais perto do cume. Porém, onde estava o cume? Finalmente, consegui sincronizar meus passos com os outros que impunham o ritmo. Conseguindo acompanhá-los tudo daria certo. Podia pensar claramente, meus passos estavam sob controle. Nesta altitude deveria me sentir com menos força. Não me sentia exausto, só lento, terrivelmente lento. Finalmente alcancei o cume. As bandeiras de oração tremulavam ao vento. Alguns sherpas já estavam ali. Não haviam mais cordas fixas para cima.

Uma rápida descida

As 13:15 horas Ueli Steck realizava o sonho de escalar o cume do Everest e iniciava a descida:

Alcancei o Colo Sul as 4 horas e quinze minutos da tarde. Quase não reconheci o acampamento 4. Neste curto período tempo havia se convertido numa pequena cidade. Estava satisfeito, havia conseguido. Porém numa escalada a montanha só termina quando se retorna ao campo base. Esperei por Tenji no Colo Sul. Chegou 3 horas mais tarde. Na realidade, queríamos descer até o acampamento 2, mas era demasiado tarde. Nos acomodamos no acampamento 4. Nesta noite, outros 150 alpinistas iniciaram sua caminhada para o cume. Que espetáculo! Tenji e eu passamos uma noite a mais a quase 8.000 metros de altitude. Dormimos profundamente, como se tivéssemos hibernado. O barulho nos despertou as 5:30 da manhã. Depois do desjejum, empacotei meu equipamento e desci ao Campo Base. Tenji dormiu um pouco mais. Alcancei o CB em tempo para o almoço, então considerei que realmente fiz cume no Everest.

 

Fonte: Blog de Ueli Steck

 

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