Irivan Burda e Marcelo Santos no Fitz Roy 2012 - AltaMontanha.com - Portal de Montanhismo, Escalada e Aventuras
Patagônia

Irivan Burda e Marcelo Santos no Fitz Roy 2012

2012 foi um ano memorável para brasileiro na Patagônia, com diversos cumes e feitos inesquecíveis. Destas escaladas, uma das que serão mais recordadas será certamente a da dupla paranaense Irivan Burda e Marcelo Bonga no Pilar Casaroto do Fitz Roy pela via Mate Porra y todo lo demás.

Fonte: Irivan Burda

O Pilar Casarotto é uma agulha colada no Fitz Roy que tem cerca de 900 metros de altura. Ela recebe este nome porque foi primeiramente escalada pelo alpinista italiano Renato Casarotto, falecido no K2 na década de 1990.

As rotas do Pilar são de grande dificuldade técnica. “A Mate Porro y todo lo demás”, alcança um grau de até 6c, que na graduação brasileira dá um 7b.

No começo de 2012, a dupla de paranaense Irivan Burda e Marcelo Santos, o  “Bonga”, foram os primeiros brasileiros a fazer cume nesta montanha pela “Mate y Porro”. Irivan é reconhecidamente um dos melhores montanhistas brasileiros, já tendo escalado diversas montanhas de 8 mil metros. Seu parceiro Marcelo Santos é um dos mais experientes escaladores de rocha do país, tendo conquistado diversos vias de escalada no Marumbi (PR) e feito muitas ascensões fora do país, incluindo aí uma participação decisiva na conquista brasileira da Trango Tower (Paquistão) em 2001, onde esteve ao lado de Irivan e de Waldemar Niclevicz.

Confira o relato desta escalada:

Por Irivan Burda 

Após alguns anos estávamos novamente em Chaltén para mais uma temporada Patagônica. Bonga (Marcelo Santos) e eu (Irivan Burda) estivemos juntos pela primeira vez em 2006 em uma verdadeira trupe de brasileiros, eramos 8 e tínhamos passado uns 15 dias esquentando nas agulhas do Frey. Naquela temporada fizemos uma investida no Fitz Roy pela via Franco Argentina quando escalamos a Breccia dos Italianos e chegamos a tocar na primeira cordada da via. O vento e o clima estavam piorando rapidamente e naquele ano ainda não tínhamos o conhecimento da meteorologia disponível on-line. Desistimos da escalada e na descida pelo glaciar admiramos o Fitz e sonhamos escalar algum dia pelo impressionante Pilar Norte.

No ano de 2008 Bonga e Nativo estiveram novamente na Patagônia e fizeram a primeira repetição da Via “Mate, Porro y Todo lo Demas” que Rolo (Rolando Garibotti) e Poroto (Bean Bowers) recém tinham aberto na face oeste do Pilar. Eles chegaram ao cume do Pilar mas devido às más condições desceram dali e não foram ao cume do Fitz.

Finalmente em 30 de Dezembro de 2011 saímos de Curitiba decididos a tentar escalar o Fitz Roy pelo Pilar Norte. Chegamos em Chaltén no dia 31 e devido ao desgaste da viagem acabamos passando o ano novo dormindo! Os primeiros dias de janeiro estavam azuis e com vento, portanto planejamos fazer um porteio de equipamentos e comida até o Paso Cuadrado para facilitar nossa futura investida. O empenho durou 12 horas com direito a chuva, vento, sol e curtição do visual no passo.

Passamos mais uns dias pela cidade esperando alguma possibilidade de subir e logo apareceu uma “janela” de 3 dias de tempo bom. Era justo o que precisávamos! Preparamos tudo e no dia 5 de janeiro subimos às 5 e meia da manhã para ir direto até a base da via. O dia começou fechado mas foi melhorando com o passar da horas. O vento foi acalmando e quando chegamos ao Paso Cuadrado já estava sol. Depois do passo descemos para o glaciar e cruzamos a base da agulha Mermoz para chegar ao vale que desce do Bloque Empotrado. A subida da rampa de aproximação nos tomou 4 horas de neve ruim e após 12 horas de empreitada chegamos à base da via. Escalamos 2 cordadas e “reformamos” um pequeno platô para dormir. A noite foi tranquila e amanheceu um dia bom, mas com o passar das horas foram entrando nuvens e às 8 horas da manhã quando já estávamos na quarta cordada começou a chover. Em pouco minutos ficou tudo molhado e nós... para baixo! Rapelamos até o final da rocha e descemos a rampa de neve que tem 700 metros de desnível até a base do glaciar. Conseguimos encontrar um bloco que com outra pequena “reforma” ficou aconchegante para os dois com tudo molhado. Este era para ser o melhor dia segundo a previsão, mas às vezes a previsão também erra e assim vamos ganhando experiência. No terceiro dia o tempo melhorou, conseguimos secar nossos equipamentos e deixamos tudo no “mocó” no glaciar norte do Fitz Roy. Voltamos em 7 horas de pernada até o rio Elétrico e conseguimos uma carona em um caminhão para voltar à Chaltén.

Passamos os dias seguintes repensando nossa estratégia. Teríamos que ir mais leve para poder ir mais rápido ou precisaríamos de mais tempo bom para escalar em um ritmo mais tranquilo e compatível com o peso. Portanto começamos a eliminar tudo possível, pois qualquer grama a menos faria diferença na velocidade. Contamos um pouco com a sorte e adotamos o caminho do meio, aliviar todo peso possível e escalar em um ritmo mais compatível com nossa realidade, afinal são mais de 1.000 metros de granito para arriba.

Os dias foram passando e nada de bom tempo à vista, até que ficamos sabendo que o dia 19 possivelmente seria o começo de uma boa janela. Estávamos sempre visitando o Rolo (Rolando Garibotti) e Doerte Pietron que são no bom sentido o “casal guru” do tempo em Chaltén, além de serem bons amigos. De repente apareceu uma situação inusitada, antes da janela do dia 19 teriam 2 dias bons, mais 2 dias ruins e depois mais dias bons. Ficamos em uma sinuca entre escolher tentar no primeiro bom tempo e encarar 2 dias ruins na parede ou esperar a segunda janela sem ter certeza que ela seria o que parecia ser. Apostamos na segunda opção e tivemos que ficar dois 2 dias completamente azuis e sem vento em Chaltén só olhando a montanha.

Para distrair um pouco fomos até a Laguna Capri admirar a vista do Fitz e aproveitamos e pedimos licença para chegar ao cume. Nesta noite ficamos sabendo do pior, tinha acontecido um acidente próximo ao cume da agulha Saint-Exupéry. Uma escaladora canadense tinha sofrido um golpe no rosto com a queda de uma pedra. Ficamos acompanhando todo o empenho para a realização de um resgate. A equipe Red Bull cedeu o helicóptero que estava rodando um filme no Cerro Torre. Vários escaladores foram mobilizados e 4 deles (Rolo, Colin, Jorge e Pepe) foram levados até o Glaciar do Torre para tentar chegar até a escaladora Carlyle.

Infelizmente o tempo piorou muito e eles conseguiram escalar somente 7 das 12 cordadas que teriam que escalar para chegar até ela. Estávamos entre ir escalar o Fitz ou ajudar no possível resgate, pois tínhamos conhecido a Carlyle uns dias antes no camping e a história toda foi muito triste. Na madrugada do dia 18 a tentativa de resgate fracassou e então saímos às 11 horas de Chaltén rumo ao rio Elétrico. Nossa aproximação foi com baixo astral, mau clima e chuva o tempo inteiro, enquanto caminhamos 7 horas até nosso bivaque no glaciar na face oeste do Fitz.

Na quinta-feira dia 19 amanheceu azul e sem vento, mas com a montanha coberta de neve fresca e escarcha (gelo). Resolvemos tocar para cima e foi perfeito. A rampa de 700 metros de gelo e neve que dá acesso à base da via estava em prefeitas condições. Na tentativa anterior levamos 4 horas em uma neve fofa, mas desta vez foram 2 horas e meia subindo com neve dura, escalando línguas de gelo e ainda passando a rimaya. Às 14 horas começamos a escalar a via “Mate, Porro y Todo lo Demas” em plan de lujo. Escalamos 13 cordadas até um platô pequeno aonde dormimos os dois bem confortáveis. A noite foi fria, mas sem vento. Na sexta-feira dia 20 tocamos para cima mais 13 cordadas até o cume do pilar aonde chegamos às 21 horas. Aí sim foi hotel de luxo, 5 milhões de estrelas... fez um pouco de frio mas super agradável, apenas três graus abaixo de zero durante a noite.

No sábado acordamos cedo e rapelamos 60m em diagonal até o colo entre o pilar e o Fitz. Começamos a escalar o final da via “Casarotto”, foram 6 cordadas  mais "casca grossa" aonde o Bonga levitou para cima. Depois mais uma rampa de gelo velho, tipo peixaria, para chegar ao cume. Chegamos finalmente às 16 horas sem vento e céu azul... tudo o que desejamos durante anos! Fizemos um mate e tomamos tranqüilos com a vista do Gelo Continental, Cerro Torre, agulhas do maciço do Fitz, lagos verdes... nos abraçamos, fizemos fotos, lembramos de todos os amigos... foi muito emocionante e lá estávamos os dois marmanjos chorando no cume! Depois de uma hora curtindo resolvemos começar a descida pois ainda teríamos muito trabalho.

Descemos equipando 7 rapéis e depois escalamos mais 60 metros para voltar ao nosso “hotel” no cume do Pilar. Nesta madrugada apareceram dois gringos, Scott e Cheyne, subindo a via do “Casarotto” e dormiram no colo. Na manhã seguinte ficamos curtindo no cume do Pilar e vendo os garotos escalarem até o meio dia, quando começamos a baixar pelo Pilar. Foram cerca de 15 rapéis até o Bloque Empotrado e por sorte a corda só engatou uma vez  quando tivemos que escalar uns 15 metros para desengatar. Do bloco fizemos mais 4 rapéis até a base da via e mais 3 até a neve. Chegamos ao nosso bivaque no glaciar as 22 horas de domingo. Na segunda-feira descansamos até as 13 horas e demos mais uma pernada de 7 horas voltando com 25 kg nas costas. Chegamos em Chaltén bem tarde acabados e felizes!

Foram 6 dias entre sair e voltar desde Chaltén. O tempo ainda continuou bom e sem vento por mais 2 dias. A lenda de que existem ventanas de bom tempo é real! Finalmente tivemos o prazer de presenciar uma delas ao vivo. Comemoramos com um bom asado de cumbre com todos amigos no camping.

Esta foi realmente uma temporada histórica em Chatén, muitas ventanas de bom tempo, controvérsias de montanha como a retirada dos grampos da via do Compressor no Cerro Torre e também a perda de amigos escaladores. Dedicamos nossa escalada em memória da Robertinha (Roberta Nunes), Bernardo “Cabeção” Collares e Carlyle (Bryn Carlyle Norman) que tanto nos inspiraram a escalar estas montanhas!

 

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