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Ricardo Baltazar na Cordilheira Branca - Pt II

Prosseguindo seu relato sobre a Cordilheira Branca, nos Andes Peruanos, o escalador gaúcho Ricardo Baltazar descreve as primeiras ascensões feitas por ele e seus amigos Érico Winkler e Gaston Riolla na Quebrada Ishinca, vale próximo do povoado de Pashpa, a cerca de 28 km da cidade de Huaraz. O local é bastante frequentado por trekers e escaladores, existindo inclusive uma pousada já próxima do campo-base, situado a 4300 m. Dali, é possível seguir para o Nevado Ishinca (5530 m), uma montanha considerada fácil e por isso apropriada para aclimatação e ascensão de grupos guiados. Ao lado, está o Urus, uma montanha escarpada com 3 cumes, sendo o Central o mais alto (5495 m). O Tocllaraju (6035 m) é uma bela pirâmide coberta de gelo e que exige uma abordagem técnica. É considerado por alguns como um excelente teste antes da escalada dos gigantes da Cordilheira, como o Huascarán, Chacraraju e Alpamayo. Já o Ranrapalca (6162 m) e o Osshapalca (5881 m) tem paredes mais verticais e são considerados de difícil ascensão. Justamente por isso, são menos frequentados.

Fonte: Redação

 

Texto: Ricardo Baltazar
 
Introdução: Eduardo Prestes

A melhor época para escalar na Cordilheira Branca é o meio do ano, nos meses de junho a agosto. Esta é considerada a temporada seca, com uma média de 5 dias ensolarados por semana. Já nos meses do verão brasileiro, de dezembro a fevereiro, chove muito na região, o que impede a visão dos picos e provoca maior acúmulo de neve não consolidada nas encostas. Poucos se arriscam nas montanhas nesta época.

 

Os incautos não devem se enganar com as inúmeras ofertas de expediações guiadas à Cordilheira Branca. Trata-se de montanhas maciças, muitas com mais de 6.000 metros, e cobertas com gelo e neve instáveis. Por estar localizada próxima à linha do equador, a neve desta região possui peculiaridades. Por algum motivo ainda não plenamente explicado, a neve ali é mais aderente à rocha. Paredes bastante verticais, que em outros latitudes seriam de rocha exposta, na Cordilheira Branca permanecem cobertas de gelo e neve. Á noite e pela manhã, esta massa congelada é mais firme, permitindo a progressão. Ao longo do dia, no entanto, com a incidência do forte sol equatorial, a neve vai ficando fofa e instável, formando uma espécie de atoleiro, que impede a progressão em trechos de maior inclinação. Muitas vezes, o escalador fica sem ter onde tracionar a piqueta ou o crampom. O amolecimento da neve dá origem também a quedas de pedras, deslizamentos e avalanches, aumentando o risco nas encostas. Em julho de 2012, por exemplo, dois experientes escaladores americanos deslizaram para a morte no Palcaraju (6274 m), após a neve ceder sob seus pés. Os acidentes nestas montanhas são frequentes.
 
Mas de todos os riscos da Cordilheira Branca, faltou indicar um de maior magnitude: a intensa atividade sísmica na região. A combinação de terremotos com vales profundos e montanhas carregadas de gelo e neve é obviamente explosiva. Neste ponto, é obrigatório lembrar o fatídico terremoto de Ancash em 1970. Justamente durante o jogo inaugural da Copa do Mundo de 1970, às 15h25m do dia 31 de maio, um terremoto de quase 8 graus na escala Richter e epicentro no oceano, junto a cidade de Chimbote, fez a terra tremer por 45 segundos em todo o norte do Peru. A força do tremor e sua longa duração provocaram uma catástrofe de proporções épicas. As construções de adobe e prédios com estruturas frágeis vieram abaixo em todas as cidades atingidas. Em Huaraz, 97 % da cidade foi demolida, restando pouco mais do que a praça principal. Identificaram-se mais de 80.000 vítimas do terremoto, as quais somam-se incalculáveis desaparecidos. Mas ainda mais impressionante foram as consequências junto à Cordilheira. Evidentemente, todos os vales foram atingidos por avalanches e deslizamentos. Mas no Huascarán, a tragédia foi completa. Com o terremoto, toda a face norte da montanha entrou em colapso e desabou. Uma equipe de escaladores tchecos que estava no Huascarán naquele momento nunca mais foi vista. Milhões de toneladas de gelo, neve e rocha desceram pelo vale, a uma velocidade calculada em cerca de 280 km/h. Este alude gigantesco atingiu as cidades de Yungay e Ranrahirca, a cerca de 18 quilômetros de distância, sepultando ambas, junto com seus habitantes. Em Yungay, foram mais de 18.000 mortos; em Ranrahirca, outras 7.000 pessoas perderam a vida. Apenas umas 350 pessoas sobreviveram nestas cidades, para contar o que se passou. O Governo Peruano decretou que estes locais tornaram-se "cemitério nacional" e proibiu escavações. Yungay, de onde parte a maioria das expedições ao Huascarán, foi reconstruída em outra localização, mais alta e melhor protegida contra aludes. Outros terremotos aconteceram e continuam acontecendo na região de Ancash, alguns com sérias consequências. Melhor nem pensar na possibilidade de ser surpreendido por um terremoto estando nos vales ou montanhas da Cordilheira Branca.     
 
Lendo o relato de Ricardo, tudo parece fácil. Num período de poucos dias, o grupo escalou 4 montanhas, duas com mais de 6000 metros. Este desempenho, no entanto, só foi possível por ser fruto de uma bagagem prévia. É preciso contar com um bom preparo físico e psicológico, assim como uma qualificada técnica de escalada (gelo e rocha), para saltar de uma montanha a outra, sem descanso e sem maiores considerações. Nem todos podem empregar a mesma estratégia. No montanhismo, o respeito tem que estar sempre na mochila.    
 
"Pues, tchê, continuando o nosso "causo" nos Andes Peruanos, havíamos chegado no campo-base da Quebrada Ishinca e estávamos prontos para começar a escalar, depois de uma longa estrada e algumas peripécias.
 
Nosso primeiro objetivo foi o Nevado Ishinca, com 5530 m, uma subida fácil, boa para aclimatação. A saída é feita do Refúgio Ishinca, que está localizado bem ao pé da montanha. Este refúgio é uma pousada feita de pedras, onde é possível alugar quartos, comer e obter outras comodidades. Sua construção no alto do vale, já longe de áreas urbanizadas, é ainda hoje assunto polêmico para moradores e frequentadores do Parque. Escalamos o Ishinca juntos, os quatro (eu, Gaston, Érico, Sebastian). A subida é suave e constante. Na rota normal, quase não há risco de gretas. Caminhávamos a passos lentos, todos sentindo-se muito cansados. Às vezes, eu me irritava com meu progresso lesmento, mas depois de arfar um bom tempo sobre os bastões, eu me resignava e seguia olhando para o chão, sem nunca levantar a cabeça para ver onde teríamos que chegar. No montanhismo, a gente pensa sempre nos próximos 5 ou 10 metros, um passo de cada vez, e não adianta "embrabar". Chegamos ao cume cedo, ainda pela manhã, e ficamos ali um bom tempo, curtindo a vista e buscando acelerar ao máximo a aclimatação. Mas chega um momento em que é preciso descer. Mesmo sem pressa, chegamos ainda no meio da tarde no vale, onde descansamos e "parlamos" o resto do dia, sossegados. 
 
Na manhã seguinte, logo cedo, Gaston e eu partimos para o Urus Central (5495 m), outra ascensão considerada fácil, ainda indicada para aclimatação. Por outro lado, a montanha já causa uma impressão maior, com escarpas íngremes e um cume pronunciado. Foram horas de subidas e descidas ao longo de uma aresta, com vistas impressionantes do cordão de montanhas em torno do vale. Foi um bom treinamento para as panturrilhas, começávamos a entrar em forma.      
 
O outro dia foi de vadiagem, preparando uma nova investida. Mais seguros quanto à nossa resposta na altitude, decidimos encarar um desafio mais sério: o Tocllaraju, um merengue piramidal com 6035 m. É uma montanha de média dificuldade, mas a situação pode complicar conforme as condições da neve. Normalmente, a escalada do Tocllaraju é feita em 2 dias a partir do vale, com um acampamento de altitude. Entretanto, nossas roupas e equipamentos de bivaque deixavam a desejar, eu já vinha passando frio mesmo no campo-base. Um acampamento de altitude, em meio ao gelo e exposto ao vento, não parecia uma boa idéia. Isso determinou nossa estratégia. Disparamos à meia-noite do vale, eu, Gaston e Sebastian. Nossa aproximação foi rápida, silenciosa e com um ritmo constante. O primeiro obstáculo importante foi uma rimaya bem vertical, que foi preciso vencer para colocar os pés na montanha. Para quem não sabe, rimaya ou bergschrund é a greta que separa o glaciar (que escorre para o vale) do gelo que fica grudado na rocha (e por isso imóvel). Entre os dois, abre-se uma fenda profunda, que muitas vezes representa um obstáculo bem complicado, formando paredes de gelo. Se você está abaixo da rimaya, ainda está no glaciar. Passando a fenda, você está na montanha.  Pues, acima da rimaya, passamos a subir por uma rampa com inclinação moderada, até uma outra parede de gelo, com cerca de 60 a 70 graus de inclinação e uns 100 ou 150 metros de altura. Subimos solando, cada qual com seus problemas. A escalada prosseguiu, alternando rampas e algumas seções de gelo, e ganhamos altitude mais rapidamente do que o previsto. Eram 10 da manhã quando chegamos ao cume elegante e pronunciado do Tocllaraju !  Seguiu-se a tradicional sessão de fotos, era preciso se equilibrar no último pináculo da montanha, agora já com algumas nuvens e um vento crescente. Será que o tempo ia virar ?
 
Os céus pareceram nos dar a resposta, com um pancadão que ecoou no vale: Gasher Bruummmmmm !!! O brother Rebufão começou a sua algazarra típica: "Son rayos, son rayos !!!" Tentando tranquilizar o ambiente, filosofei: "Fazê o quê, agora que estamos aqui, não tem jeito, o raio que nos parta !" Ele me olhou meio incrédulo, acho que não era bem isso que ele gostaria de ter escutado: "Loco, me bajo ahora." Em segundos, estávamos despencando pela parede, acelerados.
 
Subir solando até que foi fácil, mas destrepar era uma outra história. Eu estava bastante chapado pela altitude ganha em tão pouco tempo e tinha que prestar enorme atenção nos movimentos. O terreno era bem vertical e estávamos altos na montanha. Também tinha que estar com um olho na missa e o outro no padre, porque o Gaston, que estava logo acima de mim, vinha na mesma situação. Usamos a única corda que tínhamos para um rapel sobre uma greta, já na base da parede, e daí alcançamos o glaciar, com algumas nuvens cobrindo nossa retirada. Tocamos para o campo-base, onde chegamos por volta da 16 horas. O tempo não fechou neste dia, a prometida tempestade não apareceu. Não entendi bem como funciona o clima na Cordilheira Branca. Ouvi falar de uma mineradora instalada no fundo do vale, cheguei a pensar que não tínhamos escutado um raio, mas sim uma explosão de dinamite ou coisa parecida. Igual, não ficamos no cume do Tocllaraju para saber o que era. Já paguei alguns pecados com tempo ruim na montanha e estando próximo do cume, a exposição é muito grande. Na dúvida, em terras estranhas, é melhor vazar. É como diz o ditado: gato que levou pedrada não dorme em olaria.  
 
Nossa motivação aumentou e nem paramos muito no campo-base desta vez. Já no outro dia, disparamos eu e o Gaston para o Refúgio Ishinca, onde chegamos à tarde. "Rá, prepara que amanhã tem mais um sorvetão : Ranrapalca !" A estratégia foi a mesma do Tocllaraju: nada de acampamentos altos, faríamos a escalada num esforço só, da base ao cume e depois o retorno. À meia-noite, saltamos dos nossos "sacos de congelar" e rumamos para a face leste do Ranrapalca, foi 1 hora de aproximação até a base da escalada. A via possui cerca de 800 metros, a maior parte acompanhando uma rampa bem vertical de gelo. Ao iniciarmos a subida ainda à noite, minimizamos também um dos maiores riscos da via, que são as pedras soltas, que se desprendem do topo rochoso na medida em que o sol aquece e derrete o gelo que as mantém coladas. Ainda assim, algumas bichinhas passaram zunindo nas "oreia", se uma delas te acerta é encrenca na certa. A gente se perdeu um pouco no início, estava escuro e o caminho não nos pareceu muito óbvio. Mas assim que amanheceu, encontramos o rumo. A luz também nos fez perceber que o tempo estava estranho e que iria "entubar" à tarde. Uma massa de nuvens se aproximava da Cordilheira e logo iria impregnar o vale. Tratamos de "trotar" para cima, e a escalada rendeu bem. Mas quanto mais subíamos, mais o tempo fechava. O último terço da parede é marcado por uma rimaya profunda, a qual superamos para alcançar uma rampa de gelo de 200 ou 300 metros, com uma inclinação constante de uns 70 graus. Acima da rampa, entramos numa área de misto, umas 2 ou 3 cordadas até a crista do cume, que seriam fáceis não fosse pela altitude, que faz os pulmões arfarem e cuspirem fogo. Mas o problema mais sério acabou sendo o clima, que desandou de vez. Foi nestes últimos largos mistos que nos alcançou a demência. Neve, vento e chuva começaram a entrar pelas nossas golas e mangas, gelando o traseiro. Empapados, pendurados em uma estaca de neve, discutimos sobre renunciar ou endurecer. Batemos orelhas e trincamos os dentes, preocupados, quando dois brincam com a sorte o diabo cospe vermelho ! Hay que endurecer ! Era meu turno, guiei alguns lances de misto, com um crampom espetando o gelo e o outro derrubando cascalho e pedras na cabeça do pobre Rebufão lá embaixo. Nesta luta, procurava a estabilidade física e psicológica para seguir trepando naquele merengão. Depois de passadas delicadas, alcançei a cumeeira da montanha, e ali, sem a proteção da face leste, a tormenta apresentou-se em toda a sua fúria. Segui tateando pela crista, em busca do cume. Eu sentia o cheiro do bichano tal qual um perdigueiro, mas a pouca visibilidade impedia uma exata compreensão da geografia. Insistimos por um tempo, mas o diabo já estava cuspindo demasiado. Era chegada a hora de sair dali. Destrepamos até o local dos rapéis e baixamos. Nesta parte final da parede, foram precisos 6 rapéis com 2 cordas de 60 metros, a maioria em "hongos" de gelo. Na descida, pude perceber melhor a verticalidade da via e de todo o Ranrapalca, é uma bela montanha e bastante técnica. Saindo dos rapéis, logo a seguir cruzamos a rimaya e seguimos caminhando e desescalando alguns trechos, num terreno perigoso, com muitas gretas, e por isso permanecemos encordados a maior parte do tempo. Lá pelas 5 da tarde estávamos de volta ao refúgio e dali seguimos para o campo-base, onde chegamos cerca de 2 horas depois. Estávamos satisfeitos, tínhamos vencido a face leste do Ranrapalca, em uma escalada exigente e de grande beleza. Isso nos custou, entretanto, uma chacoalhada das mais buenaças, tchê ! Mas escalada é isso, nem sempre o maior prêmio é o cume, mas sim a experiência. E o Ranrapalca entregou um pacote completo de alegrias e penitências.            
 
Descansamos mais um dia e declaramos encerrada nossa investida nas montanhas da Quebrada Ishinca. Era hora de voltar para a calorosa "Hiuuhuuuaraz", paraíso das cholas, dos venenos variados e dos buzinaços ! 
 
Ricardo Baltazar"

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